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Carta Aberta ao Dr. James Kennedy

  

Samuele Bacchiocchi, Ph. D.
Professor Jubilado de Teologia,
Universidade Andrews
 

Uma Palavra de Explicação a Respeito da “Carta Aberta ao Dr. J. Kennedy

        Será de auxílio dar uma palavra de explicação a respeito da “Carta Aberta ao Dr.  James Kennedy”. Vários dos que são assinantes de nosso “Boletim” incentivaram-me a responder ao sermão do  Dr. James Kennedy sobre o sábado intitulado”O Dom do Descanso”. O seu sermão foi transmitido a nível nacional em 4 de novembro de 2001 mediante a Rede de TV Coral Ridge.
        Duas principais razões influenciaram a minha decisão de gastar mais de 100 horas preparando esta resposta. Em primeiro lugar, eu respeito o Dr. James Kennedy como um dos melhores pregadores expositivos na América hoje. Admiro o modo perceptivo em que ele amplia o sentido de passagens bíblicas tornando-as relevantes para a vida das pessoas hoje. O seu serviço de culto e estilo de pregação se destacam por seu conteúdo bíblico e caráter de reverência. Ele traz ao púlpito o tipo de dignidade e solenidade que muitas vezes falta entre pregadores da TV.
        A segunda razão é a enorme influência que o Dr. Kennedy tem sobre milhões de cristãos que acompanham os seus sermões tanto na TV quanto no rádio. O alcance de seu ministério é sucintamente declarado na informação fornecida por seu escritório: “Do púlpito da Igreja Presbiteriana de Coral Ridge, em Fort Lauderdale, Flórida, o Dr. D. James Kennedy proclama a Palavra de Deus pela televisão e rádio a 25.000 metrópoles e cidades, e países estrangeiros. De um pequeno grupo de dezessete pessoas, a igreja cresceu sob o seu ministério para alcançar uma membresia de 8.000, com uma audiência de pico que alcança mais de 12.000”.
        “O Dr. Kennedy é Presidente e fundador de Evangelism Explosion International que agora dá treinamento a leigos em evangelismo em 132 países por todo o mundo. Ele também fundou uma escola, a Westminster Academy, e uma emissora cristã de rádio, a WAFG, que transmite durante as  24 hours do dia. Ele é fundador e Deão do Seminário Teológico Knox”.
O que me impressiona a respeito do ministériodo Dr. Kennedy é o fato de que o seu êxito não depende de “truques evangelísticos” como música de bateria, dramatizações, dança sagrada e outras formas de entretenimento eclesiástico, mas baseia-se na proclamação da Palavra de Deus com clareza e convicção. Pastores de várias igrejas interessados em crescimento de igreja poderiam assistir a um de seus seminários em evangelismo. O Dr. Kennedy pode ter algumas valiosas idéias sobre crescimento de igreja, relevantes para os programas de crescimento de nossa Igreja Adventista.
        O Dr. Kennedy apela-me como um cristão sincero que está sinceramente equivocado em ensinos bíblicos tais como o sábado e o estado dos mortos. Poucas semanas atrás ouvi seu sermão sobre a condição dos mortos e senti-me grandemente angustiado por seu freqüente apelo a experiências de quase-morte para provar a consciência da vida após a morte.
        Eu preparei esta longa resposta motivado por um genuíno desejo cristão de ajudar o Dr. Kennedy a reexaminar o seu entendimento da mudança do sábado para o domingo no cristianismo primitivo. Oremos para que o Senhor possa empregar esta “Carta Aberta” no sentido de conduzi-lo a um entendimento e experiência mais plenos da verdade do sábado.
Estou despachando esta “Carta Aberta ao Dr. James Kennedy” juntamente com exemplares de cortesia de meus quatro livros sobre o sábado. Se ele decidir responder, eu certamente publicarei sua resposta. Se ele desejar dialogar comigo pessoalmente, alegremente viajarei até Fort Lauderdale para conversar com ele. Mantê-los-ei informados de quaisquer ocorrências futuras. Lembrem-se deste projeto em suas orações.
 
 

Dr. James Kennedy, Ph. D.
Coral Ridge Ministries
Fort Lauderdale, Florida

Caro Dr. Kennedy

        Em 4 de novembro de 2001 o irmão apresentou um sermão intitulado “O Dom do Descanso” na sua rede de TV “A Hora de Coral Ridge. Adventistas do sétimo dia que assistiram a sua apresentação ficaram contrariados com os seus comentários críticos a respeito do entendimento adventista da mudança do sábado para o domingo no cristianismo primitivo. Vários deles que são assinantes de meu boletim eletrônico ENDTIME ISSUES NEWSLETTER, lido por mais de 20.000 pessoas por todo o mundo, instaram comigo para que respondesse a seus comentários.
        Minha resposta ao seu sermão segue na forma desta Carta Aberta que será enviada por e-mail aos assinantes de nossa Newsletter (boletim). Isso capacitará milhares de pessoas que ouviram o seu sermão a se beneficiarem deste diálogo. Caso decida responder a esta Carta Aberta, fique seguro de que sua resposta será exposta sem alterações editoriais num futuro dos nossos boletins. Ademais, caso deseje dialogar comigo em pessoa, eu alegremente tomaria tempo em minha carregada agenda para deslocar-me até Coral Ridge para uma conversação amigável.
        A razão por me ter sido solicitado que respondesse a seu sermão é porque passei vários anos investigando a questão sábado/domingo. Para torná-lo ciente de minha pesquisa, estou incluindo exemplares de cortesia dos quatro livros que escrevi sobre o assunto. Um deles, Do Sábado para o Domingo,corresponde a minha tese doutoral que foi apresentada à Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália, e publicada pela mesma, onde eu fui o primeiro não-católico a ser aceito em seus 450 anos de história. O Papa Paulo VI concedeu-me uma medalha de ouro por ter conseguido distinção acadêmica summa cum laude em meus estudos e dissertação doutoral.
        O livro Do Sábado Para o Domingo tem sido favoravelmente comentado por centenas de eruditos de diferentes persuasões, inclusive por eruditos de sua própria denominação, a Igreja Presbiteriana. Poderá ler alguns exemplos desses comentário em meu website: www.biblicalperspectives.com. Mencionei estas coisas simplesmente para reassegurar que tenho tentado examinar a questão sábado/domingo do modo mais objetivo possível
        Se tirar tempo para ler os livros remetidos logo descobrirá que não sou um apologista denominacional, mas um erudito bíblico independente que se empenha por objetividade. Isto é indicado pelo fato de que nenhum dos 16 volumes que escrevi foram publicados por uma editora adventista do sétimo dia. A razão é que em poucos casos as minhas conclusões diferem um tanto das posições adventistas tradicionais. Em minha opinião, a tarefa de um erudito denominacional é fazer progredir o entendimento e experiência das crenças denominacionais, e não defender posições questionáveis.

Um Pedido de Desculpas

        Antes de comentar o seu sermão, desejo pedir desculpas quanto a alguns adventistas que lhe escreveram cartas de teor acusatório. Alguns desses meus irmão compartilharam suas cartas comigo. Em seu zelo por desafiar seus comentários críticos quanto a nossa igreja, ele empregaram palavras depreciativas e deixaram de apreciar alguns dos profundos lampejos teológicos que o seu sermão oferece a respeito do sábado. A maturidade cristã apela por uma demonstração de respeito àqueles com os quais discordamos. É lamentável que o zelo por defender crenças denominacionais possa levar algumas pessoas a se tornarem hostis àqueles que crêem diferentemente.

Minha Apreciação Pessoal Pelo Seu Ministério

        Talvez se interesse em saber que sempre ouço com grande prazer os seus sermões televisados. Eles representam o melhor tipo de pregação expositiva que se ouve na América hoje. Admiro a forma perceptiva em que amplia passagens bíblicas, tornando-as relevantes para a vida das pessoas. Infelizmente o meu ministério intinerante, que me faz ficar fora de casa praticamente todo fim de semana, permite-me somente raras vezes o privilégio de sentar-me em frente da TV aos domingos à noite para beneficiar-me com a sua pregação.
        Estas considerações introdutórias visam a garantir-lhe que escrevo esta resposta a seu sermão como um admirador de seu estilo e conteúdo de pregação, não como um adversário. Às vezes quando muitos pregadores estão tentando alcançar as pessoas oferecendo-lhes o que elas desejam, ou seja, cultos orientados ao entretenimento com música de bateria, dramatizações, dança de adoração e pregação da loucura (em contraste com “a loucura da pregação”—1 Cor. 1:21), a sua programação de culto e pregação destacam-se por seu conteúdo bíblico e estilo reverente. O fato de sua proclamação da Palavra de Deus mediante a TV e rádio alcançar mais de 25.000 cidades e comunidades, além de sua Igreja Presbiteriana de Coral Ridge, de cerca de 8.000 membros, serve para mostrar que as pessoas ainda respondem à pregação bíblica reverente e perspicaz. Que Deus continue a dar-lhe a sabedoria e graça para resistir à pressão de empregar “truques evangelísticos” para agradar nossa sociedade orientada ao entretenimento.
        Para garantir precisão, estou empregando a versão impressa de dois de seus sermões sobre o sábado intitulados “O Dom do Descanso” e “Lembra-te do Sábado”. Ademais, tenho em mãos algumas das respostas que preparou para perguntas do tema “Sábado versus Domingo”. É minha fervorosa oração que este diálogo nos conduza a uma mais plena compreensão de qual dia é o Santo Dia de Deus e o que deveria significar para nossa vida cristã hoje. Sua resposta será integralmente lida.

Seus Lampejos Perspicazes Sobre o Dia de Descanso

        Após passar várias semanas respondendo em meus últimos três boletins ENDTIME ISSUES NEWSLETTERS (Nos. 76, 77, 78) a um ex-ministro adventista que recentemente rejeitou a origem criacional e função universal do sábado, foi um refrigério ler seus comentários perceptivos a respeito do escopo cósmico e valor universal do sábado. O ministro em questão segue a tradição luterana que cria uma infundada dicotomia entre a lei e a graça, os Velho e Novo Concertos.
       Conseqüentemente, ele argumenta que o sábado é parte do “pacote de leis” do Velho Concerto dado aos judeus e terminado na cruz. Os cristãos da Nova Aliança supostamente vivem por princípios de amor revelados por Cristo, e assim observam o sábado espiritualmente todo dia, não literalmente no sétimo dia.
        É evidente que o irmão rejeita a dicotomia luterana entre lei e graça, e segue, em vez disso, o entendimento calvinista da continuidade e validade dos princípios morais do Velho Testamento. Para o irmão, o sábado não é uma instituição judaica dada no Sinai e terminada na cruz, mas uma ordenança criacional, designada a beneficiar a humanidade por todo o tempo. Desejo elogiá-lo por aceitar e proclamar o ponto de vista bíblico do sábado como uma instituição da criação para a humanidade.

        Uma Instituição da Criação

        A introdução ao seu sermão “O Dia de Repouso” chamou minha atenção. O irmão começa destacando o contraste entre o típico chefe humano que insta seus empregados a trabalharem mais duro dizendo: “‘Vamos mais rápido, andem, empurrem, levantem, trabalhem, trabalhem, trabalhem. . .’ enquanto Deus que diz, ‘Descansa, meu filho. Repousa, minha filha’”. Os seus perspicazes comentários abrigam uma profunda verdade. O fato de que Adão e Eva passaram o seu primeiro dia completo de vida, não trabalhando, mas descansando na presença de Deus e admirando Suas realizações criativas nos diz que a divina meta para os seres humanos não é meramente trabalhar e produzir, mas primariamente descansar e desfrutar comunhão com Deus e Sua criação.
        O sábado e o casamento são duas instituições que procedem do jardim do Éden. O irmão muito eloqüentemente assinala isto em seu sermão ao dizer: “Quando Adão retirou-se do jardim do Éden, ele trouxe consigo duas instituições que têm abençoado imensamente a vida da humanidade desde então—a instituição do lar e outra que é ainda mais antiga, a instituição do sábado, a primeira instituição que Deus concedeu à humanidade. O benefício à raça humana que tem derivado da instituição do sábado dificilmente pode ser superestimada. Há uma velha máxima que diz: ‘Ao perder-se o sábado, perde-se a nação’, e deveríamos ponderar bem sobre esse pensamento e o que ele transpira para [os Estados Unidos d]a América”.
        Seus comentários perceptivos fazem-me lembrar uma declaração semelhante pelo Presidente Abraão Lincoln num discurso que ele pronunciou em 13 de novembro de 1862. Disse ele: “Ao observarmos ou violarmos o sábado, nobremente salvamos ou sobretudo soltamos a última e melhor esperança pela qual a humanidade se ergue”.1 A razão por que a observância do sábado é tão vital para o bem-estar espiritual dos crentes individuais e de uma nação cristã como um todo é em grande medida porque a essência do cristianismo é um relacionamento com Deus. E o sábado propicia o tempo e oportunidades para cultivar tal relacionamento e experiência moral e renovação física. Ignorar o Senhor em Seu Santo Dia por fim leva as pessoas a ignorá-Lo, bem como a Seus princípios morais todos os dias. É por isso que a Escritura compara o quebrantamento do sábado com apostasia. Ezequiel escreve: “A casa de Israel se rebelou contra mim no deserto, . . . profanaram grandemente os meus sábados “ (Êxo. 20:13). Eu seu sermão “Lembra-te do sábado” o irmão corretamente declara: “A história tem evidenciado abundantemente o fato de que toda nação que se esqueceu, profanou e desconsiderou o sábado de Deus tem sido ela própria esquecida por Deus e tem sido trazida sob a maldição do Todo-Poderoso”.

