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VIDA NO MUNDO POR VIR

Dr. Samuele Bacchiocchi

    Este estudo dá enfoque ao ambiente e estilo de vida reais dos remidos. Haverá relações maritais no mundo do porvir? Receberão os remidos um tipo de corpo “unissex”, ou corpos heterossexuais, como na vida presente? O novo mundo será um lugar material como o atual ou um ambiente “espiritual” radicalmente diferente deste mundo? Os remidos se empenharão nos tipos de atividade que conhecemos hoje, ou passarão a eternidade em infindável contemplação e meditação? Estas são indagações importantes que merecem cuidadosa consideração. Afinal de contas, nosso entendimento da vida no mundo por vir determina se podemos ou não ser inspirados a nos preparar, bem como a outros, para a cidadania no reino eterno de Deus.

        A principal passagem bíblica que fala da vida na Nova Terra (Isa. 65:17-25; 66:22-23; Apoc. 21:1 to 22:5) oferece-nos apenas lampejos de como a vida realmente será ali. Assim, qualquer tentativa de caracterizar as condições e as atividades no mundo futuro devem ser vistos como esforços muito limitados e imperfeitos para descrever uma realidade que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano” (1 Cor 2:9).
        Haverá relações maritais no mundo por vir? A resposta de muitos cristãos sinceros é “NÃO”! Eles crêem que por ocasião da ressurreição os remidos receberão um tipo de corpo espiritual “unissex” que substituirá nossos atuais corpos físicos e heterossexuais. Sua crença deriva basicamente de uma incompreensão das palavras de Jesus encontradas em Mateus 22:30: “Na ressurreição não se casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos do céu”.
        Acaso este texto deixa implícito que por ocasião da ressurreição todas as distinções sexuais serão abolidas e nossos corpos não mais serão físicos? Se esta interpretação estivesse correta, isso significaria que, contrariamente ao que as Escrituras dizem, a criação original da humanidade composta de seres heterossexuais físicos não foi de fato “muito bom” (Gên 1:31) afinal de contas. Para remover os “bugs” [falhas de fabricação] de sua criação original, Deus acharia necessário no novo mundo criar um novo tipo de ser humano, presumivelmente feito de corpos “unissex, não físicos”.

        Mudança Implica Imperfeição. Para dizer o mínimo, esse raciocínio é absurdo para quem quer que creia na onisciência e imutabilidade de Deus. É normal para os seres humanos introduzirem novos modelos e estruturas para eliminar deficiências existentes. Para Deus, contudo, isso seria anormal e incoerente, uma vez que Ele conhece o fim desde o princípio.
        Se quando da ressurreição Deus tivesse que mudar nossos atuais corpos físicos, heterossexuais, para corpos “unissex não-físicos”, então, como Anthony A. Hoekema corretamente faz observar: “o diabo teria obtido uma grande vitória, uma vez que Deus então seria compelido a mudar os seres humanos com corpos físicos tal como fizera ao criar seres de um tipo diferente, sem corpos físicos (como os anjos). Então com isso de fato pareceria que a matéria se tornou intrinsecamente má de modo a ter de ser banida. E então, em certo sentido, os filósofos gregos teriam se revelado certos. Mas a matéria não é má; é parte da boa criação de Deus."1

