Morte e Sepultura no Velho Testamento
Palavras-chave para entender o tema da natureza e destino humanos-II:

Sheol e Abbadon

Morte e Sepultura no Velho Testamento. A palavra hebraica sheol, é diferentemente traduzida nas Escrituras como “sepultura”, “morte”,“abismo”, “inferno”, etc. Os tradutores da Versão King James arbitrariamente traduziram sheol como ‘sepultura’, quando referindo-se aos justos, cujos corpos jaziam na sepultura, e como ‘inferno’ quando referindo-se aos ímpios cujas almas estariam supostamente sendo atormentadas no inferno. Isso tem acarretado confusão no entendimento deste tema. O autor imortalista J. Thomson, tratando do tema da morte no Velho Testamento, assim se manifesta: “Por ocasião da morte o corpo permanecia sobre a terra; a nephesh [alma] passava para o sheol; mas o fôlego, espírito ou ruach, retornava para Deus, não para o sheol. Mas no sheol, um lugar de escuridão, silêncio e esquecimento, a vida era melancólica e sombria”. (“Death and the State of the Soul after Death”, in Basic Christian Doctrine, ed. Carl F. H. Henry (Nova York, 1962), pág. 271.

Contudo, lembra o Dr. Bacchiocchi em sua obra Immortality or Resurrection?, que “essas interpretações de sheol como o lugar de habitação das almas (em vez de ser o local de repouso dos corpos na sepultura) ou o lugar de punição para os ímpios, conhecido como inferno, não resistem sob a luz do emprego bíblico de sheol. Este fato é reconhecido mesmo por John W. Cooper que produziu o que seja, talvez, a tentativa mais erudita de socorrer a tradicional visão dualística da natureza humana do maciço ataque da erudição moderna contra tal noção. Cooper declara: ‘Talvez o mais interessante para os cristãos tradicionais notarem seja o fato de que sheol é o lugar de descanso dos mortos, independentemente de sua condição religiosa durante a vida. sheol não é o “inferno” ao qual os ímpios são condenados e do qual os fiéis do Senhor são poupados em glória. . . . Não há dúvida de que os crentes e os descrentes eram todos tidos como indo para o sheol quando morrem’”. Body, Soul and Life Everlasting: Biblical Anthropology and the Monism-Dualism Debate (Grand Rapids, 1989), pág. 61.

“O . . . The Interpreter’s Dictionary of the Bible declara até mais enfaticamente que ‘Em parte alguma do Velho Testamento é a habitação dos mortos considerada um lugar de punição e tormento. O conceito de um “inferno” de fogo desenvolveu-se em Israel somente durante o período helenístico’” (Theodore H. Gaster, “Abode of the Dead”, Op. Cit. (Nashville, 1962), pág. 788.

Mais adiante, discutindo a etimologia da palavra e localização do sheol, prossegue Bacchiocchi:

“O sheol localiza-se bem nas profundezas da terra porque é freqüentemente mencionado em contraste com o céu para denotar os limites extremos do universo. O sheol seria o mais profundo lugar no universo, assim como o céu é o mais elevado. Amós descreve a inescapável ira de Deus nestes termos: ‘Ainda que desçam ao mais profundo abismo, a minha mão os tirará de lá; se subirem ao céu, de lá os farei descer’ (Amós 9:2, 3). Semelhantemente o salmista exclama: ‘Para onde me ausentarei do Teu Espírito? para onde fugirei da Tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo [sheol] estás também’

Salmo 139: 7, 8,
7 “Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença?
8 Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também.”

 Jó 11:7-9
7 “Poderás descobrir as coisas profundas de Deus, ou descobrir perfeitamente o Todo-Poderoso?
8 Como as alturas do céu é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o Seol; que poderás tu saber?
9 Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar.”

