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REFLEXÕES SOBRE JUSTIFICAÇÃO, PERFEIÇÃO E PERFECCIONISMO

 
        Em vista de todos os materiais constantes de nosso “Catálogo” de temas para estudo e reflexão que tratam de justificação/santificação/perfeição, poderíamos sumariar a questão da natureza humana isenta de pecado de Cristo (contrariamente às opiniões sobre ter Ele herdado a natureza pecaminosa de Adão) segundo os pontos seguintes:1. A lei, sendo expressão da natureza santa de Deus, requer que o homem seja isento de pecado em sua natureza, bem como em seus atos.

2. Cristo colocou-Se em nosso lugar para cumprir e satisfazer as exigências da lei. A  menos que Sua natureza humana fosse isenta de pecado (ver Lucas 1:35), Ele não poderia ter feito isto por nós.

3. A isenção de pecado da natureza humana de Cristo estabelece o princípio de salvação por Representação, Substituição e Imputação.

        Rejeitamos o ponto de vista de que Jesus tinha uma natureza humana corrompida, herdada após a queda de Adão (lapasarianismo), porque:

1. Isto é humilhante à pessoa de nosso exaltado Senhor que foi sempre, com relação ao pecado, “separado dos pecadores” (Hebreus 7:26).

2. Trata-se de uma antiga e comprovada heresia, condenada pela igreja primitiva, rejeitada por todos os Reformadores, e nunca ensinada pela verdadeira linha de mestres cristãos consagrados a Deus ao longo da história da Igreja.

3. Tal conceito leva a uma visão superficial da lei de Deus porque se baseia na premissa de que a lei somente condena as ações pecaminosas. Deixa de levar em conta que a lei requer santidade de disposição e tendências da natureza.

4. Conduz a uma visão superficial do pecado. Propõe que as inclinações e tendências pecaminosas não são pecados a menos que encontrem expressão na vida. O pecado é, destarte, visto como um ato, antes que como um estado. Isso, porém, corresponde à heresia do pelagianismo.

5. Conduz a uma refutação da doutrina bíblica de que todos os homens são nascidos como pecadores. Pois deve ficar claro que se a pecaminosidade herdada não é pecado a menos que se expresse em atos pecaminosos, os recém-nascidos não são pecadores. Isso corresponde também ao pelagianismo.

6. Conduz a uma  negligência ou rejeição do princípio central do evangelho da salvação por Representação, Substituição e Imputação. Em vez disso, aduz: “Cristo tinha uma natureza humana pecaminosa semelhante à nossa. Ele possuía inclinações pecaminosas e propensões dessa natureza sob o controle do Espírito Santo. Assim, Ele nos estabeleceu um exemplo de como podemos fazer o mesmo com a mesma assistência do Espírito Santo. É desse modo que alcançamos a salvação”. Ao tentar obter salvação seguindo o exemplo de Cristo, em vez de sê-lo mediante fé em Sua substituição, cai-se no erro do legalismo e perfeccionismo.

7. Deixa de reconhecer que Cristo interrompeu a corrente de hereditariedade pecaminosa. Todo filho de Adão havia nascido com uma hereditariedade pecaminosa. Não havia esperança para a raça a menos que Alguém pudesse vir, quebrar essa linha e estabelecer uma nova herança de isenção de pecado. Mas aqueles que ensinam a natureza humana corrompida de Cristo desejam ver a corrente de herança pecaminosa mantida. Estão tão empolgados com a idéia de serem salvos pelo exemplo de Cristo e com a esperança de reproduzirem Sua vida que julgam que a salvação depende de torná-Lo um participante de nossa depravação.

