O PONTO DE VISTA BÍBLICO DA NATUREZA HUMANA-II

&Analisando Ensinos Bíblicos  &

Prof. Azenilto G. Brito
 Iinspirado nos estudos do Dr. Bacchiocchi

O primeiro estudo mostrou que a crença na vida consciente após a morte deriva de uma visão dualística da natureza humana que é estranha à Bíblia.
Este estudo explora a visão bíblica da natureza humana a partir de três perspectivas: Criação, Queda e Redenção. Consideraremos como era a natureza humana quando da Criação, o que se tornou após a Queda, e como se tornará em resultado da Redenção. Tais pensamentos derivam do  livro Immortality or Resurrection? A Biblical Study on Human Nature and Destiny [Imortalidade ou Ressurreição, Um Estudo Bíblico Sobre a Natureza e Destino Humanos]

1. Aqui éonde o leitor encontrará um tratamento abrangente do assunto. Tal livro foi lançado em dezembro de 1997, e já recebeu críticas favoráveis por mais de 50 eruditos de diferentes persuasões.

Desejo inicialmente chamar a atenção do leitor para dois importantes pontos encontrados no estudo a que agora se dedicará. O primeiro é a referência freqüente em Gênesis aos animais como “almas viventes”-que é a mesma expressão usada para caracterizar os seres humanos. Isto é significativo porque demonstra que a  “alma”. não é uma substância imaterial, imortal, que somente os seres humanos possuem, mas um princípio ativo de vida comum a todas as criaturas viventes. O segundo ponto é a referência de Paulo a “espírito” 146 vezes, comparado com 13 referências a “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psychê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Muito provavelmente isso se deu porque tal termo poderia levar seus conversos gentios a pensarem na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.

A Natureza Humana na Criação

O relato da criação nos informa que Deus criou a natureza humana como um organismo holístico, consistindo de corpo, sopro de vida, e alma, sendo tudo características da mesma pessoa. Essas características distintivas da natureza humana são expressas em dois textos principais. O primeiro é Gên. 1:26-27, que nos conta como Deus planejou os seres humanos criados, e o segundo é Gên. 2:7, que nos relata como Ele o fez. “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança’ . . . Assim criou Deus o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gên. 1:26-27).

Gên. 2:7
7 “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.”

Tentativas elaboradas têm sido feitas para definir o que a “imagem de Deus” é na qual o homem foi criado. Alguns argumentam que a imagem de Deus é a alma imaterial, espiritual implantada no corpo humano. Assim, Calvino afirma: “Não se pode duvidar que a apropriada posição da imagem de Deus é a  “alma”..

2. Esse ponto de vista pressupõe um dualismo entre o corpo e a alma que não se acha no relatório da criação. O homem não recebeu uma alma de Deus; ele foi feito uma alma vivente. Os animais também foram feitos “almas viventes” (Gên. 1:20, 21, 24, 30; 2:19), contudo, não foram criados à imagem de Deus.

Gên. 1:20, 21, 24, 30
20 “E disse Deus: Produzam as águas cardumes de seres viventes; e voem as aves acima da terra no firmamento do céu.
21 Criou, pois, Deus os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.
24 E disse Deus: Produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies. E assim foi.
30 E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra, tenho dado todas as ervas verdes como mantimento. E assim foi.”

Gên.  2:19
19 “Da terra formou, pois, o Senhor Deus todos os animais o campo e todas as aves do céu, e os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome.”

A imagem de Deus na humanidade deve ser encontrada na singular capacidade concedida aos seres humanos de refletir o Seu caráter moral. Entende-se a conformidade com a imagem de Cristo (Rom. 8:29; 1 Cor. 15:49) não em termos de uma alma imortal implantada na natureza humana, mas em termos de justiça e santidade: “Revesti-vos da nova natureza que está sendo renovada em conhecimento segundo a imagem de seu Criador” (Col. 3:10; cf. Efé. 4:24). Em vitude de serem criados à imagem de Deus, os seres humanos são capazes de refletir o Seu caráter em suas próprias vidas.

Rom. 8:29
29 “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos;”

1 Cor. 15:49
49 “E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial.

Efé. 4:24
24 “e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade.”

