Dando Uma “Chave” nos Chavões

       Quando tratamos sobre os temas do sábado e da lei com membros de outras denominações cristãs, especialmente da linha protestante-evangélica, é comum ouvirmos certos chavões já bem conhecidos nossos. Algumas vezes alguns em nosso meio têm dificuldade em ter a resposta pronta para confrontar tais chavões, daí, este material objetiva exatamente levantar algumas das frases anti-sabáticas típicas repetidas por esse pessoal e como podemos ajudá-los a melhor entender nosso entendimento sobre certos textos bíblicos. Em sua parte inicial o material abaixo inspira-se no livro do Pr. Arnaldo B. Christianini, Subtilezas do Erro.
 

* Segundo Cristo, a lei agora resume-se somente em “amar a Deus” e “amar ao próximo”; assim não temos que preocupar-nos com qualquer outro código do Velho Testamento.

Ponderando: Os que levantam esta objeção imaginam às vezes que quando Jesus apresentou a chamada “lei áurea” Ele estava tratando de algo inteiramente revolucionário, um conceito totalmente inédito, quando na verdade Ele só repete o que Moisés já havia dito, exatamente nesses termos (comparar Mat. 22:36-40 com Deu. 6:5 e Lev. 19:18).

Mat. 22:36-40
36 “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?
37 Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento.
38 Este é o grande e primeiro mandamento.
39 E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
40 Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”

Deu. 6:5
5 “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças.”

Lev. 19:18
18 “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.”
 

As leis divinas sempre se dividiram em “amor a Deus” e “amor ao próximo”, como confirma a Confissão de Fé de Westminster, tanto que quando um líder judaico perguntou a Cristo, para testá-Lo, qual era o grande mandamento da lei (decerto esperando acusá-Lo de contradizer as tradições nacionais de Israel), ante essa sua resposta terminou foi elogiando-O. Ele percebeu que Jesus em nada estava contradizendo o que sempre havia aprendido como sendo a base legal de seu povo (ver Mar. 12:28-34)

Mar. 12:28-34
28 “Aproximou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, percebendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
29 Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
30 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.
31 E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses.
32 Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro;
33 e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.
34 E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E ninguém ousava mais interrogá-lo.”
 

Cristo acentuava algo que havia sido perdido de vista por Seus ouvintes, dada a falsa instrução sob que viviam sujeitos, mas por isso mesmo Ele declarou a Seus ouvintes que “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mat. 5:20).

* Jesus cumpriu a lei por nós, assim não mais a temos que cumprir (Mat. 5:19, 20).

Mat. 5:19, 20
19 “Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
20 Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.”

Ponderando: A maneira como alguns interpretam tal verso coloca a Jesus em situação difícil, dizendo e desdizendo-Se logo em seguida. Chegam a ser cínicos quando falam em “Ele não aboliu a lei,  mas cumpriu-a para não termos que cumprir nada da lei”. Ou seja, utilizam a palavra “cumprir” exatamente com o sentido de “abolir”, colocando claramente a Cristo em contradição consigo mesmo.

Contudo, no contexto desta passagem a ênfase está em ser “sal da Terra”, “luz do mundo” para que os homens vejam nossas boas obras e glorifiquem ao Pai que está no céu (vs. 16). Ademais, no vs. 19 e 20 Ele também recomenda a mais estrita observância dos mandamentos a ponto de superar a obediência hipócrita de seus líderes, linguagem que não faria o mínimo sentido caso o que Ele quisesse enfatizar fosse o contrário—a isenção dos cristãos em obedecer aquela lei que Ele não veio abolir, mas dar-lhe cumprimento, ou seja—corresponder a suas normas em completa e perfeita obediência.

É verdade que Ele também “cumpriu” a parte cerimonial, prefigurativa, da lei que trata de cerimônias e rituais; então pode-se dizer que tal texto tem um sentido duplo. Mas é importante também acentuar que grandes autores cristãos ao longo dos tempos sempre entenderam esta passagem no sentido de que a lei é para ser obedecida pelos cristãos, e não o contrário disso. Entre esses muitos autores poderíamos citar um mais antigo e um moderno, para demonstrar a abrangência histórica em tal interpretação. Escreveu Moody, o notável reavivalista do século XIX:

“Pensam alguns que já superamos os Dez Mandamentos. Que disse Cristo? ‘Não penseis que vim destruir a lei . . . não vim ab-rogar. . .; até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido’. Os mandamentos de Deus dados a Moisés no monte Horebe são hoje tão obrigatórios como o eram quando foram proclamados aos ouvidos do povo. Diziam os judeus que a lei não fora dada na Palestina (que pertencia a Israel) mas no deserto, porque a lei se destinava a todas as nações”. (D. L. Moody, Weighed and Wanting, pág. 14).

