Leis Dietéticas das Escrituras—O Que Dizem Pesquisadores Sérios a Respeito 3
 

9a. pergunta dirigida ao Dr. Gerhard Hasel: O que nos diz das palavras de Marcos 7:19 de que Jesus teria purificado todos os alimentos?

RESPOSTA: Esta questão merece uma investigação em ampla escala, que não pode ser realizada aqui. Restrigimo-nos a algumas poucas observações essenciais. Há somente uma passagem no Novo Testamento em que se atribui uma declaração de Cristo que requer mais detida atenção. Uma breve sentença em Mar. 7:19 é colocada entre parênteses em traduções em inglês, e freqüentemente vertida, “Assim Ele declarou todos os alimentos puros” (NASB). Uma discussão se desenvolverá quanto a ser essa uma genuína declaração de Jesus.[91]

Tanto a tradução quanto o significado dessa cláusula são altamente debatíveis, pelo que se deduz de um rápido exame de comentários bíblicos. As palavras “assim Ele”, que na verão NASB consta em itálico, indica que a construção participial grega é ambígua, não tendo conexão sintática direta. Isto por si só já constitui um sério problema. A tradução fornecida na NASB torna o particípio masculino (katharizôn, lit. “purificando”) dependente de “ele diz” (légei) no vs. 18. É isso justificável?

Um número de competentes comentaristas vê a conexão sintática em forma diversa, ou seja, como um anacoluto pelo qual se tira a conclusão óbvia de que o processo digestivo normal “purifica todos os alimentos”[92] Ainda há Matthew Black que toma o termo “alimento” (brómata) como singular e o particípio precedente “purificando” (katharizôn) como um passivo. Ele verte a sentença “pois não entra em seu coração, mas em sua barriga, assim sendo, todo o alimento lançado fora é purificado”.[93] Nesse caso Jesus nada disse segundo a NASB e outras traduções semelhantes apresentam. Por estas alturas torna-se óbvio que tais divergências de opinião demonstram que essa pequena sentença não é tão facilmente entendida quanto parece. Se algumas das sugestões referidas estão corretas, então a sentença nada teria a ver com Jesus declarar todos os alimentos puros. Faz-se necessária cautela com esta sentença, sua relação sintática e significado.

A segunda observação diz respeito à leitura variante de Mar. 7:19 nos manuscritos gregos. Uma nota de rodapé na Bíblia de Jerusalém sobre esta cláusula problemática no vs. 19 declara que “a cláusula (possivelmente uma glosa) é obscura e interpretada de maneiras variadas”.[94] Além das razões já declaradas acima, há quatro formas diferentes para a palavra grega “purificar” numa grande variedade de manuscritos gregos, cada uma conduzindo a um significado diferente da difícil cláusula.[95] Essa é a razão para a VKJ (King James) de 1611 trazer “purificando todos os alimentos” nessa disputada sentença. Tal tradução é apoiada pela forma como aparece no Textus Receptus do particípio neutro katharizon, “purificando”, que se entende modificar a sentença “tudo quanto vai para dentro a partir de fora (pan to exothen eisporeuomenon) do vs. 18.[96]

Conquanto mais e mais traduções recentes vertam esta cláusula problemática como “assim Ele declarou puros todos os alimentos”,97] de modo algum há qualquer certeza de ser esse o sentido real da cláusula. . . . Literalmente os termos gregos “katharizôn panta ta bromata” significa “purificando todos os alimentos”. Em vista desses destacados problemas textuais, não seria sábio a um estudante sério da Bíblia concluir ser certo (1) que Jesus é que está falando, e (2) que a sentença signifique com certeza que Ele declarou todos os alimentos puros, e assim comestíveis.

Nossa terceira observação diz respeito à questão do que Jesus quereria dizer com esta sentença, se a tradução da NASB (e outras) devesse ser acatada, e se Ele de fato dissesse algo em tais termos. Aqui um breve comentário da palavra “alimentos” (brómata) pode ajudar. Marcos 7:19 aparece no contexto mais amplo da controvérsia de Jesus concernente às regras rabínicas quanto a alimentos (Mar. 7:3-5). Dentro desse contexto, a idéia de animais imundos nem caberia no sentido de “alimento” porque animais imundos não eram considerados “alimento” por um judeu fiel nos dias de Jesus.

