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O SÁBADO SOB FOGO CRUZADO

Dr. Samuele Bacchiocchi
Professor Jubilado de História Eclesiástica

           O Dr. Samuele Bacchiocchi dedica um de seus últimos boletins “Endtime Issues Newsletter” a uma longa exposição do ex-pastor adventista Greg Taylor em que este apresenta suas razões para abandonar a Igreja Adventista e a observância do sábado. Segundo Bacchiocchi, muitos lhe dirigiram insistentes apelos para que tratasse do assunto porque a missiva de dito pastor está tendo ampla circulação nos EUA e outras regiões, e causando algum estrago entre membros da Igreja.
        Vamos condensar nesta a longa exposição de Bacchiocchi, limitando-nos a sua abordagem da questão do sábado especificamente.

O SÁBADO--PEDRA DE TROPEÇO PARA ALCANÇAR OS INCRÉDULOS?

        A acusação de que o sábado é uma “pedra de tropeço” que serve de “obstáculo para muitos virem a Cristo” é uma séria acusação levantada contra o próprio Senhor do sábado pelo ex-pastor adventista Greg Taylor. Essa acusação ignora que o sábado é o gracioso convite de Cristo para ir a Ele e Nele encontrar descanso.
        Mediante o sábado Cristo nos convida a deter nosso trabalho, de modo que Ele possa operar em nós mais plena e livremente. Esta é a mensagem de Hebreus 4:10, que falando do sábado declara:  “Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das Suas”.
        Dito de modo simples, descansamos de nosso trabalho do sétimo dia a fim de entrar no descanso de Deus. O sábado sempre foi uma “pedra de tropeço” para muitas pessoas, mas a razão para isso não deve ser encontrada na natureza do próprio mandamento, mas na condição do coração humano.
        Aqueles que desejam passar o tempo do sábado em busca de prazer ou ganho, antes que de obter paz e a presença de Deus obviamente acham odia uma pedra de tropeço. Mas Jesus nunca ensinou que se devesse livrar de Seus mandamentos, se parecessem pedras de tropeço para uma igreja orientada a um marketing de crescimento. Ao contrário, disse Ele: “Se me amais, guardareis os Meus mandamentos” (João 14:10).
        Cristo passou a maior parte de Seu ministério público ensinando as pessoas como observar o sábado, não as regras para obedecer, mas pessoas para amar. Mais cobertura é dada nos evangelhos aos ensinos e curas sabáticas de Jesus do que a qualquer outro aspecto de Seu ministério. A razão é que Jesus cria que a apropriada observância do sábado é importante para o crescimento espiritual de Seus seguidores.
        O egoísmo do coração humano explica em grande medida por que o mandamento do sábado tem estado sob o constante fogo cruzado de controvérsia.
        Mais de 3.000 matérias disputando o sábado foram publicados desde a Reforma. Não tem havido controvérsia significativa a respeito dos demais 9 mandamentos do decálogo. Por quê? Mais provavelmente porque o sábado nos toca intimamente de forma mais profunda do que qualquer outro mandamento. Ele nos convoca a consagrar-nos 24 horas do sétimo dia a Deus.
        As pessoas são em sua maioria muito sensíveis com respeito ao seu tempo. Desejam empregar o seu tempo do sábado para a busca de seus próprios interesses. O sábado é um pedra de tropeço para muitos porque ele nos desafia a oferecer a Deus, não uma aparente lealdade por ir à igreja por uma hora na manhã de domingo  ou no sábado à noite, mas a dedicação de todo o nosso ser dando prioridade a Deus em nosso pensamento e vivendo durante as 24 horas do sétimo dia.
Um artigo com o título de “O sábado à noite animado na igreja”, publicado na revista Sunday, da Aliança do Dia do Senhor dos EUA, indica que cerca de 10.000 igrejas protestantes americanas estão agora seguindo o exemplo das igrejas católicas, antecipando o primeiro culto do domingo para o sábado à tarde.
        Os serviços religiosos do sábado são especialmente populares para aqueles que não acham uma boa idéia levantar-se da cama no domingo pela manhã. Eles preferem desfrutar o santuário de suas camas ao santuário da igreja. A redução do princípio de observância do dia de repouso a uma hora de freqüência à igreja, seja no domingo ou no sábado à tarde, torna o dia de repouso parecer menos pedra de tropeço para aqueles que estão mais interessados em terem um dia de folga do que um dia santificado. Contudo, essa redução claramente viola a essência do mandamento do sábado que consiste na consagração de 24 horas do sétimo dia ao Senhor.