Adicionalmente, vejamos o que disse o Dr. James D. Kennedy, conhecido evangelista presbiteriano dos EUA que mantém um grande ministério evangelístico por rádio e TV nos EUA e é autor de várias obras, professor de seminário teológico e líder de organização de grande alcance para preparo de pastores-evangelistas, o Coral Ridge Ministries, de Fort Laudadale, Fla. São de seu sermão “O Dom do Descanso” as seguintes palavras:

“. . . a Escritura muito claramente ensina que os Mandamentos permanecem em vigor hoje e foram fortalecidos por Cristo que declarou que não só os atos, mas o pensamento e a palavra são parte daquilo que Deus nos concedeu. Ele claramente afirma que se nós O amamos, guardaremos os Seus mandamentos. . . . Mesmo no Livro do Apocalipse, muito depois, lemos que ‘aqui está a paciência dos santos [de Deus], os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus’. No exato último capítulo da Bíblia lemos sobre aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm direito à árvore da vida”.

E, para finalizar, indaguemos se quando Cristo disse a João Batista, “convém que se cumpra toda a justiça” (Mat. 3:15), quando Se submetia ao rito do batismo, Ele o teria “cumprido” para que hoje os cristãos não mais tenham que cumprir tal cerimônia?
 

* A lei e os profetas “duraram até João” (Luc. 16:16).

Ponderando: Esse argumento denota outro exemplo de incorreta exegese bíblica, porque depois de João continuou a haver tanto lei (Luc. 19:17; 23:56) quanto profetas (Atos 11:27; 13:1, Efé 4:11, etc.).

Luc. 19:17;
17 “Respondeu-lhe o senhor: Bem está, servo bom! porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terás autoridade.”

Luc. 23;56
56 “Então voltaram e prepararam especiarias e ungüentos. E no sábado repousaram, conforme o mandamento.

Atos 11:27
27 “Naqueles dias desceram profetas de Jerusalém para Antioquia;”

Atos 13:1
1 “Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo.”

Efé 4:11,
11 “E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres,”

O que o texto diz pode ser entendido à luz de seu contexto imediato, pois o verso seguinte já lança por terra a noção pretendida: “é mais fácil passar o Céu e a Terra do que cair um til da lei”. Está claro que Jesus estende a vigência da lei além da existência do mundo, ou seja, de milênios depois de João.

A palavra “duraram,” grifada no texto, não se encontra no original grego. Foi acréscimo do tradutor para complementar o sentido. E a passagem paralela de Mat. 11:13 diz mais claramente: “Porque todos os profetas e a lei PROFETIZARAM até João”.

O texto (Luc. 16:16) significa: “A lei e os profetas (os ensinos de Deus no Velho Testamento) foram pregados até João, indicando o tempo em que o reino de Deus seria anunciado”. Com João iniciou-se o cumprimento deste tempo. De fato, a nova era se iniciava com a pregação do Reino. O próprio João Batista iniciou o seu ministério advertindo solenemente: “. . . é chegado o reino dos Céus”. Mat. 3:3.

Antes que João viesse, os ensinadores da parte de Deus ensinavam a lei e os profetas—as Escrituras—mas não compreendiam tudo o que significavam; vindo, porém, João, pregou-lhes o cumprimento de muitas destas profecias no advento do Messias. Aquele que era da linhagem real de Davi, era nascido, a verdade para aquele tempo já estava sendo proclamada.

As profecias foram “ensinadas” até João; desde então, muitas delas, aquelas concernentes à primeira vinda de Jesus, deixaram de ser profecias para serem fatos históricos. Jesus também pregava “o tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo”. Mar. 1:15.

“Até” a pregação do Reino de Deus por João, os escritos sagrados do Velho Testamento constituíam o primeiro guia do homem para a salvação. (Veja Rom. 3:12). A palavra “até” (no grego mechri) nem de leve autoriza a idéia de que os escritos da lei e dos profetas tenham perdido o seu valor mas significa que até o ministério de João, estes escritos eram tudo o que os homens tinham em matéria de revelação. O evangelho veio, não para abolir as escrituras antigas, mas para suplementá-las, reforçá-las e confirmá-las.