Uma quarta consideração também seria aqui apropriada. Acaso Mar. 7:1-23, do qual o vs. 19, com a alegada declaração de Jesus faz parte, trata da distinção de alimentos puros/imundos de Levítico 11 (e Deuteronômio 14), ou com a distinção de puro/imundo das abluções rituais rabínicas, ou seja, as tradições dos anciãos? Se a resposta for a última opção e o contexto mais amplo aponta nesse rumo, então a suposta declaração de Jesus nada tem a ver com as leis dietéticas de Levítico 11 e Deuteronômio 14.

Contra o quê está Jesus argumentando dentro do contexto mais amplo de Marcos 7—as leis dietéticas do Pentateuco dadas por Deus, ou a lei oral (halacha) acrescentada às leis de Deus pelos rabinos? É importante considerar a passagem completa de Mar. 7:1-23 e evitar operar segundo uma metodologia de crítica textual atomística, por separação de pequenos segmentos.

Marcos 7:2-5 claramente indica que a questão em debate é a “tradição dos anciãos” (v. 3), e que os discípulos comiam alimentos sem observar os regulamentos rabínicos apropriados quanto a lavar as mãos, segundo uma tradição humana em particular, tornando os alimentos puros em impuros, no ato de comê-los, por não terem lavado as mãos segundo a maneira prescrita.

Nos vs. 7-10 Jesus reitera a lei de Deus e a contrasta com a “tradição dos homens” (v. 8), indicando que Ele mantém a lei de Deus, até referindo-se a Moisés num sentido positivo nos vs. 7 e 10.

Destarte, Jesus não vai de encontro à lei divina, e sim contra a tradição dos homens. Joachim Jeremias assinala que a declaração-chave de Jesus no vs. 15 “não significa uma anulação de todos os regulamentos da Torah com respeito a alimentos limpos e imundos,98] mas que Jesus nega a halacha de pureza rabínica”.[99] C. E. B. Cranfield também alega que no contexto de Mar. 7:1-13 Jesus “está tomando o partido da lei escrita contra a lei oral [halacha]”.[100] Esses estudiosos mantêm que Mar. 7:1-23 não devia ser separado, que a passagem completa que conclui no vs. 23 é o contexto apropriado para o vs. 19. Essa posição parece contextualmente válida. William H. Lane comenta, com respeito a Mar. 7:19: “Jesus não tem intenção de negar que as leis de purificação ocupam um lugar significativo no código mosaico (Lev. 11:1-47; Deut. 14:1-20) nem pretende desviar-Se da dignidade dos homens que sofreram morte, antes que violar a lei de Deus no que tange a alimentos puros (I Mac. 1:62ss). Em vez disso, Ele impressiona-lhes a mente com o reconhecimento de que a última instância de pureza ou contaminação perante Deus é o coração”.[101]

Esses intérpretes demonstram, com base no contexto, que é inapropriado concluir que Jesus desfaz a distinção de puro/imundo nas leis dietéticas da Torah. Este ponto de vista é respaldado ainda com o texto paralelo de Mat. 15:1-20 em que a declaração de Mar. 7:19 não aparece. O debate em Marcos é contra a “tradição dos homens”, as leis rabínicas de pureza que prescreviam como as mãos deviam ser lavadas antes de comer, a fim de que a pessoa não se contaminasse ritualmente quando comendo. Se a cláusula problemática do vs. 19 devesse ser entendida como se Cristo declarasse que todos os “alimentos” eram ritualmente puros, então Ele contextualmente declararia apenas que o comer alimentos com mãos “ritualmente imundas” (vs. 5), segundo tradições rabínicas, não implicaria em regra a Seus seguidores. Jesus não removeu a distinção de animais limpos/imundos de Levítico 11 (e Deuteronômio 14) como o contexto torna claro, e como a palavra “alimentos” (brómata) no grego indica. O último termo nunca é empregado para distinguir alimento derivado de animais puros/imundos em comparação com outros tipos de alimentos.[102]
[Conclui no próximo quadro]
Prof. Azenilto G Brito
 

Professor Azenilto G. Brito
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