Um Pouco de História do Desenvolvimento Teológico Cristão
      Pelágio foi contemporâneo de Agostinho que negava que os homens fossem nascidos pecadores. Ele ensinava que se tornaram pecadores por seguirem o exemplo pecaminoso de Adão, e, de modo inverso, tornavam-se justos por seguirem o exemplo de Cristo. O pelagianismo foi universalmente rejeitado pela Igreja como uma grosseira modalidade de legalismo. A Igreja Católica Romana gradualmente inclinou-se ao pelagianismo. Em contraste, os Reformadores buscaram eliminar todo resquício de pelagianismo de seus ensinos.
      A antiga heresia da “natureza humana pecaminosa de Cristo” foi ressuscitada em tempos modernos por Schleiermacher, Edward Irving, Menken, e Stier, e lamentavelmente ganhou terreno dentro do adventismo e por muitos anos chegou a ser uma posição bem aceita, conquanto nunca chegando ao nível de doutrina realmente oficial da Igreja.
      Com sua ênfase sobre exemplo, antes que substituição, no verdadeiro sentido paulino e da Reforma, esta teoria “desconhece a verdadeira justificação, e concebe salvação como consistindo de santificação subjetiva”. (Louis Berhkof, Systematic Theology, p. 390).
      Edward Irving, conhecido entre nós por menção a suas pregações sobre o advento antes de 1844, foi um talentoso pregador presbiteriano que reviveu a antiga heresia da natureza pecaminosa de Cristo pelas alturas de 1830, um erro pelo qual foi condenado por sua igreja. O movimento iniciado por ele terminou caindo em fanatismo, e Irving morreu como um homem alquebrado e desprestigiado com idade de 42 anos.
      Na teologia de Irving, “não há imputação, ou representação, ou substituição”, declara o teólogo Strong em sua Systematic Theology, pág. 746. Mais adiante ele acrescenta que tal teologia “necessita da renúncia da doutrina da justificação como meramente um ato declaratório de Deus e requer uma visão da santidade divina, expressa somente por meio da ordem da natureza, a qual só pode ser mantida sobre princípios do panteísmo.” (Ibid., p. 747).
O Perfeccionismo à Luz da Encarnação
        Volvendo-nos à Bíblia no estudo deste tema vemos que o livro de Hebreus assume o tema da perfeição cristã à luz da encarnação, expiação e intercessão de Jesus Cristo.
Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico (pois nele baseado o povo recebeu a lei), que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão? . . .  (pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma), e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus”. Heb. 7:11, 19.
        “A lei nunca aperfeiçoou coisa alguma”. Lei neste contexto se refere ao sistema de sacrifícios e ofertas do velho concerto. Não poderia trazer a perfeição. Meramente prefigurava a perfeição que seria introduzida pela nova e melhor aliança.
        Nos capítulos 9 e 10 o autor de Hebreus expande o pensamento das limitações dos tipos e sombras terrenos. Ele declara que eram apenas ordenanças carnais que “não podiam tornar perfeito o que realizava o serviço”. Heb. 9:9, 10. Até o grande ritual do Dia da Expiação não podia “tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem”.  Heb. 10:1.
       Por Sua encarnação Cristo eliminou esses sacrifícios e ofertas que eram incapazes de aperfeiçoar os adoradores (ver Hebreus 10:5-14).
       Na plenitude do tempo, Cristo apareceu como o Cabeça da raça humana e como nosso Substituto e Penhor. Sua vida e morte cumpriram a vontade de Deus e estabeleceu a perfeição que tornou os sacrifícios animais inteiramente obsoletos. Notem estas palavras: “(pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma), e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus”.
       Jesus estabeleceu uma perfeição pela qual podemos nos aproximar de Deus. Não nos aproximamos de Deus a fim de que tal perfeição seja estabelecida. O único modo de aproximar-nos de um Deus santo está na perfeição—na perfeição do caráter justo de nosso Substituto e Penhor.
       Volvendo ao início do livro de Hebreus lemos no capítulo 1 a posição exaltada da divina pessoa de Cristo. Ele é descrito como “o fulgor da glória de Deus”, o Criador e Sustenedor do universo. Hebreus 2 nos apresenta a verdadeira humanidade de Cristo. Ele assumiu nossa carne e sangue e em todas as coisas participou da substância  e essência da natureza humana.
    Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo”. Heb. 2:17.
       Cristo postou-se como o Cabeça da raça humana. Pelo infinito sofrimento Ele foi feito aquela perfeição que a lei requeria de nós todos. Deus traz muitos filhos à glória, não por torná-los a perfeição requerida, mas por torná-Lo “o Autor da salvação deles” (vs. 10). Sua integral isenção de pecado e imaculado oferecimento de Si próprio a Deus são suficientes para levar muitos filhos à glória. Esta é a perfeição de que carecemos  a fim de aproximar-nos de Deus. Não existe outra perfeição suficiente no universo. A perfeição do anjo Gabriel estaria muito aquém. Não admira que temos uma melhor esperança pela qual podemos aproximar-nos de Deus. Novamente no capítulo 5 o apóstolo declara:
    Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem. Heb. 5: 8, 9.
       Essa perfeição substitucionária tão só O designa como Autor de nossa salvação.       Chegamos ao capítulo 8:
    Ora, o essencial das coisas que temos dito é que possuímos tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem. Pois todo sumo sacerdote é constituído para oferecer tanto dons como sacrifícios; por isso, era necessário que também esse sumo sacerdote tivesse o que oferecer. Hebreus 8: 1, 2, 3.
      “Era necessário” antes que Jesus pudesse retornar ao céu para ser nosso intercessor à mão direita de Deus que primeiro tivesse algo a oferecer. A lei requer perfeição. Jesus teve que estabelecer essa perfeição para nós aqui sobre a Terra antes que pudesse voltar ao céu.
    Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.  Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para uma segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Heb. 8:6-8.
      No velho concerto o povo jurou satisfazer tudo quanto a lei deles requeria. Mas falharam em vista do padrão perfeito da lei. Assim, Deus declarou: “Acho defeito neles”. Deus, então, estabeleceu um concerto melhor. Ele nos concede a Jesus para apresentar-Se em nosso lugar diante da lei. O Senhor não pode achar falta em nosso Substituto. Ele Se compraz Nele, pois Nele a humanidade é toda a perfeição que a lei requer. O veredito pronunciado sobre todos que estão em Cristo pela fé é “nenhuma falta”. Todo sincero crente apresenta-se “sem falta diante do trono de Deus” mediante a perfeição de seu grande Cabeça e Autor.
     E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis. Colossenses 1: 21, 22.
    Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória”. Judas 24.
      Somos inclinados a entender o livro de Hebreus como se ele assim ensinasse: “O santuário terrestre com seu sangue de bodes e cabritos não poderia aperfeiçoar o adorador; mas o santuário do novo concerto, com o sangue eficaz de Cristo, aperfeiçoará os crentes em Jesus”. Mas isto não é o que o apóstolo está ensinando. Ele não diz “aperfeiçoará”, mas “aperfeiçoou”. Observe o contraste entre o tipo e o antitipo:

O Tipo e O Antitipo

    Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem.  Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados? Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos. Hebreus 10:1-3.
     Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.  Heb. 10:12-14.
      O apóstolo não declara que Cristo aperfeiçoará o povo de Deus. Ele declara que os aperfeiçoou com uma perfeição eterna (comparar com Daniel 9:24). Essa perfeição jaz no seu Grande Autor. Contudo, é sua perfeição porque Cristo a eles pertence, e são “perfeitos em Cristo Jesus”. Col. 1:28.
      A eficácia da intercessão de Cristo à destra de Deus repousa no fato de que Ele nos aperfeiçoou sobre a terra. Destarte, Ele é capaz de “salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”. Heb. 7:25.
      Inclinamo-nos também a pensar que a perfeição que Deus requer de nós é como o teto de um edifício. Mas segundo o livro de Hebreus, é a fundação de toda a estrutura. Conquanto a lei nada tenha aperfeiçoado, a introdução de uma nova esperança estabeleceu a perfeição, e na ousadia e confiança dessa perfeição podemos nos aproximar de Deus.
     Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura”. Heb. 10:19-22.
      Certamente, perfeição é o tema de Hebreus, mas precisamos encará-la como a perfeição de nosso Capitão e Autor da eterna salvação. Se não contemplarmos o esplendor e magnificência dessa perfeição que Deus nos propiciou, seremos como os judeus, que sendo ignorantes da justiça que Deus propiciou em Seu Filho, buscaram estabelecer sua própria justiça. É requerida fé para ver essa perfeição porque está agora no céu à destra de Deus. De fato, tal perfeição situa-se bem diante da lei de Deus, exatamente onde dela carecemos. Essa perfeição é absoluta; sem graduações. E Cristo vive sempre para apresentá-la em nosso benefício diante do trono eterno.