“Situando-se abaixo, na terra, os mortos alcançam o sheol por ‘descerem’, um eufemismo para ser sepultado na terra. Destarte, quando Jacó foi informado da morte de seu filho José, declarou: ‘Chorando, descerei a meu filho até à sepultura [sheol]’”. Também convém recordar o episódio do castigo dos rebeldes de Coré e Dotã que foram engolidos terra abaixo, e o original fala que desceram vivos ao sheol

Números 16:33.
33 “Assim eles e tudo o que era seu desceram vivos ao Seol; e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação,”

Em muitas ocasiões sheol é empregado em paralelo com o termo hebraico bor, abismo, como no Salmo 88:3, 4. Noutras ocasiões o paralelismo ocorre com o termo abbadon, que significa “destruição” ou “ruína”. Abaddon aparece em paralelismo com sepultura: “Acaso nas trevas se manifestam as Tuas maravilhas? e a Tua justiça nas terra do esquecimento [abaddon]?”

Sal. 88:12
12 “Serão conhecidas nas trevas as tuas maravilhas, e a tua justiça na terra do esquecimento?”

 Jó 26:6
6 O Seol está nu perante Deus, e não há coberta para o Abadom.”

.Prov 15:11
11 “O Seol e o Abbadon estão abertos perante o Senhor; quanto mais o coração dos filhos dos homens!”

 Prov 27:20
20 “O Seol e o Abbadon nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem.”

O “além”, ou “inferno” [sheol] e o “abismo” [abbadon] surgem também em paralelismo. Por isso, conclui Bacchiocchi: “O fato de que sheol está associado com abaddon mostra que o reino dos mortos era visto como o lugar de destruição, não como o lugar de eterno sofrimento para os ímpios”.

O sheol também é caracterizado como “a terra das trevas e da sombra da morte” (Jó 10:21,22), onde os mortos nunca mais vêem a luz (Sal. 49:20; 88:13). É, igualmente, a “região do silêncio” (Sal. 94:17; cf. 115:17), bem como a terra de onde não há retorno (Jó 7:10). No Salmo 55:15 sheol é claramente identificada com morte e sepultura, como se dá também no Salmo 141:7--“Ainda que sejam espalhados os meus ossos à boca da sepultura [sheol] quando se lavra e sulca a terra”.

Jó 10:21,22
21 “antes que me vá para o lugar de que não voltarei, para a terra da escuridão e das densas trevas,
22 terra escuríssima, como a própria escuridão, terra da sombra trevosa e do caos, e onde a própria luz é como a escuridão.”

Sal. 49:20;
20 “Mas o homem, embora esteja em honra, não permanece; antes é como os animais que perecem.”

Sal. 88:13
13 “Eu, porém, Senhor, clamo a ti; de madrugada a minha oração chega à tua presença.”

Salmo 94:17;
17 “Se o Senhor não tivesse sido o meu auxílio, já a minha alma estaria habitando no lugar do silêncio.”

Salmo 115:17
17 “Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silêncio;”

Salmo 141:7
7 “Como quando alguém lavra e sulca a terra, são os nossos ossos espalhados à boca do Seol.”

Estes textos todos demonstram irrefutavelmente que o sheol não é o repositório de espíritos que nos deixaram, mas o reino dos mortos. Em seu clássico estudo Anthropology of the Old Testament, Hans Walter Wolff faz notar que, ao contrário das religiões do Oriente Médio, em que os mortos eram glorificados, mesmo endeusados, “no Velho Testamento qualquer coisa semelhante é impensável. Geralmente, a referência à descida para o sheol como o mundo dos mortos nada mais significa do que uma indicação do sepultamento como o fim da vida (Gên. 42:38; 44:29, 31; Isa. 38:10, 17; Sal. 9:15, 17; 16: 10; 49:9, 15; 88:3-6, 11; Prov. 1:12)”. (Op. Cit., pág. 103).

Gên. 42:38;
38 “Ele porém disse: Não descerá meu filho convosco; porquanto o seu irmão é morto, e só ele ficou. Se lhe suceder algum desastre pelo caminho em que fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza ao Seol.”

Gên.44:29, 31
29 “se também me tirardes a este, e lhe acontecer algum desastre, fareis descer as minhas cãs com tristeza ao Seol.
31 acontecerá que, vendo ele que o menino ali não está, morrerá; e teus servos farão descer as cãs de teu servo, nosso pai com tristeza ao Seol.”