O Sábado e o Salvador

        Outro aspecto positivo de seu ensino sobre o sábado é a refutação do ponto de vista popular de que Cristo aboliu o sábado. O irmão declara: “Vivemos numa época em que a instituição do sábado veio a estar sob grande ataque de diferentes perspectivas. Há aqueles que declaram que foi abolido por Cristo e não mais vigora hoje. Mas o que as Escrituras ensinam? As Escrituras não ensinam que Cristo jamais anulou, ab-rogou ou aboliu o sábado ou qualquer dos mandamentos. Pelo contrário, a Escritura muito claramente ensina que os Mandamentos permanecem em vigor hoje e foram fortalecidos por Cristo que declarou que não só os atos, mas o pensamento e a palavra são parte daquilo que Deus nos concedeu. Ele claramente afirma que se nós O amamos, guardaremos os Seus mandamentos. . . . Mesmo no Livro do Apocalipse, muito depois, lemos que ‘aqui está a paciência dos santos [de Deus], os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus’. No exato último capítulo da Bíblia lemos sobre aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm direito à árvore da vida”.
        Dr. Kennedy, o irmão está absolutamente certo ao afirmar que Cristo não aboliu, mas fortaleceu o sábado revelando sua verdadeira intenção. Um cuidadoso estudo da incomum cobertura dada pelos evangelhos aos ensinamentos e ministério de Jesus com respeito ao sábado demonstra que Cristo não anulou, mas esclareceu, exemplificou e ampliou o sábado por seu ensino e ministério salvador. Considerando o descanso e redenção tipificados pelo sábado do Velho Testamento como realizados pela missão redentora de Cristo, os crentes do Novo Testamento consideravam a observância sabática como um dia para celebrar e experimentar o descanso messiânico da redenção por revelar “misericórdia” e fazer o “bem” àqueles em necessidade.
        O entendimento do sábado do novo concerto como um tempo de serviço ativo e amorável a almas necessitadas, em vez de ser dia de passiva inatividade, representa uma radical ruptura com a guarda judaica do sábado daquele tempo. Isso é atestado também num documento antigo chamado Epístola a Diogneto (datado de 130-200AD), em que os judeus são acusados de “falarem falsamente de Deus” por alegarem que “Ele [Deus] nos proibiu [aos cristãos] de fazer o que é bom no dia de sábado—não seria isto ímpio?”2 Este positivo entendimento humanitário da observância do sábado está enraizado nos ensinos e exemplo de Cristo sobre o sábado, que são destacados nos Evangelhos.

Como Observar o Sábado

        Dr. Kennedy, desejo cumprimentá-lo por articular com clareza e convicção como observar o sábado por trabalhar durante a semana e descansar para o Senhor no sábado. Eu apreciei o relato de seu antigo professor do seminário, Dr. Robinson, que explicava a seus estudantes como se pode quebrantar o sábado na terça-feira. “Quando você está vadiando na terça-feira, você está violando o quarto mandamento”.
        Sua ênfase é bem dada, porque o mandamento do sábado tem dois componentes: (1) Trabalhar seis dias, (2) Descansar para o Senhor no sétimo dia. Se vadiamos durante a semana, nada temos para celebrar quando o sábado chega. Estaremos mais entediados do que de costume. O sábado nos desafia a seguir o exemplo de Deus concluindo nosso trabalho durante os seis dias, de modo que ao sétimo dia possamos celebrar, não só as realizações criativas e redentoras de Deus, mas também o que fomos capazes de realizar pela graça de Deus.
        O segundo componente do mandamento do sábado é a consagração do sétimo dia ao Senhor, por abster-se de trabalho secular e proteger o direito de empregados subalternos terem o mesmo. Fiquei intrigado pelo modo como discorreu sobre este importante aspecto do mandamento do sábado. O irmão indaga: “Saímos para comer no Dia do Senhor, no Dia de Descanso? Se o fazem, estão certamente fazendo pessoas trabalharem para os alimentar”. Para ilustrar este ponto o irmão compartilha uma experiência muito tocante. Contou que quando primeiro veio à area onde atua “cerca de quarenta anos atrás, não tínhamos culto à noite. Nunca pensei a respeito do problema, e minha esposa e eu saímos num domingo à noite para conseguir algo para comer. E lembro-me que certa noite estávamos sentados ao balcão num pequeno restaurante. O cozinheiro estava atrás do balcão preparando o alimento que havíamos encomendado. Éramos os únicos fregueses ali, então começamos a entabular uma conversação com aquele homem, que tinha em torno de quarenta anos. Descobri que ele era um crente—pelo menos professava sê-lo. E eu lhe disse: ‘Que igreja costuma freqüentar?’ Ele respondeu: ‘Eu não freqüento nenhuma’.
        “Então comecei a repreendê-lo um pouco, e lhe disse: ‘Bem, sabe, senhor, deveria ir a uma igreja. É realmente muito importante e.  . ., mas por que deixou de ir à igreja?’ Subitamente ele girou na minha direção apontando-me o instrumento que tinha na mão com o qual estivera cozinhando, e disse: ‘Por causa de gente como VOCÊS que vêm aqui e me fazem trabalhar o dia inteiro para alimentá-los. É por essa razão!’ Quero lhes dizer uma coisa, fiquei mudo. Esta foi a última vez que eu fiz isso”.
        Que testemunho inspirador! Eu me perguntaria quantos pregadores populares de mega-igrejas hoje seriam tão corajosos quanto o irmão, Dr. Kennedy, para desafiar seus ouvintes, telespectadores e congregações a honrarem ao Senhor em Seu Santo Dia, não apenas descansando, mas também respeitando o direito de outros fazerem o mesmo? Temo que não muitos, porque este é um princípio bíblico impopular numa sociedade centralizada no eu.

A Crise da Observância Sabática

        O resultado desta negligência pastoral é evidente nos Estados Unidos hoje, onde os cristãos em sua maioria saem para comer, fazer compras, brincar, entreter-se após o culto no domingo de manhã. Os cristãos em sua maioria não vêem nada errado em misturar a ida à igreja no domingo de manhã com a ida a compras ou lugares de entretenimento no domingo à tarde. Para eles, o DIA do Senhor é a HORA do Senhor do culto na igreja, após o que sentem-se livres para buscar o prazer e o ganho.
        Dois principais fatores têm contribuído para a presente situação. O primeiro é a histórica mudança do sábado para o domingo, que em última instância representou uma mudança de um DIA SANTO para um FERIADO [N.T.: No original em inglês seria de um “HOLY DAY” para um “HOLIDAY”]. A despeito de todos os esforços que se têm empenhado através dos séculos por papas, concílios eclesiásticos, e puritanos, para tornarem o domingo um DIA SANTO, a realidade histórica é que o domingo começou e tem em grande medida permanecido como uma HORA DO CULTO seguida por atividades seculares.
        O reconhecimento dessa realidade histórica tem levado a Igreja Católica e mais de  10.000 igrejas protestantes americanas a anteciparem os cultos do domingo para o sábado à tarde, a fim de acomodar aqueles que acham difícil ou inconveniente ir à igreja aos domingos. Cumprir o culto de domingo no sábado à tarde dificilmente torna o domingo um sábado cristão. Apenas confunde os cristãos quanto a qual é o dia de descanso e como ele deve ser observado pelos cristãos hoje.
O segundo fator que tem contribuído para a presente crise de observância do dia de repouso é a falha de líderes eclesiásticos convocarem os cristãos a se lembrar “do dia do sábado para o santificar”. Esta é uma mensagem impopular hoje, quando a maioria das pessoas busca prazer e ganho, antes que a paz e presença de Deus em suas vidas. Pregadores como o irmão, Dr. Kennedy, que ousam apelar aos cristãos para observarem o dia do sábado, são poucos e raros. Até o Papa João Paulo II, em sua Carta Pastoral “Dies Domini—O Dia do Senhor” deixa de convocar os cristãos a se lembrarem do sábado dando prioridade a Deus em seu pensamento e viver durante as 24 horas do sétimo dia. Em vez disso, ele apela à comunidade internacional de nações para promulgarem leis dominicais a fim de assegurar o direito dos católicos cumprirem seu preceito da Missa Dominical. A razão é que para a Igreja Católica o mandamento do sábado resume-se em cumprir o que chamam “o Preceito da Missa Dominical”. Para os católicos, assistir à missa de domingo não é uma opção. É uma séria obrigação que estão buscando proteger mediante o auxílio de leis dominicais.3
        A solução à atual crise da observância sabática não se deve buscar em legislação, mas em  renovação moral interior. O que se faz necessário hoje é convocar os cristãos a se lembrarem daquilo que há muito se esqueceram: “Lembra-te do dia do sábado para o santificar”. Isso gera o ensino aos cristãos de como tornar todas as atividades do dia do sábado centralizadas em Deus, não no eu. Estejamos nos empenhando em adoração coletiva formal, ou em comunhão ou recreação informal, todas as nossas atividades do sábado devem brotar de um coração que decidiu honrar a Deus em Seu Santo Dia.

