O Dilema do Marceneiro Jaime

Prof. Azenilto g. Brito

Jaime era um marcineiro aplicado. Os móveis que produzia eram muito bem conceituados na cidade onde residia, e ele nem precisava fazer propaganda. A qualidade de seus serviços era a sua melhor publicidade. Pessoas visitando amigos e parentes viam móveis produzidos por ele em sua ativa oficina e se interessavam em saber onde haviam sido adquiridos. Assim, as virtudes de sua arte eram divulgadas de boca em boca, e as encomendas por serviços não paravam de lhe alcançar.

Ele costumava assistir aos programas dominicais numa Igreja Evangélica a vários quarteirões de sua casa, dedicando o domingo a tais atividades, bem como a passeios com a família, visitas a parentes e amigos e outras atividades compatíveis com os costumes cristãos quanto ao dia de observância. Mas o volume de trabalhos e prazos de entrega começaram a assoberbá-lo, e ele se viu forçado a falhar na freqüência às reunões da Igreja nos domingos pela manhã, deixando para fazê-lo à noite.

A esposa, dona Diva, reclamou dele a ausência às reuniões matinais da Igreja, e disse-lhe que não achava certo ele falhar aos cultos por causa de trabalhos. Mas ele sempre explicava que não tinha outra opção—as encomendas eram de gente importante da comunidade e ele não podia desapontar seus bons clientes, falhando em atender os prazos de entrega. “Eu estarei indo com vocês aos cultos da noite, então não há problema. Não estou deixando a congregação ‘como é costume de alguns’, como diz Hebreus 10:25”,  ele buscava se explicar.

Sua ausência na Escola Dominical e outras reuniões do domingo de manhã começou a ser notada, e seus irmãos da Igreja sempre perguntavam à esposa e filhos sobre o paradeiro do bem-conceituado profissional das madeiras. Eles ficavam meio sem jeito de dizer que ele ficara em casa trabalhando, mas não tinham meios de evitar declará-lo. “Bem, mas se ele vem aos trabalhos da  noite, está tudo bem. . .”, disse certa vez o pastor.
“Irmão, eu gostaria até  de lhe fazer uma pergunta”, disse dona Diva ao pastor. “Pois não, minha irmã, sou todo ouvidos. . .”

“O irmão mesmo disse que se o meu marido vem aos cultos da noite, não há problema quanto a suas faltas nos programas matinais. Mas não diz a Bíblia que o mandamento do dia de repouso é para ser totalmente isento de qualquer trabalho?”

“Bem, cara irmã, os tempos mudaram. Hoje a vida moderna é bem mais agitada e as exigências da sociedade fazem com que muitos tenham que trabalhar mais do que se costumava em décadas passadas. O importante é ele não perder o contato com a igreja, vir aprender com os sermões e participar conosco dos cânticos e orações quando puder”.

“Mas não disse Jesus que ‘o sábado foi feito por causa do homem’? Não significa isso que é para ter esse como um dia realmente especial, dedicado às coisas de Deus e à família?”

“Bem, note que Jesus também disse, ‘não o homem por causa do sábado’, o que significa que não há tanta exigência em nossos tempos de observar o dia de repouso nos moldes do sábado da lei mosaica”.

“E o que me diz da Confissão de Fé de nossa denominação, que ordena que se dediquem os momentos todos do dia do Senhor a Deus, sem atividades seculares ou recreativas?”

“Irmã, esse documento foi emitido séculos atrás, quando os tempos eram outros. Temos que evoluir, segundo a marcha da sociedade, como já lhe acentuei”. Ademais, não se esqueça que o nosso sábado agora é Cristo.

“Bem, mas se tal princípio pode ser desprezado por ser de tempos antigos, então outros mais não poderiam também sofrer ajustes, segundo a marcha da sociedade?” insistia dna. Diva. “Veja que há igrejas hoje em dia que, com base nesse raciocínio, estão abençoando uniões homossexuais, e até nomeando pastores que são declaradamente desse estilo de vida. Acha que isso é justificável?”