Perfeição Subjetiva

      Mas há também uma perfeição subjetiva mencionada na epístola aos Hebreus–ou seja, uma perfeição requerida do crente.
      O primeiro exemplo se acha em Hebreus 5:4: “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”. A mesma palavra é empregada em 1 Cor. 14:20: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (ver também Filipenses 3:15). A palavra claramente significa maturidade cristã, condição espiritual amadurecida, em contraste com infância espiritual. O autor de Hebreus anseia que os judeus cristãos progridam além da imaturidade espiritual de seu nascimento cristão. Ele deseja que avancem além do estágio de precisarem ser alimentados do leite racional, mas que se desenvolvam como homens de fé, atingindo à plenitude da fé evangélica. Assim, diz ainda: “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus”. Heb. 6:1.
      A palavra “perfeição” aqui refere-se ao que estava tratando no verso precedente, ao falar em “plenitude”. Essa perfeição subjetiva (maturidade) constitui uma fé bem firmada e inabalável na perfeição que foi introduzida pelo Mediador de um novo concerto. Significa, como Paulo propõe aos efésios,  “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”. Efé. 4:14. Representa ter fé e confiança para aproximar-se do trono de Deus mediante a fé na perfeição de nosso Substituto, conhecer nossos direitos e títulos mediante Ele, bem como nossas responsabilidades.
     Logicamente, essa fé pode somente ser amadurecida mediante prova, obediência firme à verdade, por conflito, sofrimento e paciência. Podemos atingir essa perfeição ou maturidade apenas mediante “vagarosos e penosos passos”. A perfeição que temos em Cristo não nos libera da necessidade de avançar zelosamente na maturidade cristã; antes, motiva-nos e impele-nos à maturidade. Sua perfeição é o nosso ideal. A lei não é satisfeita com nada menos do que isso; e não podemos nos satisfazer com nada menos.
     Portanto, nunca nos satisfaremos com nós próprios, mas sempre e somente encontraremos nossa satisfação Nele, e pela fé reivindicamos a promessa: “Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade”. Col. 2:10.
Perfeição Isenta de Pecado
      Há também uma perfeição absolutamente isenta de pecado que finalmente será experimentada por todos os santos. É mencionada pelo final do livro de Hebreus:
    Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. . . . (Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados).  Heb.  11:13 e 39, 40.
      Falando a respeito desse tempo, o apóstolo Pedro declara:
    Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. 1 Pedro 1: 3, 4, 5, 13.
      Paulo acrescenta:
    Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. 1 Cor. 13:9, 10.
    Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita. . . . Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. . . . Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. Romanos 8: 11, 18, 22-25.
      O discípulo amado João testifica:
    Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. 1 João 3:2.
      E para que ninguém pense que a doutrina da realização empírica de perfeição por ocasião do Advento elimina a necessidade de santificação no presente, João acrescenta:                E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. 1 João 3:3.
Sintetizando
      Razões para descartar a idéia de alcançar-se uma condição de isenção de pecado nesta vida podem ser classificadas  como razões bíblicas, e razões históricas.

      Razões bíblicas:

      Confiamos em que o leitor já viu que o tipo de perfeição destacada no livro de Hebreus não é uma condição de isenção humana de pecado. Nem se pode reunir evidência bíblica para defendê-la. Sumariando brevemente os pontos básicos do que ensina a Bíblia a respeito, enumeraríamos os seguintes itens:

1. Todos os homens foram nascidos com uma natureza pecaminosa em conseqüência do pecado de Adão. Portanto, são pecadores antes de terem cometido qualquer ato pecaminoso. Em parte alguma a Bíblia ensina que o povo de Deus pode esperar ter essa natureza pecaminosa erradicada nesta vida. Não podemos escapar à evidência de Romanos 6, 7, 8 e Gálatas 5:17. A natureza pecaminosa permanece nos santos até Jesus voltar; contudo não reina, pois, mediante o Espírito, o povo de Deus continua a lutar e mortificar suas inclinações carnais. Contudo, todos precisam confessar o pecado que ainda jaz no íntimo (Rom. 7:18). Ninguém é isento de pecado (1 João 1:8).