O Exemplo dos Pais Peregrinos

        Em seu sermão o irmãocita o exemplo dos Pais Peregrinos que vieram para a América em parte porque o Rei Tiago I da Inglaterra emitiu em 1618 o famoso livro de esportes que introduzia todo tipo de esportes na Inglaterra aos domingos à tarde. Isso “provocou uma agitação na Inglaterra, que quase produzia uma revolução dentro daquele país”.
        Alguns pastores e pessoas dedicados a Deus sentiram-se tão angustiados com a secularização do domingo que “se reuniram e partiram dois anos mais tarde daquela nação. Eram os Peregrinos. O destino deles: a América”. O restante da história não me era familiar. O irmão declara: “É interessante também lembrar que quando os Peregrinos chegaram à América, entraram na baía num sábado, e defrontaram-se com uma grande tormenta. Aquela tempestade finalmente se acalmou durante a noite. O próximo dia era um domingo. Eles tinham estado no mar por meses em cômodos apertados. Muitas pessoas hoje em dia teriam ansiosamente desembarcado na nova terra. Contudo, os Peregrinos decidiram que não fariam o transporte de suas coisas naquele dia. Permaneceram no navia aquele domingo e adoraram a Deus. No dia seguinte desembarcaram na América. Desde o princípio eles honraram o Dia do Senhor”.
        Infelizmente o exemplo de observância dominical estabelecido pelos pais fundadores desta grande nação foi em grande escala esquecido por nossa sociedade materialista e de mentalidade secular. De fato, não é incomum ouvir até pregadores hoje condenando como legalistas (que desejam obter salvação pelas obras) os que tentam observar o sábado ou domingo como um Dia Santo. O fato é que a genuína observância do sábado é um antídoto ao legalismo, porque convida os crentes a experimentar a salvação de Deus, não por obrar, mas por descansar. O ato de repousar representa uma desistência de recorrer a qualquer esforço humano—é um ato pelo qual permitimos que a onipotente graça de Deus opere mais plena e livremente em nossas vidas. No sábado, como João Calvino adequadamente o expressou, os crentes devem “cessar de seu trabalho para permitir que Deus trabalhe neles”.4
        Sumariando, seus ensinos concernentes à validade, continuidade e valor do sábado para os cristãos hoje são bem fundamentados e perspicazes. Contrariamente àqueles que reduzem o mandamento do sábado a uma instituição judaica do Velho Concerto que terminou na cruz, o irmão reconhece e proclama com clareza e convicção sua permanência e relevância para nossa vida sem descanso e cheia de tensão. Quero cumprimentá-lo por esta convicção e esforço.
        O problema que acho em seus ensinos não é o que diz a respeito do sábado, mas sua tentativa de tornar o domingo o sábado bíblico. Repetidamente o irmão declara em seus sermões que “foi pelo exemplo de Cristo e dos apóstolos que o sábado foi mudado para o domingo”. O irmão explica que “o sábado vem da palavra hebraica shabbath, que significa simplesmente ‘descanso’, e que o primeiro dia da semana é o dia de repouso cristão. “No sétimo dia os judeus se lembravam da criação dos céus e da terra. Mas nós celebramos no primeiro dia da semana, o novo céu—a nova criação—o reino de Deus que veio a existir pela ressurreição de Cristo dentre os mortos. Isto é infinitamente maior e eterno”.
        Dr. Kennedy, permita-me respeitosamente assinalar que sua tentativa de tornar o domingo o novo sábado cristão estabelecido por Cristo e os apóstolos, supostamente para celebrar a Ressurreição, carece de suporte tanto bíblico quanto histórico. O fato é que o domingo não é o sábado. Os dois dias diferem em origem, autoridade, significado e experiência. É com grande pesar que na segunda parte desta resposta preciso sublinhar quatro principais falhas dos argumentos populares que o irmão apresenta para legitimar o domingo como o novo sábado cristão estabelecido por Cristo e os apóstolos. Por favor, aceite minha crítica construtiva como partindo de alguém que o admira e respeita. Creio que o irmão é um homem sincero, mas está sinceramente enganado em sua compreensão da origem do domingo. É minha fervorosa esperança e oração que este diálogo possa conduzi-lo a uma mais profunda compreensão da verdade do dia de sábado de Deus.

O Entendimento Adventista da Origem do Domingo

        Antes de examinar o seu entendimento da origem do domingo, permita-me responder a sua alegação de que “os adventistas do sétimo dia, que celebram o sábado no sétimo dia, geralmente lhe dirão que foi Constantino que no princípio do quarto século (325 AD) teve a temeridade, pelo fato de ser o César de Roma, de pretender ter autoridade de mudar o sábado para o domingo. . . . Haverá qualquer verdade nisso? Nenhuma, em absoluto”.
        O irmão está correto ao declarar que Constantino não mudou o sábado para o domingo. Ele apenas tornou o “Dies Solis — o Dia do Sol,” um feriado legal para todo o Império. A razão foi simplesmente porque o Dia do Sol se havia tornado crescentemente popular entre tanto pagãos quanto a maior parte dos cristãos, em resultado da difundida aceitação do culto ao sol. O irmão encontrará uma análise de como tal se desenvolveu no capítulo 8 de minha dissertação Do Sábado Para o Domingo.
        Mas o irmão está incorreto em atribuir aos adventistas do sétimo dia esse grosseiro erro histórico de tornar Constantino responsável pela mudança do sábado para o domingo. Desconheço qualquer erudito adventista que jamais haja advogado tal ponto de vista. A literatura de pesquisa produzida pela Igreja Adventista unanimemente reconhece que o culto dominical começou na primeira parte do século segundo em resultado de um conjunto de fatores sociais, políticos, pagãos e religiosos.
Dr. Kennedy, o irmão poderia consultar o simpósio O Sábado na Escritura e História, produzido por vinte e dois eruditos adventistas e publicado em 1982 pela principal casa editora da denominação, a  Review and Herald Publishing Association. Esse simpósio reúne o que há de melhor na erudição adventista sobre a questão sábado/domingo. Nesse livro nenhum erudito adventista jamais sugere que Constantino mudou o sábado para o domingo. Não negarei com isso que algum pastor ou membro leigo mal-informado tenha atribuído a Constantino a responsabilidade pela mudança do sábado para o domingo. Em toda denominação há sempre aqueles que não sabem sobre o que estão falando. Nossa Igreja Adventista não é exceção.
        O simpósio referido tem um capítulo intitulado “A Ascensão da Observância do Domingo no Cristianismo Primitivo”. Foi-me pedido para escrever tal capítulo sumariando os pontos altos de minha dissertação Do Sábado Para o Domingo. Para dar um resumo, a conclusão de meus dois anos de investigação conduzida nas bibliotecas e arquivos do Vaticano é de que dois principais fatores contribuíram para a mudança do sábado para o domingo no cristianismo primitivo, quais sejam, o antijudaísmo e o culto ao sol. O antijudaísmo levou muitos cristãos a abandonarem a observância do sábado para diferenciá-los dos judeus num tempo em que a prática do judaísmo em geral e da observância do sábado em particular eram proibidas por lei pelo governo romano.
        A adoração ao sol influenciou muitos cristãos a adotarem a observância do Dia do Sol para facilitar sua identificação e integração com os costumes e ciclos do Império Romano. Para efeito de brevidade ofereço a seguir um relato conciso do que encontrei em minha investigação quanto à influência do antijudaísmo e adoração do sol na mudança do sábado para o domingo no cristianismo primitivo. Julguei que iria apreciar ouvir as conclusões de minha pesquisa, antes de examinarmos os seus pontos de vista.

O Antijudaísmo e a Origem do Domingo

        Para entender o que levou muitos cristãos a abandonarem o sábado—um festival milenar profundamente enraizado na consciência e estilo de vida judaica e judaico-cristã, é importante entender a situação sócio-política da época. A começar com a Primeira Revolta Judaica contra Roma (66 AD), várias medidas repressivas—militares, políticas e fiscais—foram impostas pelo governo romano sobre os judeus, em vista de suas renascidas expectativas messiânicas que explodiram em violentas revoltas em muitas partes do Império.
        Militarmente, Vespasiano e Tito esmagaram a Primeira Revolta Judaica, e Adriano, a Segunda Revolta Judaica (132-135 AD). Politicamente, Vespasiano (69-79 AD) aboliu o Sinédrio e o ofício do Sumo Sacerdote; mais tarde Adriano tornou ilegal a prática do judaísmo por completo (por volta de 135 AD). Fiscalmente, os judeus se viram sujeitos a um imposto discriminatório (the fiscus judaicus), introduzido por Vespasiano e intensificado primeiro por Domiciano (81-96AD) e mais tarde por Adriano (117-138 AD).
        Essas medidas repressivas foram intensamente sentidas em Roma, como indicado pelos comentários antijudaicos sarcásticos de escritores como Sêneca (morto em 65 AD), Pérsio (34-62 AD), Petrônio (ca. 66 AD), Quintiliano (ca. 35-100 A.D ), Marcial (ca. 40-104 AD ), Plutarco (ca. 46-119 AD), Juvenal (125 AD) e Tácito (ca. 55-120 AD), todos eles habitantes de Roma na maior parte da vida profissional. Eles zombam dos judeus racial e culturalmente, desprezando sua observância do sábado e circuncisão como exemplos de desprezíveis supertições judaicas.5
        As medidas repressivas antijudaicas atingiram um clímax durante o reinado do Imperiador Adriano (117-138 AD) em resultado de violentas rebeliões judaicas contra os romanos que foram alimentadas pelo reavivadas expectações messiânicas. Após três anos de sangrentas lutas (132-135 AD), a fim de esmagar a segunda grande rebelião judaica palestina—chamada segundo o seu líder, a revolta e Barcocheba—o Imperador Adriano em 135 AD adotou as medidas mais repressivas contra os judeus. Ele não só destruiu a cidade de Jerusalém e proibiu que os judeus entrassem na cidade, como também pôs fora da lei categoricamente a prática da religião judaica em geral, e do sábado em particular.6
        Para evitar a repressiva legislação romana antijudaica e anti-sabática, muitos cristãos seguiram a liderança do bispo de Roma em mudar o tempo e o modo de observar as duas instituições associadas ao judaísmo, ou seja, o sábado e a Páscoa. O sábado foi mudado para o domingo, e a Páscoa para o Domingo de Páscoa. O que facilitou essas mudanças históricas foi o desenvolvimento na época de uma teologia “cristã” de desprezo pelos judeus.
        Todo um corpo de literatura cristã Adversus Judaeos (“Contra todos os judeus”) começou a aparecer nesse tempo. Seguindo o rumo de escritores pagãos, autores cristãos desenvolveram uma teologia “cristã” de separação dos judeus e desprezo a eles. Costumes característicos judaicos, como a circuncisão e a guarda do sábado, foram proclamados como sinais da depravação judaica.
        A condenação da observância sabática como sinal da impiedade judaica, contribuiu para o abandono do sábado e adoção da observância do domingo a fim de tornar claro às autoridades romanas a separação dos cristãos em relação ao judaísmo, e a identificação com o paganismo romano. Essa mudança histórica da observância do sábado para o domingo foi liderada pela Igreja de Roma aproximadamente um século após a morte de Jesus. A Igreja de Roma era uma igreja predominantemente gentia que assumiu a liderança das comunidades cristãs após a destruição de Jerusalém em 70 AD.
Para apreciar como a Igreja de Roma dedicou-se a afastar os cristãos da observância do sábado e incentivar o culto dominical em seu lugar, mencionarei brevemente as medidas teológicas, sociais e litúrgicas estabelecias por essa igreja. Tais medidas são discutidas e documentadas no capítulo de minha dissertação Do Sábado Para o Domingo.

Medidas Tomadas Pela Igreja de Roma

        Teologicamente, o sábado foi reduzido de uma instituição criacional estabelecido por Deus para a humanidade, numa instituição mosaica dada exclusivamente aos judeus como uma marca registrada de sua depravação. Justino Mártir, por exemplo, um líder da Igreja de Roma (ao redor de 150 AD) argumenta em seu Diálogo Com Trifo que a observância do sábado era uma ordenança mosaica temporária que Deus impôs exclusivamente aos judeus como “uma marca para assinalá-los para o castigo que eles tanto merecem dadas as suas infidelidades”.7
        É difícil compreender como um líder eclesiástico como Justino, que se tornou um mártir da fé cristã, podia rejeitar o sentido bíblico do sábado como um sinal do compromisso do concerto com Deus (Êxo. 31:16, 17; Eze. 20:12, 20), reduzindo-o a um sinal da depravação judaica. O que é ainda pior de aceitar é a ausência de qualquer condenação escolástica por teologia tão absurda e embaraçosa de desprezo pelos judeus —uma teologia que declaradamente interpreta errado instituições bíblicas como o sábado a fim de dar sanção bíblica à repressão política e social contra os judeus.
        A triste lição da história é que o desejo de ser politicamente correto por apoiar políticas imorais, tais como o extermínio dos judeus, muçulmanos e heréticos, ou a perpetração da escravidão, tem levado alguns líderes eclesiásticos e eruditos bíblicos a se tornarem biblicamente incorretos. Eles elaboraram teologias antibíblicas destinadas a sancionar práticas populares imorais. É impossível calcular o dano feito a nossa sociedade e ao cristianismo em geral por essas teologias e expedientes.
        A falha dos líderes eclesiásticos e eruditos em rejeitar a teologia de desprezao para com os judeus tem contribuído, entre outras coisas, para a origem da popular teologia dispensacionalista. Essa teologia, acatada por muitas igrejas evangélicas hoje, ensina entre outras coisas que Deus arrebatará a igreja secreta e subitamente antes de derramar Sua ira contra os judeus durante os sete anos finais da Tribulação. A popularidade do livro e filme Left Behind [Deixado Para Trás], que está invadindo os EUA como uma avalanche, é prova tangível de quão difundido é esse ensino enganoso hoje. Tenho examinado o cenário dispensacionalista do fim dos tempos em vários de meus livros, inclusive  Prophetic Jigsaw Puzzle [Quebra-cabeças profético] de Hal Lindsey, em razão do qual obtive um prêmio literário em 1987 pela Associated Church Press [Imprensa Eclesiástica Associada].*
        Socialmente, a reinterpretação negativa do sábado como sinal da impiedade judaica levou a Igreja de Roma a transformar a observância do sábado de um celebração e regozijo num dia de jejum e tristeza.8 O propósito do jejum do sábado não era aprimorar a observância espiritual do sábado. Antes, como enfaticamente declarado no decreto papal do Papa Silvestre (314-335 AD), o jejum do sábado tinha o desígnio de mostrar “desprezo pelos judeus” (exsecratione Judaeorum) e por sua “celebração” (destructione ciborum).9 A tristeza e fome resultantes do jejum capacitariam os cristãos a evitar “parecer observar o sábado com os judeus” e os incentivaria a entrarem mais ansiosa e alegremente na observância do domingo.10
        O jejum semanal aos sábados desenvou-se como uma extensão ou equivalente ao jejum anual do Sábado de Aleluia, e tinha o fito de expressar não só pesar pela morte de Cristo, mas também desprezo pelos judeus que eram considerados os perpetradores de Sua morte.
        As motivações antijudaicas são claramente expressas por Constantino em sua carta aos bispos cristãos no Concílio de Nicéia (325 AD).
        Em sua carta conciliar, o Imperador insta todos os cristãos a seguirem o exemplo da Igreja de Roma por adotar o Domingo de Páscoa, porque, escreveu ele, “não devemos portanto ter nada em comum com os judeus, pois o Salvador nos mostrou outro caminho. . . . Ao unanimemente adotarmos esta maneira [ou seja, o domingo de Páscoa] desejamos, queridíssimos irmãos, separar-nos da detestável companhia dos judeus”.11  Esta carta ao Concílio de Nicéia representa uma das mais claras expressões da teologia de desprezo pelos judeus, que foi criada para justificar, entre outras coisas, a mudança do sábado para o domingo e da Páscoa judaica para o Domingo de Páscoa.
        Liturgicamente, a Igreja de Roma decretou que nenhuma assembléia religiosa e celebração eucarística deviam ser realizadas no sábado. Por exemplo, o Papa Inocêncio I (402-417 AD) declarou que “segundo mantém a tradição da igreja, nestes dois dias [sexta-feira e sábado] não se deve em absoluto celebrar os sacramentos”.12 Dois historiadores contemporâneos, Socrates13 e Sozomen, confirmam o decreto de Inocêncio I. Sozomen (cerca de 440 AD) nos conta que enquanto “o povo de Constantinopla, e quase por toda parte, se reúne aos sábados, bem como no primeiro dia da semana, tal costume nunca é observado em Roma e Alexandria”.14