 A imortalidade nunca é mencionada na Bíblia em conexão com a imagem de Deus nos seres humanos. A árvore da vida representava imortalidade em comunhão com o Criador, mas em resultado do pecado, Adão e Eva tiveram barrado o acesso à fonte de vida contínua.

Gênesis 2:7: “Uma Alma Vivente”. A segunda importante declaração bíblica para entender a natureza humana por ocasião da Criação é o breve relato da própria criação do homem: “Então formou Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida; e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7). Historicamente, este texto tem sido lido através das lentes do dualismo. Tem-se presumido que o fôlego de vida que Deus soprou nas narinas de Adão foi simplesmente uma alma imaterial, imortal, que Deus implantou em seu corpo. Assim, a frase “o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7) tem sido interpretada como significando que “o homem obteve uma alma vivente”. E tal como a vida terrena começou com a implantação de uma alma imortal num corpo físico, segundo os dualistas, ela termina quando a alma deixa o corpo.

O problema com essa interpretação jaz no fato de que o “fôlego de vida [neshamah]” que Deus soprou nas narinas de Adão não foi uma almaimortal, mas o Espírito divino que transmite vida e é freqüentemente caracterizado como o “sopro de Deus”. Assim, lemos em Jó 33:4: “O espírito [ruach] de Deus me criou, e o sopro [neshamah] do Todo-poderoso me concede vida”. O paralelismo entre o “espírito de Deus” e “o sopro do Todo-poderoso”, que se acha com freqüência na Bíblia (Jó 27:3; 34:14-15), sugere que os dois termos são usados intercambiavelmente porque ambos fazem referência ao dom da vida concedido por Deus a Suas criaturas.

Jó  34:14-15
14 “Se ele retirasse para si o seu espírito, e recolhesse para si o seu fôlego,
15 toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.”

O Espírito de Deus que concede vida é descrito pela sugestiva imagem do “fôlego de vida”, porque a respiração é uma manifestação tangível de vida. Uma pessoa que não mais respira está morta. Jó declara: “Enquanto estiver em mim o meu fôlego [neshamah], e o espírito [ruach] de Deus estiver em minhas narinas; meus lábios não falarão a falsidade” (Jó 27:3). Aqui o “fôlego” humano e o “espírito” divino são equiparados, porque respirar é visto como uma manifestação do poder sustenedor do Espírito de Deus.

A posse do “fôlego de vida” não confere em si mesmo imortalidade, porque, por ocasião da morte, “o fôlego de vida” retorna para Deus. A vida deriva de Deus, é sustida por Deus, e retorna para Deus. Essa verdade é expressa em Eclesiastes 12:7: “O pó volta à terra, como era, e o espírito volta para Deus que o deu”. O que retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus: “Se Ele [Deus] tomasse de volta o Seu espírito [ruach] para Si, e reavesse o Seu fôlego [neshamah], toda carne pereceria juntamente, e o homem retornaria ao pó” (Jó 34:14-15). O paralelismo indica que o fôlego de Deus é o Seu Espírito transmissor de vida.

O fato de que a morte é caracterizada como a retirada do fôlego de vida (o Espírito divino que concede vida), demonstra que o “fôlego de vida” não é um espírito ou alma imortal que Deus confere a Suas criaturas, mas o dom da vida que os seres humanos possuem pela duração de sua existência terrena. Enquanto permanecer o “sopro de vida”, os seres humanos são “almas viventes”. Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia freqüentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13).

Corpo é Alma Visível. A maior parte dos eruditos bíblicos reconhece que a “alma-nephesh” em Gênesis 2:7 não é uma essência imaterial, imortal distinta, implantada no corpo, mas simplesmente o princípio que anima o corpo. Comentando sobre Gên. 2:7, o erudito católico Dom Wulstan Mork, escreve: “É nephesh [alma] que dá vida ao bashar [corpo]. O corpo, longe de ser separado de seu princípio que anima o corpo, é a alma [nephesh].”

3. Em idêntica linha de pensamento, Hans Walter Wolff, autor de um avançadíssimo estudo de Antropologia do Velho Testamento, pergunta: “O que nephesh [alma] significa aqui? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional]. . . . O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh [alma].”

