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E O VERBO SE FEZ CARNE

Herman Bauman*
Que tipo de natureza possuía Jesus? Pecaminosa ou sem pecado? Entre os eruditos que procuram responder a essa pergunta, são verificadas duas posições básicas: a posição pré-lapsariana (do latim lapsus, que significa errar), e a posição pós-lapsariana.
Os defensores da primeira posição sustentam que Jesus possuía uma natureza humana semelhante à que Adão possuía antes da queda. Noutras palavras, uma natureza humana sem pecado. Jesus foi, portanto, totalmente isento de pecado. Nasceu dessa maneira e jamais escolheu pecar. Sua vida foi perfeita em todos os caminhos. Em virtude de ser perfeito e absolutamente isento de pecado, habilitou-Se a ser nosso substituto no Calvário, morrendo para pagar o preço requerido para nosso resgate. Levou sobre Si nossos pecados e, em troca, nos deu Sua perfeita justiça. Em conseqüência disso, quando Deus olha para nós, não mais vê fraquezas e defeitos, mas apenas a vida perfeita de Cristo a nos envolver.
O grande problema detectado na visão pré-lapsariana é que Jesus tinha a vantagem de ser já perfeito, e, assim, não poderia ser nosso exemplo.
Segundo a posição pós-lapsariana, Jesus possuía uma natureza humana semelhante à de Adão, mas depois da queda. Isso significa que Ele tinha uma natureza humana pecaminosa. Defendendo essa teoria, os seus adeptos argumentam ser necessário que Cristo tivesse uma natureza humana pecaminosa, começando justamente no mesmo ponto onde nós começamos. Somente assim, dizem, Ele poderia ser nosso verdadeiro exemplo, e mostrar-nos que é possível vencer o pecado e viver uma vida de total obediência.
A teoria pós-lapsariana traz, no entanto, alguns problemas. Se Jesus possuía uma natureza pecaminosa, obviamente fazia parte da raça humana caída, necessitada de redenção. E se Ele necessitava ser redimido, não poderia ser nosso redentor. Existe ainda uma outra questão: nascem as pessoas culpadas e perdidas, ou tornam-se perdidas e culpadas somente quando escolhem pecar? Se nós nascemos apenas com a possibilidade de pecar e não nos tornamos culpados até que escolhamos fazê-lo, então cada bebê que nasce, cada indivíduo que não atinge a idade de decidir, e cada pessoa que não é suficientemente madura mentalmente, se salvaria sem um Salvador. Será que Deus levaria para o Céu pessoas em tal condição?

Perfeccionismo

A principal razão para se acreditar e ensinar que Cristo teve uma natureza humana pecaminosa é o conceito de perfeccionismo sem pecado. Há pessoas que crêem e ensinam que Deus terá uma geração final de pessoas que provarão ao Universo ser possível aos seres humanos guardarem a Lei de Deus. A sugestão é que nós somos essa geração, e devemos trabalhar diligentemente para alcançar um nível de total vitória sobre o pecado.
A réplica usualmente dada a essa argumentação tem dois aspectos. Primeiramente, Jesus já providenciou a evidência, a única evidência de que o Universo necessita, de que a Lei de Deus pode ser guardada por seres humanos. Totalmente homem, Ele mesmo cumpriu perfeitamente os requisitos da Lei. Desde então, não existem dúvidas nos seres criados quanto à justiça e honestidade de Deus em requerer obediência. Em segundo lugar, se Deus requer perfeita obediência de todos aqueles que, como uma parte da última geração, devem estar preparados para se encontrar com Ele, é extremamente desencorajador não ter havido ninguém na História, exceto Jesus, que tenha alcançado um padrão perfeito.
É verdade que Deus requer perfeita obediência à Sua Lei. Ellen G. White afirma: “Deus requer inteira obediência a todos os Seus mandamentos. Ele requer agora, como sempre, perfeita justiça como o único título para o Céu”.1 Mas só existe um caminho para cumprirmos esse requerimento: aceitação de Jesus Cristo como nosso Salvador. “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efé. 2: 8 e 9). “No momento em que o pecador crê em Cristo, ele aparece à vista de Deus sem condenação, pois a justiça de Cristo torna-se sua; a perfeita obediência de Cristo lhe é imputada”.2 Somos então vistos por Deus não simplesmente como pecadores, mas como se nunca houvéssemos cometido pecado. “O caráter de Cristo substitui o seu caráter e você é aceito por Deus como se jamais tivesse pecado”.3
Não necessitamos temer o julgamento; pois Deus não olha para o que temos realizado, mas ao que Jesus tem feito e creditado a nosso favor. “Pela graça em Seu sangue, todos podem ser aperfeiçoados em Cristo Jesus. Graças a Deus por não estarmos lidando com impossibilidades. Podemos pretender santificação. Podemos fruir o favor de Deus. Não devemos estar ansiosos acerca do que Cristo e Deus pensam de nós, mas do que Deus pensa de Cristo, nosso Substituto”.4