“Ora, minha querida irmã, isso já é um tanto extremo, não acha? A Bíblia é clara em condenar o homossexualismo”.

“Mas a mesma Bíblia não é clara quanto a que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo para deixar um exemplo para o homem?”
“Sabe, essa idéia já é ultrapassada. . . Não se pode dizer que o sábado foi estabelecido na criação do mundo, como os sabatistas pregam. O sábado é um símbolo do descanso da salvação que o crente desfruta, nada de seguir regras legais da lei mosaica. . .”

“Mas Lutero, Calvino, Wesley e os documentos confessionais mais representativos das Igrejas evangélicas dizem isso. . . Será que é tudo coisa ultrapassada? Onde está o limite do que ainda vale e não mais vale, dos ensinos de líderes cristãos e documentos históricos das Igrejas, que sempre buscaram dar razões bíblicas para seus conceitos?”

“Minha irmã, veja eu tenho um mestrado em Teologia e deve confiar no que lhe digo. A gente agora deve agir segundo o Espírito nos indica, sem mais códigos do que fazer e não fazer, como se dava no tempo do Velho Testamento. . .”

“Está bem, vou estudar de novo minha Bíblia para ver se o Espírito me ilumina quanto a isso. . .”

“Pois faz muito bem, faça-o, mas concentre-se no Novo Testamento pois o Velho Testamento não mais nos serve tanto. Lembre-se que Jesus disse que agora o Seu novo mandamento é o do amor, não mais a lei de Moisés. . .”

Chegando em casa, dona Diva resolve examinar exatamente o ponto levantado pelo pastor—o novo mandamento do “amor”. Ela não sabia onde encontrar na Bíblia, daí perguntou ao esposo, e este, após uma pequena pesquisa, localizou-lhe Marcos 12:28-34. Trata-se do texto em que o escriba pergunta a Jesus qual é o grande mandamento da lei, querendo apanhá-Lo contradizendo as tradições de Israel, e o que Jesus lhe diz, em vez de dar margem a críticas e acusações da parte do escriba, gera nele uma atitude de respeito pela resposta dada: “Muito bem, Mestre, disseste bem”. Cristo lhe repetiu a lei áurea, segundo a qual o grande mandamento da lei é amar a Deus sobre todas as coisas, e amar o próximo como a si mesmo.

Diva leu com interesse o relato, mas notou algo interessante. “Jesus aqui não contrariou o que pensava o escriba”, comentou ela com o marido. “Tanto que a reação dele foi de elogio às palavras de Cristo”. “Bem, de fato se procurar a referência ao pé da página verá que o texto aponta ao que Moisés já havia dito. Veja essa letrinha que está no fim da passagem”, respondeu seu marido.

Ele era um criterioso estudante da Bíblia, e toda noite tomava sua lição da Escola Dominical para estudá-la, sempre tomando a Bíblia como fundamento do estudo. Era uma forma em que buscava compensar as ausências à sua classe aos domingos. Assim é que ele descobriu por si só a “regra da letrinha miúda”, como ele chamava o seu costume de verificar as referências indicadas através de letrinhas dentro de textos ou ao fim dos mesmos, que conduziam a outras letrinhas ao rodapé que remetiam o leitor a textos paralelos.

“Mas então Jesus com esse ‘novo mandamento’ não está falando de nada novo”, percebeu dona Diva. “Ele falava do que já era da lei mosaica—o princípio do amor a Deus e ao próximo. . .”

“Sim”, confirmou Jaime, “Ele disse mesmo que não veio abolir a lei, e sim cumpri-la”.

“Mas quanto dessa lei ainda é válida para nós cristãos? Eu me preocupo, como sabe, com o princípio do descanso semanal, que você não está levando a sério e que o pastor também deu a entender que não tem importância. Contudo, eu me lembro de ter lido no nosso documento confessional que os primeiros quatro mandamentos do Decálogo referem-se ao nosso relacionamento para com Deus, e os seis últimos tratam de nosso relacionamento para com o próximo. Isso ainda é válido?”

