Três Textos Descontextualizados

Romanos 14:17       1 Coríntios 8:8       Colossenses 2:16

Prof. Azenilto G. Brito

 

       As falsas idéias sobre ensinos religiosos quase sempre partem de análises à base de alguns poucos textos bíblicos descontextualizados, pelos quais se perde de vista a floresta por causa das árvores.
       Nosso artigo, “10 Razões Por que Um Cristão Não Deve Alimentar-se de Carnes Imundas” leva em conta o teor global do que a Bíblia ensina e quem deseja contestá-lo, além de não apresentar um estudo ponto por ponto do que este estudo apresenta, apenas lança para o ar textos isolados de sua contextuação que analisaremos rapidamente para demonstrar como não provam o que se pretende—que houve um “liberou geral” para os cristãos alimentarem-se daquelas carnes que Deus proibiu a Seu povo desde tempos imemoriais (ver Gên. 7:2).


1 - Romanos 14:17: “. . . o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”.
Nesta passagem não há a mínima intenção apostólica de ensinar o “liberou geral” dos cristãos quanto às leis alimentares porque esse tema JAMAIS é discutido na Bíblia. Assim também jamais se discute a conveniência de falar-se ou não o nome de Deus em vão, tema que não precisava ser discutido pois havia consenso a respeito disso.

Paulo fala em Tito: “Evita discussões insensatas, genealogias e contendas, e debates sobre a lei; que não têm utilidade e são fúteis” (3:9). Debates vários surgiram no meio dos cristãos, e as muitas regras do judaísmo eram, sem dúvida, motivo dessas inúmeras discordâncias. Que Paulo não está se referindo aos grandes temas de lei e graça, dizendo para não serem jamais debatidos, não tem lógica (como já ouvi alguns alegarem), pois do contrário o próprio Paulo estaria desrespeitando sua clara recomendação. Afinal, quem mais discute o papel da lei e da graça na economia cristã, em Romanos, Gálatas, Efésios, etc., senão o mesmo Paulo?

No capítulo 14, o Apóstolo está instando os cristãos mais amadurecidos e fortes na fé a darem simpática consideração aos problemas de seus irmãos mais fracos que tinham certos escrúpulos sensíveis quanto a dias especiais de observância, feriados típicos dos judeus, e alimentos sacrificados a ídolos, que era um grande problema na época, certamente motivo de muitos debates e conflito de idéias.

Nos caps. 12 e 13, Paulo mostra que a fonte de unidade e paz na igreja é o genuíno amor cristão. Esse mesmo amor e respeito mútuo assegurarão contínua harmonia entre o corpo de crentes, a despeito de opiniões e escrúpulos diferentes em questões de religião. Aqueles crentes cuja fé os capacitasse a imediatamente deixar para trás todos os feriados cerimoniais (ainda relevantes na consideração de certos crentes de origem judaica) não deviam desprezar outros cuja fé é menos forte. Nem, por seu turno, os últimos deviam criticar os que lhes parecessem mais descuidosos.

Cada crente é responsável diante de Deus (Rom. 14:10-12). E o que Deus espera de cada um de Seus servos é que estejam plenamente persuadidos em suas mentes, seguindo conscienciosamente suas convicções de acordo com a luz recebida e compreendida até então. Diz o vs. 3, “Quem come não despreze a quem não come; e quem não come não julgue a quem come; pois Deus o acolheu”. E no vs. 15 ele reforça tal pensamento: “Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu”. Daí é que ele finalmente diz: “porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”.

Ora, o mesmo Paulo que disse tais palavras também disse: “Portanto, quer comais ou quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31). E diz isso também discutindo a questão de carnes sacrificadas a ídolos, pois no contexto imediato ele diz: “Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por causa daquilo de que dou graças?” (vs. 30). E compara antes com o que se passava no ritual de Israel: “Considerai o Israel segundo a carne; não é certo que aqueles que se alimentam dos sacrifícios são participantes do altar?” (vs.18).
Ele, pois, estava tratando de alimentos que se utilizavam com ações de graças—ou seja, o que fosse lícito, segundo o que Deus determinara na Sua lei, não carnes imundas, tais como Pedro havia recusado tomar como alimento (Atos 10:14). Isso é confirmado em 1 Tim. 4:3 onde ele critica certas práticas de extremistas que proibiam o próprio casamento e o tomar alimentos “que Deus criou para serem recebidos com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade”.

As muitas discussões procedentes desse tema quanto a comer ou não carnes sacrificadas a ídolos deviam ter um fim, porque “o reino de Deus não
consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”. Daí que ele prossegue ressaltando a necessidade de paz e harmonia entre os crentes: “sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua”.

Conclusão: Não existe a mínima pista em todo o capítulo 14 de Romanos que a intenção do apóstolo é falar de comidas outrora proibidas, que passaram a não mais serem assim. O que ele ressalta é a harmonia e paz, e recomenda o fim de tantos debates a respeito, pois ficarem o tempo todo discutindo sobre comidas e bebidas não parecia atitude construtiva, que contribuísse para paz e harmonia.

2 1 Coríntios 8:8: “Não é, porém, a comida que nos há de recomendar a Deus; pois não somos piores se não comermos, nem melhores se comermos”.

Mais uma vez temos aí uma discussão sobre a comida “à mesa em templo de ídolos”. Agora, neste caso o próprio Paulo esclarece muito bem o que o está preocupando: “No que se refere às coisas sacrificadas a ídolos. . .” (vs. 1). No vs. 4 ele confirma: “No tocante à comida sacrificada a ídolos. . .”.

