Comendo e Bebendo . . . Para a Glória de Quem Mesmo?


 
Prof. Azenilto G. Brito

 Filipe e Mateus eram amigos inseparáveis, membros da igreja cristã da cidade portuária de Corinto, lá por meados do ano 58 AD. Filipe era um cristão “forte” e fervoroso para quem não fazia diferença utilizar-se ou não de comidas sacrificadas a ídolos, aceitando a visão de Paulo de que “o ídolo em si nada é”. Já Mateus tinha na consciência um repúdio a tudo que fosse relacionado com idolatria, e não aceitava de modo algum o consumo de carnes sacrificadas a ídolos, que se vendiam nos mercados da cidade.

Filipe sabia bem dos sentimentos do amigo, e evitava comer perto dele, ou em sua companhia, qualquer coisa que soubesse ter sido sacrificada a ídolos.

Certo dia, ambos foram convidados a almoçar na casa de um grego bem conhecido na comunidade, chamado Macário. Ele também se havia convertido ao evangelho, e entendia que não só se podia comer de tudo que se vendia no mercado, mas que isso incluía até as carnes que os judeus sempre consideraram imundas.

Alguns cristãos gentios começaram a interpretar certos escritos de Paulo, que circulavam entre as diferentes igrejas, de um modo um tanto liberal:

“Ora, afinal de contas que mal há em comer um leitãozinho assado?”, comentara Macário em conversa com os amigos tempos passados. E até contou que de vez em quando comprava ratazanas que se vendiam no açougue perto do porto, caçadas por pessoas pobres ou marinheiros de folga. Como na área do porto havia muitos armazéns onde se guardavam produtos agrícolas, havia ratos enormes circulando sempre por ali, em busca de restos de cargas alimentícias que ficavam pelas beiras dessas sessões portuárias.

A reação de Mateus ao ouvir isso tinha sido: “Comer rato?! Mas o que é isso, irmão Macário! Nunca leu no livro de Isaías a clara condenação aos que comem carne de porco e rato?!”

“Ora, meu irmão, os tempos mudaram", intervém Filipe, dando razão ao amigo Macário. "Paulo diz que se formos convidados a comer na casa de alguém, não se deve perguntar nada por causa da consciência. Assim, creio que podemos comer de tudo”.

Quando chegaram à casa do grego e já estavam à mesa, Macário dirigiu-se a Mateus: “Eu sei, irmão Mateus, de seus escrúpulos contra coisas oferecidas a ídolos, mas pode ficar tranqüilo que aqui nesta mesa nada há que seja de tal origem”. Com isso ambos os amigos sentiram-se mais à vontade para partilharem da farta mesa do estrangeiro.

Macário era o que se chamaria hoje em dia de “um bom garfo” e deliciava-se com as carnes de vários tipos e sabores que estavam dispostas em diferentes pratos e bandejas, umas mais vermelhas, outras mais claras, algumas mais macias, outras mais fibrosas. . . Mateus ia comendo as saladas, cereais e frutas, mas não se encorajava em servir-se de nenhum dos pratos cárneos.

“Amigo Mateus, não sabe o que está perdendo! Prove este assado aqui que está uma delícia!”

“Não, obrigado, Filipe, eu ficarei só com minhas verduras, cereais e frutas por enquanto”.

“Você sabe bem da instrução de não se perguntar nada—ir comendo de tudo, pois, afinal de contas, o Cristo não disse que o que entra na boca não contamina o homem?”

“Você sabe, Filipe, que não concordo com essa interpretação, pois o mesmo Cristo também disse que não veio abolir a lei, e sim cumpri-la. E disse que quem ensinasse a mínima coisa que contradisse a lei, seria considerado 'mínimo no reino dos céus'. Como Ele mesmo ensinaria algo assim? Então o Mestre é que teria de ser considerado mínimo no reino dos céus, faz sentido isso?!”

“Ora, não vamos discutir questões teológicas num momento destes, pois isso não faz bem à digestão. . .”, reagiu Filipe.

“É mesmo”, comentou o anfitrião. “Sou muito pela liberdade cristã. Mas eu sei que vocês judeus, mesmo quando convertidos ao cristianismo, ainda conservam muitas tradições do judaísmo. Eu como gentio sinto-me livre desses condicionamentos. Ademais, nosso amado apóstolo Paulo não disse que os únicos pecados dentro do corpo que nos devem preocupar são os de caráter sexual?”

“De fato, irmão Macário”, confirmou Filipe, “nada além disso nos deve incomodar. Por favor, me passe o prato com esse guisado de carnes mais claras. Provei só um pouquinho antes e a achei maravilhosa. . .”

“Oh, sim, aqui está. Sirva-se à vontade. E veja que temos aqui a versão grega do nosso tradicional pão pita. Com esse molho que a minha esposa preparou fica delicioso. E não há melhor acompanhamento para as carnes”.

Filipe ia se servindo livremente enquanto Mateus olhava meio ressabiado, imaginando de onde aquela variedade de carnes teria procedido. Mas nada perguntou, e continuou com os seus vegetais.