2. “Todos . . . continuam carecendo da glória de Deus”. Romanos 3:23 (segundo o tempo verbal literal). A palavra pecado tanto em hebraico quanto em grego significa literalmente, “não atingir o alvo”. Assim, à medida que os filhos de Deus deixem de atingir a meta da glória de Deus, são pecadores. Por quanto tempo assim se manterão aquém do alcance da meta? Obviamente até atingirem a glória de Deus. Declara o apóstolo:

    Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. Romanos 5:1, 2
    Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. . . . Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Rom. 8:17, 18, 22, 23.
      Claramente, essas passagens apontam ao tempo do segundo advento. Até que os santos sejam glorificados e imortalizados por ocasião da volta de Jesus, estarão aquém dessa glória. Nesse sentido serão pecadores.3. A única maneira pela qual o povo de Deus pode ser justo ou perfeito à vista de Deus nesta vida é pela graça, por Cristo e pela fé (Rom. 3:24, 25).

Pela graça: A graça que nos aceita como perfeitos é simplesmente a misericórdia e favor de Deus para contar os que ficaram aquém da glória divina como atingindo o mais elevado ideal (ver Romanos 3: 23, 24). Ser justo pela graça contrasta-se com ser justo por natureza. A mensagem de Paulo é clara: a graça deve reinar até a glória:

    A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Rom. 5:21
      O apóstolo Pedro aduz:
    Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo. 1 Pe. 1:13
Por Cristo: Deus graciosamente aceita como justos os que continuam a ficar aquém da glória de Deus com base no fato de que seu Substituto é justo (Gál. 3:17). Ser justos perante Deus por Cristo é o mesmo que ser “perfeitos em Cristo Jesus”. (Col. 1:28).Pela fé: a fé leva a Deus, à perfeita obediência de Jesus Cristo, e Deus credita essa obediência ao pecador. Isto é o que significa ser justificado pela fé. Nesta vida os santos são justos diante de Deus somente pela fé, e nunca pelas obras, amor, santificação ou natureza. Logicamente os santos produzem boas obras, amam a Deus e a seus semelhantes, seguem a santificação pela obediência a Seus mandamentos, mas em todos esses atos prosseguirão aquém da glória de Deus e, portanto, só pela fé é que serão justos.

      Razões históricas:

      De tempos em tempos na história da igreja, diferentes indivíduos e grupos têm-se levantado com uma fórmula para alcançar uma condição de perfeição ou isenção de pecado. Vez após vez essas aspirações perfeccionísticas têm sido repudiadas pelos que se postam na verdadeira corrente dos ensinos cristãos. Os Reformadores repudiaram inteiramente as idéias de alcançar a isenção de pecado como algo contrário ao conceito bíblico integral de justificação pela fé.
      Geralmente, as seitas perfeccionistas terminaram ou terminam em formas muito fanáticas ou bizarras de cristianismo. John Wesley constitui uma das poucas exceções. Não só a sua perfeição metodista era moderada, como nunca se tornou o centro de seu testemunho cristão. Desafortunadamente, seu conceito de “segunda bênção” para santificação integral prosseguiu após sua morte e deu origem ao “Movimento de Santidade” no século XIX, que posteriormente desaguou no carismatismo, primeiramente na forma do pentecostalismo tradicional, a seguir alcançando as igrejas históricas no movimento carismático protestante, e finalmente atingindo o seio do próprio catolicismo romano.
      A idéia de atingir uma condição de isenção de pecado antes do advento de Jesus tem sido inteiramente repudiada pelos verdadeiros evangélicos conservadores em todas as épocas da história da igreja. Vale lembrar nestas altura o pensamento do teólogo Dr. Buchanan, que declarou: “É quase impossível inventar uma heresia nova”.

