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Que Quer Dizer “Justificar”?

Geoffrey Paxton
       Que quer dizer o Novo Testamento por “justificar”? Todos estão de acordo com o fato de que a justificação é de Deus, mas nem todos estão de acordo com o significado preciso da justificação. A forma mais direta de expressar o problema é esta: “Justificar” significa “declarar justo” ou “tornar justo”? Isto é, a justificação corresponde a um evento externo à pessoa justificada—uma justificação “fora de mim”—ou é algo que ocorre “dentro” da pessoa justificada?
        Alguns recusam aceitar as alternativas “uma ou outra” aqui apresentadas. Em sua maneira de pensar, Deus declara justa a pessoa, mas a torna, ao mesmo tempo, justa; o ato de Deus justificar é simultaneamente um ato “fora de mim” e “dentro de mim”. Logicamente bater-se por “uma ou outra” na questão da justificação, não é, como veremos mais adiante, sugerir que nada sucede dentro do crente. Tudo com que insistimos aqui é que a justificação é uma de duas coisas—“a declaração de” ou “a criação de”; o que não é ambas as coisas, uma declaração e uma criação.
        “Justificar” significa o mesmo que “declarar justa” uma pessoa que, em si mesma, não é outra coisa senão injusta. De fato, a pessoa justificada, em si mesma está cheia de podridão e é repugnante à santidade verdadeira. A justificação é inteira e completamente objetiva. A expressão “justificar” não significa “tornar justo” mas “declarar justo”, “confirmar como justo”. A razão por que não se pode dizer que “justificar” significa “tornar justo” não é pelo fato de o crente já ser justo, mas porque Outro já é inteiramente justo em seu favor—a saber, o Filho de Deus. “Justificar” é um ato de Deus baseado numa justiça perfeita, não um ato de Deus que produz uma justiça perfeita.
Quatro razões a considerar
 
        Quais são as razões tomar esta posição? Em primeiro lugar devemos consultar as Escrituras.

        1. A justificação no Novo Testamento é (a) a justificação do perfeitamente Justo e (b) a justificação do ímpio, ou pecador. Quando se fala da primeira justificação, o Justificado é (1) perfeito Deus e (2) perfeito Homem. A justificação do perfeitamente Justo, quando é a justificação do perfeito Deus, é mencionada em Lucas 7:29: “Todo o povo O ouviu, e até os publicanos, reconheceram a justiça de Deus. . . .” A New International Version capta a força disto dizendo: “. . .reconheceram que o caminho de Deus era correto”. A justificação do perfeito Deus é a declaração (não o tornar) da justiça de Deus.
        A justificação do perfeitamente Justo, quando é a justificação do perfeito Homem, é mencionada em 1 Tim. 3: 16: “Aquele que foi manifestado em carne, foi justificado no Espírito. . .”. De acordo com o Expositor's Greek Testament (Vol. 4, pág. 118), esta justificação se efetuou “sobre uma revisão da totalidade da Vida Encarnada”. Indiscutivelmente, Cristo foi o Justo (Atos 3:14; 22:14; 1 João 2:1). Cristo foi declarado justo, não tornado justo.
A justificação do perfeito Deus (Luc. 7:29) e do perfeito Homem (1 Tim. 3:16) é em ambas as ocasiões a declaração, não a criação de justiça.
       E que dizer da justificação do homem imperfeito, ou do pecador? Obviamente se conservamos em mente que a justificação é a justificação do ímpio, resultará impossível pensar nisso como da criação de justiça. Se assim não fosse, a justificação já não seria a justificação do ímpio. Contudo, assim é exatamente como o Novo Testamento a ela se refere. Romanos 4:4, 5 fala explicitamente da justificação do ímpio e da justificação como coerente em que Deus não nos considera nossos pecados contra nós. Ademais, deve-se reconhecer que quando Paulo fala da justificação à parte das obras da lei, ele está falando de uma  justificação à parte de uma  conformidade positiva com as demandas da lei; isto é, santidade em pensamento e obra (Rom. 3:20-28; Gál. 2:16; 3:11; 1 João 2:2). Esta é a justificação daqueles que não possuem santidade em, nem por, si mesmos; que não têm uma  conformidade pessoal com as demandas positivas da lei.

        2. O verdadeiro significado da justificação pode derivar de sua antítese no Novo Testamento. O oposto de “justificar” não é “depravar”, mas “condenar”. Se “justificar” significasse “tornar santo” seu oposto seria “tornar ímpio”. Todavia, se “justificar” significa “absolver” logo, o seu oposto seria “condenar”. E esta é exatamente a situação. De acordo com Paulo, o oposto de “justificar” é “condenar”, e partindo do contexto de Romanos 5: 12 em diante, fica claro que a antítese é uma, entre condenação e justificação, e não entre “corromper” e “tornar justo”. Daí que “porque o julgamento derivou de uma só ofensa [de Adão], para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação”. Rom. 5: 16. E Romanos 5: 18 declara: “Assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. . .” Esta ênfase é o que governa a forma como devemos entender Romanos 5: 19: “Porque, como pela desobediência de um homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos”.
       A propagação de uma  natureza corrupta desde nosso pai Adão é uma correta verdade bíblica e teológica, mas nesta passagem não é a ênfase de Paulo (comparar com Rom. 5: 12 em diante). Sua ênfase é esta: Devido a nossa ligação com Adão, o que resulta judicialmente é a condenação. Não obstante, dada a nossa ligação com Cristo o que procede judicialmente é a justificação. Assim como a condenação não significa “tornar mau”, de igual forma a justificação não significa “tornar bom”.
        Considerando a antítese de “justificar” (“condenar”) podemos ver que “justificar” significa “absolver” e não “tornar justo”. As expressões usadas nas passagens bíblicas revelam que são derivadas, não da operação de purificar a alma ou de infundir justiça nela, mas do procedimento das cortes em seus julgamentos, ou de pessoas ofendidas em seu perdão junto aos ofensores (comparar com Rom. 8:33, 34).

