SOFISMA OU FALÁCIA?
Devolvendo a primeira pergunta

Azenilto G. Brito
Tendo sobrado um tempinho extra resolvi dar mais uma lida no longo material do Presbítero Paulo Cristiano da Silva, do CACP, e embora já tenha lhe dado uma rápida apreciação do material encaminhando-lhe ponderações postadas no “Fórum Evangelho, a Doutrina de Jesus” que se aplicam ao seu estudo, separei mais alguns tópicos para análise.

Primeiramente há algumas coisas bem lamentáveis que fogem ao cerne dos temas em debate e não deviam aparecer em estudos de gente séria, com espírito de verdadeira erudição, como ataques de caráter pessoal, insinuações malévolas explorando até erros de digitação, num espírito que revela um sentimento de vingança e carnalidade, desejo de espezinhar o adversário numa demonstração de revanchismo totalmente alheio aos sentimentos de um verdadeiro cristão.

 Quando apresentamos o nosso estudo “Decálogo: Ruptura ou Continuidade?” não tratamos ninguém nessa base, mas já na primeira manifestação de resposta, o Presbítero, na primeira linha, já me destratava. . . . É verdade, admito que também me vali de expressões deploráveis atingindo sua pessoa, o que deve ter-lhe ferido o orgulho próprio (e muito profundamente, pelo visto), mas sobre isso já me desculpei, então ao menos uma resposta breve reconhecendo a sua parcela de culpa nesse rebaixamento de nível desses estudos seria apropriada.

Como também ficar explorando coisas infundadas que não têm peso nenhum num debate de idéias, como acusações de grupelhos que abandonaram a igreja. Acusações sempre existiram, existem e existirão contra todos aqueles dos quais pessoas e grupos se afastam. Demas, que abandonou a fé cristã da era apostólica para abraçar o mundo, teria certamente muitas queixas e acusações contra os apóstolos de Cristo. Judas, igualmente, poderia explorar as fraquezas dos discípulos com os quais conviveu durante aqueles três anos e meio, e certamente contaria com muito material para explorar--discípulos querendo ser maiores uns do que os outros, um deles querendo atrair fogo do céu para destruir os oponentes, atitudes de intolerância para com as criancinhas, etc. Deveríamos tomar por base os possíveis depoimentos deles para avaliar o cristianismo?

Outros pontos levantados pelo Presb. da Silva são inteiramente alheios ao assunto que motivou essa troca de “análises teológicas”, pois o que gerou a discussão foi o meu material submetido ao público cristão, “Decálogo: Ruptura ou Continuidade?” Sobre esta temática é que devia ele concentrar-se, e não ficar levantando fatos históricos sobre a Igreja Adventista carregados de distorções e falsas alegações. Sem dúvida esta é uma tática despistadora para causar um grande esforço de defesa da versão correta dos fatos, armadilha em que não cairei absolutamente. O tema a ser levantado é se o Decálogo prossegue como norma de conduta cristã ou não, incluindo o mandamento do sábado. Este devia ser o único enfoque destes estudos.

Ademais, isto soa como um exercício em hipocrisia, pois muitos pioneiros denominacionais tiveram sérios problemas, como Calvino, que participou da condenação à morte do cientista famoso Miguel de Serveto porque este não renunciava a suas posições unitarianas, e Lutero, que demonstrou ódio aos judeus escrevendo um livreto que na capa já falava em termos de “essa corja de judeus. . .” Dizem que tal material até serviu de subsídio para Hitler em suas campanhas anti-semitas. E que dizer dos pais peregrinos protestantes americanos, fugindo da intolerância na Inglaterra, mas tornando-se também intolerantes e perseguidores contra os que deles discordassem? Foi o que levou Roger Williams a fundar a colônia de Rhode Island onde prevalecia o princípio de liberdade religiosa.

E o que falar das manifestações  dos primeiros tempos do Holiness Movement (o movimento de santidade, que antecedeu o pentecostalismo nos EUA). Muito fanatismo e atitudes infantis caracterizavam aqueles cristãos, e como alguém descreve uma daquelas reuniões, “raras vezes se sentam em qualquer posição que não seja sobre o piso desnudo. . . . na reunião a que ele assistiu, uma mulher se pôs sobre as mãos e pés, e engatinhou por todo o piso como uma criança. Um homem, na mesma posição, a seguiu, chocando-se cabeça com cabeça várias vezes. Outro homem se estendeu de costas sobre a cama em toda sua extensão, e três mulheres o cruzaram com seus corpos”. Foram tempos de imaturidade total que posteriormente entrou num ritmo mais “normal”, ainda que ocorrendo de quando em vez episódios que preocupam os próprios pentecostais mais “bem comportados”, como uma igreja canadense que se especializou no “riso santo”. A TV mostrou toda a congregação composta de gente a rir, rir e rir sem parar, até que alguns tiveram que ser conduzidos a um hospital para tratamento neurológico. . .  Tudo em nome de Deus e da maior espiritualidade.

E enquanto a tão difamada e incompreendida Sra. Ellen White escrevia corajosamente textos abolicionistas , líderes de diferentes denominações protestantes nos EUA batiam-se pela manutenção dos escravos, provocando mesmo uma guerra que quase divide o país irreparavelmente. Também nosso opositor ignora que um inspirador livrinho da Sra. E. G. White sobre o plano de salvação e justificação, chamado Steps to Christ [em português traduzido como O Caminho a Cristo], teve suas primeiras edições impressas e promovidas pela editora evangélica Revell.

A verdade é que todas as igrejas enfrentam dissidências, e esses que se afastam certamente têm suas mágoas, suas falsas alegações, seus julgamentos injustos. A isso soma-se ainda a menção de um caso isolado de um advogado adventista que não seria fiel à fé que professa, daí partindo para um julgamento generalizado de toda uma comunidade de fé, ao arrepio de Mateus 7:1, como se eu não pudesse também citar inúmeras experiências de pessoas das mais diferentes igrejas evangélicas que conheci e que agem hipocritamente, e falar sobre os muitos que me decepcionaram, inclusive causando-me prejuízos financeiros. Vamos agora ficar disputando quem tem mais hipócritas no seu seio? O que isso prova, senhor Presbítero? Esse tipo de argumentação pode ser interpretada como uma tentativa de compensar a falta de argumentos realmente sólidos.

Igualmente, ao falar ele de um adventista que lhe deu estudos sem falar de salvação em Cristo o que deseja provar? Que não faz parte do repertório de ensinos adventistas estudos sobre o tema da salvação em Cristo? Esta é a coisa mais fácil de provar não ser verdade. Se o Presbítero for tratar de doutrinas com um católico quanto tempo vai gastar provando para ele a base bíblica da doutrina da Trindade? Sendo que há plena concordância de idéias sobre isso, dispensar-se-á este tempo para tratar das divergências, como é natural. Então, é apenas isso que deve ter acontecido com esse adventista. Ele já sabia que, como evangélico, não precisaria ser instruído sobre os temas da justificação pela fé, será que precisaria? Tão simples e lógico de entender, mas o objetivo certamente é valer-se de todo pretexto e ocasião para difamar, denegrir, lançar uma sombra sobre a Igreja contra a qual nutre o preconceito doentio já conhecido, com todas as distorções típicas que se vê nesse próprio último texto de sua lavra.