Isa. 38:10, 17;
10 “Eu disse: Na tranqüilidade de meus dias hei de entrar nas portas do Seol; estou privado do resto de meus anos.
17 Eis que foi para minha paz que eu estive em grande amargura; tu, porém, amando a minha alma, a livraste da cova da corrupção; porque lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados.”

Sal. 9:15, 17;
15 “Afundaram-se as nações na cova que abriram; na rede que ocultaram ficou preso o seu pé.
17 Os ímpios irão para o Seol, sim, todas as nações que se esquecem de Deus.”

Sal.16: 10;
10 “Pois não deixarás a minha alma no Seol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.”

Sal. 49:9, 15;
9 “para que continuasse a viver para sempre, e não visse a cova.
15 Mas Deus remirá a minha alma do poder do Seol, pois me receberá.”

Sal.88:3-6, 11;
3 “porque a minha alma está cheia de angústias, e a minha vida se aproxima do Seol.
4 Já estou contado com os que descem à cova; estou como homem sem forças,
5 atirado entre os finados; como os mortos que jazem na sepultura, dos quais já não te lembras, e que são desamparados da tua mão.
6 Puseste-me na cova mais profunda, em lugares escuros, nas profundezas.
11 Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade no Abadom?”

Prov. 1:12
12 “traguemo-los vivos, como o Seol, e inteiros como os que descem à cova;”

A expressão “dormiu com os seus pais” (como em 1 Reis 1:21; 2:10; 11:43) simplesmente reflete a idéia de que os mortos se reúnem com seus predecessores no sheol, num estado sonolento e inconsciente. A idéia de descanso ou sono no sheol é evidente em Jó que clama em meio a seus tormentos físicos: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? . . . Porque já agora repousaria tranqüilo; dormiria, e então haveria para mim descanso. . . . Ali os maus cessam de perturbar, e ali repousam os cansados”. (Jó 3: 11, 13, 17). Os versos 21 e 22, na seqüência, são altamente significativos no contexto do que foi acima exposto. Ver ainda Jó 17:13-16; 14:12; 19:25-27.

1 Reis 1:21;
21 “Doutro modo sucederá que, quando o rei meu senhor dormir com seus pais, eu e Salomão meu filho seremos tidos por ofensores.”

1 Reis 2:10;
10 “Depois Davi dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi.”

1 Reis 11:43
43 “E Salomão dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi, seu pai; e Roboão, seu filho, reinou em seu lugar.”

Jó 3: 11,13, 17, 21, 22
11 “Por que não morri ao nascer? por que não expirei ao vir à luz?
13 Pois agora eu estaria deitado e quieto; teria dormido e estaria em repouso,
17 Ali os ímpios cessam de perturbar; e ali repousam os cansados.
21 que anelam pela morte sem que ela venha, e cavam em procura dela mais do que de tesouros escondidos;
22 que muito se regozijam e exultam, quando acham a sepultura?”

 Jó 17:13-16;
13 “Se eu olhar o Seol como a minha casa, se nas trevas estender a minha cama,
14 se eu clamar à cova: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã;
15 onde está então a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?
16 Acaso descerá comigo até os ferrolhos do Seol? Descansaremos juntos no pó?

 Jó 14:12;
12 “assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus não acordará nem será despertado de seu sono.”

 Jó 19:25-27
25 “Pois eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.
26 E depois de consumida esta minha pele, então fora da minha carne verei a Deus;
27 vê-lo-ei ao meu lado, e os meus olhos o contemplarão, e não mais como adversário. O meu coração desfalece dentro de mim!”

Conclusão: As várias ocorrências de sheol examinadas, seja isoladamente ou em paralelismo com outros termos, claramente indicam que tal termo nunca se refere a um lugar de tormento para os perdidos, com fogo e tudo o mais (aliás, o elemento “fogo” é o grande ausente nessas descrições do sheol,“vermes” e “gusanos” são lembrados vez ou outra). Tampouco é um lugar de consciência para almas ou espíritos que partiram desta vida. O reino dos mortos é descrito sempre como um lugar de trevas, esquecimento, silêncio e inatividade que assim prossegue até o dia do “despertar”--a ressurreição.
Proaf Azenilto G Brito

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