        Semelhantes aos Anjos. Um estudo da declaração de Jesus em seu próprio contexto não concede apoio ao ponto de vista de que por ocasião da ressurreição os remidos receberão corpos angélicos, não-físicos, unissex. O contexto é uma situação hipotética criada pelos saduceus na qual seis irmãos se casaram em sucessão com a viúva de seu irmão. O propósito de tais casamentos sucessivos, do levirato, não era relacional, mas prociacional, ou seja, para suscitar “descendência ao falecido” (Mat. 22:24). A questão levantada pelos saduceus como um teste era, “Na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa?” (vs. 28).
        Respondendo a esta situação hipotética, Jesus afirmou: “Errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu”. (Mat. 22:30). No contexto da situação hipotética de sete irmãos casando-se com a mesma mulher para dar-lhe descendência, a referência de Cristo ao não-casamento com relação aos anjos muito provavelmente significa que o casamento como um meio de procriação não mais existirá no mundo do porvir. É evidente que se nenhum filho nascer, não haverá possibilidade de casar um filho ou dar uma filha em casamento, que é o sentido dessas frases.
        A cessação da função procriacional do casamento tornará os remidos “como os anjos”, presumivelmente porque eles não se reproduzem à sua semelhança. Não há indicação nas Escrituras de que os anjos tenham bebês. Em sua resposta, Jesus não trata da questão imediata da condição marital de uma mulher casada sete vezes, mas com a questão mais ampla da função procriacional do casamento, que, afinal de contas, era a razão para os sete irmãos casarem-se com a mesma mulher. Esse método indireto de responder a perguntas não é incomum nos ensinos de Jesus. Por exemplo, quando indagado pelos fariseus, “É lícito ao marido repudiar sua mulher?” (Marcos 10:2), Jesus preferiu ignorar a pergunta imediata, destacando, em vez disso, o desígnio criacional original para um compromisso vitalício, sem o divórcio (Marcos 10:5-9).

        Solteiros no Porvir? A cessação da função procriacional do casamento implica também o término de sua função relacional? Não necessariamente. Se Deus criou os seres humanos no princípio como macho e fêmea, sem a capacidade de experimentar unidade de comunhão íntima, não há razão para supor que Ele os recriará no final como seres unissex, que viverão como indivíduos solteiros, sem a capacidade de experimentar a unidade de comunhão existente no relacionamento homem/mulher.
        A doutrina das Primeiras Coisas, conhecida como etiologia, deveria iluminar a doutrina das Últimas Coisas, conhecida como escatologia. Se Deus achou Sua criação dos seres humanos como macho e fêmea “muito bom” (Gên. 1:31) no princípio, descobriria ao final que aquilo foi “muito mau”? Temos razão para crer que o que foi “muito bom” para Deus no princípio, será também “muito bom” para Ele no fim. Deus não aprende com o erro, como ocorre com os humanos.
        Os cristãos, que crêem que a vida humana originou-se não perfeitamente por decisão divina, mas pelo acaso através de geração espontânea, podem achar racional crer numa reestruturação radical dos seres humanos de físico e heterossexual para não-físico e unissexual. Poderiam explicar essa transformação como parte do processo evolucionário empregado por Deus. Contudo, para os cristãos, como os adventistas do sétimo dia, que crêem numa criação original perfeita e celebram mediante a observância do sábado a perfeição da divina criação original, é impossível imaginar que ao final Deus alterará radicalmente a estrutura e natureza do corpo humano.

        Cessação da Procriação. A cessação da capacidade reprodutiva humana no mundo do porvir, como implícito na declaração de Jesus em Mateus 22:30, poderia ser vista como uma mudança no desígnio original de Deus para a função da sexualidade humana. Mas isto não é necessariamente verddade. A Escritura sugere que Deus já havia contemplado tal mudança em Seu plano original, quando disse: “Multiplicai-vos, enchei a terra” (Gên. 1:28).
        A ordem para encher a Terra pressupõe que Deus havia intencionado terminar o ciclo reprodutivo, uma vez estivesse a Terra ocupada por um número ideal de pessoas. Num mundo perfeito, sem a presença da morte, o equilíbrio ecológico entre terra e povo teria sido alcançado num prazo relativamente curto. No tempo certo, Deus interromperia o ciclo reprodutivo dos seres humanos e sub-humanos, para proteger o ecossistema deste planeta.
        É razoável presumir que a ressurreição e trasladação dos santos constituem o cumprimento do plano original de Deus para “encher” a Terra. Em certo sentido, os redimidos representam o número ideal de habitantes que esta Terra renovada terá capacidade de comportar adequadmente. Isso é sugerido pela referência  aos nomes “escritos desde a fundação do mundo” no livro da vida (Apoc. 13:8, ver 17:8; 21:27; Dan. 13:1; Fil. 4:3). A menção aos nomes sugere a existência de um plano divino original para um número ideal de justos que habitassem a Terra. Não tivesse ingressado o pecado, Deus em Sua providência teria interrompido o ciclo reprodutivo quando o número ideal de pessoas fosse alcançado. Mas a cessação da função procriativa do casamento, antes ou depois da Queda,  não necessita traduzir-se na cessação de sua função relacional.