Por outro lado, uma acusação baseada em mero preconceito e desconhecimento dos fatos é repetida: a de que os adventistas não observam realmente o 4o. mandamento por descansarem no domingo junto com o sábado. Isso é uma aleivosia e chega a ser uma alegação até infantil. Será que ele imagina que o “seis dias trabalharás” só se aplica a um emprego? Não haveria no domingo outras atividades várias dentro de uma casa, assuntos comerciais, questões de família que não se resolveriam num dia dedicado a Deus, consertos domésticos, compras e vendas. . .  O domingo é como um feriado, em que não se vai ao emprego, podendo-se ter um tempo livre maior para cuidar dos interesses pessoais, recreações, etc. Então, não há conflito nenhum com o mandamento. Só a má vontade, o desejo de realmente apenas malhar o oponente, uma verdadeira baixaria, diga-se de passagem, explica essas alegações caluniosas, muito, mas muito alheias à atitude de pessoas realmente eruditas que sabem elaborar estudos equilibrados baseados em fatos concretos. Dentro desse seu raciocínio o mandamento só poderia aplicar-se a pessoas que contam com um emprego regular. . .

Também as alegações maldosas sobre ilustrações artísticas que os adventistas utilizam em alguns de seus livros, insinuando que seria o mesmo que “adorar imagens”, sinceramente é de um mau gosto sem tamanho. É querer “caçar chifre em cabeça de cavalo”, demonstração evidente do preconceito e intenção malévola de desqualificar por todos os meios aqueles aos quais se opõe, num vale-tudo retórico acusatório que certamente só reflete falta de meios para demonstrar biblicamente suas teses semi-antinomistas. Nem merece que se perca tempo refutando, tão sem fundamento e vaga é a acusação.

Mas, deixemos de lado essas demonstrações de imaturidade e vejamos algumas coisas interessantes. Vou tratar o Presb. da Silva sem sentimento de vendetta, mas com severidade na avaliação dos fatos e contundente de vez em quando (até irônico) diante de contradições patentes que denunciarei, na expectativa de que ele perceba por si mesmo os graves erros e se disponha a corrigi-los. Parto do pressuposto de que ele é uma pessoa sincera em sua compreensão da Bíblia, porém sinceramente enganada.

Primeiramente, eu dirigi três perguntas bem objetivas e claras. Será que ele realmente as respondeu? A primeira diz respeito à evidente contradição da argumentação que apresentou em seu primeiro estudo com o que ensinam e ensinaram os grandes próceres da fé cristã evangélica, refletindo o consenso de crença de seus irmãos, e assim formulando as várias Confissões de Fé. Além disso, o consenso das claras afirmativas de nobres cristãos do passado, reformadores protestantes, além de grandes nomes de autores e pesquisadores bíblicos do presente, evangelistas e autores de gabarito, contando-se entre estes: Wesley, Calvino, Lutero, Moody, Spurgeon, Billy Graham, James Kennedy, John Davis, Carlo Johansson, O. S. Boyer, Amaral Fanini, Dinelcir S. Lima e muitos outros.

Todos esses documentos e autores afirmam sem sombra de dúvida:

a) Que a lei dos Dez Mandamentos é a síntese da lei moral universal divina e o Decálogo prossegue em vigor como norma de conduta para o cristão.

b) Que a lei como um todo caracteriza-se por conter preceitos morais, cerimoniais, civis, etc., tendo sido abolidos os mandamentos de caráter prefigurativo, cerimonial, permanecendo intactos os mandamentos morais, do Decálogo.

c) Que o princípio do 4o. mandamento, que propicia um dia completo dedicado a Deus, é preceito de caráter moral, tendo-se originado na fundação do mundo, e deve ser observado desviando-se de atividades recreativas ou seculares em todas as suas 24 horas.

Falando dessas Confissões de Fé, gostaria de referir-me às postagens que fiz sobre as mesmas no Fórum Evangelho, mas que, tão logo saímos do mesmo, foram inteiramente eliminadas. É muito suspeita a atitude de seus moderadores em  eliminar as referências ao pensamento de séculos de batistas, metodistas, presbiterianos, luteranos. A retirada das matérias com pensamentos nitidamente adventistas até se compreende, mas o que querem ocultar da comunidade evangélica quanto ao pensamento oficial das diferentes igrejas no que tange a seu entendimento sobre o Decálogo e do princípio do dia de repouso? Bem que houve um participante que reconhecia que 90% da comunidade evangélica desconhece o teor de tais documentos históricos de suas igrejas.

Tentando rebater nossas postagens, um participante chamado Fernando Alves disponibilizou também mais algumas declarações confessionais. O interessante é que embora o Fernando Alves tenha feito sua postagem para contradizer a minha, a verdade é que em ambas fica por demais claro que a posição oficial das diferentes igrejas evangélicas concorda com o pensamento dos cristãos observadores do sábado bíblico quanto à questão da vigência dos Dez Mandamentos e do princípio de um dia de repouso de 24 horas dedicadas a Deus. Portanto, os que ensinam a abolição do Decálogo ou a extinção do princípio de um dia de repouso cristão (ficando a coisa meio voluntária, uma observância dominical vagamente relacionada com a Ressurreição sem relação praticamente nenhuma com a norma do sábado) estão claramente em choque com esses documentos de séculos de existência, que são normativos para as igrejas e expressão do consenso de suas convicções doutrinais.

Outro participante alega que tais antigos princípios podem ser “ignorados” pelos modernos cristãos, embora sejam ainda documentos oficiais das diferentes igrejas e plenamente vigentes. Contudo, seria estranho imaginar que os fundadores denominacionais assim pensassem quanto às normas que tão dedicadamente, após estudo e oração, estabeleceram como o consenso do pensamento de suas igrejas. Será que imaginariam ou intencionaram que no futuro tais princípios fossem tão levianamente tratados, cada um ignorando os itens que melhor lhe convier? Pensem seriamente sobre isso.

Nos debates até aqui havidos com o vice-diretor do CACP percebe-se que suas posições contrariam inteiramente o que acima expusemos como síntese dessas Confissões de Fé. Em suma, ensina ele:

a) O Decálogo é uma norma inadequada para nossa época, condicionado que era aos tempos em que foi formulado, tendo até significativas semelhanças com o Código de Hamurabi. Vigorou apenas para os judeus como uma espécie de “rascunho” da lei divina superior do Novo Testamento que se inspira em princípios de amor fraternal, sendo agora a “lei de Cristo”, diversa da "lei de Deus” veterotestamentária, conquanto contendo elementos da “lei natural” eterna de Deus.

b) Não há divisão da lei “una” em moral, cerimonial, civil, conquanto haja realmente preceitos de caráter moral, cerimonial, civil (!). Os Dez Mandamentos não têm nada a ver com a Lei de Cristo nem com os princípios de “amar a Deus sobre todas as coisas” e “ao próximo como a ti mesmo”, pois tais dizeres nem apareciam nas tábuas da lei.

c) A lei de Cristo tem todos os mandamentos do Decálogo, menos o 4o., mas esses mandamentos são isentos da “roupagem judaica, cúltica” e há outros mais espalhados por todo o Novo Testamento inteiramente independentes do Decálogo (até no Velho Testamento havia, como a lei contra o homossexualismo, que não constava das “tábuas”).

d) O sábado não deriva da Criação, e os dias da criação nem eram de 24 horas. Quando Jesus disse que “o sábado foi feito por causa do homem”, esse “homem” era o judeu somente. O domingo não é nenhum “sábado cristão” mas um dia que surgiu entre os apóstolos para comemorar a Ressurreição e não precisa ser guardado com o mesmo rigor do sábado.

Assim, percebe-se claramente que tais noções não condizem em absoluto com o pensamento oficial e consensual das diferentes igrejas e de seus mais doutos representantes do passado e do presente ao expressarem as mesmas convicções dos pioneiros denominacionais no que estabeleceram os princípios sobre a vigência do Decálogo e, dentro dele, do 4o. mandamento. Logo, conquanto esse apologeta busque passar uma imagem de ser plenamente ortodoxo e falar pelos evangélicos, defende idéias totalmente opostas às do consenso das Confissões de Fé sobre o tema da lei e do sábado.

