O Sábado e o Salvador

Samuele Bacchiocchi, Ph. D.
Os adventistas muitas vezes são acusados de tornar o sábado o seu Salvador. Talvez esta percepção derive do entendimento profético do sábado como o “Selo de Deus” no tempo final, que protegerá o povo remanescente durante a grande tribulação causada pelas últimas pragas.

Para desfazer malentendidos legalísticos que existem quanto ao sábado neste estudo bíblico tentaremos esclarecer o sentido e experiência redentores do sábado como se acha tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Veremos que a função do sábado não é oferecer salvação pela observância do sétimo dia, mas convidar-nos a interromper o nosso trabalho a fim de permitir que Cristo opere em nós mais plena e livremente, permitindo que a graça onipotente de Deus opere em nossas vidas. Assim, a genuína observância do sábado representa salvação pela graça, não pelas obras.
 

       Muitos cristãos pensam que o sábado é uma instituição do Velho Concerto que Cristo cumpriu por tornar-Se o nosso sábado de descanso. Contudo, a forma em que Cristo cumpriu o sábado é entendida de formas diferentes por diferentes cristãos. Para alguns, Cristo cumpriu o mandamento do sábado por dar fim completamente a sua observância e substituí-la por uma experiência existencial de descanso-salvação disponível aos crentes todos os dias. Essa é essencialmente a posição luterana que recentemente foi adotada pela Igreja Universal de Deus e por ex-adventistas que abraçaram a teologia da “Nova Aliança”.

Para outros cristãos, Cristo cumpriu e deu fim somente ao aspecto cerimonial do mandamento do sábado, ou seja, a observância específica do sétimo dia, que antecipava o Seu repouso da salvação. Não obstante, crêem que o aspecto moral do mandamento do sábado, que consiste do princípio de um dia em sete, não foi abolido por Cristo, mas transferido para a observância do primeiro dia da semana, o domingo. Esta é essencialmente a posição católica e calvinista, que tem sido adotada pelas igrejas da tradição da Reforma.

O denominador comum de ambas as posições é a crença de que Cristo cumpriu a função tipológica do sábado, assim liberando Seus seguidores da obrigação de sua observância. Este ponto de vinte prevalecente constitui um ataque de monta contra a validade e valor da observância do sábado para os cristãos hoje e, conseqüentemente, merece detida análise.

Nossa resposta à opinião de que Cristo deu fim ao sábado enfocará esta pergunta: Acaso Cristo cumpriu as tipologias sabáticas da redenção messiânica por terminar a função do sábado, como no caso dos serviços do Templo (Heb. 8:13; 9:23-28), ou por vivenciar e enriquecer o seu significado e observância mediante o Seu ministério redentor?

Uma apreciação do desenvolvimento teológico do sábado, de um memorial de uma perfeita criação para uma celebração de completa redenção e final restauração, pode propiciar aos crentes um rico entendimento e experiência da observância do sábado.
 
 

O SÁBADO E O SALVADOR NO VELHO TESTAMENTO

A história da criação é em certo sentido a história da redenção: a redenção da desordem para a ordem, do caos para o cosmos. Dentro do evento da criação, o sábado revela o propósito do primeiro ato redentor de Deus. Conta-nos como Deus criou este mundo não meramente para o desfrute de fazer algo novo e belo a partir da matéria disforme (Gen 1:2) mas pelo especial prazer de compartilhar a Si próprio em Suas criaturas.
Esta verdade é refletida especialmente na bênção e santificação do sábado. Sendo que é a manifestação da santa presença de Deus que torna um dia ou um lugar santo, a santificação do sábado revela o compromisso de Deus em abençoar Suas criaturas com a vida abundante mediante Sua santa presença. Deus “santificou” e “tornou santo” o sétimo dia (Gen 2:3) pondo o dia à parte para a manifestação de Sua Santa presença entre Suas criaturas. Em outra palavras, por abençoar e santificar o sétimo dia, Deus revelou Sua intenção de oferecer à humanidade não só coisas belas, mas também a doce experiência de comunhão com Ele.

Uma Promessa de Emanuel

Quando a perspectiva de uma vida de gozo na presença de Deus foi destruída pelo pecado, o sábado tornou-se o símbolo do compromisso divino de restaurar o interrompido relacionamento. De símbolo das realizações cosmológicas iniciais de Deus (ou seja, trazer à existência um cosmo perfeito a partir do caos), o sábado tornou-se o símbolo das futuras atividades soteriológicas (isto é, a redenção de Seu povo) a partir da escravidão para a Sua liberdade.
De servir de símbolo da entrada inicial de Deus no tempo humano para abençoar e santificar os seres humanos com Sua divina presença, o sábado tornou-se símbolo do futuro ingresso de Deus na carne humana para tornar-se “Emanuel, Deus Conosco”. A primeira bem como a segunda vinda de Cristo representam o cumprimento do propósito divino para este mundo expresso inicialmente mediante as bênçãos e santificação do sábado.
Em seu livro Toward an American Theology, Herbert W. Richardson corretamente realça a ligação entre a santificação do sábado da criação e a encarnação de Cristo. Ele escreve: “Deus criou o mundo a fim de que o convidado sabático, Jesus Cristo, pudesse vir e ali habitar. Ou seja, o mundo foi criado por causa de ‘Emanuel, Deus conosco’. A Encarnação, portanto, não é uma operação de resgate, decidida somente após o pecado que entrou este mundo. Antes, a vinda de Cristo cumpre o propósito de Deus em criar o mundo”.

Determinar como o sábado cumpriu esta função redentora tanto no Velho como no Novo Testamento não é tarefa fácil por três principais razões. A primeira, é que, o sábado tem estabelecido a base para novas reflexões constantes. Várias linhas de conceitos sabáticos, como os temas do “descanso”, “paz”, “deleite”, a semana cósmica, a experiência libertadora dos anos sabáticos, e a estrutura de tempo sabática, têm sido empregadas para expressar as expectativas escatológicas da futura libertação divina.

Em segundo lugar, a mensagem de libertação do sábado tem sido aplicada, como demonstrei noutra parte, tanto na restauração política nacional de imediato, quanto nas expectativas da futura redenção messiânica. Essa aplicação dupla ao mesmo tema prontamente cria confusão na mente do leitor desapercebido.

Em terceiro lugar, as fontes bíblicas e extrabíblicas nos propiciam informação fragmentada, antes que explicação sistemática dos vários níveis de sentidos atribuídos ao sábado. Também, certas alusões a temas sabáticos no Velho Testamento tornam-se mais claros à luz de sua interpretação neotestamentária, especialmente em Hebreus, capítulos 3 e 4.

Para efeito de brevidade deixarei de fora a discussão do entendimento messiânico da paz, luzes e deleite sabáticos, e darei enfoque, em vez disso, ao descanso sabático, à libertação sabática e à  estrutura sabática de tempo.
 

O Descanso Sabático

O tema do descanso sabático (menuhah) que para a “mentalidade bíblica”, como explicou Abraham Joshua Heschel, “é o mesmo que felicidade e quietude, como paz e harmonia”, tem servido como uma tipologia eficaz da era messiânica, muitas vezes conhecida como “o fim dos dias” ou “o mundo vindouro”.
No Velho Testamento, a noção de “repouso” é utilizada para expressar tanto aspirações nacionais quanto messiânicas. Como uma aspiração nacional, o descanso sabático servia para tipificar uma vida pacífica num terra de descanso (Deu. 12:9; 25:19; Isa. 14:3) onde o rei daria ao povo “descanso de todos os inimigos (2 Sam. 7:1) e onde Deus encontraria o Seu “lugar de descanso” entre o Seu povo e especialmente  em Seu santuário em Sião (2 Crô. 6:41; 1 Crô. 23:25; Sal. 132:8, 13, 14; Isa. 66:1).

A conexão entre descanso do sábado e descanso nacional é também claramente estabelecida em Hebreus 4:4, 6, 8, onde o autor fala do descanso do sábado-criação como símbolo da prometida entrada na terra de Canaã. Por causa da desobediência, os da geração do deserto “não entraram” (v. 6) na terra do descanso tipificada pelo sábado. Mesmo depois, quando os israelitas sob o comando de Josué de fato entraram na terra do descanso (v. 8), as bênçãos do descanso do sábado não se cumpriram em vista de que Deus ofereceu o Seu descanso sabático novamente muito depois de Davi, ao dizer, “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações”.