“Como assim, se isso é válido?” perguntou Jaime.

“Sim, porque o pastor me disse que o que ensinam os nossos artigos confessionais é coisa ultrapassada, mas será que não se aplica mais esse princípio?”

“Não há por que não se aplicar. Agora, realmente nossa Igreja não se incomoda muito quanto a seguir o princípio do dia de repouso. Desde que o crente não deixe de freqüentar a Igreja  num dos cultos, pelo menos, não há problema quanto a isso”.

“Bem, mas não disse Jesus que o sábado foi feito por causa do homem? Então não foi uma boa coisa estabelecer um dia para o descanso do homem?”

“Ah, já vem você com seus sermões sobre o meu regime de trabalho. . . O pastor não lhe esclareceu que nosso sábado agora é Cristo?
“Não se trata de sermões, mas de coerência com o que diz a Palavra de Deus”. . .

“Já lhe expliquei que não deixo de ir no culto da noite. Ademais, se eu for seguir essa regra de sábado estarei sendo ‘legalista’ e negando a minha experiência de salvação em Cristo”.

“Onde a Bíblia fala de dedicar só umas horinhas por semana para as coisas de Deus em cumprimento desse princípio? O que quer dizer ‘santificar’, com relação ao dia de repouso a dedicar ao Senhor?”

“É, os crentes mais antigos levavam mais a sério essa questão. . .”

“Mas o que mudou e por quê, ou seja, com que ordem bíblica?”

“Segundo a Bíblia, estamos agora sob um novo concerto, sendo o velho ultrapassado. Veja Hebreus 8:13: ‘Dizendo: Novo pacto, ele tornou antiquado o primeiro. E o que se torna antiquado e envelhece, perto está de desaparecer’.

“Bem, vou ler direito essa questão de velho pacto/novo pacto e ver se entendo melhor esse assunto”, concluiu a esposa.

Jaime prosseguiu com seus trabalhos cada dia, incluindo os domingos, só parando à noite para o descanso, e aos domingos indo a igreja com a família. A esposa ainda não conseguia ver luz nas suas atitudes e no que o pastor lhe havia dito sobre os ensinos passados da denominação. Pois se o descanso semanal fora tão benéfico para aqueles que viviam em tempos menos trepidantes, por que agora, mais do que nunca, se faz necessário tal regime?, ficava ela a pensar. Sem falar no princípio de “santificar” um dia ao Senhor. Afinal, Ele não merece essa pausa semanal para dedicação de um dia inteiro só dedicado a Nele meditar e contemplar as Suas obras?

Buscando estudar a questão em profundidade, ela leu novamente o verso que o marido lhe havia indicado, mas resolveu ver o contexto. Daí, encontrou os vs. 6 a 10:

“Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor pacto, o qual está firmado sobre melhores promessas. Pois, se aquele primeiro fora sem defeito, nunca se teria buscado lugar para o segundo. Porque repreendendo-os, diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá um novo pacto. Não segundo o pacto que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; pois não permaneceram naquele meu pacto, e eu para eles não atentei, diz o Senhor. Ora, este é o pacto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”.

“Veja aqui uma coisa interessante, Jaime”, disse ela demonstrando certa ansiedade. “Esta passagem fala exatamente da mudança do velho para o novo pacto, que é o Novo Testamento. E diz que Deus mesmo escreve as Suas leis nos corações dos que aceitam a mensagem de salvação. Mas aqui não fala nada de ‘novas leis’, e sim das ‘Minhas leis’. Não vejo nenhuma informação de que nesse novo pacto qualquer das leis morais de Deus tenham sido deixadas de lado ou alteradas. Isso inclui a lei do princípio de descanso semanal”.

