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PARÁBOLA DO HORÁRIO GRATUITO NO RÁDIO E TV

Prof. Azenilto G. Brito


      Uma especulação ampla e irrestrita de como seria se cada grupo religioso no Brasil tivesse acesso livre e democrático aos meios eletrônicos de comunicação, para a conquista de novos adeptos.

        Finalmente, a democracia plena é conquistada pelo povo brasileiro. Sem traumas ou tramas sucedem-se a cada quinqüênio eleições livres para presidente. A ditadura já faz parte do lixo da história e a rotatividade de presidentes é um fato normal e tranqüilo num país que preza cada vez mais a liberdade e a igualdade de direitos, com os militares comportando-se como guardiães das normas constitucionais. Aliás, como sempre deveria ter sido.
        Eis que um dos novos presidentes, em futuro talvez não tão distante, disposto a conceder oportunidades iguais a todos dentro de um contexto de plenitude democrática, e respeitando os fortes sentimentos religiosos de seus concidadãos, decide encarregar o Ministro das Comunicações de facilitar as coisas para os religiosos. A estes é oferecida oportunidade de alcançar o povo com suas mensagens específicas, de modo eficaz e livre de despesas.
        O plano seria dar a todas as igrejas, ou grupos filosóficos e eclesiásticos em “coligação”, tempo de horário gratuito no rádio e TV segundo o modelo do tradicional horário político do TRE. Levar-se-ia em conta a proporcionalidade de número de filiados de cada um para a exposição de suas idéias e propaganda. Não seriam permitidos ataques contra outros religiosos, apenas a divulgação dos ensinos ou práticas litúrgicas de cada grupo. Com isso se evitaria uma seqüência exasperante de “direitos de resposta” de ofendidos nos segmentos de tempo dos ofensores, com conseqüentes réplicas e tréplicas.
        A princípio todos acham ótima a idéia em vista dos altos preços cobrados pelas emissoras de rádio e TV para programas religiosos. Seguindo a tradição, a Igreja Católica teria o horário diário das 6h da tarde para o seu programa. Os evangélicos dividiriam horários nobres no domingo, enquanto os espíritas teriam dias variados da semana, com os umbandistas preferentemente às sexta-feiras à noite. Os de filosofia oriental, como os Hare Krishna, Seicho-no-Iê, e outros mais, teriam também seus horários segundo o número de adeptos. O arranjo parecia o melhor possível no entender das autoridades. Quem haveria de reclamar?
        Mas entre os católicos, a dúvida é saber que orientação ideológica se daria às mensagens. Teriam cunho meramente litúrgico, com o terço rezado e as admoestações de caráter espiritual ressaltadas, ou mensagens de cunho mais político, da Teologia da Libertação, ocupariam as ondas radiofônicas e de TV na abordagem da religião católica? Um acordo entre as alas progressista e conservadora da Igreja precisaria ser estabelecido antes do início da programação.
        Entre os evangélicos, surge  a objeção de que os adventistas deveriam ocupar seu horário no sábado, dia que observam. Os adventistas, porém, alegam ter mais interesse num horário dominical porque o que lhes importa nesse caso não é a santidade de um dia, e sim o público maior a alcançar no dia de descanso da maioria.
        Isso, porém, é somente o começo das discussões e objeções. A idéia original, por exemplo, é fazer com que os pentecostais empreguem o mesmo tempo, coligando-se em suas várias igrejas de idêntica doutrina sobre os dons espirituais. Afinal, o espaço concedido é limitado e as igrejas que adotam a “linha carismática” são em grande número, com novas variantes sempre surgindo.
        Mas os assembleianos de pronto alegam que jamais se misturariam com os neo-pentecostais, das igrejas tradicionais “renovadas”, porque embora estas admitam os dons espirituais, permitem que suas mulheres usem até calças compridas na freqüência aos cultos, coisa que jamais aceitariam nem mesmo fora da igreja! Sem falar nas pinturas, e uso de jóias, corte de cabelo. . . E tratam de pôr em ação seus muitos políticos a nível municipal, estadual e federal para influenciarem as autoridades segundo o seu ponto de vista.