O fato de que as bênçãos do descanso sabático nunca se cumpriram como uma condição política do descanso e paz desafiou o povo de Deus a esperar por seu futuro cumprimento mediante a vinda do Messias. Na literatura judaica encontramos numerosos exemplos em que o descanso sabático e a estrutura hebdomedária de tempo são usados para significar o descanso, paz e redenção da era messiânica.

Por exemplo, o Talmude Babilônico declara: “Nossos rabinos ensinaram: na conclusão do sábado o filho de Davi virá. R. Joseph retrucou: mas tantos sábados se têm passado, contudo ele não veio!” A era do Messias é freqüentemente descrita como um tempo de descanso sabático. Ao final do Mishnah Tamid lemos: “Um Salmo, um cântico para o dia do sábado—um cântico para o tempo futuro, para o dia que é inteiramente descanso sabático na vida eterna”.

Esses poucos exemplos são suficientes para mostrar que a experiência do sábado nutriu a esperança e fortaleceu a fé da futura paz e descanso messiânicos. O tempo de redenção chegou a ser visto, como declarado no Mishnah, como “todo sábado e descanso na vida futura”.

Libertação Sabática

A liberdade, alívio e libertação que os sábados semanal e anual tinham o propósito de assegurar a cada membro da sociedade hebraica também têm servido como símbolos eficazes da esperada redenção messiânica.
Na versão deuteronômica do quarto mandamento, o sábado é explicitamente ligado à libertação do Êxodo por meio de uma cláusula de recordação: “Lembra-te de que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia do sábado” (Deu. 5:15).

A ligação entre o sábado e a libertação do Êxodo pode explicar por que o sábado tornou-se ideologicamente ligado à Páscoa, a celebração anual da libertação do Egito. Em certo sentido, o sábado chegou a ser visto como uma “pequena Páscoa” do mesmo modo em que muitos cristãos têm chegado a considerar o seu domingo semanal como uma “pequena Páscoa”.

O sábado era um real libertador da sociedade hebréia por propiciar um alívio da dureza da vida e desigualdades sociais, não só cada sétimo dia, mas também cada sétimo ano, no ano do jubileu (Lev. 25:8). Por ocasião dessas instituições anuais, o sábado verdadeiramente tornava-se um libertador dos oprimidos na sociedade hebréia. A terra devia permanecer sem cultivo para propiciar livre produção para os despossuídos e animais. Os escravos eram emancipados e os débitos incorridos pelos cidadãos eram perdoados. Conquanto raras vezes observado, esses sábados anuais serviam para anunciar a futura libertação e redenção a se materializarem com o Messias. Uma razão para a função messiânica dos anos sabáticos se acha em três significativos aspectos do que continham.

O Alívio do Sábado

Primeiro, os sábados anuais prometiam alívio de débitos pessoais e escravidão. Tal libertação propiciava uma imagem que eficazmente tipificava a esperada libertação messiânica (Isa. 61:1-3, 7; 40:2). Em sua dissertação sobre a teologia do jubileu no evangelho de Lucas, Robert Sloan demonstra que o conceito neotestamentário de perdão (aphesis) deriva em grande medida da libertação de dívidas financeiras e injustiças sociais dos sábados anuais. Estas são referidas como “remissão”, “ano da liberdade” (Deu. 15:1, 2, 9; 31:10; Lev. 25:10).

Na oração do Pai Nosso, a frase, “perdoa-nos as nossas dívidas” (Mat. 6:12) deriva da libertação de débitos financeiros dos sábados anuais. A libertação sabática de endividamento financeiro e injustiças sociais chegaram a ser vistos como prefigurações da futura libertação messiânica do débito moral do pecado.

Isaías 61:1-3 emprega a imagem da libertação sabática para descrever a missão do Messias que traria anistia jubilar e libertação do cativeiro. Cristo, como veremos, utilizou esta mesma passagem para anuncar e explicar a natureza de Sua missão redentora.

O Toque da Trombeta

Um segundo aspecto messiânico dos anos sabáticos é o toque da trombeta por meio de um chifre de carneiro yobel—de onde deriva o termo “jubileu”) que introduzia os anos sabáticos. A imagem do toque da trombeta do Jubileu é empregada no Velho Testamento para descrever a reunião messiânica dos exilados  (Isa. 27:13; cf. Zac. 9:9-14) e no Novo Testamento para anunciar o retorno de Cristo  (1 Cor. 15:52; 1 Tes. 4:16; Mat. 24:31).

A Data do Dia da Expiação

Um terceiro aspecto dos anos sabáticos é a data do décimo dia do sétimo mês (Dia da Expiação) em que o chifre do carneiro era soprado para inaugurar o ano do Jubileu (Lev. 25:9). Era a purificação e o novo início moral oferecido por Deus ao povo no Dia da Expiação (Lev. 16:13-19) que inaugurava a libertação sabática do ano do Jubileu.

Esses aspectos messiânicos singulares dos anos sabáticos aparentemente inspiraram o uso da estrutura de tempo sabática para medir o tempo de espera da redenção messiânica. Alguns eruditos chamam a este fenômeno “messianismo sabático” ou “cronomessianismo”.
O local clássico de messianismo sabático é encontrado em Daniel 9 onde dois períodos sabáticos são dados. O primeiro refere-se aos 70 anos da profecia de Jeremias (Jer. 29:10) concernente à extensão do exílio antes da restauração nacional dos judeus (Dan. 9:3-19) e consiste de 10 anos sabáticos (10 x 7). O segundo período é o das “setenta semanas” (shabuim)”—tecnicamente “setenta ciclos sabáticos—que conduziriam à redenção messiânica (Dan. 9:24-27).

O messianismo sabático é mais tarde encontrado na literatura judaica como no Livro dos Jubileus (1:29) e um texto fragmentário descoberto de 1956 na Cova de Qumran II (conhecido como 11Q Melquisedeque). Outros exemplos de tradição rabínica são mencionados em meus estudos mais longos mencionados acima.

Conclusão. Esta breve pesquisa dos temas sabáticos mostra que nos tempos do Velho Testamento os sábados semanal e anual serviam não só para propiciar descanso físico e libertação de injustiças sociais como também para galvanizar e alimentar a esperança da futura redenção messiânica.
O rabino Heschel captura vividamente a função messiânica do sábado deste modo: “Sião está em ruínas, Jerusalém jaz no pó. Por toda a semana há somente esperança de redenção. Mas quando o sábado está entrando no mundo, o homem é tocado por um momento de real redenção; como se por um momento o espírito do Messias se movesse sobre a face da Terra”. As tipologias sabáticas da redenção messiânica que temos encontrado no Velho Testamento nos ajudam a apreciar o relacionamento entre o sábado e o Salvador no Novo Testamento.

O SÁBADO E O SALVADOR NO NOVO TESTAMENTO

A existência no Velho Testamento de uma tipologia messiânica/redentora do sábado tem levado muitos cristãos a concluir que o sábado é uma instituição veterotestamentária dada especificamente aos judeus para recordar-lhes a criação de Deus no passado e a redenção messiânica no futuro. Calvino, por exemplo, descreve o sábado do Velho Testamento como “típico” (simbólico), ou seja, “uma cerimônia legal que tipifica um descanso espiritual, a verdade tal qual foi manifestada em Cristo”. Portanto, os cristãos não mais precisam observar o sábado em vista de que Cristo cumpriu sua tipologia messiânica/redentora. Como Paul K. Jewett explica, “por sua obra redentora, Jesus põe o sábado de lado por cumprir sua divina intenção final”. A aceitação popular de tal noção requer um exame detido dos ensinos do Novo Testamento com respeito à relação entre o sábado e o Salvador.

Acaso Cristo Encerrou ou Expandiu o Sentido do Sábado?