4. Sumariando, a expressão “o homem se tornou uma alma vivente-nephesh hayyah” apenas significa que em resultado do sopro divino, o corpo inanimado tornou-se um ser vivente, que respirava-não mais e não menos do que isso. O coração começou a bater, o sangue a circular, o cérebro a pensar, e todos os sinais vitais foram ativados. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”.

Os Animais Como “Almas Viventes”. Uma prova muito patente de que a expressão “alma vivente” não significa “alma imortal” é o repetido emprego da mesma frase “alma vivente-nephesh hayyah” para descrever a criação dos animais (Gên. 1:20, 21, 24, 30; 2:19; 9:10, 12, 15, 16; Lev. 11:46). Este importante fato é desconhecido da maioria das pessoas porque os tradutores da maioria das versões decidiu traduzir a frase hebraica “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e como “alma vivente” nas referências  a seres humanos. Por quê? Simplesmente porque os tradutores estavam tão condicionados por suas crenças de que tão-só os seres humanos contam com uma alma imortal não possuída pelos animais, que tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura”, antes que “alma”, quando quer que era empregada para animais.
Norman Snaith condena com justiça esse interpretação arbitrária como bastante repreensível” porque a frase hebraica devia ser traduzida exatamente do mesmo modo em ambos os casos. Fazê-lo doutro modo é enganar todos quantos não lêem o hebraico.“Não há desculpas nem defesa apropriada”.

5. O repetido emprego de nephesh-alma como referência a toda sorte de animais claramente revela que a nephesh-alma não é uma essência concedida aos seres humanos, mas o princípio que anima a vida ou o “fôlego de vida” que está presente tanto nas pessoas quanto nos animais porque ambos são seres conscientes. O que distingue os seres humanos dos animais não é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais.

O relato bíblico da criação do homem indica que a natureza humana consiste de um todo indivisível onde o corpo, o fôlego de vida, e a alma funcionam, não como entidades separadas, mas como características da mesma pessoa. O corpo é uma pessoa como um ser concreto; a alma é uma pessoa como um indivíduo vivo; o fôlego ou espírito de vida é uma pessoa tendo sua fonte em Deus. Esta é a essência do ponto de vista criacional da natureza humana, expandida no restante da Bíblia.

A Natureza Humana Após a Queda

A Queda não mudou a constituição da natureza humana, mas alterou seu estado ou condição. De um estado em que era impossível para os seres humanos morrer (imortalidade condicional), passaram a um estado em que era impossível que não morressem (mortalidade incondicional). Antes da Queda, a segurança da imortalidade era transmitida por partilharem da árvore da vida, não pela posse de uma alma imortal. A presença da “árvore da vida” no Jardim do Éden indica que a imortalidade era condicional à participação no fruto daquela árvore.

Para impedir à humanidade pecadora a possibilidade de “viver para sempre” (Gên. 3:22), após a Queda Deus barrou o acesso à árvore da vida (Gên. 3:22, 23). Esse ato divino por si só revela que por ocasião da Criação não era a imortalidade uma dotação que residia na alma, mas uma possibilidade condicional à obediência humana. Os que querem crer na imortalidade na alma, lêem na criação humana idéias do dualismo grego estranhas à Bíblia.

Após a Queda, Adão e Eva não mais tiveram acesso à árvore da vida (Gên. 3:22-23) e, conseqüentemente, começaram a experimentar a realidade do processo da morte. O fato de que Adão e Eva não morreram no dia de sua transgressão como Deus lhes havia advertido (Gên. 2:17), tem levado alguns a concluir que não morreram porque eram dotados de uma alma imortal. Essa interpretação imaginativa dificilmente pode ser sustentada pelo texto, que, literalmente traduzido reza: “morrendo morrereis”. O que Deus quis simplesmente dizer é que no dia em que eles desobedecessem, o processo da morte teria início.

A Pessoa Inteira Morre. A advertência divina (Gên. 2:17) estabelece uma clara ligação ética entre a vida e a obediência versus morte e desobediência. A natureza humana não foi criada com uma alma imortal, mas com a possibilidade de tornar-se imortal. A desobediência resultou em morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira. Deus não disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira, “morrereis”.

