SER CRISTÃO NÃO É SER ALIENADO

Prof. Azenilto G. Brito
         “Se Cristo virá em breve, devemos é ficar à espera Dele sem envolvimento com nada deste mundo”. Assim pensam muitos que têm o cristianismo como regra de vida, entendendo que o papel do filho de Deus na sociedade é advertir o próximo sobre o fim dos tempos, praticar a caridade de vez em quando em favor de alguns que estão mais próximos e, sobretudo, “guardar-se incontaminado do mundo”.
        Em conversa com alguém que assim pensa, ouvi a seguinte declaração: “Democracia! Está vendo? O próprio nome já diz que é um regime do demônio!” Ignorava o fato de que demos em grego significa povo. Portanto, a etimologia da palavra “democracia” não tem parte alguma com “demônio”, como imaginava  ingenuamente, e sim com “povo”--governo do povo.
        Outro me declarou: “Por uma questão de princípios eu não voto em ninguém”. Pensando estar a proferir uma verdadeira pérola do pensamento universal, mal imaginava esse bem intencionado cristão que se aquela era uma “questão de princípios”, representava, na verdade, o princípio do caos. Pois se todos pensassem e agissem como ele, teríamos uma sociedade acéfala, sem legisladores e governantes para regular a vida social, exatamente o que não é a intenção divina à luz de Romanos 13:1-7.
        Segundo o raciocínio desses “apolíticos”, uma vez que o diabo domina os interesses humanos, os cristãos nada têm a ver com a direção desta sociedade, devendo tão só participar dela como cidadãos que obedecem às leis civis e pagam os impostos regularmente. Não terão  qualquer atuação à frente de um governo, e estarão preocupados apenas em pregar o evangelho e esperar o fim deste sistema de coisas. Afinal, como acentuava certo livro doutrinário que defende tais posições, o motivo da atitude “apolítica” é que “o governo por Deus é a única solução real para os problemas da humanidade”.
        É indiscutível que o governo que resolverá todos os problemas humanos é aquele que terá à frente o próprio Dirigente Máximo do Universo. Contudo, devemos recordar que não só na administração pública e na política se manifesta o senhorio do príncipe das trevas. Que dizer do comércio, da indústria, das profissões liberais, das artes, da educação. . . ? Tudo neste mundo está corrompido e em tudo a atuação dos “principados e potestades” é  notória. Que  fazer? Seria a solução fugir para o deserto e viver como eremitas afastados de tudo e de todos? Foi essa a atitude de Cristo?
        Na verdade, a Bíblia está repleta de exemplos de homens de Deus que tiveram atuação política destacada, à frente de governos até mesmo pagãos. E nessa condição é que trouxeram grandes benefícios ao povo de Deus e à população em geral. Poderíamos começar  por José, no Egito, passando por Daniel, Ester, Mardoqueu. . .  Aliás, talvez  seja supresa para alguns,  mas na Bíblia encontramos até mesmo a figura do “cabo eleitoral”--homens de Deus que se empenharam para que outros alcançassem o poder:  Mardoqueu trabalhou em favor da “eleição” da sobrinha Ester como Rainha; Daniel logo após ser “eleito” pelo rei Nabucodonosor--único “eleitor” no sistema então vigente--trabalhou pela ascenção ao poder de seus amigos Sadraque, Mesaque e Abdênago, (cf. Dan. 2: 48,  49).
        É interessante observar que nem Daniel, nem José, ao serem designados para seus cargos políticos, alegaram não poderem fazê-lo por convicções religiosas. Pelo contrário, assumiram de bom grado suas posições e foram uma bênção para a sociedade. Logo, nem José, nem Daniel, se enquadraria no sistema desses cristãos “apolíticos”.
        O profeta Isaías não parecia compartilhar desta opinião de alienação e alheamento ante os desafios sociais. Em vez disso, alçou  sua voz profética denunciando: “Ai daqueles que decretam leis injustas. . .” “Ai dos que juntam casa a casa e terra a terra, até se tornarem os únicos moradores sobre a terra. . .” (cap. 10:1; 5:7,8). No Novo Testamento,  encontramos o apóstolo de Jesus Cristo,  Tiago, denunciando a exploração do homem pelo homem--cristãos contemporâneos que entesouravam para os seus “últimos dias” às custas de retenção dos salários dos humildes (Tiago 5:1-5).  Não se tratariam  de discursos de clara condenação aos maus legisladores, à injustiça social e à prática do “capitalismo selvagem” do  tempo  tanto do profeta quanto  do apóstolo? Estariam os modernos profetas e  apóstolos  de Jesus  Cristo dispostos a cumprir tarefa penosa  semelhante?
        João Batista não foi nada passivo ante a corrupção dos políticos da época. Ao pregar no deserto, bradou contra os líderes do povo  (vereadores, deputados, senadores de então?): “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” É verdade que sua “militância” o levou longe demais: perdeu literalmente a cabeça ao confrontar a corrupção moral de Herodes. Mas não diz  a Bíblia que o caminho do verdadeiro cristianismo é estreito, cheio de perigos e ameaças? Talvez por preferirem o caminho largo da omissão e alheamento às delicadas questões sócio-políticas é que muitos se escondem atrás de uma imagem de cristãos “consagrados” e fiéis, desinteressados por esses problemas do “mundo”.