O evangelho veio, não para ser colocado em lugar do Velho Testamento, mas em acréscimo a ele. Tal é o sentido no qual mechri é usado, como também em S. Mat. 28:15 e Rom. 5:14. “Desde então”, isto é, desde a proclamação do reino de Deus por João Batista, luz adicional e supletiva tem estado a brilhar sobre a vereda da salvação, e não havia escusa para os fariseus “que eram avarentos” (v. 14)

* Paulo fala constantemente de que a lei teve apenas validade até Cristo, a posteridade de Abraão (Gál. 3:19).

Ponderação: Diz o texto: “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um Medianeiro”. Eis a conclusão simplista de alguns: “Se foi até Jesus, já não é mais depois dEle”.

Ledo engano! Não há aí a mais leve alusão à ab-rogação do Decálogo. Nem que ele tenha cessado em Jesus. O sentido é apresentar Cristo—posteridade de Abraão—como Aquele em quem se deve refugiar o pecador, o transgressor da lei divina. Diz que a função da lei é apontar as transgressões, até que surgiu Cristo e nos livrou da maldição da lei—a morte.
Um autorizado comentador afirma, com referência a este passo:

“Abraão teve posteridades seguidas; mas a benção veio através de uma posteridade—Cristo—plena e unicamente pela promessa. Por que, então, foi a lei dada? Para que o pecado pudesse ser visto em toda a sua hediondez e malignidade, de modo que o homem pudesse fugir da ira e refugiar-se em Cristo” (M. C. Wilcox, Questions Answered, pág. 101).

E este sentido é confirmado por expositores batistas da maior autoridade que assim anotam o texto:

“Compare-se com Rom. 5:20: ‘Veio a lei para que a ofensa abundasse,’ que é a sentido de Rom. 5:13 e 7:13. E compare-se ainda com Atos 7:53” (W. K. Conybery and J. J. Howson, The Life and Epistles of Saint Paul, edição completa de 1899, pág. 530).

Rom. 5:13
13 “Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta.”

Rom.7:13
13 “Logo o bom tornou-se morte para mim? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte por meio do bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se manifestasse excessivamente maligno.”

Atos 7:53”
53 “vós, que recebestes a lei por ordenação dos anjos, e não a guardastes.”

Como se vê, nada há neste texto que autorize a crer que a lei tenha cessado de vigorar com a vinda de Cristo. Tal interpretação é atrevida, forçada e tendenciosa.
 

* Paulo disse que “o fim da lei é Cristo” (Rom. 10:4).

Este é outro dos textos mal compreendidos, nas palavras paulinas:“o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê”. E o raciocínio de muitos é que  “se é o fim não é continuação”. Crasso engano. Ainda que o texto se refira ao Decálogo, não significa que Cristo tenha posto um fim àquela lei. Afinal, a palavra “fim” nem sempre significa terminação. E no texto em lide não tem este sentido. Vem do grego telos e significa também “propósito”, “alvo”, “objetivo”, “conseqüência”, “resultado”, etc. Muito freqüentemente é assim empregada. Por exemplo:
1 Tim. 1:5 — “ora o fim do mandamento é a caridade”.

1 Ped. 1:9 — “alcançando o fim da vossa fé, a salvação da alma”. Ver também Tia. 5:11. Ora, se, nesses textos, “fim” pode significar “cessação”.

Tia. 5:11
11 “Eis que chamamos bem-aventurados os que suportaram aflições. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão.”

Absurdo!

Seria inadmissível que, quando alcançamos a Jesus, possamos lançar fora a lei que é norma de conduta dada por Deus, sobretudo diante do que foi profetizado sobre o Cristo em Mat. 1:21, “Ele salvará o Seu povo dos seus pecados”.

Cristo, na verdade, é o FIM da lei, é o objetivo dela. É o fim, não para nos livrar da obediência da lei, mas—e o próprio texto elucida—”para a justiça de todo aquele que crê”. Justiça, no melhor sentido teológico, é o perfeito cumprimento da lei que Cristo nos imputa e nos livra da condenação. Portanto, a lei susbsite. A lei conduz-nos a Cristo, porque Nele encontramos a justiça que a lei exige”(ver Rom. 8:3, 4). A justiça que temos através de Cristo é declarada perfeita pela lei. O homem que, por Cristo se torna justo, sem dúvida guarda a lei justa. Não a vive transgredindo.

