Três Doutrinas Católicas em Debate

Pedro é de fato a “rocha,” mas teria sido o primeiro papa?

Ademais, a autoridade final da igreja de Jerusalém restava NÂOsobre Pedro, mas sobre os apóstolos

Gál. 2:11
11 “e quando conheceram a graça que me fora dada, Tiago, Cefas e João, que pareciam ser as colunas, deram a mim e a Barnabé as destras de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;”

Teoria Petrina. Nenhuma tentativa pode ser feita neste espaço para expor todas as falácias da teoria petrina e da sucessão apostólica. Para efeito de brevidade limitarei meus comentários ao texto básico de Mateus 16:18 empregado para provar a teoria petrina. Cristo diz a Pedro: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

A questão é, quem é a “rocha” sobre a qual Cristo edificou Sua igreja? Obviamente para os católicos, a “rocha” é Pedro como pedra fundamental sobre a qual Cristo edificou a Sua igreja. Eles corretamente assinalam que o jogo de palavras—“Tu és Petros e sobre esta Petra”—revela haver inegável conexão entre os dois termos. Assim, Pedro é a Petra sobre a qual Cristo edificou Sua Igreja.

Os protestantes obviamente rejeitam essa interpretação, argumentando, ou que a “rocha” seria o próprio Jesus ou a confissão de Pedro quanto a Cristo. Pelo último ponto de vista, o texto rezaria: “Tu és Pedro e sobre mim como rocha eu edificarei a Minha Igreja”. Pela última: “Tu és Pedro e sobre a rocha de Cristo que  tu confessaste edificarei Minha Igreja”.

O problema com ambas essas interpretações populares é que não fazem justiça ao jogo de palavras. No grego há uma inegável ligação entre petros e petra. A questão não é se “petra- rocha” refere-se a Pedro, mas em que sentido Pedro é “petra-a rocha”. Em minha opinião, Pedro é petra-a rocha”, não no sentido católico de ser a pedra fundamental sobre que Cristo edificou Sua igreja, mas por Pedro ser o fundamento inicial da Igreja, edificada sobre o fundamento dos apóstolos, sendo Cristo a pedra de esquina.

Esta interpretação assenta-se sobre duas considerações principais. Em primeiro lugar, o Novo Testamento retrata a Igreja como um edifício, sendo “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Efé. 2:20; cf. 1 Ped. 2:4-8; 1 Cor. 3:11). A imagem da Igreja como edifício sugere que a igreja não se firma sobre a rocha fundamental de Pedro, mas começa com Pedro como primeira pedra. Ele foi a primeira pessoa a confessar e aceitar a Jesus de Nazaré, como o Cristo, ou seja, o Messias, “o Filho do Deus vivo” (Mat. 16:16). Sendo o primeiro converso a aceitar publicamente a Cristo, Pedro tornou-se num certo sentido “o primeiro membro oficial” da Igreja, ou a primeira pedra fundamental do edifício espiritual que é e Igreja.

Efé. 2:20
20 “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas,
sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina;”

1 Ped. 2:4-8
4 “e, chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa,
5 vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo.
6 Por isso, na Escritura se diz: Eis que ponho em Sião uma principal pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido.
7 E assim para vós, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta como a principal da esquina,
8 e: Como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados.”

1 Cor. 3:11
11 “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.”

Mat. 16:16
16 “Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

Um segundo ponto importante, ignorado pela Igreja Católica, é que o Novo Testamento considera a Igreja, não como uma organização hierárquica visível dirigida pelo papa com seus bispos, mas como uma comunidade invisível de crentes que são unidos pela mesma fé em Cristo. Na Bíblia “a Igreja” não é uma organização religiosa, mas o“povo de Deus”. Tanto o hebraico qahal quanto o grego ekklesia, traduzidas por “Igreja”, referem-se, na verdade, à “congregação” de crentes, que foram chamados do mundo  (Deu. 7:6; Osé. 1:1; 1 Ped. 2:9) a fim de ser uma luz no mundo (Deu. 28:10; 1 Ped. 2:9).

Deu. 7:6
6 “Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo, acima de todos os povos que há sobre a terra.”

Osé. 1:1
1“A palavra do Senhor, que veio a Oséias, filho de Beeri, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel.

Deu. 28:10
10 “Assim todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do Senhor, e terão temor de ti.”

1 Ped. 2:9
9 “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”

Isso significa que quando Jesus falou sobre edificar a Sua Igreja, Ele não tinha em mente o estabelecimento de uma organização religiosa hierárquica, mas a edificação de uma comunidade de crentes que pela fé O aceitariam e O confessariam perante o mundo. Neste contexto, Pedro, por ser a primeira pessoa a confessar e aceitar a Jesus como o “Cristo”, que significa “Messias”, tornou-se a primeira pedra viva do edifício espiritual que consiste de uma comunidade de crentes. A idéia de Pedro ser o fundamento da Igreja como organização hierárquica identificada com a Igreja Católica é alheia ao texto e aos ensinos do Novo Testamento.