A explicação dada é que tais Confissões de Fé apenas expressariam um período formativo das igrejas e não estariam mais em harmonia com a “moderna linguagem teológica”. Só que esses nobres cristãos mais modernos que mencionamos (como Billy Graham, Amaral Fanini, O. S. Boyer, Dinelcir S. Lima) precisam ser notificados disso, pois parecem alheios a tal “moderna linguagem teológica” ao abordarem o tema da lei divina para nosso tempo, pois o fazem de modo compatível com as velhas Confissões de Fé e a antiga linguagem bíblica.  A verdade é que por mais que se tenha esforçado, o Presb. da Silva não conseguiu demonstrar que o seu pensamento seja coerente com esses princípios, e ainda pretende falar em nome de todos os evangélicos (não mostrou nenhuma procuração validando isso) ao dizer:

Para os evangélicos dividir ou não tal lei não acarreta em prejuízo algum, não erguemos em cima disto nenhum castelo doutrinário. É apenas uma explicação mais nítida entre o que realmente permanece de princípio moral (lei natural) e o que é apenas parte do elemento efêmero da lei, já não podemos dizer o mesmo dos adventistas. Essa divisão para eles é de grande valia, pois precisam dela para manter de pé a guarda do sábado. Sim, os adventistas usam de sofismas nesta divisão (ver o suposto contraste entre as duas leis feitas por eles), pois tal coisa não resiste a um exame bíblico. Dizer que o Decálogo permanece intacto sendo transferido deste modo para o NT, não é a opinião das igrejas históricas

O exame do conjunto de declarações que tenho repetidamente ressaltado não só confirma que há reconhecimento de tal divisão, como tais expositores precisam dela para manter de pé a guarda do domingo! Assim, percebe-se que o Presb. da Silva não está muito ao par do que “os evangélicos” (em nome dos quais pretende falar) de fato têm como herança doutrinária. Aliás, a ignorância desses documentos e informações de seus próceres cristãos é notória entre os evangélicos, e a divulgação de tais dados causou impacto no “Fórum Evangelho, a Doutrina de Jesus”. Um dos participantes disse mesmo que 90% dos evangélicos desconhecem essas declarações, o que é lamentável e talvez explique a tremenda confusão que prevalece nesse meio quanto ao tema da lei e da graça, da justificação e santificação, do papel da fé e das obras na carreira cristã. Em resultado disso tenho encontrado evangélicos crendo e ensinando que no Velho Testamento as pessoas se salvavam pela lei, sendo que desde Cristo para cá a salvação é pela graça, o que o próprio Presb. da Silva parece pensar, segundo veremos mais adiante.

Ou entendem os evangélicos o tema da justificação/santificação segundo a teologia católica. Temos um teste que já submetemos a muita gente das diferentes corporações cristãs, e o resultado é preocupante: a maioria revela-se ideologicamente mais católica do que protestante! Também, pudera, os seus instrutores religiosos não lhes tornam claro essas questões do que ensinam seus próprio credos históricos. . .

Um fato que precisa de pronto ser tornado bem claro e definitivamente estabelecido aqui é: os adventistas não criaram nenhuma nova teologia sobre a lei e o sábado, mas repetem EXATAMENTE o que aprenderam de seus antecessores na área teológica. Afinal os adventistas originalmente procederam das igrejas que tinham tais Confissões de Fé, onde essas noções são expostas! Então, não existe nenhum “castelo doutrinário” construído sobre o ensino da divisão das leis reconhecida por todos esses estudiosos da Palavra de Deus ao longo da história. Ao alegar isso o nosso antagonista está querendo construir um mostrengo, um etalho de sua própria feitura, para pôr-se a destruí-lo e gabar-se do grande feito.

Os Credos e Confissões referidos, bem como os grandes mestres religiosos que reproduzimos parcialmente ao final, simplesmente dizem  que os princípios da ‘lei natural’ em seu caráter moral, são PERMANENTES e abrangem a norma do sábado, ou dia de repouso, que procede “do princípio do mundo”.

E mais uma vez deparamos a velha tática do “argumento do silêncio”: o Presb. da Silva tiunfantemente nos desafia a provar que Adão e Eva conheciam os Dez Mandamentos, que a eles não teriam sido expostos. Bem, Paulo diz que “onde não há lei, também não há transgressão” (Rom. 4:15),  pelo que se deduz que Adão poderia até assassinar Eva e não seria isso uma transgressão. Ou Caim, que matou Abel, não tinha por que ser condenado. Ora, dirá ele, mas isso seria ir contra a “lei natural” registrada em suas consciências. Tudo bem, mas essa “lei natural”, no frigir dos ovos, reproduz TODOS os mandamentos da lei divina no que se refere às relações Criador-criatura/criatura-criatura, pois ela deriva da lei eterna de Deus que procede dos céus. Lúcifer foi o primeiro a transgredir tal lei. Ele cobiçou o trono de Deus, não demonstrou amor ao seu próximo pois levou à rebelião um terço dos anjos. . . Então, sendo que “pecado é transgressão da lei” (1 João 3:4), essa lei procede de ANTES da própria criação do homem. Claro que ela não era então codificada em 10 mandamentos, que significa a expressão dessa “lei de Deus” aplicável ao homem, sobre o planeta no qual e para o qual foi formado.

Isso tudo, logicamente, haverá de ser admitido pelo Presb. da Silva e seus companheiros “apologistas cristãos” e quem quer que acate sua teologia semi-antinomista. Só o sábado é que não pode ser encaixado de jeito nenhum, pois toda essa argumentação, que sobe e desce, dá volteios e cambalhotas, só visa a justificar a negligência para com esse mandamento, nada mais, nada menos. Todos os princípios morais da “lei natural” podem acolher nove mandamentos do Decálogo, menos o do sábado. Que conceito mais discriminatório!

Contudo, o argumento do silêncio cai por terra quando lembramos que se a Bíblia não declara que Adão guardava o sábado, TAMBÉM NÃO DIZ QUE ELE TRABALHAVA NO SÁBADO. Ora, Deus designou a Adão a tarefa de cultivar a terra e cuidar do jardim (Gên. 2:15). Então, Sr. Presbítero, revertamos o quadro--por favor me apresente a prova bíblica de que Adão cultivava a terra e cuidava do jardim no 7o. dia da semana. . .

Afinal, Deus é absolutamente santo, e se Ele descansou no sétimo dia, o abençoou e santificou (Gên. 2:2, 3) não o fez para Si, e sim visando ao bem-estar físico e espiritual do homem, como é ressaltado no texto do próprio Decálogo (Êxo. 20:8-11). Deus não precisa santificar nada para Si mesmo, então a santificação (que significa separação para uso sagrado) aplica-se ao homem, e como isso foi estabelecido ANTES do ingresso do pecado, como entendem as Confissões de Fé e muitos dos autores cristãos de destaque do passado e do presente, trata-se de um mandamento moral. Aliás, a própria semana em sua divisão hebdomadária não se explica por nada do mundo natural, sendo algo de origem religiosa. Vejamos o que Martinho Lutero e outro autor mais recente (batista) têm a dizer sobre isso:

Disse Lutero a respeito de Êxodo 16:4, 22-30:

“Destarte podes ver que o sábado existia antes que viesse a lei de Moisés, e tem existido desde o princípio do mundo. Especialmente têm os devotos, que preservaram a fé verdadeira, se reunido e apelado a Deus nesse dia”.--Traduzido de Auslegung des Alten Testament (Comentário Sobre o Velho Testamento), em Sämmtliche Schriften (Escritos Coletados), editado por J. G. Walch.