“Sede perfeitos”

As palavras de Jesus, relatadas em Mateus 5:48, preocupam muitas pessoas: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. Que desafio! Ser perfeito como Deus o é. Ellen White, no entanto, explica este texto dizendo que “como Deus é perfeito em Sua elevada esfera de ação, assim o homem pode ser perfeito em sua esfera humana”.5
Deveríamos nós alcançar sempre esse alvo, um estado de total inocência? “Nossa vida pode ser perfeita em cada fase de desenvolvimento; contudo haverá progresso contínuo de o propósito de Deus se cumprir em nós. A santificação é obra de toda uma vida”.6
Se santificação é obra da vida inteira, nunca alcançaremos o alvo da perfeição, até o momento de nossa morte. Assim, enquanto a vida tem seu curso, devemos continuar crescendo em Cristo e movendo-nos em direção à santificação. “Cristo é o perfeito e santo exemplo, dado para nossa imitação. Não podemos igualá-Lo, mas não seremos aprovados por Deus se não O imitarmos e, de acordo com a habilidade que Deus nos tem dado, nos assemelharmos a Ele”.7 Todavia, por mais elevado que seja o alvo, não devemos ficar desencorajados, pois a cada ponto do caminho percorrido sob a justiça de Cristo, somos vistos como perfeitos e totalmente aceitáveis a Deus.
A palavra “perfeição”, como usada nas Escrituras Sagradas, poderia ser mais bem compreendida como maturidade. Assim, Deus nos convida a viver um processo de contínuo amadurecimento na experiência cristã, ao longo de toda a vida. “É nossa obra diária avançar rumo à perfeição do caráter, empenhando-nos continuamente na conformidade à vontade de Deus. Os esforços iniciados na Terra, continuarão na eternidade”.8

Perfeição e maturidade

Para melhor compreendermos o conceito de perfeição “em sua esfera”, atentemos para a ilustração que se segue. Minha esposa e eu temos uma linda netinha. Quando nosso filho telefonou para avisar-nos do seu nascimento, ele disse: “ela é perfeita”. E, de fato, era perfeitamente formada e normal. Era perfeita em sua esfera. Perfeita para seu estágio de desenvolvimento. Mas ela estava longe de ser uma pessoa definitivamente perfeita e amadurecida. Deus nos vê, quando estamos em Cristo, como perfeitos, embora nossos atos e performance estejam longe da perfeição definitiva. Exatamente como um bebê cresce e se desenvolve, aprende e amadurece, ao longo da existência, devemos também crescer e nos desenvolver, aprender e amadurecer espiritualmente enquanto vivermos.
Nossa neta mora distante de nós, e por isso não podemos vê-la tão freqüentemente quanto desejamos. Quando ela completou dois anos, veio visitar-nos, juntamente com seus pais. Breann, esse é o seu nome, não aprendera ainda a falar “vovó” e “vovô”. Não houve, de nossa parte, nenhum empenho para lhe ensinar a dizer qualquer palavra. Mas nos relacionamos com ela, enquanto todos nos chamavam “vovó” e “vovô”. Depois de uma semana juntos, tivemos que levá-la ao aeroporto, de onde partiria com seus pais de volta para casa. Enquanto acenávamos para eles, Breann olhou para mim, agitou a mãozinha e disse: “tchau vô”. Meu coração encheu-se de louvor e gratidão. Asseguro-lhes que essa indicação de reconhecimento e relacionamento foi totalmente aceitável para mim.
É isso que Deus espera de nós. Embora em qualquer estágio de nossa vida nossa performance não seja 100% perfeita, se estamos em Cristo, Ele nos aceita como se fôssemos perfeitos. E vê isso como um perfeito estágio em nosso desenvolvimento. O Senhor não gostaria de ver-nos hoje mais distantes da perfeição e da santificação do que estávamos vinte anos atrás. Mas, lembremo-nos de que nossa aprovação por Ele não é baseada em nosso crescimento espiritual; nosso crescimento espiritual é resultado de saber que temos sido aceitos por Ele.