“Mateus, experimente o pão com o molho que está muito gostoso. Não há nada de carne aqui, não é, irmão Macário?”
“Em certo sentido, não. . .”, respondeu o anfitrião.

Mateus achou aquela resposta meio ambígua e preferiu valer-se de um dos pães, mas dispensou a vasilha de molho que Filipe gentilmente aproximou-lhe do prato. “Fico mesmo só com o pão, obrigado”.

Assim foram comendo e conversando, se bem que a conversa era dominada pelo dono da casa e Filipe. Mateus quase nada dizia, preferindo manter-se como mero ouvinte.

Os dois comensais conversadores iam deglutindo uma porção após outra, regadas pelo vinho importado da distante Grécia. O grego mostrava grande apreciação pelo produto de sua terra natal, sorvendo um copo após outro.

“Puxa, vocês hão de convir que os meus compatriotas são excelentes fabricantes de vinho, não acham?”, comentou Macário.

“É, sem dúvida o vinho é de excelente qualidade, mas eu não sou muito dado a bebida, e assim só estou provando pequenas doses”, reagiu Filipe.

“Ora, qual nada, irmão Filipe. Comamos e bebamos que amanhã teremos mais para desfrutar! Vamos lá, façamos um brinde à liberdade cristã. . .”

Filipe e o anfitrião tocaram-se os copos no alto, num brinde que Mateus apenas observou sem participar da celebração.

Macário seguia cada vez mais animado na conversa, contando casos e mais casos de sua Grécia natal. Os dois amigos judeus já haviam terminado de comer, mas o anfitrião continuava servindo-se dos alimentos e, principalmente do vinho.

Os amigos se entreolharam a certa altura, pensando num compromisso que teriam logo em seguida. Fizeram menção de despedir-se, mas Macário os interrompeu e não os deixava sair. Tinha uma história atrás da outra para contar, entremeadas de generosos goles do vinho.

E os relatos iam ficando cada vez mais escabrosos e estranhos, além de repetidos, pois àquelas alturas Macário já não parecia mais ter uma coordenação mental precisa.

“Bem, amigo, a conversa está boa, mas precisamos mesmo sair porque temos alguns negócios a resolver. . .”, tentou interromper Filipe.

“Mas o que é isso?! Já se vão tão cedo?! Prove mais uma perninha assada de ratazana, ou que tal essa cauda de cobra cozida na manteiga?”

“Ratazana?! Cobra?!”, espantou-se Filipe.

“É isso. . . . Os pratos de que você mais se serviu  eram de carne de rato e cobras, e o molho que passou no pão é uma mistura de baratas e minhocas que minha esposa preparou. Não achou uma delícia?”

Mateus virou-se de costas e levantando os olhos para o teto, disse em voz baixa, meneando a cabeça: “Eu sabia! . . .”

A expressão de perplexidade de Filipe transforma-se em ar de puro desespero. Pede licença e corre para o banheiro. O fiel amigo Mateus o acompanha até a porta que nem foi fechada. Filipe inclina a cabeça sobre o buraco no chão, de bordas cimentadas, que constituía o vaso sanitário, e despeja um jato de vômito. . .

“É isso aí, viva a liberdade cristã!. . .”, ironiza Mateus.

Filipe só olha de esguelho para o amigo em rápida pausa, mas suas agonias interiores não parecem ter fim. Sua reação é somente mais descarga de vômito e cusparadas seguidas por gemidos . . .

O dono da casa nem percebe da sala de jantar o que se passa. Cantava com voz carregada, inteiramente desafinado, um hino cristão falando em liberdade. Finalmente levanta-se cambaleante e atira-se sobre a cama, caindo num sono profundo e “enebriante”.

A esposa é que despede a dupla de amigos. Filipe não sabia onde enfiar a cara, de tanto embaraço, mas ainda consegue balbuciar algum agradecimento pelo convite para a refeição. Quando alcançam certa distância, Filipe segura na mão de Mateus e quase em lágrimas comenta:

“Não, isso não é liberdade cristã, e sim uma escravidão terrível a falsas filosofias que não podem representar o que Deus deseja de melhor para os Seus filhos”.

“Agora você disse tudo”, foi o único comentário de Mateus, certo de que dali em diante o amigo saberia escolher os alimentos adequados de que servir-se, bem como ser mais cuidadoso em sua interpretação das Escrituras.

Algumas semanas depois ambos são convidados a comparecer à casa de Macário, mas não era para novo almoço, e sim para o seu funeral! Seus maus hábitos alimentares, aliados ao descontrole no uso de bebidas alcoólicas, precipitaram-lhe a morte por causa de colesterol elevado e os problemas associados a isso.

Os médicos da época certamente não conheciam a terminologia moderna, e constava oficialmente que ele teria morrido de “nó nas tripas”.
O fato é que Macário foi vítima de glutonaria e bebedice, males alistados por Paulo como pecados dos que não vivem segundo o Espírito. São coisas que ocorrem “dentro do corpo” e que matam, não importa a nomenclatura
 
 

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