Os escrúpulos sensíveis de alguns os levaram a comerem somente legumes, ou seja, tornaram-se vegetarianos pelo temor de que as carnes vendidas no mercado fossem todas sacrificadas a ídolos (ver Rom. 14:2), pois certamente nem todas o seriam, mas como eram misturadas com as demais, como assegurar que estavam livres de tal circunstância? Então, para evitar esses extremos, Paulo mostra que “o ídolo em si nada é”, inclusive superando o que foi decidido pelo Concílio de Jerusalém, que proibiu tais “contaminações com ídolos” (Atos 15:20). A New International Version diz claramente, “alimento poluído por ídolos” neste texto.

Mais uma vez, o tema em debate NÃO É alguma noção de “liberou geral”, porque isso nem faz qualquer sentido, já que as leis alimentares não eram provisórias, como os ritos cerimoniais que tratavam de coisas simbólicas. A determinação de algo que seria provisório baseava-se no valor que se lhe atribuía por considerações de ordem ritual, mas a questão de carnes limpas e imundas têm que ver com a NATUREZA INTRÍNSECA de tais produtos, não de algo que lhe é atribuído simbolicamente.

A circuncisão era uma prática que carregava um simbolismo, daí que sua eliminação não alterava a natureza das coisas. Já a carne de porco, rato, urubus, cobras e lagartos continuam sendo malsãos, prejudiciais à saúde e não recomendáveis como alimento para o povo de Deus. O sangue de Cristo de modo algum alterou a natureza intrínseca de tais carnes.

Então, o vs. 8 deve ser entendido dentro do contexto de toda a discussão no capítulo, não sendo uma indicação de que seremos melhores ou piores comendo aquilo que os cristãos nem consideravam alimento. Afinal, lembremo-nos que eles obtinham sua instrução bíblica ouvindo a leitura da lei nas sinagogas cada sábado (Atos 15:21). Para quem não sabe, os cristãos não contavam com rolos de Bíblias em casa, pois uma coletânea completa dos livros sagrados custava caríssimo. Os cristãos iam regularmente nos sábados às sinagogas para ali obterem instrução bíblica, adicional à pregação dos apóstolos e daqueles primeiros mestres cristãos a eles subordinados. Isso se deu até serem expulsos pelos judeus, a partir do Concílio de Jamnia, pelo ano 90 AD, que lhes proibiu o acesso às reuniões naquele ambiente tipicamente judaico.

Conclusão: Quando Paulo escreveu essas coisas eles ainda tinham acesso livre às sinagogas, e NUNCA aprenderiam pela leitura das Escrituras ali que adquiriram liberdade para o consumo de alimentos imundos. Certamente muitas vezes ouviram a leitura de Levítico 11, Deuteronômio 14 e textos tais como Isaías 65:2-4, Ezequiel 4:13, 14.

Se pairassem dúvidas a respeito, certamente esse tema seria debatido também entre aqueles cristãos, fato que jamais é apresentado nas Escrituras.

3 – Colossenses 2:16: “Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados”.
Paulo nesse caso está tratando de atitudes de alguns pregadores de noções extremistas em Colossos que os cristãos não deviam permitir terem direito sobre eles em termos de os julgarem por suas práticas religiosas e outros aspectos de sua vida cristã.

Note-se que em toda a epístola aos Colossenses Paulo jamais emprega a palavra “lei”, pois não está tratando de validade da lei divina, algo que jamais pôs em dúvida (ver Rom. 3:31; 7:7, 22, 25; 1 Tim. 1:8). Os especialistas não contam com muitos detalhes de qual seria a heresia que perturbava os cristãos colossenses, e que consistia em regras do tipo “não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro” (ver Col. 2:21).

Também ele recomenda no contexto do vs. 16: “Ninguém se faça árbitro contra vós, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum na sua mente carnal” (vs. 18), o que torna o problema dessa estranha heresia colossense ainda mais complexa de conhecer-se.

Contudo, o certo é que Paulo não diz aos colossenses que NÃO ERA para observarem o mandamento sobre o sábado ou sobre os alimentos, e sim que não deviam permitir que esses heréticos proferissem julgamento quanto a seu viver como servos de Deus.

Querer empregar esse texto para defender o “liberou geral” quanto às leis alimentares é forçar claramente o seu sentido para ajustar-se a pressupostos não demonstrados.

Esse é o grande problema em tantos debates no meio cristão contemporâneo: alguns querem transferir para o Apóstolo idéias e noções que mantêm nos tempos atuais, numa cultura tão diversa e distante daquela em que viveram os primeiros crentes. Para tanto, tomam-se passagens bíblicas totalmente fora de seu contexto histórico, cultural e literário, uma atitude perigosa e condenada por Pedro que chega a dizer que quem assim age não passa de “indouto” e “inconstante” (ver 2 Pedro 3:15 e 16).

Conclusão: O texto em lide de modo algum trata de qualquer “liberou geral” quanto às leis alimentares e higiênicas que Deus instituiu para o Seu povo. Certamente tais leis são escritas nos corações e mentes daqueles que adotam o Novo Concerto, pois o texto que trata especificamente disso—da passagem do Velho para o Novo Concerto—não fala absolutamente nada de que Deus deixa de fora tais princípios não-prefigurativos e não cerimoniais nesse processo.

Afinal, o texto-chave que trata da questão, Hebreus 8:6-10, é mera reprodução de Jeremias 31:31-33 que fala das “Minhas leis” [de Deus], escritas nos corações e mentes dos crentes. Devem ser, pois, as mesmas leis que vigoravam ao tempo do profeta, excluindo-se tudo quanto tivesse caráter prefigurativo, e estas incluíam tais proibições alimentares, que nada tinham a ver com ritos

 

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