        3. Ao determinar o verdadeiro significado bíblico de justificação, um exame das expressões equivalentes demonstra que elas comunicam a mesma idéia que no sentido jurídico de “justificar” e de “justificação”. [Ver Deut. 25:1; Prov. 17:15].
Em João 3:18, a recompensa de crer não é a purificação (conquanto verdadeiramente esta a siga) mas a não-condenação; ou seja, absolvição ou justificação. De igual forma, diz-se que ouvir a palavra de Jesus e crer Nele (João 5:24) traz, não a liberdade da corrupção, mas a liberdade da condenação em juízo.
        Quiçá a passagem que mais claramente apresente o significado de um equivalente da justificação é 2 Coríntios 5: 19-21. No verso 19 é explicada a obra de reconciliação, não de como purificar os homens de seus pecados, mas de como “não imputando aos homens as suas transgressões”. A justificação é a não imputação do pecado. O verso 21 estabelece claramente: “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós, para que Nele fôssemos feitos justiça de Deus”.
        Em que sentido foi Cristo feito pecado? Por imputação ou por comunicação? Contando-o ou reconhecendo-o como pecador, o tornando-o um pecador? Pode haver só uma resposta a fazer justiça à evidência bíblica: Cristo foi feito pecado por imputação, não por comunicação, tendo nosso pecado sobre Si, não em Si! De igual modo, podemos perguntar como somos feitos justiça de Deus em Ele. A resposta é a mesma. Somos feitos justiça de Deus por imputação, não por comunicação. Somos tratados como se fôssemos justos e não porque somos justos em nós mesmos de fato. Cristo foi tratado como pecador porque veio e tomou nosso lugar e nós tratados como justos porque, mediante a fé, nos apropriamos de Sua sorte.

        4. Falar da justificação, no sentido de “tornar justo” é dar à justificação o mesmo significado que a santificação tem na maior parte das Escrituras. A justificação e a santificação chegam a ser sinônimas, ambas significando “tornar santo”. O que nas Escrituras tem o sentido de uma libertação externa da sentença do pecado (justificação) é mudado para algo que significa uma liberação interna do poder do pecado (santificação). Esta é a posição oficial da Igreja de Roma. O que a Bíblia ensina como um processo judicial, Roma transformou na infusão de uma  qualidade. Contudo, um processo judicial e a infusão de uma  qualidade são coisas verdadeiramente diferentes! O Concilio de Trento, e alguns de seus devotos que o seguiram, caíram no terrível erro de fazer com que uma figura represente duas coisas inseparáveis, porém bastante diferentes—perdão (liberdade da pena do pecado) e renovação (liberdade do poder do pecado). O Concilio declarou que a justificação consiste em ambas as coisas: a remissão e a renovação interna.
        Roma tem falado assim: Quando se leva a cabo a justificação, quer isto dizer que nada sucede no crente? A resposta a esta pergunta é—Não! Logo, diz Roma, se também algo sucede dentro do crente, por que fazer com que a justificação se refira somente à realidade externa?
        Nossa resposta a isto é que a realidade tida em mente deve corresponder à figura empregada. Entender a justificação como incluindo a conseqüência necessária da santificação é como tomar a expressão figurada do “pé de um monte” para que signifique tanto a base como o cume da montanha. Não se pode separar a base do cume, mas não se deve usar a figura do pé para incluir, ao mesmo tempo, o cume. Tal como o pé e o cume da montanha são inseparáveis, assim também a justificação e a santificação são inseparáveis. Sem embargo, tal como se deve distinguir entre o pé da montanha e seu cume, assim se deve distinguir entre a justificação e a santificação. Ainda assim, porém, tal como não se inclui necessariamente o cume da montanha quando alguém se refere a seu pé, não se necessita referir necessariamente à santificação quando se fala da justificação.
        Bem pode ser que pelo interesse de enfatizar que a justificação é totalmente fora de uma pessoa, não dando suficiente ênfase à obra interior do Espírito, os protestantes tenham ajudado (conquanto sem querer) Roma em seu erro. Não obstante, confundir o que deve ser distinguido é tão mau quanto dividir o que é inseparável.
        Em suma: Afirmamos o significado de “justificar” como “declarar justo” e não “tornar justo”. Consideramos o significado da palavra, a antítese de “justificar”, algumas expressões equivalentes e a distinção necessária entre a justificação e a santificação.

[Extraído de Pregonero de Justiça, Vol. 4, nº 4, págs. 13-17; Editor: Richard Marin]



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     Exposição didática sobre o importante tema da justificação pela fé que nesta época caracterizada pela superficialidade e subjetivismo teológico deveria empolgar os cristãos modernos, como empolgou o mundo cristão ao tempo dos pais da Reforma Protestante. Trata-se de uma seqüência ao artigo, “Para Entender Justificação Pela Fé”, de autoria do autor, transcrito em seu livro O Desafio da Torre de Vigia.

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