Este é um ensino fundamental da Bíblia. O salário do pecado é a morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira (Rom 6:23; Eze. 18:4, 20). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4). A morte do corpo está ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Isto explica por que a morte de uma pessoa é amiúde descrita como a morte da alma. (Núm. 31:19; 35:15,30; Jos. 20:3, 9; Gên. 37:21; Deut. 19:6, 11; Jer. 40:14, 15; Juí. 16:30; Núm 23:10). É-nos dito repetidamente que quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (Jos. 10:28, 30, 31, 34, 36, 38). A destruição do corpo é vista como a destruição da alma porque por ocasião da morte a alma deixa de funcionar como o princípio transmissor de vida do corpo.

Sumariando, a natureza humana após a Queda passou de um estado de imortalidade condicional para um estado de mortalidade incondicional para a pessoa inteira. A crença popular e tradicional de que a alma sobrevive ao corpo por ocasião da morte pode ter sua origem identificada na mentira de Satanás, “É certo que não morrereis” (Gên. 3:4). Essa sutil mentira tem perdurado em diferentes formas através da história humana até nosso tempo.

Nossa única proteção contra esse engano popular deve ser encontrada mediante um claro entendimento da perspectiva bíblica sobre a natureza e destino humanos. As Escrituras Sagradas nos  ensinam  que  a  imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas o dom de Deus (Rom. 6:23) para ser buscada (Rom. 2:7) e dela se revestir (1 Cor. 15:53) por ocasião da ressurreição por aqueles que aceitaram a graciosa provisão da salvação (João 17:2-3; Mat. 19:29).

A Natureza Humana Resultante da Redenção

A redenção revela o valor que Deus atribui à natureza humana porque nos fala de que Ele decidiu redimir a natureza humana assumindo-a mediante a encarnação de Seu Filho. O Verbo “Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). A idéia do Filho de Deus assumindo uma natureza humana física era incompreensível para os gnósticos, um movimento cristão primitivo influente vastamente influenciado pelo dualismo grego. Eles rejeitavam abertamente a encarnação de Cristo porque não viam valor no aspecto físico da natureza humana. Isso ilustra vigorosamente a diferença entre o ponto de vista holístico bíblico, e a concepção dualística da filosofia platônica, que considera o corpo como prisão da alma a ser descartada ao tempo da morte.

O fato de que o divino Filho de Deus assumiu um corpo humano mortal quando de Seu nascimento e reteve um corpo humano glorificado por ocasião de Sua Ressurreição (João 20:27), demonstra do modo mais claro possível que a natureza humana tem o seu lugar no eterno propósito de Deus. Fala-nos que o corpo não é uma prisão temporária ou um meio para propiciar espaço para “almas”, mas nossa personalidade total que Deus Se dispõe a preservar e trazer de volta à vida no dia da ressurreição.

João 20:27
27 “”

A Regeneração Moral da Natureza Humana. O propósito da missão redentora de Cristo não é a libertação da alma do corpo, mas a regeneração da pessoa inteira nesta presente vida e a ressurreição da pessoa inteira no mundo por vir. O Espírito de Deus é o agente ativo tanto na criação quanto na recriação da natureza humana. A recriação da natureza humana tem lugar em duas fases: a regeneração moral tem lugar na vida presente e a transformação física da mortalidade para a imortalidade ocorrerá por ocasião da ressurreição. A função do Espírito-pneuma como princípio vital-é expandido no Novo Testamento para incluir tanto a regeneração moral presente quanto a transformação física futura.

Ao tempo da Criação o homem foi feito uma alma vivente pelo Espírito de Deus (Gên. 2:7). Em resultado da redenção os crentes são tornados uma nova criação pela obra do Espírito Santo. A regeneração moral realizada pelo Espírito Santo é descrita por João como renascimento (João 3:5) e por Paulo como nova criação.

Paulo atribui importância vital ao papel do Espírito na nova vida do crente (2 Cor. 5:17; cf. 1 Cor. 6:11; Gál. 3:27; 6:15; Efé. 4:24). Isto é indicado pelo fato de que em suas cartas ele se refere ao “espírito” 146 vezes, comparado com somente 13 referências à “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psychê” para denotar a vida que prossegue além da morte. Pelo contrário, ele emprega a frase soma psychikon, que literalmente significa “corpo espiritual”, para descrever o corpo físico que será transformado em corpo espiritual (soma pneumatikon) quando da ressurreição. A razão por que Paulo evita o emprego do termo “alma-psychê” para designar a vida por vir é muito provavelmente porque tal termo poderia confundir seus conversos gentílicos levando-os a pensar na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.