        A Continuidade de Relacionamentos. A referência de Jesus a sermos  “semelhantes aos anjos” (Mat. 22:30) quando da ressurreição  não implica necessariamente o término da função  relacional do casamento. Em parte alguma a Escritura sugere que os anjos sejam seres “unissex”, incapazes de dedicar-se a relações  íntimas semelhantes ao que se passa no casamento humano. O fato de  que os anjos são freqüentemente citados na Bíblia aos pares  (Gên 19:1; Êxo. 25:18; 1 Reis 6:23) sugere que desfrutam relações íntimas como casais.
        Deus revelou-Se não como um Ser solitário que vive em  eterno isolamento, mas como uma comunhão de três Seres tão  intimamente unidos que nós Os adoramos como um só Deus. Se o próprio Deus vive num relacionamento de tal intimidade com os outros  membros da Trindade, não há razão para crer que Ele aboliria ao final a função unitiva do casamento que Ele próprio  estabeleceu na criação.
        Apoio para esta conclusão é propiciada também pelo fato, já feito notar, de que as distinções sexuais de masculinidade e feminilidade se apresentam na Escritura como “imagem de Deus” (Gên 1:27). Um aspecto da “imagem de Deus” na humanidade é a capacidade dada por Deus a um homem e uma mulher para experimentarem mediante o casamento uma unidade de comunhão semelhante à existente na Trindade. Se a masculinidade e feminilidade humanas refletiram a imagem de Deus por ocasião da criação, temos razão para crer que prosseguirão refletindo a imagem de Deus quando da restauração final de todas as coisas. O propósito da redenção não foi a destruição da criação original de Deus, mas sua restauração a sua perfeição original. É por isso que a Escritura fala da ressurreição do corpo, e não da criação de novos seres.

        Renovação desta Terra. Para apreciar os lampejos bíblicos sobre a vida no mundo por vir, é importante lembrar-nos primeiro de tudo que na Bíblia a habitação eterna dos redimidos localiza-se aqui sobre a Terra, e não em alguma parte do céu, lá no alto. Tanto o Velho quanto o Novo Testamentos falam de um “novo céu e uma nova terra” (Isa. 65:17; Apoc. 21:1) como não sendo um mundo diferente longe no espaço, mas o céu e a terra presentes, renovados e transformados a sua perfeição original.
        A visão bíblica do mundo por vir é inspirada pela paz, harmonia, prosperidade material e deleite do sábado primordial. O Primeiro Dia de Adão após sua criação funciona no Velho Testamento como paradigma dos Últimos Dias, uma designação comum para o mundo por vir. A paz e harmonia que existiam entre Adão e os animais quando da criação serão restaurados na nova terra quando “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito, o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (Isa. 11:6).
        Semelhantemente, a prosperidade e abundância que prevaleceram durante a criação serão restaurados na nova terra, onde “o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão”  (Amós 9:13; cf. Isa. 4:2; 30:23-25; Joel 3:18; Sof. 3:13). Estas descrições transmitem o quadro de uma vida “terrena” real e abundante no novo mundo. “O deserto se tornará em pomar” (Isa. 32:15) e “o lobo habitará com o cordeiro” (Isa. 11:6).
        O Novo Testamento apresenta essencialmente a mesma visão do mundo por vir. Pedro fala desta “terra e das obras que nela há” a serem purificadas pelo fogo (2 Ped. 3:10). O resultado serão “novos céus e uma nova terra nos quais habita a justiça” (2 Ped. 3:13). Paulo declara que toda a criação humana e sub-humana está ansiosamente na expectativa de que “a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rom. 8:19-21). João viu em visão os “novos céus e a nova terra” que Deus estabelecerá após purificar esta Terra presente (Apoc. 21:1-4).