O ATO DE REPOUSAR PARA DEUS NO SÁBADO
        Ao considerar o sábado uma “pedra de tropeço” para que as pessoas venham a Cristo, o Pr. Taylor ignora o profundo significado religioso do ato de repousar para Deus no sétimo dia. É um ato que torna todas as atividades desse dia--seja o culto formal ou a comunhão informal e recreação--um culto oferecido a Deus uma vez que todos derivam de um coração deliberadamente comprometido em honrar a Deus em Seu santo dia.
        Para apreciar o profundo sentido religioso do descanso sabático como culto a Deus, precisamos recordar que nossa vida é uma medida de tempo, e a maneira como passamos nosso tempo é um indicador de nossas prioridades. Não temos tempo para aqueles aos quais somos indiferentes, mas achamos tempo para as pessoas que amamos.
        Estar dispostos no sétimo dia a retirar-nos do mundo das coisas materiais para encontrar o Deus invisível na quitude de nossas almas significa mostrar de uma forma tangível o nosso amor, lealdade e dedicação a Deus. Significa estar disposto a tapar os ouvidos às centenares de vozes e ruídos que apelam  à nossa atenção a fim de sintonizarmos nossas almas com Deus para ouvir a Sua voz. Significa não meramente enfiar uma hora de culto a Deus num dia de atividades na busca de prazeres egoístas ou ganho, mas, ao contrário, servir a Deus inteiramente durante o sábado, oferecendo-Lhe o culto de nosso ser total.
A oportunidade única que o sábado propicia para servir ao Senhor torna o dia, não uma pedra de tropeço, mas uma pedra de ascensão para achegar-nos a Cristo e comungarmos com Ele plena e livremente em Seu Santo dia.
UM INTERESSE SEM PRECEDENTES PELO SÁBADO
        É difícil crer que o Pr. Taylor ache o sábado um pedra de tropeço para que as pessoas venham a Cristo, quanto muitos hoje estão expressando um interesse sem precedentes pelo sábado. Líderes eclesiásticos, organizações religiosas e pessoas de todos as áreas de atividade estão redescobrindo a validade e valor do sábado para a sua existência.  O recém lançado Catálogo de 400 Igrejas e Grupos Sabatarianos na América, a maiora dos quais vieram à existência nos últimos trinta anos o comprovam.
        Surpreendentemente, mesmo dentro de denominações tradicionais (batista, metodista, menonita, e pentecostal), há igreja que estão transferindo seus cultos do domingo para o sábado. Um breve relatório dessas ocorrências consta de meu livro The Sabbath Under Crossfire [O sábado sob fogo cruzado]. O capítulo tem por título “Redescobrindo o Sábado”. Para efeito de brevidade mencionarei somente uma igreja batista do sul que conheço pessoalmente.
        Em 11-12 de fevereiro de 1999, fui convidado a apresentar meu Seminário de Enriquecimento do Sábado na Universidade La Sierra, em Riverside, Califórnia. Na sexta-feira à noite, ao final de meu testemunho, o pastor da Universidade, Dan Smith, alertou-me que o Pr. Allan Stanfield, da Primeira Igreja Batista de Lucerne Valley estava assentado no último banco com alguns dos membros de sua igreja.
Conversamos com o Pr. Stanfield por meia hora e eu lhe dei de presente um exemplar de mencionado livro. O Pr. Stanfield retornou no sábado pela manhã e à tarde. Ao terminar o programa, no sábado à noite, ele me disse que estava ansioso por redescobrir o sábado para si próprio e sua congregação.
        Uma semana depois ele encomendou uma caixa de The Sabbath Under Crossfire, que ele entregou às famílias de liderança de sua congregação. Durante as seis semanas seguintes os membros de sua igreja reuniram-se às quartas-feiras à noite para estudarem o sábado, empregando o livro como guia de estudo.
        Então na noite de quarta-feira, 21 de abril de 1999, a igreja reuniu-se para tratar do assunto e votou-se quase unanimemente transferir os seus serviços religiosos do domingo para o sábado. No sábado seguinte, 24 de abril, a igreja reuniu-se pela primeira vez no sábado do sétimo dia. Desde então, outras igrejas batistas do sul seguiram o mesmo exemplo. Um fato notável é que puderam permanecer como membros da Convenção Batista do Sul.
        Uma clara indicação do interesse sem precedentes para o redescobrimento do sábado pode ser visto também no súbito surgimento de livros e artigos promovendo o sábado do sétimo dia. Exemplo bem adequado é o livro Catch Your Breath: God's Invitation to Sabbath Rest [Respire fundo: O Convite Divino Para o Repouso do Sábado] (1997), de autoria de Don Postema que serve como capelão da Universidade do Michigan, em Ann Arbor, Mich.