O Culto ao Sol e a Origem do Domingo

        As medidas repressivas adotadas pelos romanos contra o judaísmo em geral e a observância do sábado em particular acima mencionadas, nos ajudam a compreender o que contribuiu para o abandono do sábado. Mas permanece a pergunta, por que foi o domingo escolhido para mostrar separação e diferenciação com os judeus? Os cristãos poderia ter escolhido a sexta-feira para celebrar o sacrifício expiatório de Cristo para nossa redenção. A resposta se acha especialmente na influência do culto ao sol com o seu dia do sol. O deus-Sol Invencível tornou-se a principal divindade do Panteão Romano pela primeira parte do segundo século e era especialmente adorado no Dies Solis, ou seja, “o dia do sol”, conhecido em nosso calendário como domingo [em inglês, Sunday, literalmente, dia do sol].
        Para entender como o dia do sol tornou-se o primeiro e mais importante dia da semana romana é importante observar que os romanos adotaram a semana de sete dias dos judeus pouco antes do princípio do cristianismo. Antes desse tempo os romanos empregavam uma semana de oito dias, conhecida como nundinum. Quando os romanos substituíram a sua semana de oito dias pela semana judaica de sete dias, escolheram o nome dos dias da semana segundo os sete deuses planetários, em lugar de enumerar os dias, como os judeus.15
        O que surpreende, contudo, e que inicialmente os romanos tornaram o Dies Saturni (dia de Saturno) o primeiro dia da semana, seguido pelo Dies Solis (dia do sol), que era o segundo dia.16  A razão é que durante o primeiro século o deus Saturno era visto como sendo mais importante do que o deus Sol. Conseqüentemente, o dia de Saturno foi tornado o primeiro e mais importante dia da semana. A primazia do sábado sobre o domingo prosseguiu até princípios do segundo século, quando o prestígio do dia de Saturno foi eclipsado pelo dia do Sol.

Acaso os Romanos Observaram o Sábado Judaico?

        O fato de que os romanos foram influenciados pelos judeus a adotarem a semana de sete dias e tornar o dia de Saturno (o sábado judaico) o primeiro e mais importante dia da semana suscita a pergunta: Acaso os romanos observavam a seu próprio modo o sábado judaico? Sua resposta, Dr. Kennedy, é “Não”. O irmão declara: “Os romanos não observavam o sábado judaico; eles não se incomodariam com um costume de uma minoria desprezada da extremidade oriental do Mediterrâneo. Eles não tinham em absoluto qualquer dia de repouso!” E mais adiante afirma: “Os romanos não tinham absolutamente dia nenhum de descanso. Sábado, terça-feira, quinta-feira, sexta-feira, domingo. . . nenhum”. Eles não tinham um dia de descanso para mudar”.
        Suas afirmações, Dr. Kennedy, são claramente contraditadas por evidências históricas que demonstram que os judeus de fato influenciaram os romanos a adotarem não só sua semana de sete dias, como também algumas formas de observância sabática. Encontrará a documentação e discussão no capítulo 8 de meu livro  Do Sábado Para o Domingo. Não é claro como os romanos observavam o sábado no primeiro século. Alguns textos indicam que era considerado como um dia de má sorte (dies nefastus) para empreender negócios. Tibulo (cerca de 30 A.C.), por exemplo, explica que ele poderia ter justificado sua estada em Roma com sua adorada Délia no sábado argumentando que “o sagrado dia de Saturno o reteve”.17 De modo semelhante, Sexto Propércio, contemporâneo de Tibulo, fala do “sinal de Saturno, que traz dor a um a todos”18
        Textos como estes citados sugerem que no primeiro século o sábado era o dia em que os romanos restrigiam suas atividades por uma veneração supersticiosa do deus Saturno. A observância judaica do sábado por todo o mundo romano aparentemente influenciou tal condição. Por exemplo, o filósofo estóico Sêneca lamenta que “os costumes dessa maldita nação [judeus] ganharam tal influência que são agora recebidos por todo o mundo. Os vencidos impuseram leis aos vencedores. . . .  A maior parte do povo [romano] segue um ritual sem saber o por que estão fazendo isso”.19
        O testemunho de Sêneca é confirmado pelo historiador judaico Josefo quando escreve: “Não há um só grego ou bárbaro, nem uma única nação a que nosso costume de abster-nos do trabalho no sétimo dia não se tenha espalhado, e onde os jejuns e o acender de lâmpadas e muitas de nossas proibições na questão de alimento não sejam observadas”.20
        O apologista cristão Tertuliano confirma a difundida adoção do sábado judaico como um tempo de “vadiagem e luxúria”. Respondendo à acusação dos pagãos de que os cristãos haviam adotado o culto ao sol por observarem o dia do sol, Tertuliano escreve: “Temos alguma semelhança com aqueles que dedicam o dia de Saturno à vadiagem e luxúria, conquanto eles também se distanciem muito dos costumes judaicos, do qual na verdade são ignorantes”.21
        Finalmente os romanos mudaram o dia de Saturno para o dia do Sol como um dia de descanso e relaxamento, mas esse processo começou no segundo século, e não ao tempo de Constantino. O que contribuiu para essa mudança foi a crescente popularidade do deus-Sol que provocou o avanço do Dia do Sol da posição de segundo dia da semana para a de primeiro e mais importante dia da semana. Isso fez com que cada um dos demais dias avançassem um dia, e o dia de Saturno destarte tornou-se o sétimo dia da semana para os romanos, como havia sido para os judeus e cristãos.
        Quando eu aprendi sobre o avanço do Dia do Sol do segundo dia da semana no primeiro século para o primeiro dia da semana no segundo, indaguei-me: Seria possível que esse acontecimento influenciou os cristãos gentios a adotar e adaptar o dia do Sol para o culto cristão a fim de revelar separação dos judeus e identificação com os romanos numa ocasião em que a observância do sábado era proibida pela lei romana?

Indicações da Influência do Culto ao Sol

        No decorrer de minha investigação descobri evidências diretas e indiretas apoiando esta hipótese. Indiretamente, há indicações de que pessoas que haviam adorado do deus-Sol em seus dias pagãos, trouxeram com eles para a igreja várias práticas pagãs. Evidencia-se o problema pelas freqüentes repreensões por líderes da igreja àqueles cristãos que veneravam o deus-Sol, especialmente no dia do Sol.22
        A influência do deus-Sol pode ser vista também na arte e literatura cristã primitivas, onde a simbologia do deus-Sol é freqüentemente empregada para representar a Cristo.23  De fato, as mais antigas representações de Cristo em pinturas (datadas de cerca de 240 AD), descobertas sob o confessionário da Basílica de São Pedro, escavadas de 1953-1957, é um mosaico que retrata a Cristo como o Deus Sol viajando na quadriga (carruagem romana) do sol. O alvorecer também se tornou a orientação para oração e para as igrejas cristãs.24  O dies natalis solis Invicti, o aniversário do Sol Invencível, que os romanos celebravam em 25 de dezembro, foi adotado pelos cristãos para celebrarem o nascimento de Cristo.
Uma indicação mais direta da influência do culto ao sol na adoração cristã do domingo tem-se no uso da simbologia da luz e do sol para justificar a real observância do domingo. Por exemplo, em sua Apologia, escrita de Roma cerca de 150 AD, Justino Mártir realça que os cristãos se reuniam “no dia do sol . . . por ser o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas em matéria original, criou o mundo”.25
        A ligação que Justino estabelece entre o dia do Sol e a criação da luz no primeiro dia da criação dificilmente seria mera coincidência. Líderes da igreja freqüentemente reitaravam a mesma ligação. Por exemplo, Eusébio (em torno de 260-340 AD) refere-se várias vezes à criação da luz no primeiro dia para justificar o culto dominical. Em seu Comentário Sobre os Salmos, ele escreveu: “Neste dia da luz, o primeiro e verdadeiro dia do sol, quando nos reunimos após o intervalo de seis dias, celebramos o dia de repouso santo e espiritual. . . . De fato, é nesse dia da criação do mundo que Deus declarou: ‘Haja luz, e houve luz’. É também nesse dia que o Sol da Justiça ergueu-Se por nossas almas”.26
        Testemunhos como esses indicam que a adoção do Dia do Sol foi facilitada pelo tempo conveniente e simbologia efetiva do dia propiciado para comemorar dois eventos significativos da história da salvação: a criação e a ressurreição. Jerônimo (342-420 AD) expressa essas razões duplas ao dizer: “Se é chamado dia do Sol pelos pagãos, nós muito alegremente o reconheceremos como tal, uma vez que foi nesse dia que a luz do mundo apareceu e nesse dia o Sol da justiça ressuscitou”.27
Finalmente, por desaparecer a influência  do culto ao sol, os cristãos não mais apelavam à criação do primeiro dia da luz para justificar a observência do domingo. A Ressurreição tornou-se a razão dominante do culto dominical.
        A conclusão de minha investigação é de que a mudança do sábado para o domingo é uma ocorrência pós-apostólica ocorrida em resultado de um conjunto de fatores sociais, políticos, pagãos e religiosos. O antijudaísmo levou muitos cristãos a abandonarem a observância do sábado para diferenciá-los dos judeus numa época em que o judaísmo em geral e a observância do sábado em particular foram tornados ilegais no Império Romano. A adoração do sol influenciou a adoção da observância dominical para facilitar a identificação dos cristãos e sua integração nos costumes e ciclos do Império Romano.