        Vida Urbana Ativa. Talvez a imagem mais poderosa empregada no Novo Testamento para transmitir o senso de continuidade entre o mundo presente e futuro seja a imagem da Cidade Santa. Hebreus, por exemplo, declara que Abraão “aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Heb 11:10). A experiência de Abraão é um tipo da experiência de todos os crentes, porque, como explica o mesmo autor, “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Heb. 13:14).
        O Novo Testamento se encerra com a descrição mais impressionante da Cidade Santa, a Nova Jerusalém, na qual serão acolhidos somente “os inscritos no Livro da Vida do Cordeiro (Apoc. 21:27). É de duvidar que todos os pormenores da cidade, tais como a alta muralha, os doze portões, os doze fundamentos, devam ser tomados literalmente. Seja qual for o seu significado, a visão da Cidade Santa transmite a imagem, não de uma vida mística e monástica num retiro celestial, mas de vida urbana de intensa atividade nessa terra renovada.
        A vida na Cidade Santa não será de isolamento e solidão, mas de comunhão, emoção e ação. A Nova Jerusalém será um lugar complexo, cosmopolita, onde todos os tipos de pessoas de diferentes raças, culturas e línguas viverão e trabalharão juntas em paz. A vida não será estática e entediante, mas dinâmica e criativa.
        “Na Nova Jerusalém”, escreve Shirley C. Guthrie “haverá comunidade sem uniformidade, individualidade sem irresponsabilidade. O problema dos direitos individuais versus bem comum terá sido resolvido de molde a que a comunidade serve ao indivíduo, e o indivíduo serve à comunidade, numa confraria de seres livres e responsáveis, unidos em amor”.2
        A imagem dos remidos vivendo juntos na Cidade de Deus em integração e interdependência representa o cumprimento da intenção divina para a criação e redenção. Por ocasião da criação, Deus desejava que os seres humanos encontrassem o seu cumprimento não por viver só, mas por trabalhar em conjunto para subjugar e ter domínio sobre a Terra. Mediante a redenção, Cristo nos reconcilia com Deus e com os nossos semelhantes de modo a que possamos viver em paz com todas as pessoas.

        Vida Urbana Sancionada por Deus. A visão bíblica da Cidade Santa na nova terra sugere que a estrutura da vida urbana é sancionada por Deus. Para muitos é difícil aceitar este ponto de vista porque nossas cidades atuais dificilmente seriam um reflexo da Cidade de Deus. Pelo contrário, são locais onde o crime, o ódio, a hostilidade e a indiferença para com Deus e os semelhantes prevalecem.
        A presente condição da vida urbana devia levar-nos a rejeitar, em princípio, a urbanização como uma estrutura social pecaminosa. O fato de que a vida urbana prosseguirá na nova terra nos diz que será possível às pessoas viverem juntas num sistema urbano complexo de interrelações e interdependência sem suscitar problemas sociais, econômicos, políticos e raciais como experimentamos hoje. Ademais, esta visão de vida conjunta na futura Cidade de Deus deve desafiar-nos como cristãos a não só abandonar as cidades em massa para fugir para o campo, mas trabalhar nas e pelas cidades, oferecendo nossa influência cristã e ajudando a resolver os muitos problemas complexos.

        Atividade e Criatividade. A vida na nova terra não será passada em ociosidade e meditação passiva, mas em atividade e creatividade produtivas. Os que pensam que os redimidos viverão no novo mundo como convivas glorificados, alimentados, abrigados e entretidos por Deus estão totalmente equivocados. A nova terra não é uma espécie de um mundo mágico da Disneylândia em que Deus propicia infidáveis passeios a todos. Não haverá “tomadores de carona” no mundo do porvir. Isaías escreve: “Edificarão casas, e nelas habitarão; plantarão vinhas, e comerão do seu fruto. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam” (Isa. 65:21-22).
        O quadro bíblico do mundo do amanhã é de molde a revelar pessoas reais empenhadas em atividade produtiva e criatividade. Não haverá falta de tempo ou de recursos para completar nossos projetos. No campo do conhecimento hoje, apenas arranhamos a superfície de qualquer disciplina em que decidimos nos especializar. Quanto mais aprendemos, mais percebemos haver ainda a aprender. Na nova terra, não haverá limite para nosso crescimento em conhecimento e graça.  “Toda faculdade será desenvolvida, toda capacidade aumentada. A acquisição de conhecimento não cansará a mente nem esgotará as energias. Ali, os mais grandiosos empreendimentos poderão ser levados adiante, as mais elevadas aspirações alcançadas, as mais altas ambições realizadas; e novas alturas surgirão para serem galgadas, novas maravilhas para admirar, novas verdades para compreender, novos temas para atrair as faculdades da mente, alma e corpo”3