        O próprio Cristo não ficou sem mandar um recadinho nada diplomático a um conhecido governante corrupto, Seu contemporâneo: “digam àquela raposa. . .” No seu sermão profético, onde indica os sinais do fim, Jesus jamais dá a entender que o cristão deve cruzar os braços e esperar que o milagre e a solução final dos problemas venham do céu, sem nenhuma atuação no seio da sociedade para aprimorá-la e aliviar a sorte dos  sofredores e  oprimidos (com os quais, aliás, se identificou cf. Lucas 4:18-21). Ele concluiu o eloqüente sermão definindo os que estariam em condições de recebê-lo, em contraste com os que não se qualificarão para tanto (ver Mateus 25:31-46). E isso tem que ver com solidariedade humana, enfim, a prática da religião verdadeira (ver Tiago 1:27), o que não significa necessariamente uma atitude pietista, de mero “aprimoramento espiritual”. Por sinal, ao tempo de Isaías havia muitos que julgavam que a religião verdadeira consistia em apenas jejuar e orar. Imaginavam estarem dessa forma se preparando adequadamente para a “breve” vinda  do Messias. O Senhor, porém, revelou-lhes que o Seu interesse maior estava na solidariedade humana da parte deles, a expressar-se em ações concretas em favor dos semelhantes: Ver Isa. 58:3-7.
        Portanto, os preparados para a volta do Senhor são os que revelaram solidariedade humana, em contraste com os despreparados que nada fizeram no contexto social. Antes, foram omissos,  transferindo comodamente para a pós-história o enfrentamento e busca de solução para os problemas vivenciados na história (que trataram de ignorar inteiramente), alienando-se e declarando-se “neutros”, “apolíticos”, à  margem dela.
        Infelizmente é comum encontrar-se entre crentes evangélicos pessoas com tais idéias, principalmente entre aqueles com ênfase mais “escatológica”, ou seja, os que confundem a esperança da breve volta de Cristo e a forte expectativa pela “nova ordem” com desinteresse pela situação presente. O hino-tema de uma campanha evangelística de certa denominação cristã tem um trecho que diz: “Olhando ao redor eu vejo a dor/Pessoas morrendo sem amor/Comendo miséria para não morrer/Tentando na vida não sofrer./Olhando ao redor  eu vejo fé,/um mundo que quer mudar até,/mas essa mudança nunca vai chegar,/só quando Cristo retornar. . .”  Que visão alienante tais palavras poderiam transmitir—inação, diante da inanição! Teria sido esta a intenção do compositor,  autor de outros hinos bastante inspiradores? Prefiro crer que não, ou, pelo menos, espero que suas palavras nesta composição não sejam assim interpretadas, embora, reconhecidamente, haja aqueles que preferem que os cristãos sejamos “um pequeno povo mui . . . [alienado ?]”, para lembrar as palavras de outro cântico!
        Não devemos esquecer que o autor de Hebreus expressou esperança bem marcante pelo fim deste sistema de coisas e volta gloriosa do Senhor ao dizer: “Ainda um poucochinho de tempo e o que há de vir, virá, e não tardará” (Heb. 10:37-Almeida Revista e Corrigida). Todavia, tenhamos em mente que já decorreram dezenove séculos desde que tais palavras foram escritas. Desde então, quantas questões sociais relevantes não estiveram a desafiar os cristãos ao longo dos séculos? Mas nem sempre a atuação cristã nesse sentido foi como se esperaria. Basta lembrar o episódio da abolição da escravatura; embora finalmente superada, quanta divisão não provocou entre os crentes na Palavra de Deus, e como demorou para ser resolvida com a aplicação dos princípios bíblicos!
        Não estaria aí uma explicação para o prolongamento desse “poucochinho de tempo”? Na verdade, não há “apolíticos” genuínos. Diz o líder evangélico Robinson Cavalcanti no seu livro Cristianismo e Política:
        Não há nada tão cientificamente inexato e conceitualmente impossível do que a pretensão de ser apolítico. . . . Todo homem é cidadão de um Estado, sujeito de deveres e direitos. Todo homem (incluindo-se o cristão) é sócio, do  nascimento até a morte, de  um  organismo  político. . . . O  apolítico é um personagem de ficção.  O termo apolítico pode ser traduzido como: apartidário, não-engajado, alienado. Ser apolítico não é deixar de tomar posição. Ser apolítico já é uma posição em si. Uma opção para fora. Uma opção pelo não ser. Uma opção por omissão. A omissão é um voto, permanente e reiterado, em favor ou contrário a medidas, governantes, partidos ou regimes. Ovoto por omissão é tão responsável, tão culpado, quanto o voto consciente. . . .
        O apolítico é consciente e deliberado em sua opção pela omissão, sendo, por conseguinte, co-responsável pelos resultados para os quais concorre com sua postura.