        As questões básicas abordadas aqui são: A missão redentora de Cristo cumpriu as expectativas escatológicas inerentes no sábado por dar fim a sua função e observância, como no caso dos serviços do Templo (Heb. 8:13; 9:23-28), ou por expandir o seu significado e enriquecer sua observância como a celebração de Suas realizações redentoras? Ou, considerou Cristo a observância do sábado como a inquestionável vontade de Deus para os Seus seguidores? Ou considerou Cristo a obrigação de observância do sábado como cumprida e superada por Sua vinda como o verdadeiro sábado? Acaso ensinou Cristo que os cristãos sob o novo concerto devem observar o sábado por experimentar o “descanso da salvação” todos os dias, em lugar de descansar para o Senhor no sétimo dia? Para encontrar respostas a essas perguntas, brevemente examinaremos algumas passagens sobre o sábado em Lucas, Mateus, João e Hebreus.

1. O Sábado em Lucas

Cristo: Um Modelo de Observância do Sábado. O relato de Lucas da cena de abertura do ministério de Cristo propicia um ponto de início adequado para nossa investigação quanto ao relacionamento entre o Salvador e o sábado. Segundo Lucas, foi num “dia de sábado” que Jesus oficialmente inaugurou o Seu ministério na sinagoga de Nazaré, apresentando um discurso programático. É digno de nota que Lucas introduz a Cristo como um observador habitual do sábado (“como era o Seu costume”—Lucas 4:16). Lucas fala do costume de Cristo em observar o sábado no contexto imediato de Sua criação em Nazaré (“onde fora criado”—v. 16). Isto sugere que a alusão é especialmente ao costume de observância do sábado durante a juventude de Cristo.
A palavra “sábado” ocorre no evangelho de Lucas 21 vezes, e 8 vezes em Atos. Isso é aproximadamente duas vezes o que ocorre em qualquer dos demais três evangelhos. Isso certamente sugere que Lucas atribui significação especial ao sábado. De fato, Lucas não só começa, como conclui o relato do ministério terreno de Cristo num sábado, ao mencionar que o Seu sepultamento teve lugar no “dia da preparação” quando “o sábado estava começando” (Luc. 23:54). Vários eruditos reconhecem neste texto que a preocupação de Lucas é mostrar que a comunidade cristã observava o sábado.
Por fim, Lucas expande seu breve relato do sepultamento de Cristo declarando enfaticamente que as mulheres “descansaram no sábado segundo o mandamento” (23:56). Por que Lucas apresenta não só Cristo, mas também Suas seguidoras como observadores habituais do sábado? Este padrão coerente dificilmente pode ser tido como algo insignificante ou acidental. Os muitos exemplos e situações de observância do sábado relatados por Lucas sugerem fortemente que Lucas pretendia estabelecer diante de seus leitores a Cristo como “um modelo de respeito pelo sábado”. Mas para entender tal “modelo” é necessário estudar como Lucas e outros evangelistas relacionam o sábado com a vinda de Cristo.

Cumprimento Messiânico da Libertação do Sábado. Em seu discurso inaugural em Nazaré, Cristo lê e comenta uma passagem extraída especialmente de Isaías 61:1-2 (também 58:6) que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor” (Luc. 4:18).
A função vital deste texto tem sido observada por muitos eruditos. Hans Conzelmann corretamente vê nela um sumário conciso do “programa messiânico”. A passagem original de Isaías descreve por meio da figura de linguagem do ano sabático a libertação do cativeiro que o Servo do Senhor traria a Seu povo. O fato de que a linguagem e imagem dos anos sabáticos encontrados em Isaías 61:1-3 (e 58:6) foram utilizados por judeus sectários e ortodoxos para descrever a obra do esperado Messias torna o emprego por Cristo deste texto ainda mais significativo. Isso significa que Cristo apresentou-Se ao povo como o próprio cumprimento de suas expectativas messiânicas, que haviam sido alimentadas pela visão dos anos sabáticos.
Esta conclusão é apoiada pelo que se pode considerar um breve sumário da exposição por Jesus da passagem de Isaías que está registrada em Lucas 4:21: “Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos”. Em outras palavras, a redenção messiânica prometida por Isaías mediante a imagem do ano sabático era “agora” cumprido. Como Paul K. Jewett comenta adequadamente,  “O grande sábado do jubileu tornou-se uma realidade para aqueles que foram libertos de seus pecados pela vinda do Messias e encontraram Nele a herança”.

Promessa e Cumprimento. O tema da promessa e cumprimento retorna em todos os evangelhos. Muitos aspectos da vida e ministério de Cristo são apresentados repetidamente como o cumprimento das profecias veterotestamentárias. O próprio Cristo ressurreto, segundo Lucas, explicou a Seus discípulos que os Seus ensinos e missão representavam o cumprimento de “tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Luc. 24:44; cf. 24:26-27).
Como o sábado se ajusta a este tema de promessa e cumprimento? O que quis Cristo dizer quando anunciou a Sua missão como sendo o cumprimento das promessas sabáticas de libertação? Intencionava Ele explicar que a instituição do sábado era um tipo que havia encontrado o seu cumprimento Nele próprio, o Antitipo, e daí suas obrigações haviam cessado? Em tal caso, Cristo teria preparado o caminho para a substituição do sábado por um novo dia de observância, como muitos cristãos acreditam. Ou acaso, mediante a Sua missão redentora, cumpriu o prometido descanso e libertação sabáticos a fim de tornar o dia um canal adequado pelo qual experimentar as Suas bênçãos de salvação?

Para encontrar uma resposta a essas perguntas, é necessário examinar o ensino e ministério do sábado de Cristo relatado nos evangelhos. Até  aqui temos observado que, segundo Lucas, Cristo apresentou o Seu discurso programático num sábado reivindicando ser o cumprimento da restauração messiânica anunciada por meio dos anos sabáticos (Isa. 61:1-3; 58:6).

As Primeiras Curas no Sábado. O anúncio de Cristo quanto a sua Messianidade (Luc. 4:16-21) é seguido em Lucas por dois episódios de curas no sábado. O primeiro teve lugar na sinagoga de Cafarnaum durante um culto de sábado e resultou na cura espiritual de um homem possuído por demônio (Luc. 4:31-37; Mar. 1:21-28).
A segunda cura foi realizada imediatamente após o serviço religioso na casa de Simão e operou a restauração física da sua sogra  (Luc. 4:38-39; Mar. 1:29-31). O resultado do último evento foi regozijo para toda a família e serviço: “Imediatamente ela se levantou e os servia” (Luc. 4:39). Os temas de libertação, regozijo, e serviço apresentadas em forma embrionária nessas primeiras curas são associadas mais explicitamente com o significado do sábado no ministério subseqüente de Cristo.

A Mulher Encurvada. A cura da mulher encurvada, somente relatada por Lucas, esclarece adicionalmente a relação entre o sábado e o ministério salvador de Cristo. Na breve narrativa  (Luc. 13:10-17), o verbo grego luein, geralmente traduzido como “libertar, desatar, soltar”, é empregado pelo Senhor três vezes, assim sugerindo um emprego intencional, antes que acidental da palavra.

Na primeira vez, o verbo é empregado por Cristo ao dirigir-Se à mulher: “Mulher, estás livre da tua enfermidade” (Luc. 13:12, ênfase acrescentada). Duas vezes novamente o verbo é empregado por Cristo para responder à indignação do chefe da sinagoga: “Hipócritas, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento, para o levar a beber? E não devia ser solta desta prisão, no dia de sábado, esta que é filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa?” (Luc. 13:15-16; ênfase acrescentada).

Argumentando de um caso menor para um maior, Cristo mostrou como o sábado tinha sido paradoxalmente distorcido. Um boi ou um jumento poderiam ser legitimamente soltos no dia do sábado para que bebesse (possivelmente porque um dia sem beber resultaria em perda de peso e, em conseqüência, perda de valor de mercado), mas uma mulher sofredora não poderia ser liberta nesse dia das cadeias de sua enfermidade física e espiritual.

Cristo agia deliberadamente contra as falsas concepções prevalecentes a fim de restaurar o dia para o pretendido propósito de Deus. Deve-se observar que nesta, bem como em todas as demais curas sabáticas, Cristo não está questionando a validade do mandamento do sábado, e sim argumentando quanto aos verdadeiros valores que haviam sido obscurecidos pelo acúmulo de tradições e infindáveis regulamentos.