        Continuidade Com a Cultura Atual. A vida na nova terra envolverá alguma continuidade com o que podemos designar a grosso modo de nossa cultura presente. Isso é sugerido pelo fato de que Deus purificará esta Terra e ressuscitará nossos corpos, em lugar de criar um novo planeta com habitantes novinhos em folha.
   Outra significativa indicação de continuidade é encontrada em Apocalipse 21:24, 26 que declara: “Os reis da Terra lhe trazem [à cidade] a sua glória. . . E lhe trarão a glória e a honra das nações”. Este texto sugere, primeiramente, que os habitantes da nova terra incluirão pessoas que alcançaram grande preeminência e poder neste mundo: reis, presidentes, cientistas, e assim por diante. Em segundo lugar, as contribuições singulares que indivíduos ou nações fizeram para a melhoria da vida presente não serão perdidas. Continuarão a enriquecer a vida na nova terra. Isso nos dá razão para crer que os avanços tecnológicos de nossa época em computação, comunicação e viagens não se perderão, mas serão em grande medida expandidos, refinados e aperfeiçoados.
        Deus que afirma a bondade do mundo que fez, e que valoriza nossas realizações criativas, não descartará simplesmente todas as obras criadas, produzidas por homens e mulheres, com freqüência ante grande sacrifício pessoal. É confortador pensar que o valor de nossa obra criada se estenderá para além desta vida presente, projetando-se na nova terra. A preservação das realizações singulares da raça humana sugere que a vida na nova terra não será monótona nem descolorida, mas emocionante e gratificante.

        Ausência do Mal. Uma diferença bem notável entre nossa vida presente e a da nova terra será a ausência de todas as coisas que agora limitam ou prejudicam nossa vida. O diabo, que é a fonte derradeira de toda forma de mal, será destruído no lago de fogo (Apoc. 20:10). Consequentemente, não haverá mais manifestação do mal dentro ou ao redor de nós. É difícil imaginar como será viver no novo mundo sem a presença de ódio, inveja, temor, hostilidade, discriminação, engano, opressão, morte, competição intensa, rivalidades políticas, corridas armamentistas, recessões econômicas, tensões raciais, fome, disparidade entre ricos e pobres ou doença e morte.
    “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram” (Apoc. 21:4). Esses lampejos sugerem bem mais do que na verdade indicam. Sugerem que não haverá mais doenças incuráveis, nem mais acidentes trágicos, não mais crianças deficientes, não mais serviços funerários, não mais separações permanentes. Também sugerem que estaremos aptos a cumprir nossas metas inspiradas por Deus. Em nossa vida presente, a doença ou morte muitas vezes liquidam os projetos ambiciosos que estamos perseguindo. Na nova terra, todos terão tempo e recursos ilimitados para cumprir as metas mais elevadas.