Ausência de pecado

Seria, porém, perfeição um assunto de superar cada pecado conhecido na vida de alguém? Recentemente conversei com uma pessoa que garantia não haver pecado durante os dois últimos anos. Ellen G. White tem conselhos para indivíduos com tal pretensão: “Os que mais perto vivem de Jesus, mais claramente discernem a fragilidade e pecaminosidade do ser humano, e sua única esperança está nos méritos de um Salvador crucificado e ressurgido. . . . Quanto maior a distância entre ele e Cristo, e quanto mais impróprias forem suas concepções do caráter e requisitos divinos, tanto mais justo parecerá a seus próprios olhos”.9 Posteriormente ela afirmou: “Nenhum dos apóstolos e profetas declarou jamais estar sem pecado. . . . Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, e quanto mais claramente distinguirmos a pureza de Seu caráter, tanto mais claro veremos a excessiva malignidade do pecado, e tanto menos nutriremos o desejo de nos exaltar a nós mesmos”.10

Idéias diferentes

Qual a razão de existirem dois campos opostos entre os adventistas do sétimo dia a respeito da natureza de Cristo? Aqueles que adotam o ponto de vista chamado “histórico” ou “verdadeiro”, referem-se aos demais como defensores de uma “nova teologia” ou “heresia”. Numerosas publicações e ministérios independentes proclamam-se a “verdade” sobre o assunto. Ao mesmo tempo, o livro Questions on Doctrine, publicado em 1957, tem sido condenado pelos evangélicos como herético.
Por que a confusão? A Bíblia assegura que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a Sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1: 1 e 14). Sim, Jesus realmente tornou-Se um Ser humano, um membro de nossa raça. A Bíblia também parece defini-Lo como sendo sem pecado: “Já não falarei muito convosco, porque aí vem o príncipe do mundo; e ele nada tem de Mim” (João 14:30). Satanás não encontrou nada em Cristo que pudesse condenar. Pedro expressou a inocência de Jesus, referindo-se a Ele como “cordeiro sem defeito e sem mácula” (1 Ped. 1:19). O autor do livro aos Hebreus O identifica como santo e imaculado: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote, assim como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores, e feito mais alto do que os Céus” (Heb. 7:26).
Embora a Bíblia se demonstre clara a respeito da inocência de Cristo, algumas referências do Espírito de Profecia parecem apoiar a visão pré-lapsariana da Sua natureza.
“Não devemos ter dúvidas acerca da perfeita ausência de pecado na natureza humana de Cristo”11
“Devemos ser cuidadosos, extremamente cuidadosos sobre como tratamos a natureza humana de Cristo. Não devemos apresentá-Lo diante do povo como um homem propenso ao pecado. Ele é o segundo Adão. O primeiro Adão foi criado puro, inocente, sem uma mancha de pecado sobre si; era a imagem de Deus. Poderia falhar, e falhou ao transgredir. Em virtude do pecado, sua posteridade nasceu com propensões inerentes para a desobediência. Mas Jesus Cristo foi o unigênito filho de Deus. Ele tomou sobre Si a natureza humana, e foi tentado em tudo, como a natureza humana é tentada. Poderia haver pecado; poderia ter falhado, mas em nenhum momento houve nele qualquer tendência má. Ele foi assaltado por tentações no deserto, da mesma forma como Adão foi tentado no Éden.”12