Redenção Sabática. A imagem da libertação no sábado de uma vítima aprisionada pelas cadeias de Satanás (Luc. 13:16) faz lembrar o anúncio de Cristo de Sua missão de “proclamar libertação aos cativos . . . pôr em liberdade os oprimidos” (Luc. 4:18; ênfase acrescentada). Acaso a ação de Cristo de libertar uma filha de Abraão de suas cadeias físicas e espirituais no sábado exemplificam como a libertação messiânica tipificada pelo sábado estava tendo cumprimento (Luc. 4:21)?

A conexão entre a tipologia redentora do sábado e as curas de Jesus no dia de sábado é reconhecida, por exemplo, por eruditos observadores do domingo, como Paul K. Jewett, que observa corretamente que “Temos nas curas de Jesus aos sábados, não somente atos de amor, compaixão e misericórdia, mas verdadeiros ‘atos sabáticos’ que mostram que o sábado messiânico, o cumprimento do descanso sabático do Velho Testamento, surgiu no mundo. Portanto, o sábado, de todos os dias, é o mais apropriado para a cura”.

Este cumprimento por Cristo do sábado do Velho Testamento não implica, como alegado pelos mesmo autor, que “os cristãos, portanto, estão . . . livres do sábado para reunirem-se no primeiro dia”, antes, por cumprir a tipologia redentora do sábado, Cristo tornou o dia um memorial adequado de
Sua missão redentora. O significado redentor das curas de Cristo aos sábados pode ser visto também no ministério espiritual que Jesus propicia àqueles aos quais Ele curava (cf. Mar. 1:25; 2:5; Luc. 13:16; João 5:14; 9:38).
O curar pessoas, tal como a mulher encurvada, não são meros atos de amor e compaixão, mas verdadeiros “atos sabáticos” que revelam como a redenção messiânica tipificada e prometida pelo sábado estava tendo cumprimento mediante o ministério salvador de Cristo. Para todos aqueles abençoados pelo ministério sabático de Cristo, o dia tornou-se o memorial da cura de seus corpos e almas, o êxodo das cadeias de Satanás para a liberdade do Salvador.

Cristo decidiu curar a mulher encurvada não a despeito de ser sábado, mas exatamente porque o dia propiciava uma ocasião muito adequada. A libertação física e espiritual que o Salvador ofereceu a essa mulher doente representa uma manifestação que sinaliza o cumprimento proclamado por Cristo da libertação sabática (Luc. 4:18-21), que raiou com a Sua vinda.

Como a mulher e as pessoas que testemunharam as intervenções salvadoras de Cristo chegaram a considerar o sábado? Lucas relata que enquanto “os seus adversários ficavam envergonhados”, “todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele” (Luc. 13:17) e a mulher “glorificava a Deus” (Luc. 13:13). Sem dúvida, para a mulher curada e para todo o povo abençoado pelo ministério sabático de Cristo, o dia tornou-se um memorial de cura de seus corpos e almas, do êxodo das cadeias de Satanás para a liberdade do Salvador.

2. O Sábado em Mateus

O Repouso do Salvador. Mateus não introduz qualquer episódio relativo ao sábado até  quase pela metade do seu evangelho. Então relata dois episódios ligados ao sábado (Mat. 12:1-14) que ele relaciona temporalmente com o oferecimento do repouso de Cristo: “Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Para entender a natureza do repouso do Salvador é importante considerar o contexto mais amplo e imediato.

No contexto mais amplo, a oferta de Jesus de Seu repouso está entre vários relatos de rejeição ou oposição: a dúvida de João Batista (11:1-6), a rejeição por uma geração incrédula (11:7-19) e pelas cidades da Galiléia (11:20-24), as tramas dos fariseus (12:14), a rejeição das curas de Cristo pelos fariseus (12:22-37), a repreensão a uma geração descrente (12:38-45), e a incompreensão de seus parentes (12:46-50). Neste contexto de oposição incomum e incompreensão, Jesus revelou Sua identidade messiânica proclamando-Se o “Filho” que “conhece” e “revela” o “Pai” numa forma especial (11:27). Para apoiar Sua reivindicação messiânica, Cristo ofereceu o descanso messiânico tipificado pelo sábado (11:28-30).
Fizemos notar antes que o descanso sabático nos tempos do Velho Testamento serviram para alimentar a esperança da redenção messiânica. Esperava-se que a era messiânica trouxesse “completo sábado e repouso na vida eterna”. À luz do entendimento messiânico existente quanto ao repouso sabático, parece que Cristo, por oferecer o Seu descanso imediatamente após Sua revelação messiânica, tencionava subtanciar a Sua reivindicação messiânica por oferecer o que o se esperava que o Messias trouxesse—ou seja, a paz e o descanso tipificados pelo sábado.

O Repouso do Salvador e o Sábado. A conexão entre o repouso de Jesus e o sábado também é indicado em Mateus pela colocação do último (11:28-30) no contexto imediato de dois episódios envolvendo o sábado (12:1-14). Ambos estão ligados, como feito observar por vários eruditos, não só estruturalmente, como também temporalmente pela frase, “naquele tempo” (12:1). O tempo referido é um dia de sábado quando Jesus e os discípulos passaram por um campo.

O fato de que, segundo Mateus, Cristo ofereceu o Seu descanso num sábado sugere a possibilidade de que ambos estão ligados não só temporalmente, como também teologicamente. A conexão teológica entre os dois é esclarecida pelos dois episódios envolvendo o sábado que serve para explicar como o descanso messiânico oferecido por Jesus relaciona-se com o sábado. O primeiro relato sobre os discípulos ao colherem espigas num sábado (Mat. 12:1-8) interpreta o descanso de Jesus como o repouso da redenção, especialmente mediante o apelo de Cristo ao exemplo dos sacerdotes que trabalhavam intensamente no sábado no Templo e, no entanto, ficavam “sem culpa” (Mat. 12:5). O segundo relato a respeito de cura do homem com a mão mirrada interpreta o descanso de Jesus como restauração-descanso, especialmente mediante a ilustração de Cristo do resgate de uma ovelha que caia num poço no sábado (Mat. 12:11-12).

Por que os sacerdotes ficavam “sem culpa” embora oferecendo serviços e sacrifícios no sábado (Núm. 28:8, 9)? Certamente não é porque tiravam um dia de descanso noutra ocasião durante a semana. Não há tal provisão no Velho Testamento. A ausência de tal provisão constitui um desafio direto ao princípio do “um dia em sete” tão grandemente acatado por tantos cristãos para justificarem a observância do domingo com base no mandamento do sábado. Donald Carson, editor do simpósio erudito From Sabbath to the Lord's Day [Do sábado para o dia do Senhor] reconhece que “se o princípio veterotestamentário fosse realmente o de ‘um dia em sete para adoração e descanso’ em vez do ‘sétimo dia para adoração e descanso’, esperaríamos que a legislação do Velho Testamento prescrevesse algum outro dia de folga para os sacerdotes. A falta disso confirma a importância no pensamento do Velho Testamento quanto ao sétimo dia, em oposição ao princípio do mero um-em-sete tão vastamente acatado por aqueles que desejam ver no domingo o equivalente preciso do Novo Testamento ao sábado veterotestamentário”.

Os sacerdotes realizavam atividades no sábado que em si seriam condenadas pelo mandamento, contudo ficavam sem culpa porque estavam cumprindo o propósito do sábado, que é suprir as necessidades espirituais das pessoas. Mas, como podia Cristo defender Suas ações, bem como a de Seus discípulos, por este exemplo de serviço realizado pelos sacerdotes no sábado, quando nem Ele nem Seus discípulos estavam cumprindo a lei divina de sacrifícios nesse dia? A resposta é encontrada na declaração seguinte feita por Cristo: “Digo-vos, porém, que aqui está o que é maior do que o templo” (Mat. 12:6).

Cristo e os Serviços do Templo. A função simbólica do Templo e seus serviços tinham agora encontrado o seu cumprimento e eram suplantados pelo serviço do Verdadeiro Sumo Sacerdote. Portanto, no sábado e mesmo por preferência no sábado, Cristo também deve intensificar a Sua “oferta sacrificial”, ou seja, o Seu ministério de salvação em favor de pecadores necessitados; e o que Ele faz a Seus seguidores, o novo sacerdócio, deve ser de igual modo. Em João 7:22, 23 Cristo expressa o mesmo conceito. Como o sacerdote estende a bênção da aliança ao recém-nascido mediante o ato da circuncisão, também Cristo no sábado deve operar a salvação da pessoa completa.