Justificação, Base da Comunhão Cristã
      Vivemos em comunhão com Deus por pura misericórdia, e nunca somos aceitos com base na santificação atingida. Se o princípio de justificação pela justiça imputada de Cristo se tornar um princípio vivo em nossos corações, deve certamente expressar-se na nossa comunhão de uns para com outros. Tal como a justificação pela graça somente é a única base de nossa comunhão com Deus, será também a base de nossa comunhão com os semelhantes. Isto é ilustrado pela parábola do Senhor a respeito do servo implacável. Em vista de que realmente esperava pagar o seu débito ao rei, (“tende paciência comigo que te pagarei”) ele esperava que o seu devedor  lhe pagasse o que devia. Não esperava continuar vivendo do perdão em seu relacionamento com o Rei, e assim não quis estender qualquer perdão a seu semelhante em débito com ele.
      Se perdermos de vista o princípio da justificação pela fé, imaginaremos que seremos aceitos segundo os méritos da santificação. Então igualmente tornaremos a nossa comunhão com os semelhantes dependente de  alcançar ele o padrão que imaginarmos dever ser, e quando não o fizer, o agarraremos pelo pescoço. Portanto, em termos de relacionamento humano, faz toda diferença se nossa religião baseia-se primariamente em misericórdia ou desempenho.
      É inevitável que estendamos aos nossos irmãos o que alcançamos junto ao trono da graça. A consciência de que somos aceitos, não por nosso desempenho, mas porque a justiça encontrada em nosso Representante e Cabeça se refletirá em nosso relacionamento com outros. Se pedimos a Deus para nos aceitar como preciosos e justos por causa do que Jesus é, então aceitamos como preciosos e justos os nossos irmãos em Cristo na mesma base. Na oração do “Pai Nosso” oramos, “perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”.
      Paulo, o grande expositor da justificação pela fé, ilustrou tal conduta em seu relacionamento com os coríntios. Em sua ausência havia muitos que desconfiavam dele e desprezavam o grande apóstolo. Entraram em cisões, carnalidade e orgulho espiritual. Contudo, o apóstolo ainda dirigiu-se a eles como santos, literalmente. Por quê? Porque, como ele disse, eram “santos em Cristo Jesus”. 1 Cor. 1:1.
      Assim, o princípio básico a ser lembrado é: Deus não nos aceita e tem comunhão conosco por causa do que somos em nós mesmos, mas por causa do que somos em Jesus, nossa Cabeça viva. Na mesma base devemos aceitar nossos irmãos em Cristo e estar dispostos a ter comunhão com ele.
Entendendo os Paradoxos Bíblicos:
a) Lei e Evangelho:

      Não é tarefa fácil para a mente humana manter a lei e o evangelho em apropriada tensão. Se a lei superar o evangelho, as pessoas se desviarão no rumo do legalismo. Se o evangelho for apresentado de molde a diminuir a tensão da lei, as pessoas descambarão para a permissividade. O constante perigo é que as pessoas se tornem “preguiçosas com a contínua pregação da graça”, como declarou certo autor, ou se tornem farisaicas mediante a insistência quanto à lei.
      A lei nos ordena a seguir pelo caminho dos mandamentos de Deus, empenhar-nos em cumprir todos os seus santos requisitos. Mas o evangelho proclama, “tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o Senhor vos dará”; “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. 2 Crôn. 20:17; Sal. 46:10.
      A lei e o evangelho não devem ser “misturados” de tal modo que um reduza a força do outro. Ambos precisam ser proclamados em sua plena força. As pessoas devem ser tão zelosamente instadas a obrar quanto a descansar, correr e permanecer quietas. A verdade só pode ser expressa pelas duas declarações que parecem opor-se: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma”. Mat. 11:28, 29; “Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência”.  Heb. 4:11.
      Melancton declarou: “Somos justificados pela fé somente; mas a fé que nos justifica nunca está sozinha”.

b) Justificação e Santificação:

      Somos justificados por um evento fora de nós, mas santificados pela atuação do Espírito dentro de nós. A essência do legalismo católico romano é depender da obra de renovação interior para a aceitação diante de Deus. Mas a essência do antinomismo protestante é supor que podemos ser santificados e tornados aptos para o céu pela obra de Cristo fora de nós.
      Nenhum montante de santificação pode assegurar a admissão de alguém no reino da graça; mas a falha em buscar a santificação pode resultar em ser alguém lançado fora. A justificação é sempre posta em perigo se a santificação não for exercida. A bênção da justificação não pode ser sustida por boas obras, mas a menos que o crente seja cuidadoso em manter as boas obras, ele não reterá essa justificação. A obediência não pode assegurar a bênção do perdão; mas pela desobediência a bênção não pode ser perdida.
      Contudo, deve-se considerar o outro lado da moeda. A santificação é posta em perigo se não tiver por base a justificação. Deve haver um constante retorno à justificação, à palavra de perdão, se a santificação tiver que ser preservada contra o farisaísmo e justiça própria. A oração e culto são somente bons por aceitação graciosa. A verdade da justificação chama a tudo quanto somos e fazemos a uma prestação de contas.  O verdadeiro crescimento cristão pode somente existir onde há uma crescente apreciação da justificação. Nunca podemos atingir um ponto em nosso progresso em santificação onde nossa aceitação para com Deus não tiver por fundamento o perdão dos pecados.
      A constante necessidade de justificação pela fé significa que o pecado é inescapável – pois não há homem sobre a terra que não peque (Ecle. 7:20), e todos continuam a ficar aquém da glória de Deus (Rom.3:23). Mas a santificação nos ensina quanto ao nosso positivo dever de evitar o pecado. Por um lado somos chamados a descansar, por outro a viver uma vida de dedicada atividade.
      A justificação nos concede perfeição, e a santificação nos insta a marchar rumo a ela. Mediante a fé justificadora o coração é purificado de todo pecado; contudo somos instados a purificar nossas almas e obedecer a verdade.
      Muitas outras considerações poderiam ser apresentadas nesses paradoxos entre justificação e santificação. Por fim, o paradoxo entre o ser puros e ser impuros; possuir todas as coisas e nada ter (2 Cor. 6:10), repousar em fé, mas obrar em amor; ser tornados livres pela fé, contudo fazer-nos servos de todos por amor; ser consolado, contudo também ser admoestados e, finalmente, a posse presente e a esperança futura da salvação.
      Paulo fala-nos sobre isso de modo bem pungente, descrevendo sua própria experiência na jornada cristã:

    Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal”. 2 Coríntios 4:8-11.
      A lei e o evangelho, a fé e as obras, justificação e santificação e todos esses grandes paradoxos precisam ser mantidos em apropriada tensão. Se proclamamos a glória de Sua graça justificadora e imaginamos que isso somente motivará as pessoas a buscarem zelosamente prosseguir na senda da santificação logo perceberemos que precisarão ser severamente admoestadas quanto à conduta de obediência. Mas se a linguagem da experiência cristã se tornar de muita confiança própria, será necessário um retorno à severidade da justificação, doutro modo a santificação degenerará em fanatismo ou pretensões de “santidade” especial.
      Uma ilustração apropriada seria a do aeroplano. Há duas forças antagônicas a serem superadas para que um avião alce vôo: a força da gravidade e a força da impulsão. Uma não pode cancelar a outra, do contrário, no caso da gravidade, o avião não conseguiria sair do chão, e, se a impulsão for excessiva, se projetaria irremediavelmente pelo espaço sideral.
      Agora, pensemos na força da gravidade como o poder do pecado interior, e a impulsão como o poder da graça santificadora. A “sabedoria” humana pode levar-nos a pensar que podemos realizar melhores vôos espirituais se pudermos encontrar uma maneira de nos livrar da limitadora força de “gravidade”. Mas enquanto estivermos neste mundo, precisamos dessa “gravidade” – é parte da maldição que Deus emprega para nos abençoar (Gênesis 3:17). Mas, como pode uma maldição nos servir de bênção? Pois esse é outro incrível paradoxo![Este material teve por base a publicação A Review of the Awakening Message – Parte II, tendo como editor Norman Jarnes, publicada por “Present Truth”, de Fallbrook, Calif., EUA, 1973].
 
 

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