        Em sua busca espiritual por paz e descanso, Postema tentou vários recursos, inclusive meditação oriental. Um dia ele deu-se conta de que “os judeus e os cristãos têm uma prática que está tão próxima quanto nossa Bíblia, tão junto a nós quanto nossa tradição, tão disponível quanto so próximos dezminutos ou o fim de semana: o sábado”. O livro oferece diretrizes práticas e criativas para uma observância significativa do sábado. Sua meta não é argumentar quanto à validade do sábado, mas convidar as pessoas a praticá-lo.
        Escreve Postema: “O benefício do sábado não está simplesmente no estudo dele, porém mais certamente na sua prática--em viver o sábado. Ler e pensar sobre o sábado é como ler brochuras de viagem e sonhar sobre grandes locais de veraneio, mas nunca poder tirar férias lá. É interessante. Você pode aprender bastante. Mas não pode ter a experiência, a menos que faça a viagem”.
        O livro oferece sugestões práticas sobre como tornar a observância do sábado uma experiência de renovação espiritual, física e mental.
        Um lugar inesperado para encontar-se um artigo promovendo o sábado seria a edição de fim de semana do periódico USA Today [Estados Unidos Hoje] de (2-4 de abril de 1999). O artigo de duas páginas tem por título “Lembra-te do sábado?” e é adaptado do livro do Prof. Wayne Muller, The Sabbath: Remembering the Sacred Rhythm of Rest and Delight [O Sábado: Lembrando o Ritmo Sagrado de Descanso e Deleite].
        Muller oferece 10 sugestões para tornar o sábado uma experiência deleitosa. Ele encerra com um apelo para uma renovada observância sabática nos Estados Unidos de hoje. “Respiremos fundo coletivamente, descansemos, oremos, meditemos, caminhemos, cantemos, comamos e tiremos tempo para compartilhar a companhia sem pressa daqueles que amamos. . . . Deus não deseja que nos esgotemos; Deus deseja que sejamos felizes. Assim, lembremo-nos do sábado”.
Outro lugar inesperado onde encontrar um artigo promovendo a redescoberta do sábado é a revista da empresa aérea United Airlines, Hemisphere [Hemisfério]. Num vôo para a Costa Oeste surpreendi-me ao ler na edição de julho de 1997 de dita revista um artigo excelente que tinha por título “Sabedoria Antiga”, escrito por Nan Chase, um colaborador constante para o jornal The Washington Post.
        Chase narra a história de como descobriu o sábado lendo sobre ele num livro que encontrou na sala de espera de um consultório médico. Ela ficou admirada ao saber que a observância do sábado pode fortalecer o relacionamento conjugal por aproximar mais marido e esposa.
        Os exemplos precedentes de pessoas de diferentes posições que estão redescobrindo a observância do sábado “do pôr do sol da sexta-feira ao pôr do sol do sábado” sem “cozinhar, nem fazer compras ou pagar contas, nem arrancar ervas daninhas ou aparar arbustos, nem limpar ou arrumar a casa, nem mesmo falar ou pensar sobre o trabalho e as atividades do escritório”.
        Chase descreve os benefício da observância do sábado dizendo: “Tanto minha vida pessoal, quanto minha vida profissional e minha vida familiar melhoraram. Eu planejo continuar celebrando o sábado”.
        Os exemplos precedentes de pessoas de diferentes ramos de atividade que estão redescobrindo o sábado como um divino remédio para nossas vidas carregadas de tensão e estresse desmentem a alegação do Pr. Taylor de que o sábado constitui “uma pedra de tropeço” para muitos virem a Cristo. O fato é que hoje mais do que nunca antes as pessoas necessitam do descanso e renovação que o sábado tem por fito propiciar.
        Um correto entendimento e experiência do sábado torna as pessoas receptivas e responsivas ao convite de Cristo de ir a Ele para Nele encontrar descanso. Assim, o sábado pode ser, não uma pedra de tropeço, mas uma pedra que serve de degrau para alcançar a Cristo.

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*O Dr. Samuele Bacchiocchi é ex-professor de História Eclesiástica e Teologia da Universidade Andrews, de Berrien Springs, MI, EUA. Ele foi o primeiro não-católico a seguir um programa de doutoramento na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, ligada ao Vaticano e a qualidade do seu trabalho acadêmico fê-lo merecer uma medalha de honra ao mérito que recebeu de parte do Papa Paulo

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