“Como nos é apresentado nas Escrituras, o sábado não foi invenção de qualquer fundador religioso. De princípio não era parte de qualquer sistema religioso, mas uma instituição inteiramente independente. Muito definidamente é apresentado no Gênesis como exatamente a primeira instituição, inaugurada pelo próprio Criador. Era puramente religiosa, inteiramente moral, integralmente espiritual. Não continha cerimônias prescritas, nem significação sacramental. Não requeria qualquer sacerdote, nem liturgia. Era para o homem como criatura, mordomo e amigo de Deus”.--W. O. Carver, Sabbath Observance, p. 41, produzido pela Sunday School Board of the Southern Baptist Convention [Junta da Escola Dominical da Convenção Batista do Sul].

“A semana, com o seu sábado, é um arranjo artificial. A razão para ele é achada somente nas Escrituras do Velho Testamento. Aqui é sempre associado com a revelação da parte de Deus. . . .  Ali está sempre associado com a revelação de Deus. . . Idéias e práticas religiosas entre todos os povos, em variados graus, têm sido associadas com todas as divisões de tempo, que os homens adotaram. Mas em relação somente com a semana é a religião a explicação óbvia para sua origem, e a semana somente é uniformemente atribuída ao mandamento de Deus. A semana existe por causa do sábado. É histórica e cientificamente verdade que o sábado foi feito por Deus”. -- Idem, págs. 34 e 35.--Destaque acrescentado.

Agora, por falar em 7o. dia, o Presb. da Silva a certa altura duvida até que os dias da Criação fossem de 24 horas. Será que está acatando as teorias evolucionistas, a exemplo da Igreja Católica ultimamente? Ou aderiu à tese das testemunhas de Jeová que ensinam coisas nessa linha? É incrível o que alguns evangélicos arranjam para se livrarem do mandamento do sábado! Precisam de todo jeito dar um sumiço a esse princípio que os condena, pois a Bíblia ordena, “lembra-te do dia do sábado para o santificar” e passam por cima. Aliás, nem mesmo levam a sério a instituição dominical, tratando o dia vagamente como o da Ressurreição, quando vão à igreja umas horinhas, depois vale tudo, ao arrepio do que estipulam os Credos da Cristandade Protestante em seus vários tópicos sobre as exigências do dia de repouso, no que as aplicam ao domingo.

Mas, voltando ao “argumento do silêncio”, ele desaba mais uma vez fragorosamente pela autoridade do próprio Criador, Jesus Cristo (Heb. 1:2). E esse Criador divino, que se declarou “Senhor do sábado” (Mat. 12:8) disse que “o sábado foi feito por causa do homem” (Marcos 2:27). Então, minha perguntinha “antipática” cabe muito bem aqui, goste ele ou não, e multiplicada--Adão era homem ou era bicho? Abraão era homem ou era bicho? Noé era homem ou era bicho? José do Egito, era homem ou era bicho?

Jesus referiu-se ao casamento original, remontando à Criação também em Marcos 10:6, Mat. 19:4 e 5. Será que Ele estava tratando do princípio do matrimônio só para os judeus? Aliás, o debate no caso dizia respeito à lei dos judeus sobre o divórcio (lei civil), contudo Ele ilustra o seu ponto valendo-se de um princípio universal. A palavra “homem” em Mateus 19:5 faz referência a Gênesis 5:2 onde é dito que Deus chamou aos seres que criara “homem” que é a mesma linguagem de Marcos 2:27, o homem universal, anthropós (“Por esta causa deixará o homem [anthropós] pai e mãe e se unirá a sua mulher. . .)”. Isso é reconhecido pelo consenso das Confissões de Fé e muitos dos eruditos cristãos, que declaram que o princípio do dia de repouso deriva “da criação do mundo”. . .

Aliás, apenas adicionando mais um detalhe que põe uma “pá de cal” sobre as interpretações do Presbítero, lembremo-nos que Jesus declarou em Mateus 23:15:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós”.O dicionário bíblico que vem anexo à versão King James da Bíblia, da (The World Publishing Co.) assim define o que vem a ser um "prosélito”:

“Uma pessoa que não era originalmente um crente na religião dos israelitas, mas que, seja de modo pleno ou parcial, uniu-se à vida religiosa da nação: um prosélito pode ter sido tanto um residente não-judeu de Israel ou um estrangeiro de outra raça. Havia provavelmente duas classes de conversos: 1) os que viviam entre os israelitas, aceitavam a maior parte de seus costumes, observavam o sábado, renunciavam à idolatria, mas recusavam observar tais práticas como a circuncisão e, portanto, não se identificavam completamente com a nação e religião judaicas, e 2) os que adotavam todas as leis mosaicas, inclusive a circuncisão, e eram adotados como verdadeiros israelitas: Mat. 23:15; Atos 2:10; 6:5; 13:43”.

Se, ademais, nos lembrarmos de Isaías 56:3-8, onde os “filhos dos estrangeiros” são convidados a se integrarem à aliança de Deus com Israel, o assunto fica liqüidado. Os judeus que ouviram Jesus referir-se ao sábado como estabelecido “por causa do homem-anthropós” em Marcos 2:27 não iriam enciumar-se e revoltar-se por pensarem que o sábado era só coisa para judeus. Eles perceberam o sentido do “homem universal” sem problemas, pois dentre essa humanidade haveria os possíveis “prosélitos” a serem conquistados. Nada mais claro.

Com isso cai por terra várias das falsas premissas da longa resposta do Presb. da Silva.

Sobre nossa 2a. pergunta, quando demonstramos a clara contradição dele em perceber também distinções na lei como tendo preceitos morais, cerimoniais, civis, etc., ele sai-se com esta tentativa de explicação:

O que realmente eu disse foi que a divisão da lei em duas não era encontrada na Bíblia. Sim, devo admitir que por uma questão de conveniência muitos fizeram esta divisão, mas nós não deveríamos aplicar estas distinções peculiares de nossa moderna linguagem teológica nos textos bíblicos, onde os escritores não tiveram nenhuma intenção em fazer tais distinções. Ainda mais com o fito de criar uma doutrina em cima disto!
Já vimos que essa conversa de “moderna linguagem teológica” é pura invenção. Os modernos autores, tanto quanto os antigos, percebiam essa distinção, e os adventistas não ensinam nada diferente do que eles expõem, apenas realçam mais isto do que outros o fazem, elaborando tabelas para deixar isso mais claro, como Christianini faz, por razões óbvias--a crassa ignorância que prevalece no meio evangélico desses temas e do que ensinaram suas Confissões de Fé e seus grandes eruditos (prova disso é o próprio livro do Ricardo Pitrowski, O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus, inapelavelmente refutado por Christianini valendo-se do próprio material publicado pela sua Igreja Batista). Aliás, não adianta citar Neemias 8 para provar que a lei é “una”, sendo todas de Deus. Isso não faz diferença nenhuma, pois não precisamos de um capítulo inteiro da Bíblia para entender o que Paulo esclarece tão bem em um só versículo--1 Coríntios 7:19--uma passagem que não me parece que ele mencionou (os semi-antinomistas não gostam nada dela também):  “A circuncisão em si não é nada e a incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar as ordenanças [mandamentos, pelo original grego] de Deus”.

Nesta passagem Paulo é muito claro de que há mandamentos que já foram válidos mas que não mais importam, e os que “valem” ainda para os cristãos, numa evidente “divisão da lei” que Paulo estabelece! Agora, é verdade, ele não usa termos técnicos, como o nosso oponente quer exigir, “moral”, “cerimonial”, “civil”, etc. Só que, então, ele que se prepare, pois um testemunha de Jeová pode exigir dele também termos técnicos explícitos para provar-lhe a Trindade, personalidade do Espírito Santo, etc.