Para assegurar que a salvação deve ser entendida exclusivamente como um dom divino de graça mediante “o espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2), Paulo destaca o papel do Espírito Santo tanto na regeneração moral desta vida presente (Efé. 4:23; Rom. 8:5) quanto na transformação física da vida por vir (Rom. 8:11, 22-23). Tanto a criação quanto a recriação, nascimento e renascimento, são atos do Espírito porque, como Jesus explicou, “o Espírito é o que vivifica” (João 6:63).

A Transformação Física da Natureza Humana. A transformação derradeira da natureza humana se realizará no glorioso dia da Vinda de Cristo “quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade” (1 Cor. 15:54). Paulo assegura aos crentes que “o Espírito Daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus . . . também vivificará os vossos corpos mortais” (Rom. 8:11). É evidente que a imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas um dom divino que os corpos mortais receberão (“se revestirão”) quando da ressurreição.

A transformação final da natureza humana é descrita como “a ressurreição  do corpo” porque o Novo Testamento nunca aceita a crença na imortalidade da alma. A vida sem o corpo é inconcebível na Bíblia, porque o corpo é a expressão concreta da pessoa inteira. Sua ressurreição é indispensável para assegurar personalidade e vida plenas na nova terra.

É digno de nota que em 1 Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia inteiramente dedicado à ressurreição/ trasladação dos crentes, não há referência à religação dos corpos ressurretos a almas espirituais. De fato, no capítulo inteiro Paulo nunca menciona a “alma-psychê”. Se a ressurreição envolvesse a religação do corpo à alma, como os católicos e a maior parte dos protestantes crêem, não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso inteiramente em sua discussão da natureza da ressurreição? Afinal de contas, tal conceito é fundamental para entender o que se dá com o corpo e a alma por ocasião da ressurreição . A ausência de qualquer referência à alma claramente indica que Paulo cria na ressurreição da pessoa inteira, não na religação do corpo à alma.

O Sentido da Ressurreição  do Corpo. A ressurreição  do corpo não significa reabilitação de nossos corpos físicos presentes, que freqüentemente estão enfermos ou em sofrimento, mas a restauração de nossa pessoa integral. Na Bíblia o corpo se apresenta como referindo-se à pessoa inteira. Quando Paulo escreve: “Aguardamos a adoção como filhos, a redenção de nossos corpos (Rom 8:23), ele simplesmente quer dizer a restauração de nosso ser total. Crer na ressurreição/trasladação do corpo significa crer que o meu eu humano, o ser humano que “eu” sou, será restaurado à vida novamente. Significa que não serei alguém diferente de quem eu sou agora. Serei exclusivamente eu mesmo. Em suma, significa que Deus Se comprometeu a preservar minha individualidade, personalidade e caráter.

É meu caráter ou personalidade que desenvolvemos nesta vida que Deus preserva em Sua memória e reunirá à pessoa ressuscitada. Não há dois caracteres iguais porque não há duas pessoas que enfrentem as mesma tentações, lutas, derrotas, desapontamentos, vitórias e crescimento em sua vida cristã. Isso elimina a possibilidade de “duplicação” de pessoas por ocasião da ressurreição, todos se parecendo, agindo e pensando igual. Cada um de nós tem um caráter ou personalidade único que Deus preserva e unirá ao corpo ressuscitado. Isso explica a importância de desenvolver um caráter cristão nesta vida presente, porque essa será nossa identidade pessoal no mundo por vir. [NT: Talvez se possa ilustrar isso com as memórias eletrônicas num computador. Não há nenhum elemento físico visível quando se registra um texto, ou mesmo imagem, na memória do computador. Uma vez ativada a energia e entrados os devidos comandos, o texto ou imagem específicos surgirá na tela, e até poderão ser reproduzidos em papel através de uma impressora, etc.]