Existe de fato uma linha sucessória ininterrupta entre Pedro e Bento XVI?

O Mito da Sucessão Apostólica. Um golpe fatal sobre a reivindicação petrina da Igreja Católica é  a falta de qualquer apoio neotestamentário para o primado de Pedro na igreja apostólica. Se, de acordo com a alegação católica, Cristo designou Pedro como Seu vigário para governar a Igreja, então se esperaria que Pedro agisse como líder da igreja apostólica. Mas dificilmente seria este o caso.

Por exemplo, não há indicação de que Pedro jamais tenha servido como presidente da igreja de Jerusalém. A estrutura organizacional da igreja de Jerusalém pode ser caracterizada como um colegiado com uma presidência. Mas não há indicação de que Pedro jamais serviu como o presidente em exercício daquela igreja. No Concílio de Jerusalém, foi Tiago,e não Pedro, quem presidiu nas deliberações (Atos 15:13).

Atos 15:13
13 “Depois que se calaram, Tiago, tomando a palavra, disse: Irmãos, ouvi-me:”

Ademais, a autoridade final da igreja de Jerusalém restavaNÂOsobre Pedro, mas sobre os apóstolos, mais tarde substituídos por “presbíteros”. Por exemplo, foram “os apóstolos” que enviaram Pedro a Samaria (Atos 8:14) para supervisionar as novas comunidades cristãs. Foram os “apóstolos” que enviaram Barnabé a Antioquia (Atos 11:22). Foram os “apóstolos e presbíteros” que enviaram a Judas e Silas para Antioquia (Atos 15:22-27). Foi “Tiago e os presbíteros” que recomendaram que Pedro se submetesse a um rito de purificação no Templo (Atos 21:18, 23-24).

Atos 8:14
14 “Os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, tendo ouvido que os da Samária haviam recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João;”

Atos 11:22
22 “Chegou a notícia destas coisas aos ouvidos da igreja em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia;”

Atos 15:22-27
22 “Então pareceu bem aos apóstolos e aos anciãos com toda a igreja escolher homens dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé, a saber: Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens influentes entre os irmãos.
23 E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos e os anciãos, irmãos, aos irmãos dentre os gentios em Antioquia, na Síria e na Cicília, saúde.
24 Portanto ouvimos que alguns dentre nós, aos quais nada mandamos, vos têm perturbado com palavras, confundindo as vossas almas,
25 pareceu-nos bem, tendo chegado a um acordo, escolher alguns homens e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo,
26 homens que têm exposto as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
27 Enviamos portanto Judas e Silas, os quais também por palavra vos anunciarão as mesmas coisas.”

Atos 21:18, 23-24
18 “No dia seguinte Paulo foi em nossa companhia ter com Tiago, e compareceram todos os anciãos.
23 Faze, pois, o que te vamos dizer: Temos quatro homens que fizeram voto;
24 toma estes contigo, e santifica-te com eles, e faze por eles as despesas para que raspem a cabeça; e saberão todos que é falso aquilo de que têm sido informados a teu respeito, mas que também tu mesmo andas corretamente, guardando a lei.”

Tivesse Pedro sido designado por Cristo para servir como Cabeça da Igreja, ele teria desempenhado um papel significativo nas decisões acima mencionadas. Não há indicação de que Paulo considerasse a Pedro como líder da Igreja. Narrando um incidente de quando Pedro foi para Antioquia Paulo declara: “resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível” (Gál. 2:11). A ação de Paulo dificilmente sugeriria que Pedro foi reconhecido e respeitado como a infalível cabeça da Igreja.

Gál. 2:11
11 “e quando conheceram a graça que me fora dada, Tiago, Cefas e João, que pareciam ser as colunas, deram a mim e a Barnabé as destras de comunhão, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;”

Ademais, Paulo se refere aos “pilares” da igreja apostólica como sendo “Tiago, Cefas, e João” (Gál. 2:9). O fato de que “Tiago”, o irmão do Senhor, é mencionado primeiro indica ser ele, antes que Pedro, quem servia como líder da Igreja. Caso os apóstolos entendessem que Pedro houvesse sido designado por Cristo  para servir como cabeça da Igreja, ter-lhe-iam confiado a liderança da Igreja. Mas o fato é que Pedro nunca é visto no Novo Testamento como o único líder da igreja apostólica.