A tentação de Cristo

Jesus, o “segundo Adão”, e perfeitamente inocente, foi tentado. De fato, Ele “foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Heb. 4:15). Assim, tornou-Se nosso exemplo perfeito. Foi tentado tão intensamente como nós o somos. “As seduções resistidas por Cristo são as mesmas que nós achamos tão difícil enfrentar. Elas O persuadiram num grau tão elevado quanto o Seu caráter é superior ao nosso”.13  Imaginemos a tentação de usar Seu poder divino para proteger-Se e satisfazer Suas necessidades. Quão grande deve ter sido a tentação de fugir da cruz! Nenhum de nós foi tão severamente tentado.
No capítulo intitulado “A Tentação”, do livro O Desejado de Todas as Nações, Ellen G. White descreve a grande tentação de Cristo. Atacando-O numa ocasião de debilidade física e emocional, Satanás tentou convencer a Jesus de que Ele não era realmente o Filho de Deus. Na verdade, ele tentou desesperadamente fazer prevalecer a idéia de que ele mesmo, Satanás, era o filho de Deus; e Jesus, o anjo caído. Podemos imaginar quão grande foi a tentação, em face da dúvida e da incerteza, para Jesus transformar as pedras em pães? Repito, nenhum de nós foi tão severamente tentado.

Pré-lapsariana ou pós-lapsariana?

Consideremos primeiro as seguintes citações de Ellen White a respeito da natureza humana, sem pecado, de Jesus Cristo.
“Jamais, por qualquer maneira, deixemos a mais leve impressão nas mentes humanas de que qualquer mancha, ou inclinação para corrupção, repousou sobre Cristo, ou que Ele produziu corrupção. . . . É um mistério que Cristo tenha sido tentado em tudo, como nós, e, todavia, seja sem pecado. A encarnação de Cristo sempre foi e permanecerá um mistério. O que foi revelado é para nós e nossos filhos, mas seja cada ser humano advertido do perigo de fazer de Cristo um ser humano como qualquer um de nós, pois isso não pode ser”.14
“Cristo é chamado o segundo Adão. Em pureza e santidade unido a Deus, e amado por Deus, Ele começou onde o primeiro Adão começou. Voluntariamente, Ele passou sobre o terreno onde Adão caiu, e redimiu a sua falha. . . . Em Sua natureza humana, Ele manteve a pureza de Seu divino caráter”.15
“Na plenitude do tempo Ele foi revelado na forma humana. Assumiu Sua posição como cabeça da humanidade por tomar a natureza, não a pecaminosidade do homem”.16
“Cristo não possui a mesma deslealdade pecaminosa, corrupta e decaída que nós possuímos, pois então Ele não poderia ser um sacrifício perfeito”.17
Depois de ler tais declarações, não podemos alimentar dúvida acerca da perfeita inocência da natureza humana de Jesus, e que Ele possuía a natureza de Adão antes da queda. Mas consideremos as referências seguintes, que parecem sugerir a posição pós-lapsariana—que Jesus assumiu a natureza pecaminosa do homem.
“Coberto com as vestes da humanidade, o Filho de Deus veio ao nível daqueles aos quais desejava salvar. Não havia nEle dolo ou pecaminosidade, Ele era eternamente puro e imaculado; todavia tomou sobre Si nossa natureza pecaminosa”.18
“Tomando sobre Si a natureza humana em seu estado decaído, Cristo não participou, no mínimo que fosse, do seu pecado. Era sujeito às debilidades e fraquezas que atribulam o homem”.19
“Ele tomou sobre Si a natureza humana, falha, sofredora, degradada e definhada pelo pecado”.20
“Já teria sido quase uma infinita humilhação para o Filho de Deus tomar a natureza humana, mesmo quando Adão permanecia em sua inocência no Éden. Mas Cristo aceitou a humanidade quando a raça humana encontrava-se debilitada por quatro mil anos de pecado. Como cada filho de Adão, Ele aceitou os resultados do trabalho da grande lei da hereditariedade.21
“Não foi uma imitação de humanidade que Cristo tomou sobre Si. Ele tomou a natureza humana e viveu a natureza humana.  . . . Ele tomou nossas enfermidades. Ele não apenas Se fez carne, mas foi feito à semelhança  de carne pecaminosa”.21
A expressão “à semelhança de carne pecaminosa” às vezes apresenta dificuldades. Alguns dizem que seu significado é que Ele tomou a forma e a natureza que apenas “pareciam” carne pecaminosa. Outros insistem em que Ele assumiu exatamente a forma e a natureza de nossa carne pecaminosa. Paulo diz: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fil. 2:5-8).
A frase “em semelhança” é traduzida da expressão grega en homoiomati. Esse termo é usado em Romanos 1:23—“e mudaram a glória de Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis”—, e 8:3 que afirma: “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Cristo enviando o Seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado, e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado”. Significa, porventura, o termo en homoiomati exatamente a mesma coisa, todas as vezes? Em caso afirmativo, de acordo com Rom. 1:23, os descrentes literalmente trocaram “a glória do Deus incorruptível” numa imagem de homem corruptível, aves, animais selvagens e cobras. Obviamente tal conclusão é um erro.
Mas, como podemos compreender os dois tipos de declarações de Ellen White, que parecem ser opostos entre si? Contradiz-se o Espírito de Profecia? Era Ellen White ignorante quanto aos fatos? Se a resposta a qualquer dessas duas indagações é “sim”, nós nos encontramos numa luta desesperada.