O Entendimento do Dr. Kennedy da Origem do Domingo

        Dr. Kennedy, o seu entendimento da origem do culto dominical difere substancialmente das descobertas de minha pesquisa. O irmão adota o ponto de vista popular de que, como declara, “desde o tempo da ressurreição de Jesus Cristo até nossos dias, os cristãos têm celebrado o primeiro dia da semana como o dia em que se reúnem para ouvir a pregação da Palavra de Deus, receberem a comunhão da Santa ceia, e aplicarem seus dons para a ministração aos pobres”.
        A fim de defender a origem apostólica do domingo, o irmão submete em seus sermões e notas que tenho em mãos cinco principais linhas de evidência: (1) A Ressurreição de Cristo no Primeiro Dia da Semana; (2) Os Aparecimentos de Cristo no Primeiro Dia; (3) O derramamento do Espírito Santo no Dia de Pentecoste que ocorreu num domingo (Atos 2:2-3); (4) As coletas de ofertas no primeiro dia da semana (1 Cor 16:1-2); (5) A celebração da Ceia do Senhor no primeiro dia da semana.
Examinemos esses argumentos em sua respectiva ordem.

(1) A Ressurreição de Cristo no Primeiro Dia da Semana

        Em sua opinião, Dr. Kennedy, a Ressurreição e Aparecimentos de Cristo no primeiro dia da semana constituem a justificação bíblica fundamental para a origem do culto dominical. O irmão sumaria concisamente as supostas evidências como as seguintes declarações:
 

  •  “Vemos que Cristo ressuscitou dos mortos no primeiro dia da semana.
  •  Ele apareceu às mulheres no primeiro dia da semana
  •  Ele apareceu aos discípulos, exceto Tomé, no primeiro dia da semana
  •  Uma semana depois, no domingo, Ele apareceu a todos eles, inclusive Tomé.
  •  Ademais, a igreja começou no primeiro dia da semana.
  •  O Pentecoste era no primeiro dia da semana, e o Espírito Santo foi derramado sobre a igreja no primeiro dia da semana.
  •  O primeiro sermão cristão foi pregado no primeiro dia da semana.
  •  A Ceia do Senhor foi celebrada no primeiro dia da semana.
  •  No primeiro dia da semana eles punham à parte dinheiro para ofertas, e este tornou-se conhecido, como João descreve, o Dia do Senhor”.

  •         Numerosos eruditos católicos e protestantes concordariam com o irmão, Dr. Kennedy, ao atribuir à ressurreição e aparecimentos no primeiro dia da semana a razão fundamental para a escolha do domingo pela igreja apostólica. A despeito de sua popularidade, o suposto papel da Ressurreição na adoção da observância do domingo carece de apoio bíblico. Um estudo detido de todas as referências à Ressurreição revela a incomparável importância do evento, mas não propicia qualquer indicação concernente a um dia especial para comemorá-la. De fato, como Harold Riesenfeld faz notar, “Nos relatos da Ressurreição nos Evangelhos não há declaração que indique que esse grande evento da Ressurreição de Cristo deva ser celebrado num dia particular da semana no qual ocorreu”.28
            Ademais, como o mesmo autor observa, “O primeiro dia da semana, nos escritos do Novo Testamento, nunca é chamado ‘Dia da Ressurreição’. Essa é uma expressão que apareceu mais tarde”.29  Seu emprego primeiro apareceu no quarto século, nos escritos de Eusébio de Cesaréia. Portanto, “dizer que o domingo foi observado porque Jesus ressuscitou nesse dia”, como S. V. McCasland declara com razão “é realmente um petitio principii [pedindo a questão], pois tal celebração poderia muito bem ser mensal ou anual e ainda ser uma observância desse dia em particular.30
            O Novo Testamento não atribui qualquer significação litúrgica ao dia da Ressurreição de Cristo simplesmente porque a Ressurreição era vista como uma realidade existencial experimentada por viver vitoriosamente pelo poder do Salvador Ressurreto, e não mediante uma prática litúrgica associada ao culto dominical. Paulo deseja conhecer “o poder da ressurreição” (Fil. 3:10), mas nunca menciona “o dia da Ressurreição”.
            Tivesse Jesus desejado tornar memorável o dia de Sua Ressurreição, Ele teria se valido do dia de Sua Ressurreição para tornar tal dia o memorial adequado desse evento. Contudo, nenhuma das declarações do Salvador ressurreto revela uma intenção de memorializar o dia de Sua Ressurreição para torná-lo o novo dia de repouso e culto cristão. Instituições bíblicas tais como o sábado, batismo e a Ceia do Senhor todos remontam sua origem a um ato divino que os estabeleceu. Todavia, não ocorre qualquer ato divino para a instituição de um domingo semanal ou um domingo de Páscoa anual para comemorar a Ressurreição.
            O silêncio do Novo Testamento quanto a esta matéria é muito importante, dado que a maior parte de seus livros foi escrita anos após a morte e Ressurreição de Cristo. Se pelo parte final do primeiro século o domingo chegou a ser visto como memorial da Ressurreição que cumpriu, como o irmão alega, “a nova criação que Cristo, por Sua Ressurreição, trouxe à existência” esperaríamos encontrar no Novo Testamento alguma alusão ao significado religioso e observência do domingo semanal e/ou do domingo da Páscoa.
            A total ausência de quaisquer alusões indica que tais elementos desenvolveram-se em período pós-apostólico como resultado de um conjunto de fatores políticos, sociais e religiosos, que eu examino extensamente em minha dissertação Do Sábado Para o Domingo.

    Nenhuma Celebração de Domingo de Páscoa no Novo Testamento

             Uma forte indicação que desmente o suposto papel da ressurreição na origem do culto semanal aos domingos é a ausência no Novo Testamento de qualquer referência à celebração do Domingo de Páscoa Anual em celebração da Ressurreição. Há consenso quase unânime entre os estudiosos que por pelo menos um século após a morte de Jesus, a Páscoa era observada, não no Domingo de Páscoa como comemorativo da Ressurreição, mas na data de 14 de Nisã (independentemente do dia da semana) como uma celebração dos sofrimentos, sacrifício expiatório e Ressurreição de Cristo.
            O repúdio da contagem judaica da Páscoa e adoção do Domingo de Páscoa no lugar é ocorrência pós-apostólica que veio a se passar, como Joachim Jeremias apresenta, “por causa da inclinação em romper com o judaísmo”31 e evitar, como J. B. Lightfoot explica, “mesmo uma semelhança com o judaísmo”.32
            A introdução e promoção do Domingo de Páscoa pela Igreja de Roma no segundo século provocou a bem-conhecida controvérsia sobre a Páscoa, que se chamou Quartodeciman, que finalmente levou o bispo Vitor, de Roma, a excomungar os cristãos asiáticos (ao redor de 191 AD) por recusarem adotar o Domingo de Páscoa romano.33 Indicações tais como essas são suficientes para mostrar que a Ressurreição de Cristo não era celebrada num domingo semanal e Domingo de Páscoa anual desde o início do cristianismo. Os fatores sociais, políticos e religiosos que contribuíram para a mudança do sábado para o domingo e a Páscoa de 14 de Nisã para o Domingo de Páscoa são discutidos em grande extensão em minha dissertação.

    (2) Os Aparecimentos de Cristo no Primeiro Dia da Semana

            Dr. Kennedy, o irmão dá grande significado aos aparecimentos do Senhor Ressurreto no primeiro dia da semana às mulheres (Lucas 24:1), aos dois discípulos no caminho de Emaús (Cf. Lucas 24:13-35), à  reunião dos onze apóstolos (cf. Lucas 24:36-49; João 20:19), e a todos os discípulos no domingo seguinte (“oito dias depois”–João 20:26) para dar-Se a conhecer a Tome. O irmão entende esses aparecimentos no primeiro dia da semana como o princípio de um padrão coerente de observância dominical.
            O problema com sua conclusão é que os aparecimentos de Cristo não seguem qualquer padrão coerente. A menção do aparecimento de Cristo “oito dias depois” (João 20:26), supostamente no domingo seguinte ao de Sua Ressurreição, dificilmente sugere um padrão regular de observância dominical, já que o próprio João explica sua razão—qual seja, a ausência de Tomé no aparecimento anterior (João 20:24).
            Ademais, nessa ocasião, João não faz qualquer referência a alguma refeição cúltica, mas simplesmente à tangível demonstração a Tomé da realidade de sua Ressurreição corporal (João 20:26-29). O fato é que antes do Pentecoste eles “se reuniam” (Acts 1:13) no cenáculo e ali tinham um encontro diário para edificação mútua (Acts 1:14; 2:1).
            Nenhum padrão coerente pode ser derivado dos aparecimentos de Cristo para justificar a instituição de uma celebração eucarística costumeira aos domingos. O Senhor apareceu a indivíduos e a grupos não somente em domingos, mas em ocasiões, circunstâncias e locais diferentes. Ele apareceu, de fato, a pessoas isoladas como Pedro e Tiago (1 Cor 15:5,7), aos doze (vs. 5, 7), e a um grupo de quinhentas pessoas (v. 6). As reuniões ocorreram, por exemplo, enquanto os discípulos estavam reunidos atrás de portas fechadas por temor dos judeus (João 20:19, 26), viajando pela estrada de Emaús (Lucas 24:13-35), ou pescando no mar da Galiléia (João 21:1-14).
            Somente com dois discípulos no caminho de Emaús Cristo “quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o, e tendo-o partido, lhes deu” (Lucas 24:30). Este último episódio pode parecer a celebração da Santa Ceia, mas na realidade foi uma refeição comum em torno de uma mesa ordinária à qual Jesus fora convidado. Cristo aceitou a hospitalidade dos dois discípulos e “sentou-se à mesa com eles” (Lucas 24:30). Este ato, como explicado por J. Behm, era “simplesmente uma parte costumeira e necessária do preparo para uma refeição conjunta”.34

    O Testemunho de Mateus e Marcos

            Outro ponto notável é que, segundo Mateus (28:10) e Marcos (16:7), os aparecimentos de Cristo não ocorreram em Jerusalém (como mencionado por Lucas e João) mas na Galiléia. Isso sugere que, como S. V. McCasland faz observar, “o aparecimento pode ter-se dado dez dias depois, após a festa dos pães asmos, como indicado pela conclusão de fragmentos do Evangelho de Pedro. Contudo, se o aparecimento nessa data tardia foi no domingo seria muito difícil relacioná-lo com a observância do domingo numa forma tão acidental”.35
            Conquanto possa ser difícil explicar as discrepâncias nas narrativas dos evangelhos, permanece o fato de que tanto Mateus quanto Marcos não fazem qualquer referência a alguma refeição ou reunião de Cristo com seus discípulo no domingo de Páscoa. Isso deixa implícito que nenhuma importância particular foi atribuída à refeição que Cristo compartilhou com seus discípulos na noite de domingo de Sua ressurreição.
            À luz das considerações precedentes, concluímos que os aparecimentos de Cristo serviram para reassegurar os descoroçoados discípulos da realidade da Ressurreição de Cristo, mas dificilmente poderiam ter estabelecido o padrão para uma repetida comemoração semanal da Ressurreição. Ocorreram em diferentes ocasiões, lugares e circunstâncias; e nessas oportunidades Cristo comeu, compartilhou de alimentação comum (como peixe—João 21:13), não para instituir um culto dominical eucarístico, mas para demonstrar a realidade de Sua Ressurreição corpórea.

    (3) Os Eventos do Pentecoste, no Primeiro Dia da Semana

            Adicionalmente aos aprecimentos/Ressurreição de Cristo, Dr. Kennedy, o irmão encontra apoio para uma origem apostólica do culto dominical no fato de que no dia de Pentecoste, o derramamento do Espírito Santo, o primeiro sermão cristão e o início da igreja, todos esses eventos ocorreram no domingo.
            O problema com sua conclusão, Dr. Kennedy, é que em parte alguma o Novo Testamento associa os eventos ocorridos no Dia de Pentecoste com o culto aos domingos. Se o derramamento do Espírito Santo e a primeira proclamação messiânica no Dia de Pentecoste, que presumivelmente ocorreu num domingo, fossem vistos como justificativa para a adoração aos domingos em lugar do sábado, Lucas teria explicado a significação litúrgica desses eventos para a Igreja Cristã. Em vez disso, ele simplesmente declara: “Ao cumprir-se o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos no mesmo lugar “ (Atos 2:1). O enfoque está no que ocorrera no dia de Pentecoste. Nenhuma tentativa é feita para ligar os eventos do dia de Pentecoste com a origem do culto dominical.
            O pressuposto de que os acontecimentos do primeiro dia da Ressurreição e os aparecimentos e o dia de Pentecoste influenciaram a Igreja de Jerusalém a mudar o sábado para o domingo é desacreditada pela composição e orientação teológica judaica da Igreja de Jerusalém. Esta última era conhecida por sua zelosa observância da lei em geral, e do sábado em particular.