Deve ser reiteirado: Não existe nenhuma “doutrina” criada em cima dessa divisão das leis coisíssima nenhuma. Só mesmo a intenção de passar a imagem mais negativa possível daqueles a quem se opõe é que justifica essa sua “saída pela tangente”, sua tentativa mal-sucedida de querer atribuir tais conceitos a alguma “antiga linguagem teológica” agora superada com uma “nova linguagem” adotada pelos evangélicos (não se sabe a partir de quando. . .). Não creio que Antônio Alves Mesquita, ou John Davis, ou Dinelcir de S. Lima e tantos outros teólogos que usam exatamente essa “antiga linguagem” seriam tão antigos assim. Ademais, é tão antiga quanto a própria Bíblia. .

Outra arenga tola é a afirmação de eu ter dito “deploravelmente” que “A lei de Deus e a lei de Cristo, e de Moisés, e da graça, e da fé, e do espírito de vida são uma só e a mesma.” Basta ler 1 e 2 João para constatar como ele fala da lei de Deus e de Cristo como se fossem uma só e a mesma, sem distinção, ao longo de ambas as epístolas (ver, por exemplo, 1 João 2:7; 3:2-4; 21-24; 4: 7-11, 19-21; 5:1-3 e 2 João vs. 5 e 6). No Apocalipse, o povo remanescente de Deus é caracterizado como os que “guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus” (Apo. 12:17 e 14:12). João descreve uma visão que teve do Templo de Deus, dentro do qual contemplou “a arca da aliança” (Apo. 11:19). Aqueles que conhecem sua Bíblia sabem que nessa arca foram guardados os Dez Mandamentos (Deut. 10:1-5). Por que a João foi mostrada essa “arca da aliança” num contexto claramente escatológico? É que ela representa o trono de Deus que se assenta sobre a justiça (a lei) e a misericórdia (o propiciatório).  Dizer que isso é para os judeus durante o milênio é pura especulação e baseia-se em pressupostos transportados para o texto bíblico. A passagem nada fala nem de judeus, nem de milênio, mesmo porque o texto refere-se ao Santuário de Deus no céu, não na terra.

 No 5o. dilema de nosso artigo “10 Dilemas dos Que Negam a Validade dos 10 Mandamentos Como Norma Cristã” apresentamos a situação incrível de “restauração” do 5o. mandamento por Paulo, escrevendo aos efésios e prossegue sendo motivo da mesma ponderação, pois o próprio Presbítero alega que “os outros nove mandamentos são novamente reiterados mas descaracterizados da roupagem original (cultural, circunstancial) da qual foi dada a Israel”.

Então, até serem “reiterados” na sua repetição aos efésios a situação prossegue incerta, pois se abolir significa “Revogar, anular, extinguir, suprimir”, segundo o companheiro de CACP do presbítero, então acabou, findou-se. Ou finda-se mas prossegue no mesmo ponto de antes? Como é essa abolição, que só atinge 10% do código abolido? Claro que a argumentação sofismática toda de “roupagem original” serve para “desvestir” só um dos mandamentos--o do sábado. Para nenhum outro se aplica tal remoção de “roupagem”. Eles prosseguem com as mesmas vestes anteriores, sem mudança alguma pois isso se revela desnecessário. Só o sábado é que passa por esse strip-tease “cúltico”, desvencilhando-se das “roupas judaicas”, convertendo-se, como num passe de mágica, num mandamento de observância dominical que é invisível nas Escrituras. Já que se está tratando de roupas, cabe aqui um comentário irônico--pura fantasia!

Não há roupagem nenhuma quando Paulo reitera o mandamento de obediência aos pais em Efésios 6:1-3, apenas ligeira adaptação da promessa. Também, ao dizer ele que “o mandamento do descanso é mais bem observado no NT no domingo, no dia do Senhor, dia de sua ressurreição, dia que ele saiu vitorioso da morte. Pois no sábado, ele ainda estava no sepulcro, os discípulos tristes. Mas o domingo é o dia de alegria, de vitória do Salmo 118:24. Este é o dia que o Senhor fez, um novo dia para a Nova Aliança. Aleluia!!!”, o que falta nessa retórica toda é apresentar as provas escriturísticas disso.

Outro ponto em que ele destoa inteiramente do pensamento desses mestres e documentos citados repetidamente se acha nesta sua declaração:

Estes dois grandes mandamentos [amar a Deus e amar ao próximo] estavam “na lei”. . . Mas nenhum deles é achado no decálogo. . . . Os princípios desta lei “natural” como bem denomina nosso amigo sabatista é que foram restaurados no NT e não o decálogo do pacto como se encontra debaixo dos moldes judaicos. Tanto é, que muitos mandamentos não se encontram em sua forma completa e nem na mesma ordem no NT.

Interessante este detalhe de que os princípios referidos (de amor) não estavam no Decálogo. Será que não? Então amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo não têm nada a ver com o Decálogo? É isso o que Jesus e Paulo deixaram implícito ao repetirem os mandamentos do Decálogo exatamente no contexto desses dois princípios?

O Presb. da Silva fica preocupado com picuinhas de estar escrito aqui ou acolá, nas tábuas ou no livro, porque perde de vista a floresta por causa das árvoresNão entende o que os grandes próceres e documentos cristãos esclareceram, que o Decálogo é a extensão do PRINCÍPIO do amor, pois, como diz o Pr. Dinelcir de Souza Lima (batista) em seu livreto Os Dez Mandamentos:

Jesus, sendo o próprio Deus, não veio anular, tornar sem efeito, a lei e os profetas. Devemos nos lembrar que Jesus afirmou ser um só com o Pai (João 14:9) e que, portanto, os mandamentos também tinham tudo a ver com a sua pessoa. Lembremo-nos que os quatro primeiros mandamentos são relativos ao comportamento do ser humano para com Deus e raciocinemos com lógica: Como poderia Jesus, sendo o próprio Deus, anular mandamentos que eram relativos à adoração perfeita a ele próprio? Ele não anulou, de maneira alguma, a Lei. O que o Senhor fez, foi mostrar aos homens a necessidade de que a Lei estivesse interiorizada no coração, na mente do homem. Mostrou que a Lei não era para ser obedecida somente por obrigação, ou, somente em atos aparentes, mas que era para ser obedecida por causa de sentimentos profundos e sinceros para com Deus e para com os semelhantes e para ser obedecida no coração. Como exemplo, podemos  ver o que ele fala a respeito das ofertas dedicadas a Deus (Mateus 5:23-25). Só teriam valor se os sentimentos para com os semelhantes estivessem, também, santificados.

Esta é, sem dúvida,  uma excelente exposição desse pastor batista, professor de seminário de sua igreja. Agora, o Presb. da Silva ainda admite que “os Dez Mandamentos estão relacionados aos princípios morais que sempre foram para todo o gênero humano”. Agora, o que quer dizer com “estão relacionados aos princípios morais”? Eles são a expressão desses princípios morais. Assim é entendido pelos documentos históricos e autoridades referidos. Não são só “relacionados”, como se fossem algo indireto, distante, aptos a perderem a validade (claro que a intenção desse discurso é tentar mostrar ser revogável, pelo menos em parte [10%]. . .). Agora, esta explicação é simplesmente absurda e já ressaltamos até um fato hilariante relacionado com este detalhe que o Presb. da Silva tenta desmoralizar mas não consegue de jeito nenhum, como demonstraremos:

“Jesus após abolir a lei, restaurou seus princípios morais no NT. Princípios estes que existiam antes da fundação do mundo, antes do decálogo ser dado a Israel.. . É neste sentido que Jesus restaurou parte dela no NT. . . .  O NT reteve o que era de aplicação universal no VT. Porém, queremos deixar claro que isto não se aplica aos cristãos porque estão nos “Dez Mandamentos” mas porque elas são “Leis Naturais” (que é inerente à natureza humana) e que foram reforçadas por Cristo e os apóstolos.

