O Falso Evangelho do “Deixar Cristo Entrar no Coração”

&Analisando Ensinos Bíblicos  &

Prof. Azenilto G. Brito


 O cristianismo é a única religião essencialmente histórica, já que todas as religiões do mundo ensinam que a salvação se alcança através de um processo que ocorre dentro do adorador, pelo que a maior preocupação do religioso é sua experiência interior. Só o cristianismo protestante proclama uma salvação ocorrida fora do adorador.
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“Deixar Cristo entrar no coração” é linguagem bem característica em muitos setores da Igreja Evangélica, mas é prenhe de problemas teológicos, como veremos mais adiante. Apela-se às pessoas para deixarem Cristo entrar em seus corações para que, passando a residir ali, opere o “novo nascimento” para regeneração. Seria o início de uma nova caminhada na vida, tendo a Cristo como fonte de inspiração e exemplo supremo em tudo quanto se fizer. Esta, asseguram-nos, é a fonte e base da salvação. Houve até um livro de certo famoso pregador que começava praticamente declarando: “A maior notícia do universo é a de que, pelo poder de Deus, você pode nascer de novo”.

Virtudes e Defeitos do “Entrar Jesus no Coração”

A sentença tão comum no apelo para a conversão de pecadores apresenta problemas, como dissemos acima, mas também traz uma virtude: à luz de João 14:23, quem recebe o Espírito Santo em sua vida recebe também o Pai e o Filho“iremos para ele, e nele faremos morada”, garantiu Jesus. Isso confirma a doutrina da Trindade, ou unidade das três pessoas integrantes da Divindade, pois quem recebe a uma das divinas Pessoas, é o mesmo que acolhar todas as demais (ver também 1 João 3:24).

João 14:23
23 “Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada.”

1 João 3:24
24 “Quem guarda os seus mandamentos, em Deus permanece e Deus nele. E nisto conhecemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos tem dado.”

Mas o que há de errado no apelo para deixar Cristo entrar no coração? Não declarou Jesus ser necessário “nascer de novo . . . da água e do espírito”, experiência sem a qual a pessoa “não pode ver o reino de Deus” (João 3: 3)? É verdade, contudo a questão é que se a salvação decorre de alguém “nascer de novo”, regenerar-se, ou seja, santificar sua vida, a morte expiatória de Cristo torna-se inteiramente dispensável, pois bastaria um indivíduo receber uma dotação do Espírito divino, ter assim sua vida transformada, e dispensaria totalmente a função salvífica da cruz! E sem a cruz o cristianismo pode ser qualquer coisa, menos a religião de Jesus Cristo.

João 3: 3
3 “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.”

No próprio contexto das palavras de Cristo a Nicodemos encontramos a verdadeira fonte da salvação: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que Nele crê tenha a vida eterna”. (João 3:14 e 15). Esta passagem é seguida daquele verso que magnificamente sintetiza o plano da salvação e que tem sido entesourado por tantos cristãos ao longo dos séculos: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (vs. 16).

A cruz, portanto, é a fonte donde brota a vida cristã e o coração da revelação bíblica e de toda religião verdadeira. A santificação é o que Deus realiza dentro do crente, e por importante que isso seja, não é a base da salvação, nem o fundamento da esperança do cristão. Certamente a santificação é uma obra da graça, mas nutre-se e é o produto de uma obra de graça anterior a esta. A menos que a santificação permaneça enraizada na justificação e constantemente a essa retorne, não poderá escapar do venenoso miasma do subjetivismo, moralismo, farisaísmo.
Novo Nascimento--Não a Maior Notícia do Universo

A razão humana poderia argúir que o mais importante que Deus poderia fazer pelo pecador é transformar o seu coração, mas esse raciocínio constitui o coração da soteriologia medieval, e deve-se admitir que a preocupação primordial do mundo evangélico atual é a mensagem de salvar-se “permitindo que Cristo entre no coração”, e assim poder nascer de novo. Este era o evangelho da Idade Média e não pode ser “a maior notícia do universo”.