Cristo encontra na obra redentora realizada tipologicamente pelos sacerdotes no sábado uma base válida para justificar o Seu próprio ministério sabático porque Ele o considera como “maior do que o Templo” (12:6). A redenção oferecida tipologicamente mediante os serviços e sacrifícios do Templo  realizados pelos sacerdotes está sendo propiciada realisticamente mediante a missão salvadora do Filho do Homem, o Messias. Portanto, assim como os sacerdotes estavam “sem culpa” ao realizarem seus serviços no Templo, também os discípulos de Jesus estavam a serviço Daquele que era maior do que o Templo.

O Templo e seus serviços propiciavam a Jesus um válido ponto de referência para explicar Sua teologia do sábado. Isto se dá porque sua função redentora melhor exemplificava tanto Sua missão messiânica quanto o propósito divino para o sábado. De fato, ao identificar Sua missão salvadora com o sábado, Cristo revela o derradeiro propósito divino do mandamento, qual seja, comunhão com Deus. Mediante o ministério redentor de Cristo, o sábado torna-se um tempo não só para comemorar a criação divina, no passado, como também experimentar as bênçãos da salvação por ministrar às necessidades de outros.

Desafortunadamente, ao tempo de Cristo a dimensão humanitária do sábado havia sido em grande parte esquecida. As exigências dos rituais haviam tomado o lugar das exigências do serviço às necessidades humanas. Na declaração relatada por Mateus, Cristo abertamente ataca essa perversão do sábado, declarando: “Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifícios, não condenaríeis os inocentes” (Mat. 12:7). Para Cristo os discípulos são “sem culpa” ainda que tivessem violado a lei quanto ao completo descanso no sábado porque o real sentido do mandamento é “misericórdia e não sacrifício”.

O Homem Com a Mão Mirrada. A proclamação do senhorio de Cristo sobre o sábado é seguida imediatamente por um segundo episódio de cura do homem com a mão mirrada (Mat. 12:9-21; cf. Mar. 3:1-6). A função dessa cura era demonstrar como Cristo exercia o Seu senhorio sobre o sábado por oferecer cura e restauração messiânicas nesse dia.

Jesus acha-Se na sinagoga diante de um homem com uma mão paralizada, ali levado com toda probabilidade por uma delegação de escribas e fariseus. Eles foram à sinagoga, não para adorar, mas para espionar a Cristo “para ver se no sábado curaria o homem, a fim de o acusarem” (Mar. 3:2). Segundo Mateus, eles dirigiram a Cristo a pergunta desafiadora: “É lícito curar nos sábados” (Mat. 12:10). A pergunta deles não é motivada por uma genuína preocupação com o homem doente, nem por um desejo de explorar como o sábado se relaciona com o ministério de cura. Antes, eles estão ali como a autoridade que conhece todas as isenções previstas pelo casuísmo rabínico e que deseja julgar a Cristo com base nas minúcias de seus regulamentos.
Cristo lê os seus pensamentos “com indignação, condoendo-se da dureza dos seus corações” (Mar. 3:5). Ele aceita o desafio e o enfrenta de modo justo e direto. Primeiro, convida o homem a vir à frente, dizendo, “Levanta-te e vem para o meio” (Mar. 3:3). Essa medida possivelmente visava a despertar simpatia pelo homem afetado e ao mesmo tempo assegurar que todos fiquem cientes do que Ele iria fazer a seguir. Então Ele pergunta aos especialistas na lei, “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida ou matar?” (Mar. 3:4). Para colocar esta pergunta em perspectiva ainda mais aguda, segundo Mateus, Cristo acrescenta uma segunda pergunta na forma de uma parábola, dizendo: “Qual dentre vós será o homem que, tendo uma só ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não há de lançar mão dela, e tirá-la? Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha!” (Mat. 12:11,12).

O Sábado: Um Dia Para Demonstrar Interesse. O propósito original do sábado e suas instituições relacionadas é realçar a importância de amor ao semelhante, especialmente os que não têm quem os defenda. Nas várias versões do mandamento do sábado, por exemplo, aparece uma lista constante de pessoas as quais a liberdade de descansar no sábado é para ser concedida. Os que são particularmente destacados são geralmente o servo, a serva, o filho da escrava, o gado e o forasteiro e/estrangeiro. Isso indica que o sábado foi ordenado especialmente para mostrar compaixão para com os seres desvalidos e necessitados. “Seis dias farás os teus trabalhos, mas ao sétimo dia descansarás; para que descanse o teu boi e o teu jumento, e para que tome alento o filho da tua escrava e o estrangeiro” (Êxo. 23 :12).

Essa dimensão original do sábado como um dia para honrar a Deus por revelar interesse e compaixão para com os seres humanos tinha sido em grande medida esquecida ao tempo de Jesus. O sábado havia se tornado o dia em que a prática correta de um ritual era mais importante do que a resposta espontânea para os clamores das necessidades humanas. Nossa história propicia um exemplo adequado para essa prevalecente perversão por contrastar dois tipos de observadores do sábado.

De um lado estava Cristo “condoendo-se da dureza dos seus corações” de seus acusadores e tomando medidas para salvar a vida de um homem desgraçado (Mar. 3:4-5). Do outro lado estavam os especialistas na lei que, embora assentados num lugar de culto, passavam o sábado procurando faltas e pensando em formas de matar a Cristo (Mar. 3:2, 6). Este contraste de atitudes pode bem propiciar a explicação à pergunta de Cristo a respeito da legitimidade de salvar ou matar no sábado (Mar. 3:4); a pessoa que não estiver preocupada com a salvação física e espiritual de outros no sábado está automaticamente envolvida em esforços ou atitudes destrutivos.

Por curar o homem com a mão mirrada, Cristo não só esclareceu a intenção do mandamento do sábado, como também demonstrou como Ele cumpria a restauração messiânica que havia sido alimentada pela celebração do sábado. Esses atos intencionais de cura realizados por Cristo em favor de pessoas incuráveis servem para esclarecer a relação entre o descanso do Salvador e o sábado.

Sumariando, em Mateus o descanso sabático do Velho Testamento é visto como sendo realizado por Cristo que oferece a Seus seguidores o descanso messiânico. Os dois episódios envolvendo o sábado relatados por Mateus qualificam o significado do descanso sabático, primeiro como redenção messiânica através de suas referências à misericórdia e aos serviços do sábado realizados pelos sacerdotes, e, em segundo lugar, como restauração messiânica mediante o exemplo do resgate de uma ovelha no sábado e a restauração de saúde de um homem enfermo. À luz deste entendimento redentor/messiânico do sábado, como era o sábado observado na comunidade em que vivia Mateus e na igreja apostólica como um todo? Esta questão é abordada abaixo na seção final deste capítulo que trata do modo de obsrvância do sábado na Igreja Apostólica.

3. O Sábado em João

No evangelho de João, a relação entre o sábado e a obra salvífica de Cristo é aludida em dois milagres no sábado: a cura do paralítico (João 5:1-18) e do homem cego (João 9:1-41). Os dois episódios são examinados juntos, uma vez que são substancialmente semelhantes. Ambos os homens curados tinham estado cronicamente enfermos: um era inválido há 38 anos (João 5:5) e o outro era cego desde nascença (João 9:2). Em ambos os casos, Cristo disse aos homens para agirem. Ao paralítico Ele disse: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (João 5:8); ao homem cego, ele disse: “Vai, lava-te no tanque de Siloé” (João 9:7).
Ambas essas ações representam a quebra das leis sabáticas rabínicas, e assim ambas são usadas por fariseus para acusarem a Cristo de quebra do sábado (João 5 :10, 16; 9:14-16). Em ambos os casos, Cristo repudiou tal acusação argumentando que Suas obras de salvação não são impedidas, antes são contempladas pelo mandamento do sábado (João 5:17; 7:23; 9:4). A justificativa de Cristo é expressa especialmente mediante uma declaração memorável: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17; cf. 9:4).