       “Ora, mulher, lá vem você com sua incompreensão das coisas. Afinal, não é uma boa coisa que eu tenha essa renda extra, e assim pudemos comprar tantas coisas para a casa, como sua nova máquina de lavar roupas e a reforma da cozinha? Pois eu não poderia arcar com essas despesas, não fosse meus ganhos adicionais trabalhando também aos domingos de manhã e à tarde. . .”

       “Bem, eu não sei, mas vamos deixar as coisas assim por enquanto. Vou depois estudar isso melhor para ver onde o que é dito na nossa Confissão de Fé realmente se tornou ultrapassado neste e outros pontos. . .”

       E assim, o tempo foi passando e o marcineiro Jaime buscava não falhar nas reuniões de domingo à noite, trabalhando ainda vigorosamente os sete dias, sem parar. Contudo, ele começou a sentir falta de entusiasmo para sair no domingo à noite, cansado como se achava, e ia dormir mais cedo, com a esposa indo sozinha à igreja com os filhos. Somente esporadicamente ia a alguma reunião mais rápida pelo meio da semana. Com o tempo, porém, nem isso sentia mais desejo de fazer, tanto era o seu esgotamento e indisposição física.

        Dentro de uns meses, aproximando-se o tempo de inverno, uma epidemia de gripe atacou a cidade e muita gente ficou de cama. Jaime não escapou disso, e mesmo tendo muitas encomendas para concluir, desabou fortemente doente. A esposa fez o que pôde para tratá-lo com chás caseiros e outras providências. Nada parecia ajudar, pois o seu sistema imunológico estava negativamente afetado.

        Como não melhorava após vários dias de cama, terminou indo ver um médico. O profissional ficou alarmado de ver sua condição e perguntou-lhe sobre o seu regime de vida. Jaime confessou que trabalhava direto, sete dias por semana, só parando à noite para descansar.
       O médico passou-lhe um sermão e tanto por sua negligência em ter um dia semanal de repouso, como que compensando pela falta de seu pastor fazê-lo. Jaime daí compreendeu o erro de sua prática contrária aos princípios bíblicos, mas sua condição era das piores. Ele voltou para casa com muitas receitas de remédio, e procurou tomá-los religiosamente. Mas o período de repouso que o médico lhe prescreveu ele não podia seguir. Afinal, eram tantas as encomendas com datas de entrega já atrasadas por sua enfermidade. Assim, caiu no batente novamente, e no domingo seguinte ainda tinha muito por fazer. Trabalhou aquele domingo, e à noite nem se animou a sair de casa.  Na segunda-feira, quando abriu a oficina, sentiu-se mal e teve que ser levado às pressas para o hospital. Um exame indicou uma úlcera estomacal bem avançada, sem falar numa forte pneumonia que o deixara fisicamente arrasado.

       Ele foi hospitalizado de imediato, e ali ficava ainda mais aflito com suas encomendas de trabalhos deixadas sem cumprimento. Os dias se passaram, e ele ali preso ao leito hospitalar com sua condição só se complicando. Até que o médico teve que chamar a esposa e filhos e comunicar-lhes que ele não tinha muitas semanas mais de vida.

       Foi muito chocante e triste para todos, mas o pobre homem realmente tinha ultrapassado os seus limites. No domingo seguinte um grupo de seus irmãos foi visitá-lo no seu leito de dor. Foi quando ele comentou: “Irmãos, eu sei que vou morrer em breve, mas digam ao pastor que cumpri plenamente as suas instruções sobre o simbolismo do sábado. Eu não o observei pois se o fizesse estaria negando a minha experiência de salvação. Afinal, ele deixou bem claro a minha esposa que o sábado é mero simbolismo de Cristo. Então, digam ao pastor que eu não fui ‘legalista’. Nada de sábado a observar, pois seria negar a salvação em Cristo. . .”

       E assim, o marcineiro Jaime deu o seu último suspiro, vítima de debilidade física, aliada à debilidade de entendimento do sentido real do que ensina a Palavra de Deus.
 
 

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