    O Comprometimento da Igreja de Jerusalém Para Com a Observância da Lei

            O apego da Igreja de Jerusalém à Lei Mosaica é refletido nas decisões do primeiro Concílio de Jerusalém realizado em cerca de  49-50 AD  (ver Atos 15). A isenção da circuncisão é ali assegurada somente “aos irmãos de entre os gentios” (Atos 15:23). Nenhuma concessão é feita para judeus cristãos, que devessem continuar a circuncidar seus filhos.
            Ademais, a isenção da circuncisão dos gentios do rito de circuncisão não previa sua liberação da observância da lei em geral e do sábado em particular. Isto é claramente indicado pelo fato de que se esperava que os gentios observassem as quatro leis mosaicas referentes ao “forasteiro” que habitava entre os israelitas. Essas leis se acham em Levítico 17, 18, e são citadas na decisão do Concílio de Jerusalém: “Que vos abstenhais das cousas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas” (Atos 15:29). Essa preocupação do Concílio de Jerusalém por contaminação ritual e leis de alimentação judaicas reflete seu contínuo apego às leis mosaicas.
            Essa conclusão é apoiada pela razão dada por Tiago para exigir que os gentios observassem as quatro leis mosaicas com respeito ao “forasteiro”: “Porque Moisés tem, em cada cidade desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (Atos 15:21). Todos os intérpretes reconhecem que tanto em sua proposta quanto em sua justificativa, Tiago reafirma a natureza obrigatória da Lei Mosaica que era costumeiramente ensinada todo sábado na sinagoga.
            Iluminação adicional é propiciada pela última visita de Paulo a Jerusalém. O apóstolo foi informado por Tiago e pelos anciãos que milhares de conversos judeus eram “zelosos pela lei” (Atos 21:20). Os mesmos dirigentes então pressionaram Paulo para provar ao povo que ele também “vivia em observância da lei” (Atos 21-24), se submetesse ao rito da purificação no Templo. À luz desse profundo comprometimento com a observância da lei, é difícil conceber que a autoridade apostólica da Igreja de Jerusalém estivesse à frente de uma mudança do dia de observância do sábado para o domingo para comemorar os primeiros eventos da Ressurreição/aparecimentos/Pentecoste.
            A continuidade na observância do sábado entre os cristãos palestinos é evidenciada pelo testemunho de um historiador palestino do quarto século, Epifânio. Ele nos conta que os nazarenos, que eram “os descendentes diretos da comunidade primitiva” de Jerusalém, insistiam e persistiam na observância do sábado do sétimo dia até seu próprio tempo, isto é, ao redor de 350 AD.  Dr. Kennedy, poderá encontrar o texto e sua análise na página 157 de minha dissertação Do Sábado Para o Domingo. Eu me lembro muito vividamente a alegria que senti quando descobri o testemunho de Epifânio. Ansiosamente mostrei esse documento ao meu orientador da tese doutoral, o jesuíta Prof. Vincenzo Monachino. Ele leu-o atentamente e depois exclamou: “Este é o golpe mortal sobre a teoria que torna a Igreja de Jerusalém o berço da observância do domingo”.
     Meu professor imediatamente entendeu que se os descendentes diretos da Igreja de Jerusalém persistiam na observância do sábado até o final do quarto século, então dificilmente a Igreja de Jerusalém poderia ter iniciado o abandono do sábado e a adoção do domingo imediatamente após a Ressurreição de Cristo. De todas as igrejas cristãs, a Igreja de Jerusalém era tanto étnica quanto teologicamente a mais próxima e mais leal às tradições religiosas judaicas, e assim a com menor probabilidade de alterar a prática de milênios de observância sabática.

    (4) As Coletas Para os Pobres No Primeiro Dia da semana

            Em seus sermões e notas, Dr. Kennedy, o irmão cita o plano de levantamento de fundos no primeiro dia da semana recomendado por Paulo em 1 Coríntios 16:1-3 como indicação de que “as coletas eram feitas no primeiro dia da semana”, supostamente porque nesse dia a igreja se reunia para o culto. Esse ponto de vista é compartilhado por numerosos eruditos católicos e protestantes.
            As várias tentativas de extrapolar do plano de levantamento de fundos de Paulo para a observância do domingo revelam criatividade e originalidade, mas firmam-se em argumentos elaborados, e não em informação real propiciada pelo texto. Dr. Kennedy, por favor observe que nada há no texto para sugerir assembléias públicas, sobretudo em vista de que a separação de fundos devia ser feita “par ‘heauto”, ou seja, por si mesmo, em casa. A frase sugere que a coleta devia ser feita individualmente e em privado.
            Se a comunidade cristã estava adorando junta no domingo, parece paradoxal que Paulo recomendasse que pusessem de parte em casa as dádivas. Por que deveriam os cristãos depositar suas ofertas em casa no domingo, se em tal dia estavam se reunindo para o culto? Não devia o dinheiro ter sido levado para o culto no domingo?
            O propósito do plano de levantamento de fundos no primeiro dia é claramente exposto pelo apóstolo: “para que se não façam coletas quando eu for” (1 Cor 16:2). O plano é, então, proposto não para incentivar o culto de domingo com as ofertas coletadas, mas para assegurar uma coleta substancial e eficiente quando da chegada de Paulo. Quatro características podem ser identificadas no plano. A oferta devia ser posta de parte  periodicamente”no primeiro dia de cada semana”—v. 2), pessoalmente (“cada um de vós”—v. 2), privadamente (“em casa”--v. 2), e proporcionalmente (“conforme a sua prosperidade”—v. 2).
            À mesma comunidade noutra ocasião, Paulo julgou necessário enviar um irmão para que “preparassem de antemão a vossa dádiva . . . para que esteja pronta como expressão de generosidade, e não de avareza” (2 Cor 9:5). O Apóstolo desejava evitar causar embaraços tanto para os doadores quanto para os arrecadadores quando se descobrisse que não “vos encontre desapercebidos” (2 Cor 9:4) para a oferta. Para evitar tais problemas nesse caso, ele recomenda um tempo—o primeiro dia da semana—e um lugar—a casa de cada um.
            A menção de Paulo ao primeiro dia poderia ser motivada mais por razões práticas do que teológicas. Esperar até o fim da semana ou do mês para pôr de parte as contribuições ou economias de alguém é contrário a boas práticas orçamentárias, uma vez que então a pessoa poderia achar-se de bolsos e mãos vazias. Por outro lado, se no primeiro dia da semana, antes de planejar quaisquer gastos, os crentes pusessem de parte o que planejavam dar, os fundos restantes seriam distribuídos para atender todas as necessidades básicas. O texto, portanto, propõe um valioso plano semanal para assegurar uma contribuição substancial e bem ordenada em benefício dos irmãos pobres de Jerusalém. Derivar mais significado do texto seria distorcê-lo.

    (5) A Celebração da Ceia do Senhor no Domingo

            Uma das evidências que o irmão submete para uma origem apologética do domingo é o seu pressuposto, Dr. Kennedy, de que “A Ceia do Senhor foi celebrada no primeiro dia da semana”. Tal ponto de vista, aceito por muitos estudiosos, carece tanto de apoio bíblico quanto histórico. Historicamente sabemos que os cristãos não poderiam celebrar a Ceia do Senhor numa base regular nas noites de domingo porque tais reuniões eram proibidas pela lei romana da  hetariae—uma lei que proibia todos os tipos de refeições comunitárias realizadas na parte da noite. O governo romano temia que tais reuniões noturnas se tornassem ocasiões de maquinações de revoltas políticas.36
            Para evitarem as batidas da polícia romana, os cristãos alteravam regularmente o tempo e lugar da celebração da Santa Ceia. Finalmente, transferiram o serviço da noite para a manhã, como indicado pela Carta de Plínio, governador da Bitínia, ao Imperador Trajano (por volta de 112 AD). Isto explica por que Paulo é muito específico quanto à maneira de celebrar a Ceia do Senhor, mas não define quanto à questão de tempo da reunião. Observe que por quatro vezes ele repete a mesma sentença: “Quando vos reunis” (1 Cor 11:18, 20, 33, 34).
            A sentença deixa implícita a indefinição de tempo, mais provavelmente porque não havia uma data estabelecida para a celebração da Ceia do Senhor.
            Se, como o irmão argumenta, Dr. Kennedy, a Ceia do Senhor fosse celebrada na noite de domingo, como parte do culto do Dia do Senhor, Paulo dificilmente deixaria de mencionar a santidade do tempo em que se reunissem. Isso teria fortalecido o seu apelo para uma atitude mais reverente durante a participação na Ceia do Senhor. A falha de Paulo em mencionar o “domingo” como tempo de reunião, ou empregar o adjetivo “kuriake—do Senhor” para caracterizar o dia como “Dia do Senhor” (como ele fez com referência à Ceia do Senhor), demonstra que o apóstolo não ligou qualquer significado religioso ao domingo.
            Ademais, a Ceia do Senhor não se ligava à Ressurreição. Paulo, por exemplo, que reivindica transmitir o que recebeu “do Senhor” (1 Cor 11:23), explicitamente declara que o rito celebrava, não a Ressurreição,  mas Seu sacrifício e Segunda Vinda (“anunciais a morte do Senhor até que venha” (1 Cor 11:26).
            As considerações precedentes são suficientes para desfazer o pressuposto de que “a Ceia do Senhor era celebrada no primeiro dia da semana” durante os tempos apostólicos, porque o domingo era o dia comum de culto. Durante os tempos apostólicos não havia celebração regular da Santa Ceia no primeiro dia da semana como parte do culto dominical, simplemente porque o culto dominical é fenômeno pós-apostólico.

    O APELO DO DR. KENNEDY’S A BARNABÉ E JUSTINO MÁRTIR

            Para dar apoio ao seu ponto de vista da origem apostólica do domingo, o irmão cita o testemunho de Barnabé e Justino Mártir. Ambos esses autores são examinados extensamente no capítulo 7 de Do Sábado Para o Domingo. Para propósito desta resposta comentarei brevemente o seu emprego desses autores.
            Com respeito a Barnabé, o irmão declara: “Em 120 AD, não mais do que 25 anos após São João ter morrido, Barnabé, um dos mais antigos Pais Apostólicos, escreveu isto: “Eles observavam o oitavo dia com alegria, o dia em que Jesus ergueu-se dentre os mortos”. O irmão continua explicando que a designação de domingo como “oitavo dia” deriva da contagem inclusiva comum àquele tempo. Por contar inclusivamente de domingo a domingo, o sétimo dia da semana tornou-se o “oitavo dia”.