Gál. 2:9
“”

A noção de que Cristo investiu a Pedro de autoridade para governar a Igreja e que tal autoridade tem sido transmitida numa ininterrupta sucessão até seu último sucessor é invenção católica destituída de qualquer base bíblica. Isso primeiro apareceu nos escritos de Irineu, bispo de Lyon (175-195 A.D.), que usa o argumento da sucessão apostólica para refutar agnósticos heréticos alegando que os ensinos agnósticos eram heréticos por serem rejeitados pelas igrejas que podem traçar o seupedigree’  (Contra Heresias, livro 3).

O argumento da sucessão apostólica serviu a um propósito útil na igreja primitiva quando a formação do Novo Testamento estava ainda em progresso. Os líderes da Igreja precisavam de uma autoridade objetiva para refutar os heréticos, e encontraram-no em igrejas como Antioquia, Éfeso e Alexandria, que podiam traçar suas origens aos apóstolos. Essas igrejas podiam servir como a pedra de toque da ortodoxia.

Mas estender o conceito da sucessão apostólica a todo o curso da história cristã é infundado, por causa da interrupção e apostasia que essas igrejas haviam experimentado. A invasão muçulmana dos séculos sétimo e oitavo eliminaram completamente a maior parte das antigas igrejas orientais.

O mesmo se aplica ao bispo de Roma. Qualquer pessoa familiarizada com a história do papado sabe quão difícil é até mesmo para a Igreja Católica provar a sucessão ininterrupta desde Pedro até o papa atual. Houve ocasiões em que o papado esteve nas mãos de vários papas corruptos, que lutavam entre si pelo trono papal. Por exemplo, em 1045 o Papa Bento IX foi expulso de Roma pelo povo devido a ser indigno e Silvestre II foi colocado no trono papal. Mais tarde, Bento IX retornou e vendeu o trono papal a um homem que se tornou Gregório VI.

Durante esse curso de eventos, Bento recusou renunciar a suas reivindicações papais, de modo que passou a haver três papas alegando ser o papa legítimo. Para resolver o problema o imperador alemão Henrique II convocou um sínodo em Sutri em 1046 AD, que depôs todos os três papas e elegeu Clemente II no lugar.

Fica-se a indagar, qual dos três papas depostos se enquadraria na sucessão apostólica? Como pode a Igreja Católica ainda legitimamente defender a noção de uma sucessão ininterrupta desde Pedro até o papa atual, quando alguns de seus papas foram depostos por sua corrupção?! É evidente que existem alguns elos interrompidos na corrente da sucessão apostólica.

Saiba Por Que Poucos Católicos Têm um Quadro de Jesus
Dependurado na Parede

A Eucaristia. A alegação católica de possuir os únicos meios de salvação repousam não só sobre a alegada sucessão apostólica, mas também sobre o ponto de vista católico de que a Eucaristia é uma reprodução do sacrifício expiatório de Cristo. De fato “a sucessão apostólica e uma eucaristia válida” são mencionadas juntas várias vezes na Declaração Dominus Iesus, por serem os dois pilares da reivindicação católica de ser a única igreja verdadeira que tem o poder de dispensar salvação.

Este espaço não nos permite expor as falácias do ponto de vista católico sobre a Ceia do Senhor, conhecida como “transubstanciação”. A absurda alegação de que o sacerdote tem o poder de transformar o pão e o vinho no corpo físico e histórico de Jesus, e oferecê-lo aos crentes por meio de uma hóstia torna a Igreja Católica uma dispenseira de salvação por meio de seu sacerdócio.

Para a Igreja Católica os benefícios do sacrifício expiatório de Cristo são tornados disponíveis ao crente, não mediante o ministério celestial de Jesus no santuário, mas mediante o ministério terreno dos sacerdotes católicos junto ao altar. A Declaração dedica três seções para exaltar “o mistério salvífico de Cristo”, porque isso propicia a base para justificar a reivindicação de que “o mistério salvífico de Cristo” realiza-se mediante o mistério da Eucaristia.

O Cristo que a maioria dos católicos conhece é o Cristo que engolem durante a missa. Poucas famílias de católicos devotos exibem um quadro de Cristo em suas casas. Eu ousaria dizer que de 100 católicos devotos das famílias italianas, talvez 4 ou 5 delas tenham um quadro de Cristo dependurado em alguma parede. Sua devoção é basicamente a Maria e aos santos que podem interceder por eles diretamente. No que concerne a Cristo, pouco sabem a Seu respeito. Conhecem sobretudo que “o ministério salvífico de Cristo” lhes está disponível mediante a Eucaristia.

(Baseado na Newsletter [boletim] no. 54 da série “Endtime Issues”, do Dr. Samuele Bacchiocchi, que mantém um ministério na Internet sobre o título “Biblical Perspectives”--www.biblicalperspectives.com).
Traduzido pelo Prof. Azenilto G. Brito
 
 

Professor Azenilto G. Brito
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