        Ausência de Temor. A ausência do mal será evidente, de modo especial na ausência de temor, insegurança e ansiedade. Nossa vida atual é constantemente exposta a perigos, incertezas e temores. Tememos a perda de nosso emprego, a invasão de nossa casa por ladrões, o enguiço de nosso carro, a infidelidade de nosso cônjuge, o fracasso de nossos filhos na escola e no trabalho, a deterioração de nossa saúde, a rejeição por nossos colegas. Em suma, tememos todas as incertezas da vida. Tais temores enchem nosso viver de ansiedade, contrariando assim o propósito de Deus para nós e reduzindo nosso potencial humano.
        As Escrituras empregam várias imagens para nos reassegurar de que na nova terra não haverá temor ou insegurança. Elas falam de uma cidade com fundamentos permanentes edificada pelo próprio Deus (Heb. 11:10), e de “um reino que não pode ser abalado” (Heb. 12:28). Talvez o quadro mais sugestivo de segurança para um cristão dos primeiros séculos seja de que a cidade tem uma “alta muralha” (Apoc. 21:12). Uma vez eram os maciços portões fechados nas antigas cidades, seus cidadãos podiam viver lá dentro em relativa segurança. Para destacar a completa segurança da nova terra, a Cidade Santa foi mostrada a João como tendo muralhas que são tão altas quanto seu cumprimento (Apoc. 21:16).
        Outra imagem significativa destinada a transmitir o senso de perfeita segurança na nova terra é o desaparecimento do mar (“o mar já não existe”—Apoc. 21:1). Para João, o mar representava o isolamento em Patmos e a separação de seus irmãos crentes no continente. O mar era visto também como uma ameaça à segurança do universo (cf. Apoc. 13:1; 17:15), especialmente pelos hebreus que, não dispondo de uma força marítima, eram constantemente expostos ao perigo de ataques súbitos pelo mar. Assim, a ausência do mar na nova terra significa a ausência de ameaças a sua segurança e harmonia. O mesmo senso de segurança seria melhor transmitido aos cristãos do século vinte se tais imagens dissessem: nenhum sistema de alarme, nenhuma fechadura de segurança, nenhum seguro para propriedades, nenhum posto de guarda, nenhum sistema de defesa estratégica. Não importando a imagem empregada, a garantia é de que na nova terra estaremos livres dos efeitos limitadores do temor e ansiedade.

        Ausência de Poluição. Um dos aspectos mais agradáveis da vida na nova terra será o seu ambiente limpo. “Nela nunca jamais penetrará cousa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira” (Apoc. 21:27). Liberdade da poluição moral do pecado se refletirá em liberdade da poluição física do ambiente. A vida não mais será ameaçada por poluição irresponsável e esgotamento de recursos naturais, porque os cidadãos da nova terra serão fiéis mordomos da nova criação de Deus. Não haverá áreas para fumantes na nova terra porque ninguém jamais desejará fumar e prejudicar sua saúde. Que alívio será ser capaz de respirar sempre ar fresco tanto dentro como fora de casa; ser capaz de beber de qualquer fonte, água limpa e transparente; ser capaz de comer alimento saudável e fresco, sem contaminação de pesticidas ou conservantes!
        Fato também tranquilizador é que os cidadãos da nova terra serão mordomos responsáveis da nova criação de Deus que não mais a poluirão. Presumivelmente produzirão poucos detritos e saberão como descartá-los de modo a que a natureza seja capaz de assimilá-los e processá-los. Um perfeito equilíbrio ecológico será preservado, o qual garantirá o bem-estar da criação humana e sub-humana.

        A Presença de Deus. O mais singular e recompensador aspecto da vida na nova terra será a experiência sem precedentes da presença de Deus entre Seu povo. “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles” (Apoc. 21:3). Essas palavras familiares constituem a promessa central do concerto divino de graça (cf. Jer. 31:33; Heb. 8:10) que se concreetizará plenamente na nova terra.
        A presença de Deus na nova terra será tão real que “a cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada” (Apoc. 21:23). Os crentes desfrutarão na nova terra a bendita comunhão que Adão e Eva experimentavam a cada sábado, quando Deus vinha visitá-los. A Queda interrompeu essa abençoada comunhão, mas o sábado continuou lembrando aos crentes de sua futura restauração (Heb. 4:9). Nossa celebração semanal do sábado alimenta nossa esperança da futura comunhão com Deus na nova terra. Haverá, como disse Agostinho, o “maior dos sábados” quando “descansaremos e veremos; veremos e amaremos; amaremos e louvaremos; é o que se dará no fim sem fim”.