 Rom. 8:3, 4
3 “Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado.
4 para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.”

O comentador metodista Adam Clarke, considerando Rom. 10:4, entende que se refira à lei cerimonial, mas afirma que a palavra “fim” certamente significa “objetivo”.
Vê o leitor como se desfaz o esquema pré-fabricado da ab-rogação da lei. Analisaremos todos os “argumentos” antinomistas apresentados, com a segurança que a verdade nos assegura.
 

* Não precisamos guardar o sábado da lei mosaica porque estamos agora na “aliança da graça”. O Novo Concerto é baseado em “superiores promessas” que não prevêem obediência a códigos externos, pois a lei de Cristo está é no coração (Heb. 8:6-10).

Heb. 8:6-10
6 “Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor pacto, o qual está firmado sobre melhores promessas.
7 Pois, se aquele primeiro fora sem defeito, nunca se teria buscado lugar para o segundo.
8 Porque repreendendo-os, diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá um novo pacto.
9 Não segundo o pacto que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; pois não permaneceram naquele meu pacto, e eu para eles não atentei, diz o Senhor.
10 Ora, este é o pacto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo;”

Ponderando: Primeiramente, por que só se refere ao sábado como da “lei judaica”, mas nunca qualquer dos demais mandamentos do mesmo código, como o “honra a teu pai e a tua mãe”, “não matarás”, “não cobiçarás”, “não dirás testemunho contra o teu próximo”?

Dentro dessa linha de pensamento, quando perguntamos a esses cristãos como se salvavam os pecadores ao tempo do Velho Testamento chegam muitos a dizer que então eram salvos pela lei, mas agora somos todos salvos pela graça. Como, porém, entendem que a “dispensação da graça” ocorre da cruz para cá, então podemos mostrar-lhes o absurdo de tal raciocínio: ninguém jamais conseguiu obter méritos suficientes para preencher todos os requisitos da lei de Deus que é “perfeita” (Sal. 19:7). A salvação sempre, em todos os tempos, foi pela graça, desde que Deus revelou Sua graciosa disposição de salvar o homem pecador no Éden (Gên. 3:15). Nunca ninguém foi salvo pela guarda da lei, portanto essa declaração é inteiramente destituída de fundamento.

Sal. 19:7
7 “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos simples.”

E a promessa do novo concerto, em lugar de dar razão aos que querem escapulir-se do Decálogo todo, ou de apenas UM de seus mandamentos, apenas confirma que a lei de Deus é escrita nos corações e mentes dos que aceitam os seus termos. Para desconsolo dos semi-antinomistas, em lugar de dizer que a lei escrita nos corações é uma “lei de Cristo”, ou “lei da fé”, ou “lei da graça”, ou “lei do amor”, o que diz é tratar-se das “Minhas leis [de Deus]”. E o sábado tem TUDO A VER com a Nova Aliança, pois no Novo Concerto, firmado sobre “superiores promessas”, o que é dito é que Deus escreve as “Minhas leis” [de Deus] nos corações e mentes dos que aceitam os termos desse Novo Concerto, anteriormente oferecido à própria nação de Israel. Daí as citações de Ezequiel 36:26, 27 e Jeremias 31:31-33.

 Ezequiel 36:26, 27
26 “Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.
27 Ainda porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis.”

Jeremias 31:31-33.
31 “Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei um pacto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá,
32 não conforme o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, esse meu pacto que eles invalidaram, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor.
33 Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.”