Percebe-se nessa linguagem ambígua a intenção nítida de livrar-se de um só dos mandamentos que é o único que o Presbítero crê não ter “aplicação universal”. Fala que Jesus aboliu a lei ao arrepio do que afirmou o próprio Jesus--“Não vim abolir a lei” (Mat. 5:17), e do que ensinaram e ensinam os famosos documentos e autores cristãos, como acima acabamos de citar. Eles incluíam o princípio do sábado como derivado da criação do mundo, sendo, portanto, de caráter universal. Também já vimos como o próprio Cristo declarou ter o sábado sido criado “por causa do homem”. Vejamos como o doutíssimo teólogo batista Russell Shedd interpretou Mateus 5:17-19:

“Jesus não cancelou a lei de maneira nenhuma [cita então otexto em discussão].Pelo contrário, por estas palavras, Jesus estabelece a lei de maneira absoluta. Neste sermão, o mais notável, Deus nos confronta com a majestade de sua perfeição moral. Mas esta exaltação da Lei de Moisés não aponta para a ira e condenação de Deus: devemos receber estes mandamentos na segurança de que a reconciliação entre Deus e seus filhos já foi realizada. A obrigação de observar tudo que o Senhor ensinou (Mat.28:20) faz-nos sentir a graça pela qual a justiça de nosso Senhor Jesus Cristo complementa as falhas inevitáveis que todo esforço humano revela.--Lei, Graça e Santificação, pág. 20.

Embora o Presb. da Silva use de artimanhas na afirmação de só se aplicarem ao “homem judeu” (uma interpretação ridícula, para dizer o mínimo), o fato é que na própria adoção do domingo pela comunidade cristã percebe-se a preocupação com um princípio “natural”--a necessidade de um dia de repouso físico para o homem, que Deus sabiamente associou a um memorial da Sua criação e a uma comunhão especial com Ele e com a comunidade de adoradores.

Vejamos agora mais uma declaração do Presb. da Silva e os equívocos relativos a isso:

O mais interessante é que este senhor tenta me refutar na questão de Rm. 2:15 apelando para o fato de que “São dois grupos inteiramente diferentes de que Paulo e o autor de Hebreus estão tratando: os que conhecem a lei divina e a acatam voluntariamente como base de um concerto especial com Deus e o gentio que a desconhece, mas traz os princípios morais divinos básicos dando-lhe testemunho de princípios superiores a serem seguidos.”
Mas omite de modo proposital quando cito Davi falando a mesma coisa em Salmos 40:8 onde diz: “Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração.”. Certamente Davi conhecia a lei e a acatava como base dum concerto especial com Deus. Novamente volto a afirmar: caso essa lei fosse a da Antiga Aliança não haveria necessidade de Deus tornar escreve-la nos corações, pois como diz o Salmo supracitado “a tua lei está dentro do meu coração”. Algo interessante é que  Logo após o Decálogo ser dado, Deus disse ao povo: “Estas palavras que hoje te ordeno ESTARÃO NO TEU CORAÇÃO” Ora, se a antiga Lei já estava nos corações dos homens seria até supérfluo tornar repetir o mesmo conceito em Jeremias 31:33 aplicando-o ao NT.

No estudo que eu transcrevi do Pr. Christianini sobre os concertos, um trecho relativamente curto que “colei”, com adaptações minhas, e que foi causa de uma tremenda vituperação da parte dele por eu tê-lo feito (enquanto ele se sentia no direito de impunemente colar trechos e mais trechos de diferentes autores--para se ver os seus critérios de avaliação injusta), tal autor deixa claro que o Novo Concerto na verdade era mais antigo do que o Velho. Este é um dos paradoxos bíblicos, pois o Novo Concerto é um retorno ao projeto divino original de salvação do homem, exposto por primeira vez em Gên. 3:15.

Em associação com essa questão do novo/velho concerto, há outra questão que precisa ser definida--o princípio do amor aplicado à lei divina no Velho e Novo Testamento. É incrível a maneira como alguns tratam da questão, dando a entender que a lei divina no Velho Testamento era algo como um “rascunho” da lei divina superior do Novo. Uma espécie de “lei de segunda” a ser substituída por uma “lei de primeira” na era cristã. Isso simplesmente não é assim. Por que não iria Deus conceder ao Seu povo eleito já a “lei de primeira”? Que discriminatório seria esse Deus se tivesse agido segundo retratado por esses pregadores de tais noções!

Numa de minhas postagens discutindo o tema eu assim expus a questão a um participante do Fórum Evangelho:

“Essa teoria de uma lei destituída de amor (ou do ‘desamor’) no passado que teria sido substituída por uma nova ‘lei de amor’ no Novo Testamento não encontra o mínimo respaldo bíblico. Isso não existe, amigo, pois contraria a definição de que Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Paulo reitera o 5o. mandamento da lei veterotestamentária de modo natural, escrevendo aos cristãos de Éfeso (Efés. 6:1-3), sem nada dizer que antes ela era do ‘desamor’ e agora deve ser cumprida com base no amor. Pelo contrário, ele fala de modo abrangente em Romanos 13:8-10 que ‘o cumprimento da lei é o amor’. Observe bem que ele diz, ‘É’ e não ‘ERA’. Sempre foi! E que está abrangendo todos os mandamentos fica claro ao ele dizer retoricamente, após citar apenas alguns dos mandamentos--‘e se há algum outro mandamento. . .’ Claro que ele sabia que havia mais mandamentos além dos que ele mencionou, e TODOS têm por base o amor”.

Esse raciocínio para diminuir a importância e “qualidade” da lei ao tempo do Velho Testamento, dando-lhe um sentido todo especial e envolvido no princípio do amor no Novo visa, logicamente, a justificar a negligência por um só dos mandamentos. Mas o sábado, gostem ou não, queiram ou não, combatam ou não, faz parte do mesmo código divino que o Senhor prometeu escrever nos corações e mentes dos que aceitarem os termos de Seu concerto (Hebreus 8:6-10; 10:16). Os semi-antinomistas devem odiar esta parte do Novo Testamento que não bate de jeito nenhum com seus pressupostos. Para o seu desconsolo, o texto fala de “Minhas leis” [de Deus], em vez de “lei de Cristo” ou “lei da fé”, ou “lei da graça”, ou “lei do Espírito”, como certamente prefeririam. .

A promessa do Novo Concerto foi feita aos cristãos, para os cristãos de todos os tempos, na “dispensação cristã” e assim tem sido historicamente entendida por todos os cristãos estudiosos da Bíblia. Esta passagem praticamente é a própria alma do Novo Testamento, pois é onde está assegurado esse arranjo divino para o povo que aceita a salvação em Cristo--Deus diz, “escreverei as minhas leis nos seus corações”. Agora, é um texto derivado de Jeremias 31:31-33 que tem caráter profético, mas só devido à mudança de circunstâncias: primariamente tais palavras se aplicariam ao Israel literal. Era uma garantia de um novo começo, uma nova chance, que o Senhor dava ao Israel literal ao deixar o cativeiro de Babilônia, ao qual foram submetidos devido a seu pecado e contínua rebelião. O concerto baseado na promessa desse povo, “tudo que o Senhor falou, faremos” (Êxo. 19:8) não deu certo, Não POR CAUSA DA LEI (pois “a lei do Senhor é perfeita”), é bom frisar, mas devido à falha do povo (Heb. 8:7 e 9), que certamente não era perfeito, não sabia de suas próprias limitações.

Apesar da promessa e proposta desse concerto tão mais favoráveis, pelas quais o Senhor Se dispõe a escrever a Sua lei pela concessão do Espírito para ajudá-los a cumpri-la e reformar-lhes a vida (ver também Ezeq. 36:26, 27)--que é a mesma lei que Israel sempre conheceu--o povo falhou de novo. O prometido Messias “veio para o que era Seu, mas os Seus não o receberam” (João 1:11).