A pesquisa precedente demonstrou que o ponto de vista bíblico da natureza humana é holística, consistindo de uma pessoa indivisível onde a alma é o princípio animado do corpo. Descobrimos que o relato da criação nos conta que originalmente a natureza humana integral era condicionalmente imortal. A Queda nos informa que a natureza humana integral tornou-se incondicionalmente mortal. A redenção nos reassegura que Deus fez provisões para a natureza humana integral ser moralmente renovada nesta vida presente e fisicamente restaurada no mundo por vir. Este é o plano glorioso de Deus para nossa natureza e destino humanos; um plano que abrange a criação, redenção e restauração final da natureza humana inteira, bem como do planeta todo.

Nosso próximo estudo trata da “Visão Bíblica da Morte”. Ensina a Bíblia que a morte é separação da alma imortal do corpo mortal? Ou ensina que a morte é a terminação da vida para a pessoa inteira, corpo e alma? Para encontrar as respostas a estas perguntas pesquisaremos as Escrituras examinando todas as passagens pertinentes. Este é um importante estudo para desmascarar o prevalecente engano da vida consciente após a morte.

Lev. 19:28
28  “Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo imprimireis qualquer marca. Eu sou o Senhor.”

Lev. 21:1, 11
1 “Depois disse o senhor a Moisés: Fala aos sacerdotes, filhos de Arão, e dize-lhes: O sacerdote não se contaminará por causa dum morto entre o seu povo,
11 e não se chegará a cadáver algum; nem sequer por causa de seu pai ou de sua, mãe se contaminará;”

Lev. 22:4
4 “Ninguém dentre os descendentes de Arão que for leproso, ou tiver fluxo, comerá das coisas sagradas, até que seja limpo. Também o que tocar em alguma coisa tornada imunda por causa e um morto, ou aquele de quem sair o sêmen”

Núm. 5:2
2 “Ordena aos filhos de Israel que lancem para fora do arraial a todo leproso, e a todo o que padece fluxo, e a todo o que está oriundo por ter tocado num morto;”

Núm. 6:6,11
6 “Por todos os dias da sua separação para o Senhor, não se aproximará de cadáver algum.”

Núm. 9:6, 7, 10
6 “Ora, havia alguns que se achavam imundos por terem tocado o cadáver de um homem, de modo que não podiam celebrar a páscoa naquele dia; pelo que no mesmo dia se chegaram perante Moisés e Arão;
7 e aqueles homens disseram-lhes: Estamos imundos por havermos tocado o cadáver de um homem; por que seríamos privados de oferecer a oferta do Senhor a seu tempo determinado no meio dos filhos de Israel?
10 Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se alguém dentre vós, ou dentre os vossos descendentes estiver imundo por ter tocado um cadáver, ou achar-se longe, em viagem, contudo ainda celebrará a páscoa ao Senhor.”

Núm.  19:11, 13
11 “Aquele que tocar o cadáver de algum homem, será imundo sete dias.
13 Todo aquele que tocar o cadáver de algum homem que tenha morrido, e não se purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; e essa alma (significando uma pessoa)será extirpada de Israel; porque a água da purificação não foi espargida sobre ele, continua imundo; a sua imundícia está ainda sobre ele.”

Ageu 2:13
13 “Então perguntou Ageu: Se alguém, que for contaminado pelo contato com o corpo morto, tocar nalguma destas coisas, ficará ela imunda? E os sacerdotes responderam: Ficará imunda.”

Referências

1.   Para adquirir um exemplar de Immortality or Ressurrection? A Biblical Study  of  Human Nature  and Destiny,  (em  inglês)  dirija-se  ao  seguinte  endereço:  Biblical  Perspectives -  4990  Appian  Way,   Berrien  Springs, Mich.,  49103, USA. Também poderá dirigir-se ao e-mail: samuele@andrews.edu ou Sbacchiocchi@csi.com. Dito livro está sendo traduzido para o português. Para informações a respeito comunique-se com o próprio tradutor pelo e-mail: otabrito@aol.com.
2.   John Calvin, Institutes of the Christian Religion I, XV, 3 (Londres, 1949), Vol. 1, pp. 162, 165.
3.   Dom Wulstan Mork, The Biblical Meaning of Man (Milwaukee, Wisconsin, 1967), p. 34.
4.   Hans Walter Wolff, Anthropology of the Old Testament (Filadélfia, 1974), p. 10.
5.   Norman  Snaith,  “Justice and Immortality,”  Scottish  Journal  of  Theology 17, 3, (setembro de 1964), pp. 312-313.

Professor Azenilto G. Brito
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