Possível solução

Eu gostaria de sugerir uma solução possível para o aparente dilema. Embora Ellen White tenha usado o termo “natureza humana” ao referir-se aos aspectos da humanidade de Jesus, talvez alguns termos e definições diferentes ajudem a clarear o assunto. Possivelmente, em seus dias este não era um assunto que suscitasse grandes preocupações, ou, quem sabe, a expressão “natureza humana” fosse compreendida de maneira diferente.
É possível que quando Ellen White se referia à natureza humana, sem pecado, de Cristo, ela estivesse falando de Sua natureza espiritual, isto é, Seu relacionamento com Deus o Pai? Ele não nasceu com traços de culpa ou más tendências, como um herdeiro de Adão. Nasceu num estado puro, imaculado e sem pecado, tal como Adão era quando saiu das mãos do Criador. Não seria o caso, ainda, de que quando ela falava da natureza humana “pecaminosa”, de Jesus, estivesse se referindo à Sua condição física, ou seja, fraquezas físicas que são resultado da devastação causada pelo pecado na raça humana? Ele sentiu cansaço, dor, forme e sede. Necessitou comer e repousar. Desejou simpatia humana e divina assistência. Estava sujeito à morte. Suas circunstâncias, tanto quanto Sua condição física, eram as mesmas de Adão após a queda. Na realidade, eram muito piores, pois Ele juntou-Se à raça humana depois que esta se tinha enfraquecido por quatro mil anos, desde a entrada do pecado no mundo.
Notemos como esses conceitos estão presentes nas declarações seguintes: “Ele tomou sobre Sua natureza sem pecado, nossa natureza pecaminosa, para que pudesse saber como socorrer aqueles que são tentados”.23
“Ele era isento de corrupção, um estranho ao pecado; todavia Ele orava, e isso freqüentemente com fortes clamores e lágrimas. Orava por Seus discípulos e por Si mesmo, identificando-Se assim com nossas necessidades e nossas fraquezas, e falhas tão comuns à humanidade. . . . Ele foi um poderoso suplicante, não possuindo as paixões de nossa falível natureza humana, mas circundado por semelhantes fraquezas, tentado em todas as coisas, como nós”.24
“A natureza humana de Cristo era semelhante à nossa, e o sofrimento foi mais agudamente sentido por Ele; por Sua natureza espiritual estava livre de cada mancha de pecado. Portanto, Seu desejo para remover o sofrimento era mais forte que seres humanos podem experimentar”.25
“Por quatro mil anos a raça tem decrescido em força física, em poder mental, e valor moral; e Cristo tomou sobre Si as enfermidades da humanidade degenerada”.26