Agora temos um novo começo, uma nova história sendo inaugurada, em que outro povo assume o lugar da outrora nação eleita (povo rejeitado como nação teocrática segundo as claras palavras de Cristo em Mateus 21:43). E a esse “Novo Israel” é reiterada a proposta desse Novo Concerto, como estipulado em Hebreus 8:6-10. Os leitores hebreus-cristãos da epístola entenderiam a que leis Deus estava se referindo ao dizer “escreverei as Minhas leis. . .”  Esta passagem de Hebreus 8:6-10 devidamente entendida à luz de seu contexto é um golpe mortal sobre essa visão dicotômica da lei moral do Velho Testamento, substituída no Novo Testamento por alguma nova legislação de uma “lei de Cristo”, “lei da fé”, “lei da graça”, “lei do Espírito”, “lei do amor”, pois todas essas designações referem-se a uma só legislação e não a várias.Aliás, já foi admitido aqui, creio que pelo próprio amigo, que a lei de Deus e a lei de Cristo são uma só e a mesma. E como não seria? Acaso houve ruptura entre o Pai e o Filho em algum tempo, ficando este último como o Novo Legislador a oferecer uma lei mais “user friendly” para os cristãos (cuja diferença, no fundo, é só que não têm mais que observar um dos Dez Mandamentos, pois todos os demais são vigentes, necessários, de caráter universal e. . . do “amor”, menos um, somente um, adivinhem qual. . .).

E vem uma informação que reflete um desconhecimento teológico lamentável da parte do Presb. da Silva:

Agora a justiça da lei se cumpre em nós os que cremos. No entanto, esses que por ele são salvos não são mais dependentes da lei para a sua salvação, correção, ensino ou santificação. Cristo através de sua lei e graça, faz todas essas coisas.

Amigo, biblicamente NUNCA ninguém dependeu da lei para a sua salvação. Esse comentário denota uma deficiência lamentável que se nota no meio evangélico quanto ao plano de salvação. É fruto dessa deplorável teoria dispensacionalista que apresenta a Deus como um Ser que parece experimentar diferentes metodologias para salvar o homem. Tenta uma coisa, não funciona, tenta outra, não dá certo, modifica daqui e dali. . . Assim, a “dispensação da lei” passou, quando os homens eram “dependentes da lei para a sua salvação, correção, ensino ou santificação”, mas agora, na “dispensação da graça” a salvação procede inteiramente de Cristo.

O Pr. Arnaldo Christianini é até irônico ao tratar desse conceito equivocado:

O autor do livro [O Sabatismo à Luz da Palavra de Deus que Christianini refuta inapelavelmente em sua obra] . . . defende o dispensacionalismo e crê que, depois de Cristo a graça suplantou a lei, substituiu-a, anulou-a, destruiu-a. Afirma que, com a morte de Cristo, findou-se a jurisdição da lei, iniciando-se a da graça. . . . Se isso fosse verdade, gostaríamos de perguntar como se arrumaram os pecadores dos tempos do Velho Testamento? Como se teriam salvo? Este ponto não pode ser passado por alto porquanto as Escrituras ensinam clarissimamente que a salvação é obtida unicamente pela graça. E se a graça não existia antes da cruz, segue-se que os pecadores que viveram nos tempo patriarcal e posterior não se salvaram. Viveram antes da graça, para sua perdição. Ou--se como querem alguns--os pecadores do Velho Testamento se teriam salvo pelas obras da lei, forçoso é convir que o Céu estará dividido em dois grupos: um grupo a proclamar altissonantemente ter-se salvo pelos seus méritos e esforços, por terem guardado a lei (e isto seria um insulto a Jesus, um ultraje ao Seu sacrifício e ao Seu sangue), ao passo que o povo que viveu depois da cruz lá estaria a proclamar humildemente os louvores de Cristo, que lhes deu a vida eterna. . . . Seria concebível?

Não, não há na Bíblia tal coisa: uma jurisdição da lei e outra da graça, separadas pela cruz. Isto é danosa invencionice humana, ofensa ao plano de Deus. . . . Diz a Bíblia que a graça vem de “tempos eternos” (Rom. 16:25), que o “Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo” (Apoc. 13:8), e que “a graça nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (II Tim. 1:9). Portanto, os pecadores sob o Velho Testamento também se salvaram pela graça. . . .Abraão foi salvo pela graça, Gál. 3:8; Rom. 4:3. Davi não se salvou pelos próprios méritos, mas pela fé em Cristo. Rom. 4:6. A graça está entendida a TODOS os homens. Tito 2:11; Rom. 5:18. Estava planejada antes mesmo da queda e começou a vigorar desde Gên. 3:15. . .-- Subtilezas do Erro, págs. 84 e 85.

Na sua resposta, o Presb. da Silva busca ser didático e claro, mas o que afirma, pretensamente em nome dos evangélicos, não bate de jeito nenhum com o que os próceres, autores gabaritados e documentos básicos desses evangélicos ensinam. Diz ele

RESPOSTA: Como ficamos? Bem, ficamos da seguinte maneira: Os adventistas dividem a lei para manter o sábado. Os evangélicos não.
Os Adventistas crêem que o Decálogo nunca será modificado em sua estrutura. Os Evangélicos não crêem assim.Os Adventistas crêem que nem um “Til” cairá da lei. Os Evangélicos acreditam pois que o sábado foi abrogado. Pois é, o til já caiu!!!Os Adventistas fazem desta divisão uma questão de doutrina. Os evangélicos não.

Que incrivelmente antibíblica é a afirmação: Pois é, o til já caiu!!! Mas acaso o céu e a terra já passaram? Jesus disse até que o céu e a Terra passem . .Além de chocar-se com os citados autores e documentos (e com o que Jesus disse--que “não passará nem um til”), ele repete a falsa alegação de que os adventistas criam uma doutrina sobre a divisão da lei, o que é uma grande bobagem. Já mostrei que os adventistas não criaram nenhuma nova teologia sobre esse tema, eis que herdaram isso, prontinho, dos autores e pesquisadores cristãos que os antecederam, sem falar nas Confissões de Fé das diferentes igrejas das quais procederam. Para que alterar o que já está tão bem definido? É mais um etalho, um monstrengo de sua criação que se desfaz, sem etar ninguém que realmente saiba o que está por detrás da mal-estruturada armação.

Sob o título “SOBRE ISAÍAS 66:23” ele levanta mais uma infundada alegação:

Especulam [os observadores do sábado] que esta seja uma profecia para a era cristã, quando então a igreja gentia iria guardar o sábado. Contudo, pergunto ao senhor Brito: onde Isaias 56 se aplica aos tempos finais? Prova-me isso se possível.

A profecia de Isaías 66:23 não é para a “era cristã”, e sim para o regime da Nova Terra, como indica o contexto. Quando não houver mais pecado e pecadores, nesse novo regime “em que habita a justiça” (2 Ped. 3:13) TODOS os mandamentos da “lei natural” serão respeitados, e entra o sábado nisso também, porque “o sábado foi feito por causa do homem”.

A bem conceituada versão francesa de Louis de Segond assim verte a passagem: “. . . à chaque sabbat, toute chair viendra se prosterner devant moi, dit l‘Éternel” [a cada sábado toda carne virá ser prostrar perante mim, diz o Eterno]. Isso também é comunicado pela nossa Tradução na Linguagem de Hoje: “. . . em todos os sábados pessoas de todas as nações virão me adorar no Templo”.