Israel falhou repetidamente a despeito de Deus sempre apelar-lhes a um retorno a Ele, para uma renovação da aliança oferecida primeiro a seus pais. Agora, Deus promete que faria um NOVO ACORDO, com base em “superiores promessas”, mas apesar de quererem torcer o sentido dessa expressão, para desconsolo dos anti-sabatistas, as “superiores promessas” não são de que agora estão livres do mandamento do sábado (embora não de qualquer dos outros NOVE do Decálogo), e sim de que Deus mesmo escreverá as Suas leis nos corações e mentes dos Seus filhos, como o mesmo Paulo acentua em Rom. 8:3, 4: “Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado, para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Paulo NÃO DIZ que passou o “tempo da velha lei”, nos seus aspectos morais (o que passou da lei é tudo quanto prefigurava o Messias prometido, os rituais e cerimônias da parte ritual da lei), pois ele mesmo disse ser esta lei santa, justa, boa, prazerosa e digna de ter em mente (Rom. 7:12, 14, 22, 25; 1 Tim. 1:8) e CONFIRMADA (não anulada) pela fé (Rom. 3:31). O que ele diz é que quem é guiado pelo Espírito, sua vida demonstra “a justa exigência da lei”, não porque esta foi anulada, ou superada, mas exatamente por causa da promessa do Novo Concerto, em que tal lei é ESCRITA pelo Espírito no coração e mente desse crente que assim demonstra a vida no Espírito.

Rom. 7:12, 14, 22, 25
12 “De modo que a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom.
14 Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado.
22 Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus;
25 Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor! De modo que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado.”

1 Tim. 1:8
8 “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usar legitimamente,”

       * Paulo diz em 2a. Coríntios 3 que o cristão não está mais sob o “ministério da morte” falando claramente que isso tem que ver com a lei das “tábuas de pedra”; logo não há dúvida que ele trata dos 10 Mandamentos como algo superado para o cristão, agora tendo apenas a “lei de Cristo” no lugar.
 

Paulo trata no referido capítulo dos que conservavam a lei como mera letra fria sobre as pedras e que assim viviam sob um “ministério de morte”. O problema não estava com a lei, e sim com as pessoas que a consideravam de modo errado. O segredo era acatarem exatamente os princípios do Novo Concerto pelo qual Deus escreve nos corações e mentes o que é chamado de MINHAS LEIS (de Deus), aquelas mesmas que valiam ao tempo de Jeremias, pois o texto de Hebreus 8:6-10 é mera reprodução de Jeremias 31:31-33. São as mesmas leis do mesmo concerto oferecido ANTES ao Israel nacional. Claro que isso não incluiria a parte prefigurativa, cerimonial, pois o autor de Hebreus e os seus leitores primários sabiam perfeitamente que àquelas alturas já o véu do Templo se havia rasgado de alto a baixo, e tudo quanto era prefigurativo do supremo sacrifício de Cristo havia cessado por ter cumprido a sua função. Mas não as normas morais, como “não matarás”, “não furtarás”, “não adulterarás”, “honra a teu pai e a tua mãe” e o mandamento do sábado, porque este foi estabelecido “por causa do homem”, como disse Jesus.

2a. Coríntios 3 até apresenta um detalhe interessante que muitos passam por alto: quando Paulo se vale da metáfora tábuas de pedra/tábuas de carne, ele certamente pensa em termos de TODO O CONTEÚDO das tábuas de pedra transferindo-se para as tábuas de carne, senão o seu uso da metáfora não faria sentido, e ele empregaria outro tipo de linguagem. . .
 

* Quando do primeiro concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, os judaizantes, que queriam influencer os cristãos a seguirem a “lei de Moisés”, foram desacreditados,  portanto  não há mais que preocupar-se com a guarda da lei e, especialmente, do sábado.

Primeiramente, o vs. 5 fala em “lei de Moisés”, o que abrange muito mais do que o sábado, e/ou circuncisão. O “não matarás”, “não furtarás”, “honra a teu pai e a tua mãe” também fazem parte dessa “lei de Moisés”, logo, chega a ser desonesto tomar a expressão para discriminar contra somente um mandamento. Claramente o uso da expressão aí  refere-se àquilo que se acentua no capítulo como sendo fonte de preocupação daquela comunidade—a circuncisão e outras regras da lei cerimonial que, de fato, não eram mais obrigatórias aos cristãos.

Sobre o uso do termo “judaizante” ligado ao sábado, há um fato interessante: lendo-se atentamente Atos 15 percebe-se que a questão do sábado NEM CONSTOU DA AGENDA de tal reunião!

Os que alegam que os judaizantes eram promotores do sábado, daí condenados pelos apóstolos, estão redondamente enganados. Basta ler os vs. 20 e 29 para notar a AUSÊNCIA TOTAL de qualquer menção ao sábado entre as recomendações de coisas de que os cristãos deviam ABSTER-SE. Em lugar de termos ali uma regra de coisas a serem cumpridas, o que se dá é exatamente o contrário!