E mais adiante prossegue:

    Ser apolítico é um escapismo, uma fuga, uma irresponsabilidade com sonora roupagem pseudointeligente. É uma racionalização, uma elaboração de desculpa para o indesculpável, revestida, no caso do cristão, de uma embalagem espiritual, uma espiritualização do pecado. A ignorância, o preconceito, o egoísmo, a inautenticidade, seriam causas de tão lastimável e danosa escolha. Fuga de suas responsabilidades como cristão e como cidadão. Fuga da maturidade e do comportamento adulto. O apolítico não tem como deixar de ser político, só que o faz pessimamente. (pp. 17-19).

        E acrescentaríamos o famoso texto de Bertold Brecht, um tanto forte para alguns, mas talvez necessário de ser ressaltado neste contexto:
 
        O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
        Certamente a sentença final do pensamento acima é o que leva muitos cristãos a se desiludirem com a classe política a ponto de optarem por uma atitude de omissão, crendo ser isto até uma virtude. Mas, não haveria governantes vigaristas”, pilantras” e corruptos” também ao tempo em que José, Daniel, Mardoqueu ocuparam posições governamentais?
        E como sabemos que há corruptos e corrupção nos altos escalões governamentais? Não seria por exatamente haver políticos conscienciosos e honestos que denunciam (e/ou depois investigam) tais fatos? Assim, o que precisamos é reforçar o contingente destes últimos para que haja cada vez mais destes e cada vez menos dos primeiros.
        Como cristãos, devemos dar nosso voto de modo consciente, sem reproduzir o clientelismo e interesse mesquinho da massa de eleitores incrédulos, o que, sejamos francos, muitas vezes caracteriza também a maior parte do eleitorado evangélico.
        Os que se sintam chamados e vocacionados para atuar no serviço público, que o façam dentro de um espírito de real compromisso com as causas de interesse popular, não na base da exploração de currais eleitorais” eclesiásticos, como tem sido, com honrosas exceções, a experiência política vivida por eleitores e candidatos evangélicos por este Brasil.
       A participação do crente na política (ou no serviço público, como prefiro dizer) está em perfeita consonância com os princípios bíblicos, como vimos acima. Afinal, após dizer que o cristão devia ser o sal da terra” e a luz do mundo”, Cristo lembrou que a luz deve ser colocada em lugar alto, e alumia a todos que se encontram na casa” (ver Mateus 5:15).
 
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