Inocência e propensão

Tim Poitier, do White Estate, numa monografia intitulada A Comparison of the Christology of Ellen G. White and Henry Melvill [Uma Comparação da Cristologia de Ellen G. White e Henry Melvill], trata deste assunto. Ele demonstra como Ellen G. White deve ter usado algumas terminologias de Melvill, ao expressar sua visão (dada por Deus) da natureza de Cristo. Henry Melvill foi um pregador inglês popular no século dezenove, um contemporâneo de Ellen White. Melvill identifica duas conseqüências primárias da queda da raça humana. São elas: “fraquezas inocentes” e “tendências pecaminosas”. Por fraquezas inocentes ele apresenta coisas como dor, fadiga, fome, sede, tristeza e morte. Tais coisas, ele diz, são conseqüências da culpa, mas são livres de culpa. O pecado produz dor, mas dor não é pecado.
Ao referir-se às tendências pecaminosas, ele fala das propensões humanas e inclinação para o pecado. Melvill então torna claro que, antes da queda, Adão não possuía nem fraquezas inocentes nem tendências pecaminosas, mas após a queda passou a ter ambas. Cristo, no entanto, segundo ele, tomou sobre Si as fraquezas inocentes, mas não as tendências pecaminosas.
Poderíamos, então, concluir que a natureza humana de Cristo não era nem pré-lapsariana nem pós-lapsariana, mas ambas? Ele era perfeitamente sem pecado, como era Adão antes da queda. A isso nós podemos nos referir como sendo Sua natureza espiritual. Mas Ele teve as fraquezas inocentes que todos nós possuímos, como resultado da queda. A isso podemos nos referir como sendo sua condição humana.
Graças a Deus, Ele tornou-Se humano e viveu uma vida perfeita para deixar-nos um perfeito exemplo. E graças a Deus, Ele foi perfeitamente sem pecado, digno de ser nosso perfeito sacrifício.

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Referências

 1. SDABC, vol. 6, pág. 1072.
 2. Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã, pág. 429
 3. ------------------, Caminho a Cristo, pág. 62.
 4. ------------------, Mensagens Escolhidas, liv. 2, págs. 32 e 33.
 5. ------------------, Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, pág. 365.
 6. ------------------, Parábolas de Jesus, pág.  65.
 7. ------------------, Testimonies, vol. 2, pág. 549.
 8. ------------------, Ibid., vol. 4, pág. 520.
 9. ------------------, O Grande Conflito, págs.  471 e 473.
10. ------------------, Atos dos Apóstolos, pág. 561.
11. ------------------, Mensagens Escolhidas, liv. 1, pág. 256.
12. SDABC, vol. 5, págs. 1128 e 1129.
13. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 116.
14. SDABC, vol. 7, pág. 912.
15. Ellen G. White, My Life Today, pág. 323.
16. SDABC, vol. 7, pág. 912.
17. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, liv. 3, pág. 131.
18. ------------------, Review and Herald, 15/12/1896.
19. ------------------, Mensagens Escolhidas, liv. 1, pág. 256.
20. SDABC, vol. 4, pág. 1147.
21. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 49.
22. SDABC, vol. 5, pág. 1124.
23. Ellen G. White, Medical Ministry, pág. 181.
24. ------------------, Testimonies, vol. 2, págs. 508 e 509.
25. SDABC, vol. 7, pág. 921.
26. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 117.