Ali se estabelecem coisas que os cristãos não deviam praticar, e não uma série de novas regras a seguir. Não se tratava de um “tetrálogo” a substituir o Decálogo, como muitos erroneamente interpretam. E entre tais coisas NÃO APARECE O SÁBADO. Só isso já liquidaria a questão, pois em lugar desse capítulo ser uma condenação ao mandamento do sábado, é uma magnífica CONFIRMAÇÃO de que os cristãos primitivos não tinham dúvidas quanto à validade e vigência de tal princípio.

Lendo-se Atos 21:20 se saberá que os primeiros cristãos eram de etnia judaica e “zelosos da lei”. Eles jamais aceitariam levianamente qualquer mudança nas regras do dia de repouso, já que o sábado era tremendamente arraigado em sua cultura religiosa, e mesmo secular. Qualquer medida nesse sentido causaria tremendos debates, como se deu com a circuncisão, também princípio muito arraigado em suas práticas, mas não se vê tal debate sobre o sábado. Era consenso, era normal, era regular. Todos o observavam e não se carecia de recomendar coisa alguma a respeito (tal como nada se mencionou quanto ao mandamento proibindo de falar o nome de Deus em vão).

Atos 21:20
20 “Ouvindo eles isto, glorificaram a Deus, e disseram-lhe: Bem vês, irmãos, quantos milhares há entre os judeus que têm crido, e todos são zelosos da lei.”

E há provas históricas sobre isso, como o documento do historiador palestino Epifânio, falando dos cristãos “nazarenos” que até o seu tempo, meados do século IV AD, tinham por costume a guarda do sábado, não do domingo. Esses eram originários da igreja-mãe de Jerusalém, instalados na região de Pela, ao norte da capital judaica ao fugirem durante o período anterior à destruição da cidade pelas tropas do general romano Tito, em 70 AD.

Mais uma prova comprobatória da observância do sábado pelos crentes primitivos temos no vs. 21 de Atos 15, onde é dito que todos os sábados a lei (Torah) era lida nas sinagogas. Os cristãos primitivos regularmente iam ouvir a leitura das Escrituras nas sinagogas, nos dias de sábado porque não dispunham, como nós hoje, de exemplares múltiplos da Bíblia, pois até grátis se obtém para instalar no computador, Qualquer coletânea de rolos da lei era uma fortuna com que só congregações inteiras poderiam arcar.

Se esses cristãos fossem às sinagogas outro dia qualquer, ou encontrariam as portas fechadas, ou não haveria leitura das Escrituras. Isso se deu até o fim do primeiro século, quando pelo ano 95 AD os judeus se reuniram numa assembléia, conhecida como concílio de Jamnia, e PROIBIRAM a presença de cristãos no seu meio? Lê-se em Atos 9:2 como Paulo tinha ordem para perseguir cristãos encontrados NAS SINAGOGAS.

Atos 9:2
2 “e pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, caso encontrasse alguns do Caminho, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.

* Guardar o sábado é situar-se “debaixo da lei”; devemos é manter-nos “debaixo da graça”.

Ponderando: Esta objeção é interessante porque, mais uma vez, só se aplica isso discriminatoriamente ao mandamento do sábado, não a qualquer outro do Decálogo que os crentes entendem tranqüilamente deverem ser respeitados. Contudo, não consideram que estariam “debaixo da lei” por os respeitarem. Por que essa visão tão claramente discriminatória?

Apliquemos um raciocínio simples para notar a incoerência de tal objeção: Se os observadores do sábado estão “debaixo da lei” por observarem o sábado, além dos demais nove do Decálogo, então assim estariam numa proporção de 100%. Mas como os demais crentes que não aceitam a validade do sábado admitem, porém, a validade de todos os demais nove mandamentos do Decálogo, estariam também “debaixo da lei” numa proporção de 90%! Isto é, termina que a situação deles não é tão mais favorável. . .

Aproveitando o raciocínio matemático, alega-se que quem guarda o sábado vê-se obrigado a cumprir 613 regras do judaísmo. Uma vez mais temos idêntica situação: se é assim, os que não aceitam o sábado mas admitem que devem respeitar os demais nove mandamentos, teriam obrigação de cumprir 90% das tais regras judaicas, o que nos aponta ao número de 551,7 preceitos!
Também nos lembremos de Gálatas 4:4, onde Paulo diz que Cristo foi nascido “debaixo da lei”. Como isso o Salvador estaria condenado desde o nascimento?