        Adoração Regular e Mais Rica. Central à vida na nova terra será a adoração a Deus. Isaías descreve a regularidade e estabilidade da adoração na nova terra em termos familiares ao seu tempo. “De uma lua nova a outra, à outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor” (Isa. 66:23). O contexto indica que essa reunião regular de culto refere-se, primeiro que tudo, à esperada restauração política de Jerusalém e de seus serviços religiosos (v. 20), e, em segundo lugar, à restauração desta terra no tempo do fim, do qual o primeiro era um tipo. Os profetas freqüentemente vêem os cumprimentos divinos em última análise através da transparência de eventos históricos iminentes.
        Isaías menciona a “lua nova” juntamente com o sábado porque o primeiro desempenhava um papel vital em determinar o início do novo ano de cada mês, e também a data para celebrar festivais anuais-chave, tais como a Páscoa, o Pentecoste, e o Dia da Expiação. Para eles, o aparecimento da lua nova significava regularidade e estabilidade da adoração.
        Tanto a adoração pessoal quanto a pública serão regulares e ricas em expressão e significado. Nesta vida presente, adoramos a Deus conquanto nem sempre entendamos por que Ele permite que o ímpio prospere e o inocente sofra. Na nova terra, este mistério será resolvido à medida que os redimidos tenham oportunidade de entender a justeza dos julgamentos divinos. “Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó  Rei  das  nações! . . . porque os Teus atos de justiça se fizeram manifestos” (Apoc. 15:3 e 4). Esta revelação da justiça e misericórdia divinas inspirará os remidos a louvarem a Deus, proclamando: “Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso , porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos” (Apoc. 19:1-2).
        A adoração será mais rica na nova terra, não só por causa de uma apreciação mais plena da misericórdia e justiça divinas, mas também por causa da oportunidade de adorar a Deus visivelmente. “Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os Seus servos o servirão, contemplarão a Sua face, e nas suas frontes estará o nome Dele” (Apoc. 22:3-4). Este texto sugere que a adoração a Deus na nova terra enriquecerá os crentes com um conhecimento e desfrute de Deus mais plenos. Em certo sentido, esta é a função da adoração a Deus em última instância, ou seja, experimentar Sua presença, paz, e poder em nossas vidas. Esta experiência será tão real na nova terra que o lugar será verdadeiramente um céu.

        Comunhão com Todos os Crentes. A comunhão que desfrutaremos com a Trindade nos porá em comunhão com crentes de todas as eras e de todas as partes do mundo. Hoje podemos apenas ter comunhão com os que vivem em nossa época e nas vizinhanças imediatas. Na nova terra, nossa comunhão se estenderá àqueles que viveram em todos os períodos e países: patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, missionários, pioneiros, nossos ancestrais familiares, e descendentes, pastores e leigos.
        O símbolo dessa grande comunhão é o grande banquete das bodas do Cordeiro: “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro” (Apoc. 19:9). Essa comunhão incluirá “uma grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Apoc. 7:9). É impossível imaginar a inspiração e informação que obteremos de nos tornar pessoalmente relacionados com as pessoas mais bem dotadas que já viveram.
        Numa época em que muitos cristãos estão perdendo o interesse no mundo do porvir por  acharem-no muito casto, desinfetado, por demais irreal e entendiante, é imperativo recuperar a visão bíblica realista e holística da nova terra. Será um lugar onde toda faculdade será desenvolvida, nossas mais elevadas aspirações se realizarão, as maiores empresas serão levadas a efeito, e a mais doce comunhão será desfrutada com Deus e os semelhantes.         Esta gloriosa visão bíblica do mundo por vir pode atiçar nossa imaginação, alimentar nossa esperança e fortalecer nossa fé, enquanto vivemos entre as incertezas e problemas desta vida presente. Pode inspirar-nos a vivermos “no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tito 2:12), enquanto aguardamos a consumação de nossa Bendita Esperança--o aparecimento de nosso Salvador para restaurar este mundo a sua perfeição original.

NOTAS
   1. Anthony A. Hoekema, The Bible and the Future (Grand Rapids, 1979), p. 250.
   2. Shirley C. Guthrie, Christian Doctrine (Atlanta, 1968), p. 398.
   3. Ellen G. White, The Great Controversy Between Christ and Satan (Mountain View, California, 1950), p. 677.
 [Obs.: Quem desejar obter a nova edição ampliada, versão eletrônica, de O Desafio da Torre de Vigia poderá contactar o autor pelo e-mail em baixo:
 


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