        E há ainda os que têm como tema  único de discurso as curas, milagres e maravilhas com todos os demais pentecostais nem os considerando evangélicos. Jamais aceitariam uma “coligação” com eles para dividirem seu tempo no rádio e TV. E o que fazer com os que são tidos por puros heréticos, como os mórmons e testemunhas de Jeová, contra os quais os evangélicos todos, apesar de suas diferenças profundas, se unem em buscar impedir-lhes o acesso aos poderosos meios de comunicação que lhes são franqueados?
        Os evangélicos das chamadas igrejas históricas teriam momentos em separado—batistas, com o seu batismo por imersão, separados dos presbiterianos, luteranos, metodistas (cujo batismo e outras práticas são dessemelhantes de uns e outros . . .).
        Enfim, os católicos consultam o Vaticano sobre como agir. Mas a solução dependeria de uma “consulta às bases”, e só após um amplo concílio de bispos se chegaria a um consenso.
        Os evangélicos se articulam na escolha dos coordenadores de seus programas, mas também não encontram um denominador comum, com tantas opiniões divergentes dentro de cada denominação sobre o teor das mensagens, as músicas a serem cantadas (acompanhamento com bateria, ou não?), os oradores a apresentar os temas, etc.
        Os espíritas (do “alto” e do “baixo” espiritismo) pedem mais tempo do que lhes toca. Argumentam que muitos que se dizem católicos na verdade vão à missa no domingo, mas freqüentam suas sessões e terreiros noutros dias. Com isso, o número de seus afiliados é bem maior do que o apresentado pelas estatísticas oficiais, alegam.
        As discussões se estendem, o tempo para início da programação se aproxima, e nada de se chegar a um acordo. Os adventistas insistem em ter o seu programa no domingo com os outros evangélicos, estes reiteram a idéia de que fiquem com um horário no sábado; os católicos têm que esperar pela decisão do concílio; a coligação de carismáticos e pentecostais à moda antiga não se materializa; os assembleianos também pedem tempo maior alegando que as estatísticas de seus filiados não concordam com as oficiais, que apresentam números bem menores de seus membros pelo país. . .
        Há até quem sugira que se faça um só programa, com mensagem “neutra” incorporando elementos das diferentes posições. Seria preparado por uma comissão ecumênica incluindo protestantes, católicos e espíritas, para assim superar-se o impasse. Mas logo surgem novas e mais violentas objeções, e chega-se à conclusão que os religiosos no Brasil ainda não alcançaram tal grau de maturidade.
        Desalentado, o Ministro das Comunicações tem audiência com o Presidente da República para prestar-lhe o relatório final de seus esforços em aplicar a bem-intencionada iniciativa presidencial. Sua constatação é de que somente um grupo religioso não causara problemas, nem fizera objeções ou apresentara queixas e reivindicações em face do plano proposto—os da Congregação Cristã no Brasil. Eles simplesmente recusavam-se a participar. Julgavam indigno a um cristão utilizar meios de comunicação que consideravam extremamente pecaminosos, como o rádio e TV,  para a exposição da mensagem cristã!
        Diante de tantos problemas, a idéia é arquivada, e os ideais de democracia entre os religiosos brasileiros ficam em compasso de espera para outra ocasião, quiçá outra geração.
        O plano de divisão democrática de tempo da mídia eletrônica para os crentes de todas as fés parecia tão bom e tão democrático! Só havia uma falha: depois que o assunto foi encerrado, uma pesquisa feita entre a população demonstrou que a maioria não revelava interesse em trocar os horários de suas novelas, programas humorísticos e musicais pelas diferentes mensagens evangelísticas, filosóficas e proselitistas dos diferentes grupos religiosos do país!
        Restava aos religiosos descobrir o motivo de tal indiferença.

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