    Avaliaçãoda Interpretação de Barnabé Pelo Dr. Kennedy

            Sua declaração dá aso a três principais comentários. Primeiro, a maioria dos eruditos data Barnabé como de entre 135 a 138 AD, por sua referência interna à reedificação de Jerusalém, presumivelmente após a destruição de 135 AD pelo Imperador Adriano.37 Isso situaria Barnabé poucos anos depois do que sugere. Em segundo lugar, a denominação do domingo com “o oitavo dia” foi motivada, não pela contagem inclusiva, como explica, mas pelo desejo de mostrar a superioridade escatológica do domingo com respeito ao sábado. Para Barnabé, o domingo como o “oitavo dia” é superior ao sábado do sétimo dia, porque conquanto o último representa o sétimo milênio terreno que Cristo estabelecerá quando de Seu retorno (15:5), o primeiro, “o oitavo dia”, representa o celestial e eterno “início de outro mundo” (15:8).
            Por meio dessas especulações gnósticas sem nexo e especulações alegóricas sobre a semana cósmica, Barnabé tenta negar a observância do sábado para o tempo presente e promover, em seu lugar, o “oitavo dia” como um substituto válido. As especulações sobre a superioridade do domingo do “oitavo dia” sobre o sábado do sétimo dia são multiplicadas nos escritos dos Pais da Igreja até o quarto século. A razão é que propiciava um útil argumento apologético para atacar o sábado durante a controvérsia sábado/domingo. Como o oitavo dia, o domingo poderia ser reivindicado como a continuação, cumprimento e suplantação do sábado do sétimo dia, tanto temporal quanto escatologicamente. O problema é que toda essa especulação tem por base a fantasia, não fatos bíblicos. O Capítulo 9 de Do Sábado Para o Domingo propicia uma documentação informativa e discussão das especulações patrísticas a respeito do oitavo dia.
            Ao diminuir a controvérsia sábado/domingo pelo quarto século, a designação “oitavo dia” desapareceu, porque, como João Crisóstomo (ao redor de  347-407 AD) explica: “O ciclo septenário não se extende ao número oito. Por esta razão é que ninguém chama o dia do Senhor de oitavo dia, mas somente de primeiro dia”.38 Fica-se a pensar por que levou quatro séculos para que os brilhantes dirigentes eclesiásticos descobrissem que não faz sentido defender o domingo como oitavo dia numa semana de sete dias. As especulações irracionais quanto ao “oitavo dia” revelam quão difícil era para os dirigentes da igreja encontrarem razões bíblicas legítimas para a observância do domingo. Em desespero de causa eles apelaram para especulações sem sentido, que, no decorrer do tempo, tiveram de abandonar.
            Meu terceiro comentário tem relação com a sua citação de Barnabé: “Eles observam o oitavo dia com alegria, o dia em que Jesus ergueu-Se dentre os mortos”. Essa declaração, extraída do contexto, sugere que Barnabé apresenta a ressurreição de Cristo como a primeira motivação teológica para a observância do domingo. Contudo, uma leitura da declaração no seu contexto indica outra coisa. Eis o que Barnabé escreveu: “Ademais Ele lhes diz, ‘Vossas luas novas e sábados eu não posso suportar’. Podeis ver o que significa: não são os sábados presentes que me são aceitáveis, mas aquele que eu criei, no qual, tendo levado tudo ao descanso, eu transformarei no oitavo dia, ou seja, o início de outro mundo. É por isso também que observamos o domingo com alegria, quando Jesus também ergueu-se dentre os mortos, e tendo Se revelado subiu aos céus (cap. 15:8, 9)”.
            O “oitavo dia” é inserido por Barnabé ao final de seus argumentos anti-sabáticos, e duas justificativas básicas são dadas para a sua “observância”:
            (1) O oitavo dia é o prolongamento do sábado escatológico: ou seja, após o fim da era presente simbolizada pelo sábado, o oitavo dia assinala “o início de outro mundo” (v. 8). “É por isso que também observamos (dio kai) o oitavo dia com regozijo” (v. 9). A palavra “também” (dio kai) sugere que o domingo era observado em adição, e não em substituição, ao sábado.
             (2) O oitavo dia é “também (en he kai) o dia no qual Jesus ergueu-se dentre os mortos” (v. 9).  A primeira motivação teológica para a observância do domingo não é a ressurreição, mas o suposto significado escatológico do oitavo dia como “o início de um novo mundo”. É aqui que aparece a incoerência de Barnabé—talvez aceitável naquele tempo. Enquanto, por um lado, ele repudia o sábado atual no que teria um significado milenarístico-escatológico, por outro lado justifica a observância do oitavo dia pelas mesmas razões escatológicas anteriormente levantadas para ab-rogar o sábado.
            É digno de nota que Barnabé apresenta a ressurreição de Jesus como motivação adicional, ou segunda—não como a primeira razão, como sugerido por sua citação. O domingo é observado por que nesse dia “Jesus também (en he kai) ergueu-se dentre os mortos” (v. 9). Por que é a ressurreição mencionada como razão adicional para a observância do domingo? Aparentemente porque tal motivação ainda não havia adquirido importância primária.
            A despeito de seu agudo antijudaísmo, Barnabé justifica a “observância” do oitavo dia mais como uma continuação do sábado escatológico do que como uma comemoração da Ressurreição. Isso denota um começo tímido e incerto da guarda do domingo. A teologia e terminologia do domingo ainda são dúbias. Não há menção de quaisquer reuniões ou qualquer celebração eucarística. O oitavo dia é simplesmente o prolongamento do sábado escatológico a que se une a memória da ressurreição.
            Os argumentos polêmicos apresentados por Barnabé tanto para invalidar o sábado quanto para justificar o oitavo dia como a continuação e substituição do sétimo dia, revelam os fortes sentimentos antijudaicos que motivavam o abandono do sábado e a adoção do domingo como um novo dia de culto.
            Para persuadir os cristãos a abandonarem as crenças judaicas e práticas como o sábado, Barnabé lança um ataque duplo contra os judeus: ele os difama como um povo e esvazia as suas crenças e práticas religiosas de qualquer validade histórica alegorizando o seu significado. Como um povo, os judeus são descritos como “homens miseráveis” (16:1) que foram iludidos por um anjo maligno (9:5) e que “foram abandonados” por Deus por causa de sua antiga idolatria (5 :14). Eles levaram “os seus profetas à morte” (5 :12) e crucificaram a Cristo “colocando-o como um inútil e o traspassando e sobre ele cuspindo” (7:9). Quanto às crenças judaicas fundamentais (tais como o sistema sacrificial, o concerto, a terra prometida, a circuncisão, as leis levíticas, o sábado e o templo) o escritor se empenha em demonstrar que eles não se aplicam literalmente aos judeus, uma vez que têm um sentido alegórico mais profundo que acha seu cumprimento em Cristo e na experiência espiritual dos cristãos.
     Barnabé tem a dúbia distinção de ser o pioneiro no desenvolvimento de uma teologia de desprezo contra os judeus e seu sábado—uma teologia que tem causado incalculável dano à fé cristã. Tal teologia foi inspirada pela repressiva legislação romana anti-judaica e anti-sabática. Sua teologia incerta quanto ao domingo assinala as dificuldades que ele encontrava para legitimar a adoção da observância dominical.

    Avaliação do Uso de Justino Mártir Pelo Dr. Kennedy

            Dr. Kennedy, Justino Mártir é o segundo escritor cristão primitivo que o irmão cita para respaldar sua opinião quanto à origem apostólica do domingo para honrar a ressurreição de Cristo. Sua declaração: “Justino Mártir, um dos primeiros mártires da igreja, disse em torno de 150 AD: “O domingo é o dia em que todos mantemos nossa assembléia de comunhão porque Jesus Cristo, nosso Salvador, no mesmo dia ergueu-se dentre os mortos”.
            Tomada isoladamente, sua citação da Apologia 1, 67 de Justino Mártir é enganosa por duas razões principais: Primeiro de tudo, porque passa por alto a primeira razão dada por Justino Mártir para a reunião no dia do sol, ou seja, a criação da luz no primeiro dia da semana da criação. O texto completo assim reza: “No dia chamado domingo (te tou eliou legomene hemera) temos uma assembléia comum de todos os que vivem nas cidades ou nos distritos vizinhos, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, enquanto houver tempo. O domingo, na verdade, é o dia em que todos mantemos nossa assembléia comum porque é o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e matéria primitiva, criou o mundo; e nosso Salvador Jesus Cristo ergueu-se dentre os mortos no mesmo dia. Pois eles O crucificaram no dia anterior ao de Saturno, e no dia posterior, que é o domingo, Ele apareceu a Seus apóstolos e discípulos, e lhes ensinou as coisas que lhes transmitimos também para consideração”.39
            Observe por favor, Dr. Kennedy, que a primeira razão dada por Justino Mártir para a reunião cristã no “dia do sol”(como consta do original grego) não é a ressurreição de Cristo, como a sua citação sugere, mas a comemoração do primeiro dia da criação “no qual Deus, transformando as trevas e matéria primitiva, criou o mundo”. (67, 7).
            Por que Justino Mártir oferece como a primeira razão para adorar no dia do Sul a criação da luz no primeiro dia da semana da criação? Muito provavelmente porque desejava apelar aos gentios acostumados a adorar o deus Sol no dia do sol. Não devemos nos esquecer que Justino Mártir dirigia a sua Apologia ao Imperador Antonino Pio, que era bem familiarizado com o culto ao Sol no dia do sol. De fato, em sua exposição do culto cristão ao Imperador Antonino Pio, Justino três vezes sublinha que a assembléia dos cristãos tinha lugar “no dia do sol”.
            Por que Justino realça que os cristãos adoravam “no dia do sol”?  Muito provavelmente porque desejava impressionar o Imperador quanto ao fato de que os cristãos não eram judeus rebeldes, mas cidadãos obedientes, bem integrados dentro dos costumes e ciclos do Império romano. Este esclarecimento foi ampliado numa época em que o governo romano adotava medidas repressivas contra a religião judaica em geral e o sábado em particular. A Ressurreição é dada por Justino como a segunda de duas razões, importante, mas não dominante. Tal fato é reconhecido mesmo por Willy Rordorf, erudito calvinista suíço cuja dissertação sobre a origem do domingo é um clássico em seu campo. Ele escreveu: “Na Primeira Apologia de Justino (67, 7) a motivação primária para a observância do domingo é para celebrar o primeiro dia da criação e somente secundariamente, num acréscimo, a ressurreição de Jesus”.40 O fato de que tanto Barnabé quanto Justino apresentam a ressurreição como uma razão adicional para a observância do domingo, sugere que em seu tempo a Ressurreição ainda não era vista como a razão dominante para o culto dominical. Uma segunda razão de sua citação é enganosa porque ignora que Justino apela também à superioridade do oitavo dia sobre o sétimo dia para justificar o culto dominical. Ele diz que os cristãos observam o domingo porque, sendo o oitavo dia, “possui um certo conteúdo misterioso, que o sétimo dia não possuía”.41
            Para justificar o “conteúdo misterioso” do oitavo dia, Justino apela à circuncisão que era realizada no oitavo dia porque era um “tipo da verdadeira circuncisão pela qual somos circuncidados do erro e impiedade mediante nosso Senhor Jesus Cristo que ergueu-se dentre os mortos no primeiro dia da semana”.42 Ele também alega que as oito pessoas salvas do dilúvio ao tempo de Noé “eram figuras desse oitavo dia (o que é, contudo, sempre o primeiro em poder) no qual nosso Senhor apareceu como ressurreto dentre os mortos”.43  Tais especulações sem nexo sobre o significado do número “oito” somente revelam a tentativa desesperada de provar a superioridade bíblica do oitavo dia sobre o sábado do sétimo dia, numa época em que a controvérsia sobre os dois dias estava fervendo. Ao reduzir-se o clamor da controvérsia, esses argumentos fictícios foram eliminados e a Ressurreição emergiu como a razãodominante para a observância dominical.
            As duas designações e motivações diferentes dadas por Justino Mártir para o culto dominical poderiam bem sintetizar os dois fatores significativos que contribuíram para mudar o sábado para o domingo, quais sejam, o antijudaísmo e o culto pagão ao domingo. Notamos que em sua exposição do culto cristão ao Imperador, Justino repetidamente realça que os cristãos se reúnem no dia do sol (possivelmente para situá-los em maior proximidade com os costumes romanos na mente do Imperador), mas em sua polêmica com Trifo o Judeu, Justino denomina o domingo como “oitavo dia”, em cotejo com o sábado do sétimo dia e no sentido de superioridade sobre ele.44
            Poderíamos dizer que embora a prevalecente aversão para com o judaísmo em geral e para com o sábado em particular tenham causado o repúdio do sábado, a veneração prevalencente pelo dia do sol orientou os cristãos para tal dia, tanto como evidência de sua aguda distinção com relação aos judeus como para facilitar a aceitação da fé cristã aos pagãos.
            Dr. Kennedy, gostaria de considerar um ponto final a repeito de Justino Mártir, ou seja, sua profunda animosidade e ódio para com os judeus e seu sábado. Não acha difícil de acreditar que um homem como Justino Mártir, que sofreu o martírio pela fé cristã, pudesse nutrir tanto ódio em seu coração pelos judeus? Ele descreve os judeus como um povo dos mais ímpios sobre os quais Deus impôs o sábado e a circuncisão como sinais de sua infidelidade, a fim de distingui-los e separá-los das outras nações. Ele escreveu: “Como declarei antes, foi em razão de seus pecados e os pecados de seus pais que, entre outros preceitos, Deus impôs sobre vós a observância do sábado como uma marca. . . . O propósito disso foi para que vós e somente vós sofresseis as aflições que agora justamente vos recai; para que vossa terra seja desolada, e vossas cidades arruinadas por fogo, e que os frutos de vossas terras sejam comidos por estranhos diante de vossos próprios olhos; para que nenhum de vós tenha permissão de entrar em vossa cidade de Jerusalém”.45
            Dr. Kennedy,  não lhe parece assustador que um mártir cristão torne a Deus culpado, para dizer o mínimo, de práticas discriminatórias ao conceder o sábado exclusivamente aos judeus com o único propósito de pô-los à parte para o castigo? Eu me perguntaria o que os seus ouvintes pensariam de Justino Mártir se lhes lesse sua declaração a respeito da celebração da ressurreição de Cristo no dia do sol, se compartilhasse com eles o seu ódio pelos judeus e seu sábado?
            É lamentável, Dr. Kennedy, que a maioria dos defensores da origem apostólica do domingo emprega os testemunhos da Ressurreição de Barnabé e Justino Mártir sem mencionar sua teologia de desprezo pelos judeus, que condicionou sua rejeição do sábado e adoção do domingo. A erudição responsável apela a um exame objetivo de todos os dados relevantes, e não uma pesquisa “tipo cafeteria”. É chegado o tempo para libertar a fé cristã dessas crenças e práticas que derivam de uma teologia de ódio para com os judeus, antes que de ensinos bíblicos. É encorajador ver um crescente número de eruditos que estão comprometidos em recuperar as raízes bíblicas e hebraicas de nossa fé.