[Transcrito de Ministério, julho/agosto de 1995, págs. 15-20]
* O autor era presidente da Associação do Arizona, nos Estados Unidos quando escreveu este artigo.
Adendo

       Outra possível solução para essa evidente tensão nos escritos de Ellen G. White a respeito da natureza de Cristo poderia ser o que constou da matéria “Ellen G. White e Declarações ‘Científicas’” [no. 41 de nosso “Catálogo” de temas], exatamente onde se aborda a problemática questão teológica do “perfeccionismo” no seio do adventismo:

. . . a Sra. White não percebeu as sementes do panteísmo nas prédicas de Waggoner e Jones, aos quais emprestou o irrestrito apoio, com eles realizando muitas viagens de pregação. Alguns de seus livros contêm várias das idéias de Waggoner e Jones, especialmente sobre a natureza de Cristo, como o Parábolas de Jesus, O Desejado de Todas as Nações, Testemunhas Para Ministros, etc. Isso parece comprovar as afirmações de seu próprio esposo, numa carta a um companheiro de ministério que expressava dúvidas sobre a natureza sobrenatural de suas visões. Segundo Tiago White, a Sra. White era facilmente influenciada por outros com quem convivia! Eis um trecho da referida carta, onde também critica elementos da liderança denominacional:

Creio que minha esposa foi mais severa do que o Senhor realmente requeria ser em alguns casos. Satanás tem tirado grande vantagem. . . . Por favor, veja a posição em que a coloca em suas declarações feitas sobre sua descrença, que não alterou. Ela dificilmente poderia sentir-se livre para reunir-se com o irmão sem que algo de sua parte a ajudasse em seus sentimentos. Ela não faz exigências de sua parte quanto a essa questão. Eu falo disso sem o conhecimento dela. Ela é frágil e deve ser tratada com delicadeza, ou nada pode fazer. Os Prs. Butler e Haskell têm tido uma influência sobre ela que espero ver interrompida. Isso quase a tem arruinado. Esses homens não devem ser suportados pelo nosso povo para agirem como têm agido a ponto de quase todos os nossos ministros desanimarem quase inteiramente. Os jovens são mantidos fora do ministério pela atitude estreita e cega deles.

Noutra correspondência ao mesmo pastor, ele continua:

“A pressão tem sido terrivelmente dura sobre minha pobre esposa. Ela tem sido muito influenciada pelos Prs. Butler e Haskell. . .” (Citado em The Case of D. M. Canright [O caso D. M. Canright], por Norman F. Douty, pp. 77 e 78).
 Portanto, a explicação para as declarações conflitantes, ora na linha ‘pré-lapsariana’, ora na ‘pós-lapsariana’, seriam as influências sob as quais ela estaria atuando, segundo fica implícito neste documento virtualmente desconhecido da comunidade adventista: num momento estaria sendo influenciada por Ellet J. Waggoner e Alonzo T. Jones, noutro  por Henry Melvill ou outros autores cristãos de posição mais ortodoxa. .  .  .
Ela se havia queixado de que não se pregava devidamente sobre justificação pela fé na IASD. Quando Waggoner e Jones se propuseram expor o tema, Ellen G. White se encheu de entusiasmo pelo empenho deles, tão necessário à pregação adventista, caracterizada por uma aridez, como lamentou                                 ela, “até que ficamos tão secos como os montes de Gilboa, que não recebem nem chuva nem orvalho” (Review and Herald, 13/8/1889). Entretanto, não sendo teóloga, Ellen G. White não percebeu os escorregões teológicos de ambos esses pregadores, que terminaram fora da igreja acatando o panteísmo, noção que de fato estava embutida na sua prédica, como David P. MacMahon demonstra no seu livro Waggoner, the Myth and the Man [Waggoner, o mito e o homem], (ver artigo no. 36 de nosso “Catálogo”, “Waggoner em Retrospecto”, que reproduz  o capítulo final dessa esclarecedora obra, adicionado de outros trechos do livro).
Enfim, é uma explicação tentativa para que não fiquemos “numa luta desesperada”, como sugere o autor do artigo acima transcrito. Alguém teria melhor explicação? Estaremos dispostos a divulgá-la, se for bem fundamentada em fatos.


Professor Azenilto G. Brito
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