A grande verdade da justificação pela fé é que vem a ser a maior notícia do universo—as boas novas de que um pecador pode ser aceito, primeiro que tudo, por um Deus justo, mas também misericordioso. A justiça requereria a morte do pecador por causa de seu demérito e pecados, mas a misericórdia preparou-lhe uma saída—a morte do Filho Unigênito dada ao homem por causa de ter Deus amado o mundo “de tal maneira”—uma maneira imensurável, impossível de se imaginar sua altura, profundidade, largura ou comprimento. Destarte, justificação não trata sobre a obra de Deus dentro do crente, mas dos atos de salvação de Deus realizados fora do crente. Essa distinção é tão fundamental que foi praticamente a base de todo o movimento da Reforma Protestante.

Em primeiro lugar, a base da aceitação de Deus é a pura graça: “Sendo justificados gratuitamente por sua graça” (Rom. 3:24). A palavra grega que aqui é traduzida por “gratuitamente” significa “sem nenhuma causa”. A graça não está condicionada a nenhuma qualidade do coração humano. A graça de Deus é tão independente de qualquer qualidade humana, que o apóstolo declara que essa graça “nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos. . . ”(2 Tim. 1:9). A graça é uma qualidade do coração de Deus, é Sua disposição de ser bondoso e misericordioso para com aqueles que estão perdidos e não merecem nada. A graça é o atributo divino de aceitar os que não são aceitáveis, incluindo os que Deus santificou.

 “Fora de Nós”--Chave Para Compreender o Evangelho

Deus requer que haja uma base sólida sobre a qual se ofereça o perdão e os pecadores possam ser aceitos como justos, e esta base sólida se encontra completamente fora de nós. “Sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus [pelo ato redentor de Deus na pessoa de Cristo]” (Rom. 3:24).

As obras e a morte de Cristo constituem a única base sobre a qual Deus pode julgar-nos e declarar-nos justos. Isto significa “ser justificados em Cristo . . .” (Gál. 2:17). O evangelho proclama que os pecadores são salvos pelos atos concretos de Deus na história. Tão fora do crente está a razão de sua aceitação, que esta ocorreu faz dois mil anos, e precisamente nisso consiste o cristianismo. De fato, o cristianismo é a única religião essencialmente histórica, uma vez que todas as religiões do mundo ensinam que a salvação se alcança através de um processo que ocorre dentro do adorador, pelo que a maior preocupação do religioso é sua experiência interior, o seu aprimoramento espiritual e cultivo de virtudes.

Só o cristianismo protestante proclama uma salvação ocorrida fora do adorador. O evento salvifico não pode reduzir-se a alguma experiência mística intra-humana, antes, tratou-se de uma ocorrência de proporções cósmicas—o próprio Deus fazendo-Se carne, habitando entre nós e morrendo em nosso lugar.

A verdade declarada no parágrafo anterior ofende o orgulho humano. Não poderíamos ao menos simpatizar com os filhos de Israel no episódio da serpente no deserto, lembrada por Cristo na sua fala com Nicodemos? Muitos ali foram mordidos por serpentes, e enfrentavam uma morte certa. Moisés colocou uma réplica de uma serpente mortal num madeiro, e convidou os moribundos a olhar e viver. Quem tinha ouvido anteriormente de semelhante convite? O veneno ainda se encontrava dentro do corpo do moribundo, e como poderia ser de ajuda algo completamente externo? Sem dúvida, muitos moribundos estavam inclinados a raciocinar, em vez  de olhar. A nós, que fomos mordidos pelo diabo, a antiga serpente, Jesus, nos diz: “Do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado . . .” (João 3:14).

A base da salvação humana não é um processo subjetivo. Se o caminho da salvação fosse simplesmente um assunto de convidar Cristo a entrar no coração e nascer de novo pelo Espírito, então não teriam sido necessários os sofrimentos e a morte de Cristo. Nenhuma medida de santificação ou justiça interior podia superar o abismo que o pecado tinha causado para colocar-nos numa correta relação com Deus. O companheirismo com Deus não pode descansar sobre a base de um processo interior de santificação. Além disso, a perfeição não é algo que Deus requer somente ao final do caminho cristão, mas Deus requer perfeição e santidade absolutas antes que possa ter início qualquer relação com Deus.