Negação ou Esclarecimento Sobre o Sábado? O que Cristo quis dizer quando formalmente Se defendia das acusações de violação do sábado ao apelar para o Pai que trabalhava “até  agora”? Acaso Ele usou o exemplo de Seu Pai para rescindir a obrigação de observância do sábado tanto para Ele quanto para Seus seguidores, ou desejava esclarecer a sua verdadeira natureza e significado? Para ser objetivo ao máximo, a declaração de Cristo representa uma negação ou esclarecimento da lei do sábado?

O Advérbio “Até Agora”. Tradicionalmente, a frase adverbial “até  agora” tem sido interpretada como a obra contínua de Deus (seja na criação, preservação ou redenção), que supostamente supera ou rescinde o preceito do sábado. Mas o advérbio em si (“até ”), especialmente como empregado no grego, em sua posição enfática antes do verbo, pressupõe não constância, mas culiminação. O último sentido é destacado por alguns tradutores mediante o uso da forma enfática “mesmo até  agora”.

Essa frase adverbial pressupõe um início (terminus a quo) e um fim (terminus ad quem). O primeiro aparentemente é o sábado da criação inicial (Gên 2:2-3) e o último o sábado de descanso final previsto num pronunciamento semelhante quanto ao sábado como “a noite . . quando ninguém pode trabalhar” (9:4). O que Jesus está dizendo, então, é que conquanto Deus haja descansado no sábado ao completar a criação, por causa do pecado Ele tem estado “trabalhando até agora” para trazer o prometido descanso do sábado à materialização.

O Verbo “Trabalha”. O significado do verbo “trabalha” até  agora quanto ao Pai é esclarecido pelas referências de João à atuação e obras de Deus que são repetida e explicitamente identificadas, não com uma contínua criação divina, nem com uma constante manutenção do universo, mas com a missão salvadora de Cristo.
Jesus explicitamente declara: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29). E novamente, “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas se as faço, embora não me creiais a mim, crede nas obras; para que entendais e saibais que o Pai está em mim e eu no Pai” (João 10:37, 38; cf. 4:34; 14:11; 15:24; destaques acrescentados).

A natureza redentora das obras de Deus é evidente na cura do homem cego, uma vez que o ato é explicitamente descrito como a manifestação das “obras de Deus” (João 9:3). Isto significa então que Deus concluiu no sábado as Suas obras da criação mas não a Sua atividade, em geral. Por causa do pecado, Ele tem estado empenhado na obra da redenção “até  agora”. Para usar as palavras de A. T. Lincoln, poder-se-ia dizer, “Com respeito à obra da criação, o descanso de Deus foi final, mas sendo que esse descanso tinha o propósito de fazer a humanidade desfruutar, quando esta era perturbada pelo pecado, Deus operou na história para realizar o Seu propósito original”.

Implicações Teológicas. O recurso de Cristo ao “trabalhar” do Pai não anula a função do sábado, e sim a esclarece. Para entender a defesa de Cristo, deve-se lembrar que o sábado é ligado tanto à criação (Gên. 2:2-3; Êxo. 20:11) quanto à redenção (Deu. 5:15).
Enquanto por interromper todas as atividades seculares os israelitas estavam se lembrando de Deus como Criador, por agirem misericordiosamente para com os semelhantes imitariam ao Deus-Redentor. Isso era verdadeiro não só na vida do povo, em geral, que no sábado devia ser compassivo com os menos afortunados, mas especialmente no serviço do sacerdote que podia legitimamente realizar obras aos sábados proibidas aos outros israelitas, porque tais obras tinham uma função redentora.

À base desta teologia do sábado admitida pelos judeus, Cristo defende a legalidade do “trabalhar” que Ele e o Seu Pai realizam no sábado. Em João, Cristo apela ao exemplo da circuncisão para silenciar o rumor da controvérsia quanto à cura do paralítico (João 7:22-24). O Senhor argumenta que se é legítimo no dia de sábado que os sacerdotes cuidem de uma parte tão pequena do corpo de um homem (segundo a contagem rabínica, a circuncisão envolvia um dos 248 membros do homem) a fim de estender ao recém-nascido a salvação do concerto, não há razão para ficarem com “rancor” Dele por tornar nesse dia  no sábado “um homem inteiramente são” (João 7:23).

Para Cristo, o sábado é o dia para operar a redenção do homem completo. Isso é apresentado pelo fato de que em ambas as curas Cristo procurou o homem curado no mesmo dia e, tendo-o encontrado, ministrou a suas necessidades espirituais (João 5:14; 9:35-38). Os opositores de Cristo não podem perceber a natureza redentora de Seu ministério sabático porque julgam “pela aparência” (João 7:24). Para eles a esteira e o barro são mais importantes do que a reunião social (5:10) e a restauração da vista (João 9:14) que tais objetos simbolizavam. Foi necessário, portanto, que Cristo agisse contra incompreensões a fim de restaurar o sábado a sua função positiva.

Na cura do homem cego num sábado, registrada em João 9, Cristo estende a Seus seguidores o convite para se tornarem elos da mesma corrente redentora, dizendo: “Importa que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem a noite, quando ninguém pode trabalhar” (v. 4). A “noite” aparentemente se refere à conclusão da história da salvação, uma conclusão que achamos implícita na frase adverbial “até  agora”. Tal conclusão da atividade redentora divina e humana introduziria o sábado final do qual o sábado da criação é um protótipo.
Para trazer à materialização esse sábado final, a Divindade “trabalha” para a nossa salvação (João 5:17); mas importa que “façamos as obras” para estendê-la a outros (João 9:4). As considerações acima indicam que as duas curas no sábado registradas por João substanciam o sentido redentor do sábado que encontramos antes em Lucas e Mateus—ou seja, um tempo para experimentar e compartilhar as bênçãos da salvação realizada por Cristo.

4. O Sábado em Hebreus

O significado redentor do sábado que encontramos nos evangelhos se reflete em Hebreus 4:1-11, onde o autor inspira-se em entendimentos escatológicos do descanso sabático para relacionar com o descanso divino do sétimo dia da criação (Heb 4:4) a todo o descanso e paz que Deus intenciona conferir a Seu povo. A discussão do sábado em Hebreus é crucial ao nosso estudo porque revela como a observância do sábado foi entendida e experimentada pela Igreja neotestamentária.
Noutra parte eu demonstrei como o sábado em Hebreus se relaciona com a discussão sobre o velho e o novo concerto. Nestas alturas, nossa preocupação é estabelecer se o significado da observância do sábado em Hebreus reflete o mesmo significado redentor do sábado que encontramos nos evangelhos.
A relação entre o sábado e o Salvador é estabelecida pelo autor de Hebreus fazendo a ligação de Gênesis 2:2 com o Salmo 95:7, 11. Por meio desses dois textos o autor de Hebreus explica que o descanso sabático oferecido por ocasião da criação (Heb. 4:4) não se exauriu quando os israelitas. Sob Josué, encontraram um lugar de descanso na terra da Canaã, uma vez que Deus ofereceu novamente o Seu repouso “muito depois” mediante Davi (Heb. 4:7; cf. Sal. 95:7). Conseqüentemente, o prometido descanso sabático da parte de Deus ainda esperava um cumprimento mais pleno que surgiu com a vinda de Cristo (Heb 4:9). É por crer em Jesus Cristo que o povo de Deus pode finalmente experimentar (“entrar”-Heb 4:3,10,11) as “boas novas” do prometido descanso no “sétimo dia” da criação (Heb 4:4).

Observância Sabática Literal ou Figurada? Que inferência se pode legitimamente traçar a partir desta passagem com respeito à real observância e entendimento do sábado entre os que receberiam a epístola de Hebreus? A posição da maioria dos comentaristas é de que esta passagem não propicia qualquer indicação de que os cristãos hebreus realmente observassem o sábado ou que o autor tencionasse dar uma interpretação cristã a tal observância.
Este argumento falha em não reconhecer que os que receberiam a epístola (fossem gentios ou judeus cristãos) eram tão atraídos à liturgia judaica (do qual o sábado era parte fundamental) que era desnecessário que o autor discutisse ou incentivasse sua real observância. O que aqueles cristãos “hebreus” realmente necessitavam, tentados como eram de retornar ao judaísmo, era entender o significado da observância do sábado à luz da vinda de Cristo.