Gálatas 4:4
4 “mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei,”
 

O fato é que Paulo usa essa expressão em diferentes sentidos. Em Gál. 5:18, por exemplo, pode-se ver o contraste dos que são “guiados pelo Espírito” e que, conseqüentemente, não estão “debaixo da lei”, e os que praticam uma série de pecados que ele enumera nos vs. 19-21, claramente referindo-se a esses que estão “debaixo da lei”, não aos que andam segundo o Espírito. Em Romanos 6:14, um texto muito empregado pelos que se valem desse chavão do “debaixo da lei”, o contexto fala: “Por que o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça”.

É óbvio que Paulo não diz que temos que negligenciar a fiel obediência à lei, que ele mesmo chamou de santa, justa, boa, espiritual, prazenteira e que buscava tê-la em sua mente (Rom. 7:12, 14, 22, 25), além de ter dito antes que a fé não anulou a lei, e sim, pelo contrário, a confirmou (Rom. 3:31). É típico de Paulo usar “jogos de palavras”, como para a própria palavra “lei” em Romanos 7. Ele emprega o termo para falar tanto da “lei de Deus” quanto da “lei” de sua mente e da “lei do pecado e da morte”, contrastando ainda com a “lei do espírito de vida”. São usos diferenciados para o termo “lei”, quando também fala até  em “loucura” do homem em contraste com a “loucura de Deus” (Rom. 1:18-25).

Rom. 1:18-25
18 “Pois do céu é revelada a ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça.
19 Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
20 Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis;
21 porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
22 Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos,
23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
24 Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si;
25 pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém.”

Assim, estar “debaixo da lei” pode significar estar sob a jurisdição da lei no seu todo (aspectos morais e cerimoniais), como no caso de Cristo (Gál. 4:4), ou “jurisdição” da lei no que aponta o pecado (Rom. 6:14). Estar “debaixo da graça” ou “debaixo da lei de Cristo” não tem nada a ver com licença para desrespeitar algum mandamento da lei divina, pois isso não faria o menor sentido. Significa estar sob a constrastante “jurisdição” ou proteção da graça divina, que não condena ninguém. Tanto que o mesmo Paulo comenta em Romanos 8: 6-8: “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus”.

Longe de ensinar a isenção de respeito à lei pelos que vivem segundo a “inclinação do Espírito”, Paulo indica que estes vão é fugir da “inclinação da carne”, que é o pecado--que  não se sujeita à  lei de Deus. Aqui se encaixa como um luva dois outros textos bíblicos: Romanos 8:3 e 4, falando que quem é guiado pelo Espírito comprova-o, não por dispensar a obediência à lei divina, mas revelando “a justa exigência da lei” em sua vida. Afinal, a “inclinação da carne” é o pecado, e pecado é definido biblicamente como “transgressão da lei” (1 João 3:4). Como disse Lutero comentando Rom. 6:14:

Romanos 8:3, 4
3 “Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado.
4 para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.”

1 João 3:4
4 “Todo aquele que vive habitualmente no pecado também vive na rebeldia, pois o pecado é rebeldia.”

Rom. 6:14:
14 “Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.”

“ ‘Ser sem lei’ não é o mesmo que não ter lei alguma e que se possa fazer o que apraz a cada um, senão que ‘estar debaixo da lei’ é quando, sem a graça, lidamos com as obras da lei. Então, com certeza, o pecado impera através da lei, uma vez que ninguém por natureza é afeito à lei, e isto é um grande pecado. A graça, porém, nos torna a lei agradável de sorte que não há mais pecado e a lei não está contra nós, mas em harmonia conosco. Esta é a verdadeira liberdade do pecado e da lei, da qual fala [Paulo] até o final deste capítulo. É uma liberdade de fazer apenas o bem com vontade e de viver corretamente sem a coação da lei. Por isso tal liberdade é uma liberdade espiritual, que não anula a lei, e sim oferece aquilo que é exigido pela lei: vontade e amor, com o que a lei é aplacada e não mais fica a incitar e exigir. – Martinho Lutero, Prefácio à Epístola aos Romanos.
Prof. Azenilto G. Brito

Professor Azenilto G. Brito
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