Reiteramos que a salvação e a correta relação com Deus têm somente um fundamento, que é o que Deus realizou fora de nós na pessoa de Jesus Cristo (Rom.3:24). Há dois mil anos houve um evento histórico, concreto e objetivo: O próprio Deus irrompeu na história humana na pessoa de Seu Filho e chegou a ser nosso Representante. Cristo levou nossa natureza e identificou-Se de tal maneira conosco, que tudo quanto fez foi realizado em nosso benefício, e em nosso lugar.

Rom.3:24
24 “sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,

Quando um pai de família adquire um carro novo, os filhos poderão dizer a seus amigos: “Temos um carro novo”. Eles consideram a aquisição como deles naturalmente, embora quem trabalhou para isso e reuniu o dinheiro para a compra foi o pai deles.

Cristo enfrentou, venceu e destruiu o poder do pecado, do diabo, e da morte, e é exatamente como se tivéssemos vencido. Sua vitória foi realmente nossa vitória. A graça de Deus não anula Sua justiça; Sua lei deve ser mantida. Daí que Paulo pergunta—“Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma, antes confirmamos a lei” (Romanos 3:31). Quando Cristo obedeceu perfeitamente a lei de Deus, isso fez por nós, e é como se nós tenhamos vivido essa vida santa (Rom.5:19). Quando Cristo levou nosso castigo, a justiça nos considerou castigados Nele. “Um morreu por todos, logo todos morreram” (2 Cor.5:14). Quando Ele ressuscitou e foi aceito com gozo à destra de Deus, fê-lo em nosso lugar e em nosso favor. Deus abraçou toda a humanidade na pessoa de Seu próprio Filho.

Rom.5:19)
19 “Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de Um muitos serão constituídos justos.”

Tão certamente como Deus veio à Terra na pessoa de Jesus, nós fomos entronizados no céu, na pessoa de Cristo. O evangelho não proclama as boas novas do que Deus fará, mas as boas novas do que Deus já fez em Cristo. Por meio de Seus gloriosos atos de salvação realizados fora de nós, Deus logrou nossa libertação. Deus nos perdoou, justificou e restaurou a uma posição de honra e glória na pessoa de Jesus Cristo (Efé.1:3-7; 2:4-6; Rom. 4:25; 5;8-10,18; Col. 2:10).

Fé Objetiva

A justificação bíblica é realizada pela graça de Deus, pelos méritos de Cristo, e recebida por meio da fé. O que Deus realizou fora de nós, na pessoa de Seu Filho, deve ser crido e recebido por nós. A fé procede de ouvir a mensagem do evangelho (Rom.10:17). A fé não produz justiça, a aceita; a fé não cria a salvação, toma-a. A fé toma consciência de uma salvação já obtida em Cristo.

Rom.10:17
17 “Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.”

A fé é completamente objetiva, e não está relacionada com nada que sucede ou existe neste planeta. A fé não descansa no que o Espírito Santo realizou dentro de nós, nem em nossa santificação, nem em alguma experiência passada como o novo nascimento. A fé se liga ao que está no céu, a nossa gloriosa herança que se encontra à destra de Deus, em Cristo. A santificação, sendo realizada nesta Terra, e dentro do crente, não faz parte da justificação pela fé somente. A justificação pela fé é a apresentação da perfeita santidade e o perfeito sacrifício de Cristo em nosso favor.

A única justiça que temos ante o Pai é justamente aquela que está à Sua destra. Cristo mesmo é nossa justiça (Jer. 23:6), o Qual se assentou à destra do trono de Deus. Como João Bunyan escreveu, o sublime mistério da Bíblia é “que uma justiça que reside numa pessoa no céu pode justificar um pecador como eu, na Terra”. Esta é a justiça da fé. É uma justiça que os reformadores chamaram aliena justitia [justiça alheia], uma justiça completamente fora do homem, e tão alheia à razão humana que só o evangelho a pode revelar.

Jer. 23:6
6 “Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome de que será chamado: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA.