Antiquado ou Remanescente? Ensina Hebreus que o sábado, como o Templo e seus serviços, perderam sua função com a vinda de Cristo? Ou acaso o sábado adquire renovado significado e função com a Sua vinda? Nosso estudo do material sobre o sábado nos evangelhos mostra que Cristo cumpriu o descanso tipológico e escatológico do sábado messiânico de descanso e libertação, não por anular a real observância do dia, mas por torná-lo um tempo para experimentar e compartilhar sua salvação completada.

Consideremos agora o que Hebreus tem a dizer sobre este ponto. Não há dúvida de que o autor claramente ensina que a vinda de Cristo trouxe uma “decisiva ruptura” com o sistema sacrificial do velho concerto. Nos capítulos 7 a 10, o autor de Hebreus explica em detalhes como o sacrifício expiatório de Cristo e o subseqüente ministério celestial substituiu completamente a função tipológica (“cópia e sombra”- Heb 8 :5) do sacerdócio levítico e o seu Templo. Esses serviços Cristo “aboliu” (Heb. 10:9). Assim eles se fizeram “antiquados” e “o que se torna antiquado e envelhece, perto está de desaparecer”. (Heb. 8:13).

O Sábado Permanece. Mas acaso o autor de Hebreus coloca o sábado na mesma categoria, considerando-o uma das intituições “antiquadas” do velho concerto? Esta é realmente a conclusão a que a maioria tem chegado, mas dificilmente isso pode ser apoiado por um detido estudo da passagem.
O “sabbatismos-descanso sabático” é explícita e enfaticamente apresentado, não como sendo “antiquado”, como o Templo e seus serviços, mas como um divino benefício que ainda “resta” (Heb. 4:9). O  verbo “resta-apoleipetai” é do tempo presente passivo que traduzido literalmente significa “foi deixado para trás”. Destarte, traduzido ao pé da letra, Hebreus 4:9 assim reza: “Portanto, um descanso sabático foi deixado para trás para o povo de Deus”
O contraste entre o sábado e os serviços do santuário é óbvio. Enquanto os últimos são “antiquados”, o primeiro é “deixado para trás” e, portanto, ainda relevante. Um contraste semelhante é encontrado no evangelho de Mateus. Ali, o rasgar do véu do Templo em ligação com a morte de Cristo (Mat. 27:51) indica o término dos serviços do Templo. Por outro lado, a advertência de Cristo quanto à possibilidade de que a futura fuga da cidade ocorresse num sábado (Mat. 24:20) deixa entrever a permanência de sua observância.

       Observância Literal ou Espiritual do Sábado? Qual é a natureza do “descanso sabático” que ainda resta ao povo de Deus (4:9)? Está o autor pensando em um tipo literal ou espiritual de observância do sábado? A passagem propicia duas importantes indicações que apóiam um entendimento literal da observância do sábado como uma resposta de fé a Deus. Sendo que já discutimos em certa extensão ambas essas indicações noutra parte, apenas brevemente as mencionaremos neste contexto.

A primeira indicação é o uso do termo “sabbatismos-observância do sábado” encontrado em Hebreus 4:9. Conquanto o termo ocorra somente em Hebreus 4:9 no Novo Testamento, é empregado na literatura secular e cristã como um termo técnico para a observância literal do sábado. Incidentalmente, eu não consegui encontrar o emprego de “sabbatismos” em literatura extrabíblica. Mas o Prof. A. T. Lincoln do Colégio São João, em Nottingham, a encontrou em cinco diferentes fontes. Em cada um desses casos o termo claramente se refere à observância do sábado (From Sabbath to the Lord's Day, p. 213). Conseqüentemente, o uso de “sabbatismos-observância sabática” no verso 9 torna abundantemente claro que o escritor de Hebreus está pensando numa observância literal do sábado.

A segunda indicação é a descrição do descanso sabático como uma cessação de trabalho que se acha no vs. 10: “Pois aquele que entrou no descanso de Deus, esse também descansou de suas obras, assim como Deus das suas” (Heb. 4:10). O ponto básico da analogia é simplesmente que Deus cessou de atuar na criação no sétimo dia de modo que os crentes devem cessar no mesmo dia de seus labores. Esta é uma declaração simples da natureza da observância do sábado que essencialmente envolve a cessação de trabalhos.

O Significado da Observância do Sábado. Está o autor de Hebreus meramente encorajando seus leitores a interromper suas atividades seculares no sábado? Considerando a preocupação do escritor em contrariar a tendência de seus leitores em adotar costumes litúrgicos judaicos como um meio de ganhar acesso a Deus, ele dificilmente daria ênfase somente ao aspecto de “cessação” física da observância sabática. Este aspecto apenas promove uma idéia negativa de descanso, que serviria apenas para incentivar tendências judaizantes existentes. Obviamente, portanto, o autor atribui um sentido mais profundo ao ato de descansar aos sábados.

O sentido mais profundo pode ser visto na antítese que o autor faz entre os que falharam em entrar no repouso de Deus por causa da “descrença-apeitheias” (Heb. 4:6, 11)—isto é, falta de fé que resulta em desobediência—e aqueles que entraram no repouso pela“fé-pistei” (Heb. 4:2, 3)—isto é, fidelidade que resulta em obediência.

O ato de descansar no sábado para o autor de Hebreus não é meramente uma rotina ritual (cf. “sacrifício”—Mat. 12:7), mas uma resposta de fé a Deus. Tal resposta envolve, não o endurecer do coração (Heb. 4:7), mas o pôr-se a pessoa disponível para “ouvir a sua voz” (Heb. 4:7). Significa experimentar o repouso da salvação de Deus, não pelas obras, mas por fé, não por fazer, mas por ser salvo mediante a fé (Heb. 4:2, 3, 11). No sábado, como João Calvino expressou com precisão, os crentes devem “cessar de sua obra para permitir que Deus obre neles”.

O repouso do sábado que resta para o povo de Deus (4:9) não é um mero dia de ociosidade para o autor de Hebreus, mas uma renovada oportunidade cada semana de entrar no repouso de Deus—livrar-se dos cuidados do trabalho a fim de experimentar livremente pela fé o repouso da criação e redenção.

A experiência sabática das bênçãos de salvação não são exauridas no presente, uma vez que o autor exorta seus leitores a “diligentemente entrar naquele descanso” (Heb. 4:11). Esta dimensão do futuro descanso sabático mostra que a observância do sábado em Hebreus expressa a tensão entre o “já” e o “ainda não”, entre a presente experiência de salvação e sua consumação escatológica na Canaã celestial.

Esta ampliada interpretação da observância do sábado à luz do evento de Cristo aparentemente teve por objetivo afastar cristãos de um entendimento muito materialístico de sua observância. Para alcançar esse objetivo, o autor de Hebreus, por um lado, reassegura os seus leitores da permanência das bênçãos contempladas pelo descanso sabático e, por outro lado, explica que a natureza dessas bênçãos consiste em experimentar tanto um presente repouso da salvação quanto o futuro repouso da restauração que Deus oferece àqueles que têm “crido” (Heb 4:3).

É evidente que para o autor de Hebreus, a observância do sábado que resta para os cristãos do novo concerto não é somente a experiência física da cessação do trabalho no sétimo dia, mas também a resposta de fé, um sim “hoje” e resposta a Deus. Como  Karl Barth eloqüentente explica, o ato de descansar no sábado é uma atitude de renúncia a nossos esforços humanos para alcançar salvação a fim de “permitir que a onipotente graça de Deus tenha a primeira e última palavra em todo ponto”.

A interpretação do sábado em Hebreus reflete em grande medida o entendimento redentor do dia que encontramos antes nos evangelhos. A grande promessa de Cristo ao oferecer a esperada “libertação” (Luc. 4:18) e “descanso” (Mat. 11:28) sabáticos representa o cerne do “repouso sabático” disponível “hoje” ao povo de Deus (Heb. 4 :7, 9). Semelhantemente, a garantia de Cristo de que Ele e Seu Pai “trabalha[m] até  agora” (João 5:17) para a concretização do descanso sabático final acha-se na exortação, “procuremos diligentemente entrar naquele descanso” (Heb 4:11).
O fato de que Hebreus 4 reflete o entendimento do evangelho do sábado como um tempo para experimentar as bênçãos da salvação, que serão plenamente concretizadas ao final de nossa peregrinação terrena, mostra que o sábado era entendido na Igreja apostólica como um tempo para celebrar o amor criador e redentor de Deus.