    Apelo Final

            Ao encerrar, Dr. Kennedy, apelo ao irmão a que reexamine os fatores que contribuíram para o abandono do sábado e adoção do domingo. O irmão se me afigura como um homem de integridade, comprometido em proclamar as verdades bíblicas, não as tradições eclesiásticas. Tenho razões para crer que um detido reexame dos dados bíblicos e históricos lhe trarão para mais próximo da verdade. Para facilitar sua pesquisa, sinto-me feliz em lhe oferecer exemplares de cortesia dos quatro livros que escrevi sobre os aspectos históricos e teológicos da questão sábado/domingo. Se eu puder ser-lhe de qualquer assistência, por favor não hesite em chamar-me pelo telefone (616) 471-2915. Se julgar apropriado, eu alegremente me reuniria com o irmão em seu escritório do Ministério Coral Ridge.
            Os muitos anos que tenho gasto examinando a mudança do sábado para o domingo convenceram-me de que não foi simplesmente uma mudança de nomes ou números, mas de autoridade, significado e experiência. Foi uma mudança de um DIA SANTO divinamente estabelecido para nos capacitar a experimentar mais livre e plenamente a consciência da divina presença e paz em nossas vidas, num FERIADO que se tornou ocasião para buscar-se o prazer e ganho pessoal.
            Essa mudança histórica afetou grandemente a qualidade da vida cristã de incontáveis cristãos que através dos séculos têm sido privados da renovação física, moral e espiritual que o sábado tem por propósito conceder. A recuperação do sábado é especialmente necessária hoje quando nossas almas, fragmentadas, penetradas e dissecadas por uma cultura cacófona, dominada pela tensão, clama pela libertação e redirecionamento que nos aguarda no dia de sábado.
            Que o Senhor continue a ricamente abençoar sua vida e ministério com Sua sabedoria e graça.
            Calorosos cumprimentos cristãos

            Samuele Bacchiocchi, Ph. D.,

    NOTAS

     1.   Citado por R. H. Martin, The Day: A Manual on the Christian Sabbath, 1933, p. 184. Also in Sunday 65, (1978), p. 22.
     2.   Epistle to Diognetus 4, 3.
     3.  O Capítulo 1 de meu livro The Sabbath Under Crossfire é dedicado a uma análise em profundidade da Carta Pastoral do Papa João Paulo II Dies Domini – O Dia do Senhor.
     4.   Institutes of Christian Religion, 1972, II, p. 339.
     5.   Os textos desses vários autores são citados em From Sabbath to Sunday, 1977, pp. 173-177.
     6.   Para uma discussão sobre a legislação Adriânica anti-sabática, ver From Sabbath to Sunday, 1977. pp. 159-161.
     7.   Justin Martyr, Dialogue with Trypho 23, 3.
     8.   O Papa Inocêncio I (402-417 AD) em sua famosa decretal estabeleceu que no sábado “não se deve absolutamente celebrar os sacramentos” (Ad Decentium, Epist. 25, 4, 7, Patrologia Latina 20, 550); Sozomen (ca. 440 AD) relata que nenhuma assembléia religiosa era mantida no sábado em Roma ou em Alexandria (Historia ecclesiastica 7, 19); cf. Socrates, Historia ecclesiastica 5, 22.
      9.   S.R.E. Humbert, Adversus Graecorum calumnias 6, Patrologia Latina 143, 933.
    10.   Victorinus of Pettau (ca. 304 AD), De Fabrica Mundi 5, Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum 49, 5.
    11.   Eusebius, Life of Constantine 3, 18-19, NPNF 2nd, I:524-525 (ênfase acrescentada).
    12.  Inocêncio I, Ad Decentium, Epist. 25, 4,7, PL 20, 555; a carta é transferida para o Corpus Juris, c. 13, d. 3 De Consecratione.
    13.  Socrates, Ecclesiastical History 5, 22; NPNF 2nd, II, p. 132.
    14.  Sozomen, Ecclesiastical History 7, 19, NPNF 2nd, II, p. 390.
    15.  Para uma discussão da adoção da semana judaica de sete dias pelos romanos, ver From Sabbath to Sunday, pp. 245-251.
    16.  Que o dia de Saturno era originalmente o primeiro dia da semana é claramente tornado evidente pelo Indices Nundinarii e pelas inscrições murais de Herculano e Pompéia, onde os dias da semana são dados horizontalmente, começando com o dia de Saturno. Para uma fonte de coleção, ver: A. Degrassi, Inscriptiones Italiae (Roma: Libreria Dello Stato, 1963) vol. XIII, pp. 49, 52, 53, 55, 56.
    17.  Tibullus, Carmina 1, 3, 15-18.
    18.  Sextus Propertius, Elegies 4, 1, 81-86.
    19.  Citado por Augustine in City of God 6, 11.
    20.  Josefo, Against Apion 2, 40. Declaração semelhante se acha em Philo, Vita Mosis 2, 20.
    21.  Tertuliano, Apology 16, The Ante-Nicene Fathers (Grand Rapids, 1973), vol. 3, p. 31.
    22.  Uma concisa pesquisa da influência de crenças astrológicas sobre o cristianismo primitivo é propiciada por Jack  Lindsay, Origin of Astrology (Londres: Muller, 1972), pp. 373-400.
    23.  Para exemplos de aplicação literária do motivo do sol para Cristo, ver From Sabbath to Sunday, pp. 253-254.
    24.  Que os cristãos primitivos oravam voltados para Jerusalém é evidenciado pela seita cristã-judaica dos ebionitas,  que, segundo Irineu, “oravam voltados para Jerusalém como se fosse a casa de Deus” (Adversus haereses 1, 26). Para referências sobre a orientação rumo ao oriente, ver, por exemplo, Clemente de Alexandria, Stromateis 7, 7, 43; Orígenes De oratione 32; Constituições Apostólicas 2, 57, 2 and 14; Hipólito, De Antichristo 59.
    25.  Justino Mártir, I Apology 67.
    26.  Eusébio, Commentaria in Psalmos 91, PG 23, 1172.
    27.  Jerônimo, In die dominica Paschae homilia CCL 78, 550, 1, 52; o mesmo em Contra Faustum 18,5, de Agostinho; em Sermo 226, PL 38, 1099 Agostinho explica que o domingo é o dia da luz porque no primeiro dia da criação “Deus disse: ‘Haja luz! E houve luz. E Deus separou a luz das trevas. E Deus chamou à luz, dia, e às trevas, noite “ (Gên. 1:2-5).
    28.  Harold Riesenfeld, “The Sabbath and the Lord’s Day,” The Gospel Tradition: Essays by H. Riesenfeld (Oxford, 1970), p. 124.
    29.  Harold Riesenfeld, “Sabbat et Jour du Seigneur,” in A. J. B. Higgins, ed., N.T. Essays: Studies in Memory of T. W. Manson (Manchester, 1959), p. 212. Para exemplos do emprego da frase “Dia da Ressurreição” para o domingo, ver, Eusébio de Cesaréia, Commentary on Psalm 91, Patrologia Graeca 23, 1168; Constituioo Apostólicas 2, 59, 3. XXX
    30. S. V. McCasland, “The Origin of the Lord’s Day,” Journal of Biblical Literature 49 (1930), p. 69. Semelhantemente,  Paul Cotton afirma: “Nada há na idéia da Ressurreição que necessariamente produza a observância do domingo como um dia de culto” (From Sabbath to Sunday [Bethlehem, PA, 1933], p. 79).
    31.  Joachim Jeremias, “Pasha,” Theological Dictionary of the New Testament, Gerhard Friedrich, ed., (Grand Rapids, 1968), vol. 5, p. 903, nota 64.
    32.   J. B. Lightfoot, The Apostolic Fathers (Londres, 1885), vol. 2, p. 88.
    33.  Para uma discussão da controvérsia da Páscoa e suas implicações para a origem da observância dominical, ver minha dissertação From Sabbath to Sunday (nota 23), pp. 198-207.
    34.  Johannes Behm, “Klao,” Theological Dictionary of the New Testament, Gerhard Kittel, ed., (Grand Rapids, 1974),  vol. 3, p. 728.
    35.  S. V. McCasland (nota 30), p. 69.
    36.  Para uma discussão da legislação hetaririae, ver From Sabbath to Sunday, pp. 96-98.
    37.  Ver, Johannes Quasten, Patrology, 1953, I, pp. 90-91; E. Goodspeed, Apostolic Fathers, 1950, p. 19; William H. Shea, “The Sabbath in the Epistle of Barnabas,” AUSS 4 (July 1966): 150; J. B. Lightfoot, The Apostolic Fathers, 1890, I, part 1, p. 349; A. L. Williams, “The Date of the Epistle of Barnabas,” Journal of Theological Studies 34 (1933): 337-346.
    38.  João Crisóstomo, De compunctiones 2, 4,, PG 47, 415.
    39   Justino, I Apology 67, 3-7, Falls, Justin’s Writings, pp. 106-107.
    40. Willy Rordorf, Sunday: The History of the Day of Rest and Worshiping the Earliest Centuries of the Christian Church, Westminster Press, Philadelphia, PA, 1968.
    41.  Ibid., p. 220.
    42.  Justino, Dialogue 24, 1.
    43.  Justino, Dialogue 41,4.
    44.  Justino, Dialogue 138, 1; a referência a “oito almas” ocorre no Novo Testamento em I Pedro 3 :20 e II Pedro 2:5. J. Danièlou percebe uma justificativa para o oitavo dia mesmo na referência de Jusino (cf. Dialogue 138) aos “quinze cúbitos” de água que cobriram as montanhas durante o dilúvio (“Le Dimanche comme huitième jour,” Le Dimanche, Lex Orandi 39, 1965, p. 65).
    45.  Justino, Dialogue 16, 1 and 21, 1, Falls, Justin’s Writings, pp. 172, 178. A menção da circuncisão e o sábado por   Justino, como marcas distintivas destinadas a proibir os judeus de “entrar em vossa cidade de Jerusalém” (Dialogue 16), parece ser uma referência implítica ao decreto de Adriano que proibia todo judeu de entrar na cidade (cf. Dialogue 19, 2-6; 21, 1; 27, 2; 45, 3; 92, 4); no capítulo 92 do Dialogue a referência ao edito de Adriano aparece de modo ainda mais explícito. De fato, Justino claramente afirma que a circuncisão e o sábado foram dados porque “Deus em Sua presciência estava ciente de que esse povo [ou seja, os judeus] mereceria ser expulso de Jerusalém e nunca ter permissão de ali entrar” (Falls, Justin’s Writings, p. 294); Pierre Prigent semelhantemente comenta que, segundo Justino, a circuncisão e o sábado foram dados a Abraão e a Moisés porque “Deus previu que Israel mereceria ser expulso de Jerusalém e não ter permissão de ali habitar” (Justin et l’Ancien Testament, 1964, p. 265 e p. 251.

    Extraído do Boletim Endtime Issues [Questões do Tempo do Fim] No. 7914 de janeiro de 2002. Este material está disponível em língua inglesa do website do autor,   http://www.biblicalperspectives.com


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