Vimos que Deus justifica por graça, com base na obra de Cristo, e para benefício do pecador que crê. A graça que justifica é uma graça que se encontra fora do homem. A justiça que justifica se encontra fora do homem, e a fé que aceita a bênção se apega ao que está completamente fora do crente. O ato divino de justificar o pecador que crê em Cristo é um ato que ocorre também fora do crente, e esta grande verdade vamos considerar segundo diferentes perspectivas:

1. O significado da justificação

Justificar é um termo legal relacionado com um juízo. Justificar não significa transformar o acusado numa pessoa justa, assim como condenar não significa transformar o acusado numa pessoa malvada. Justificar é simplesmente dar um veredito judicial mediante o qual o acusado é declarado ou pronunciado justo. No caso do juízo de Deus, o pecador que crê é declarado justo porque o representante do pecador é justo. Noutras palavras, quando o pecador reclama a justiça de Cristo como se fosse sua, e a apresenta ante o juiz, Deus dá testemunho de que a dívida foi paga, e o pecador se encontra em paz perante a lei.

Portanto, a justificação não é um ato que Deus realiza dentro do pecador, mas fora do pecador que crê. É um veredito, um ato forênsico que declara justo ao pecador. A justificação não está baseada na santidade do crente, mas na santidade Daquele em quem o pecador depositou toda sua confiança, e este ponto é crucial. Não devemos preocupar-nos acerca do que Deus pensa de nós, mas acerca do que Deus pensa de seu Filho, nosso substituto. Se confundimos justificação com um processo interior de santificação, percebemos ser impossível alcançar a paz de consciência. A justificação tem que ver com o que Deus realiza por nós e não com o que Deus realiza em nós.

2. O método de justificação

No capítulo quatro de Romanos, o Apóstolo ensina não só que Deus justifica o ímpio (v. 5), como também que Deus imputa justiça ao que crê (vs. 3: 5-7). No capítulo cinco, Paulo mostra que a justiça que Deus imputa é “a obediência de um” (vs. 18, 19). Agora, a palavra imputar não significa comunicar. Imputar significa atribuir ao pecador o que este não tem. Por exemplo, quando Eli declarou que Ana estava ébria, esta declaração de Eli não transformou Ana numa mulher ébria (1 Sam.1:13). A imputação não muda o objeto, mas a maneira como o objeto é considerado. O Calvário é a suprema ilustração do que significa a imputação. Nossos pecados foram imputados a Cristo (2 Cor. 5:19-21) e Cristo foi tratado como se fosse um pecador, contudo Ele era “santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores, e feito mais alto do que os céus” (Heb. 7:26).

2 Cor. 5:19-21
19 “pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação.
20 De sorte que somos embaixadores por Cristo, como se Deus por nós vos exortasse. Rogamo-vos, pois, por Cristo que vos reconcilieis com Deus.
21 Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

3. Íntima Relação--Justificação/Santificação

O ato divino de justificação é um ato justo, pois descansa na intercessão de Jesus Cristo, o justo. Somos declarados justos porque Deus nos atribui a justiça de Seu Filho, a Quem aceitamos pela fé. Portanto, analisado desde qualquer ponto de vista, a justificação é um ato de graça de Deus que ocorre completamente fora da experiência do crente. Sim, somos conscientes das objeções levantadas contra uma “legalidade fictícia”, ou uma estranha “contabilidade divina,” etc., mas estas objeções se explicam quando compreendemos a inseparável relação entre a justificação e a santificação. Em realidade, só à medida que aceitemos a ênfase bíblica na justificação, poderemos ser levados a experimentar a obra de Deus dentro de nós, para santificação. A justificação bíblica é a fonte dinâmica donde se origina e flui a verdadeira santificação. A doutrina da justificação pela fé é a base de toda ética, de toda reforma, e de toda ação.
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Artigo com adaptações e acréscimos por Azenilto G. Brito segundo o original, “Como Vivir Una Vida Vitoriosa”, por R. D. Brinsmead, seção em espanhol do website www.PresenthTruthMag.com
 
 


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