5. A Maneira de Observar o Sábado

Como os crentes do Novo Testamento observavam o sábado à luz de seu expandido significado redentor derivado do ministério de Cristo? Inicialmente, a maioria dos cristãos assistia aos serviços do sábado na sinagoga judaica (Atos 13:14, 43, 44; 17:2; 18:4). Gradualmente, contudo, os cristãos estabeleceram seus próprios locais de culto. Mateus sugere que o processo de separação tinha já começado ao tempo de seu escrito, porque fala de Cristo entrar na “sinagoga deles” (Mat. 12:9). O pronome “deles” sugere que a comunidade ligada a Mateus como um todo não mais compartilhava os cultos na sinagoga judaica ao tempo em que o seu evangelho foi escrito. Presumivelmente, eles tinham organizado seus próprios locais de culto àquelas alturas.

A distinção em observância do sábado entre as comunidades cristã e judaica logo se tornaram não só topológicas como também teológicas. Os vários episódios ligados ao sábado relatados nos evangelhos refletem a existência de uma controvérsia prevalecente entre as congregações cristãs e as sinagogas judaicas que, em alguns casos, podem ter-se localizado do outro lado da rua em relação uma à outra. A controvérsia centralizava-se primariamente na maneira de observância do sábado à luz dos ensinos e exemplo de Cristo. Deveria o dia ser observado mais como “sacrifício”, ou seja, como um cumprimento exterior da lei do sábado? Ou devia o sábado ser observado como “misericórdia”, ou seja, como uma ocasião para demonstrar compaixão e fazer o bem àqueles que estão em necessidade? (Mat. 12:7).

Um Dia Para Fazer o Bem. Para defender o entendimento cristão da observância do sábado como um dia para celebrar a redenção messiânica por mostrar “misericórdia” e fazer o “bem” aos destituídos, os evangelistas apelam ao exemplo e ensinos de Jesus. Por exemplo, na cura da mulher encurvada, Lucas contrasta duas diferentes concepções de observância sabática: a do dirigente da sinagoga versus a de Cristo. Para o dirigente, o sábado consistia em regras para obedecer antes que pessoas para amar (Luc. 13:14). Para Cristo, o sábado era um dia para levar libertação física e espiritual a pessoas necessitadas  (Luc. 13:12, 16).

Cristo desafiou o falso entendimento do dirigente apelando ao costume aceito de dar água aos animais no sábado. Se as necessidades diárias dos animais podiam ser atendidas no sábado, quanto mais as necessidades de uma “filha de Abraão a qual há dezoito anos Satanás tinha presa”! Não devia ser solta desta prisão” no dia de sábado? (Luc. 13:16).

Esse entendimento humanitário do sábado é também expresso no episódio de cura do homem com a mão mirrada, relatado por todos os três sinóticos (Mar. 3:1-6; Mat. 12:9-14; Luc. 6:6-11). Neste caso, Jesus responde a pergunta probante levantada por uma delegação de escribas e fariseus com respeito à legitimidade de cura no sábado com uma indagação de princípio: “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida ou matar? Eles, porém, se calaram?” (Mar. 3:4; Luc. 6:9).

É digno de nota que tanto em Marcos quanto em Lucas, Cristo substitui o verbo “curar” (therapeuein), usado na pergunta, pelos verbos “fazer bem”( agathopoiein) e “salvar” (sozein). A razão para essa mudança é a preocupação de Cristo em incluir não só um tipo, mas todos os tipos de atividades beneficentes dentro da intenção do mandamento do sábado. Tal ampla interpretação da função do sábado acha paralelo nas concessões rabínicas.

Um Dia de Serviço Beneficente. Segundo Mateus, Cristo ilustrou o princípio de observância do sábado como um tempo de serviço beneficente acrescentando uma segunda pergunta que contém um exemplo concreto: “Qual dentre vós será o homem que, tendo uma só ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não há de lançar mão dela, e tirá-la? Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha!” (Mat. 12:11-12). Tanto pela pergunta sobre princípio quanto pela sua ilustração, Cristo revela o valor original do sábado como um dia para honrar a Deus por revelar preocupação e compaixão por outros. O crente que no sábado experimenta a bênção da salvação automaticamente é inspirado a “salvar” e não a “matar” outros.
Os acusadores de Cristo, falhando em mostrar preocupação pelo bem-estar físico e espiritual de outros no sábado, revelavam seu entendimento e experiência defeituosos do Santo Dia de Deus. Em vez de celebrar a bondade de Deus no dia de sábado por envolver-se num ministério salvador, empenhavam-se em esforços destrutivos, buscando defeitos e imaginando meios de matar a Cristo (Mar. 3:2-6).

O novo entendimento cristão do sábado como um tempo de serviço ativo e amorável a almas carentes, antes que de passiva ociosidade, representa uma ruptura radical da observância judaica do sábado. Isso é atestado também num documento antigo conhecido como Epístola a Diogneto (datado entre 130-200 AD), onde os judeus são acusados de “falar falsamente de Deus” em vista de alegarem que “Ele [Deus] nos proibia [os cristãos] de fazer o que é bom no dia de sábado—como não é isso ímpio?” Esse entendimento positivo da observância do sábado tem raízes no cumprimento por Cristo da tipologia redentora do sábado, que é expressa nos evangelhos.
 

Conclusão

O estudo precedente da relação entre o sábado e o Salvador mostra que tanto no Velho quanto no Novo Testamento o sábado está intimamente ligado à missão redentora de Cristo. No Velho Testamento, vários temas—tais como a paz e prosperidade sabáticas, o descanso do sábado, a libertação do sábado, e a estrutura sabática de tempo—indicam que, no período veterotestamentário, os sábados semanal e anual, serviam para galvanizar e nutrir a esperança messiânica.

No Novo Testamento, a vinda de Cristo é vista como a concretização da tipologia redentora do sábado. Mediante Sua missão redentora, Cristo oferece aos crentes a esperada “libertação” sabática (Luc. 4:18) e o “descanso” (Mat. 11:28). À luz da cruz, o sábado memorializa não só a obra criativa de Deus como também Suas realizações redentoras. Assim, “resta ainda um repouso sabático para o povo de Deus”(Heb. 4:9) não só como uma cessação física de trabalho para comemorar a perfeita criação de Deus, mas também uma entrada espiritual no descanso de Deus (Heb 4:10) tornada possível mediante a completa redenção de Cristo. O ato físico de descansar torna-se o meio mediante o qual os crentes experimentam o repouso espiritual. Cessamos de nosso trabalho diário no sábado para permitir  que Deus opere em nós mais livre e plenamente.

No Novo Testamento, o sábado não é anulado mas esclarecido e ampliado pelo ensino e ministério salvador de Cristo. Considerando o descanso e redenção tipificados pelo sábado no Velho Testamento como cumprido na missão redentora de Cristo, os crentes neotestamentários consideravam a observância do sábado como um dia para celebrar e experimentar o repouso-redenção messiânicos revelando “misericórdia” e fazendo “o bem” aos necessitados. Isso significa que para os crentes hoje, o sábado é o dia para celebrar não só a criação de Deus por repousar, como também a redenção de Cristo por atuar misericordiosamente em favor de outros.

Numa época em que forças do caos e da desordem crescentemente parecem prevalecer—quando a injustiça, a cobiça, a violência, a corrupção, o crime, o sofrimento e a morte parecem dominar—Deus mediante o descanso sabático reassegura a Seu povo que essas forças destrutivas não triunfarão porque “resta um descanso sabático para o povo de Deus” (Heb. 4:9). Mediante o sábado, Deus nos reassegura que Ele está no controle deste mundo, dirigindo os propósitos até o fim. Deus nos diz que Ele superou o caos quando da criação, que libertou o Seu povo das cadeias do pecado e da morte mediante a missão salvadora de Seu Filho, e que “trabalha até agora” (João 5 :17) a fim de estabelecer um Novo Mundo onde “desde um sábado até o outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor” (Isa. 66:23). Nesse sábado derradeiro, como expressou eloqüentemente Agostinho, “descansaremos e veremos, veremos e amaremos, amaremos e louvaremos”.
 

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