O convite aos “filhos dos estrangeiros” para aceitarem o sábado [Isa. 56: 6, 7] pode ter um sentido presente e futuro, por que não? O Presbítero se esquece que a missão de Israel era ser “testemunhas de Javé” para todos os povos ao derredor. Caso Israel tivesse cumprido sua missão de proclamar o verdadeiro Deus, Sua lei e Seu plano de salvação às várias nações, é claro que como efeito disso renunciariam aos ídolos e adotariam o sábado, bem como todos os demais mandamentos, tal como devia ocorrer com a nação eleita. Então, esses “filhos dos estrangeiros” convidados a acatarem os termos do concerto que Deus estabeleceu com Israel representa uma antecipação dos muitos “filhos dos estrangeiros” que futuramente acatariam os termos do Novo Concerto, primeiramente oferecido ao próprio Israel nacional ao sair do cativeiro babilônico, como acima discuto, e reiterado a um Novo Israel. Então, em Hebreus 8:6-10, o povo é outro, o concerto é “Novo”, contudo a lei é a mesma, “as Minhas leis”.

Mais adiante, há este confuso raciocínio:

1. A lei (toda ela) não seria abrogada (destruída), mas cumprida.

2. Quando fosse cumprida iria passar.

3. Todavia os princípios morais dessa lei (lei natural) foram preservados no NT. Desta maneira ela foi DERROGADA, pois parte dela foi conservada no NT.

Não estamos mais debaixo dos mandamentos como Moisés os expressou para o povo de Israel, porque ao serem expressos ao povo nos 10 Mandamentos, eles traziam a recompensa de que os judeus viveriam uma longa vida “na terra prometida” (Ex. 20:12). Quando o principio moral é estabelecido no Novo Testamento ele se expressa num contexto diferente, a saber, num contexto não nacional nem teocrático, mas pessoal e universal destituído da roupagem histórica cultural de Israel. O fato de estarmos ainda atrelados a princípios morais “semelhantes” no NT, não significa que ainda estamos debaixo do velho Decálogo como dado a Israel. Num outro texto que até tem sido divulgado a partir do site em que atua nosso oponente ele até entra em certos detalhes interessantes sobre este ponto:

Cristo poderia muito bem ter dito apenas “revogar” (ou seja, termo genérico para a extin de uma lei), não, ele não disse para revogar, disse “ab-rogar” e aqui vale adentrarmos ao campo do Direito para esclarecer que existem duas maneiras, duas espécies de revogação(termo genérico) de uma lei, a saber: derrogar e ab-rogar (espécies de revogação). DERROGAR quer dizer: extinguir uma lei parcialmente, ou seja, parte de determinada lei continua a viger, enquanto parte dela se extingue com a entrada em vigor de uma NOVA LEI. AB-ROGAR, ao contrário, quer dizer revogar ou extinguir uma lei por completo. Pois bem. Cristo não veio para extinguir a lei por completo - AB-ROGA-LA, mas parcialmente, ou seja: DERROGA-LA. Ao lançar mão do termo técnico AB-ROGAR, (extinguir uma lei por completo) Cristo deixou entendido muito claramente para os seus ouvintes judeus - romanizados, que veio sim, para DERROGA-LA, ou seja, revoga-la ou extingui-la parcialmente. Note-se: “não vim AB-ROGAR, mas cumprir, ou seja, não veio para extinguir a lei por completo, mas parcialmente: derroga-la. Não fosse assim, limitar-se-ia em dizer e utilizar-se da expressão genérica “revogar” a lei.

Talvez esta seja a tal “nova linguagem teológica” a que se refere noutros pontos o autor dessa estranha explanação, em que mostra Jesus realizando um milagre jamais registrado pelos evangelistas--o de pronunciar-se pioneiramente na língua portuguesa, falando em “ab-rogar” para Seus contemporâneos. Estes certamente devem ter tido imensa dificuldade em compreendê-Lo ao O ouvirem discursar no idioma de Machado de Assis sobre detalhes jurídicos, sobretudo porque isso ocorreu antes do famoso Pentecoste narrado em Atos 2.

Tal comentário deixou estupefato um próprio colaborador da instituição em que o Presbítero atua, Benedito Tenório, que comentou, expressando sua evidente perplexidade, o que transcrevo da cópia de um e-mail que este me mandou:

É pela primeira vez em minha vida que leio algo deste tipo. Meus amigos, já li tudo que vocês podem imaginar sobre a lei de Deus e posso garantir que estes argumentos não convencem. Pois como você mesmo menciona, de acordo com a clássica definição jurídica, ab-rogar, significa revogação total de uma lei, mas você usa uma argumentação dizendo que Cristo não veio ab-rogar mas derrogá-la ou extingui-la. Você está afirmando algo completamente fora do que Jesus Cristo ensinou, além de colocar uma nova palavra numa vão tentativa de anular a lei do Sábado para os nossos dias.

Não é para menos, pois Jesus falava em aramaico e Suas palavras foram registradas no Novo Testamento em grego, e na língua grega a sentença “não vim para revogar” significa isso mesmo, e não outra coisa. Na verdade, o termo no grego para “revogar” é katalusai que significa “destruir”, “dissolver”, “eliminar”, “pôr abaixo” segundo  define o Greek Dictionary of the New Testament, de James Strong. Por outro lado, em “vim para cumprir”, a palavra “cumprir” no grego é plerôsai e tem sentido ligado à idéia de “plenitude”, “completo”, segundo o mesmo dicionário.

Em nosso estado do Alabama uma grande polêmica se armou desde que o juiz da Suprema Corte do Estado, o “batistão” Roy Moore,  mandou instalar um monumento de pedra de duas toneladas no saguão de entrada do edifício da Suprema Corte do Estado, em sua capital, Montgomery, contendo o texto dos Dez Mandamentos. Em seu depoimento ao juiz federal Myron Thompson, que julgava o caso em vista de processos judiciais de opositores da atitude de Moore, ele explicou ter feito isso “por causa de uma de minhas promessas de campanha, e uma das coisas que eu tenho o dever de fazer é restaurar o fundamento moral da lei”. E eleito foi ele para o importante cargo, com apoio maciço da comunidade evangélica do Alabama.

O conhecido evangelista do rádio e TV dos EUA, Dr. James D. Kennedy, presbiteriano, contribuiu através de seu Coral Gable Ministry com U$ 170.000,00 para o polêmico projeto. A despeito de todo esse investimento e do apoio popular, o juiz federal Thompson decidiu que Moore tinha 30 dias para que o monumento fosse removido. O pior é que os advogados da parte vitoriosa apresentaram a conta de seus honorários (que devem ser cobertos pela parte perdedora, como no Brasil): U$ 703.000,00!

Somando-se esse montante com as despesas de construção e transporte do monumento, mais os gastos com a defesa legal da permanência do monumento no local, todo esse empenho em promover o Decálogo como fundamento da legislação universal e americana vai para quase um milhão de dólares! A iniciativa foi contestada por certos grupos que vêem nela uma violação do princípio de separação Estado-Igreja, incluindo ateus, materialistas e uma católica, Melinda Maddox, que alegava que o teor desses Dez Mandamentos eram os da Bíblia protestante e ofensiva aos católicos que têm versão diferenciada da lei divina. O julgamento desse debate civil-religioso terminou com o juiz Roy Moore sendo destituído de suas funções por resistir à ordem do juiz federal, trangredindo os princípios legais e desrespeitando autoridade de instância superior, o que não parece ficar nada bem para um responsável pela justiça de todo um Estado da Federação. Ademais, um cristão que se esquece de suas obrigações em respeitar as autoridades constituídas e, o que é pior, deixa entrever e se comenta sua clara jogada política nisso tudo pois especula-se sobre suas reais intenções futuras--candidatar-se a governador do Estado valendo-se do evidente reconhecimento de seu nome como um defensor das posturas de um eleitorado tradicionalmente conservador.

Paradoxalmente como possa parecer, os adventistas do sétimo dia, que promovem a validade desses mesmos mandamentos como norma moral para os cristãos, são contrários à iniciativa do juiz Moore. A razão é que os adventistas sempre foram grandes campeões do princípio de liberdade religiosa e separação de Estado e Igreja. Os ASD ainda conservam na memória os problemas que enfrentaram no século XIX quando religiosos bem intencionados impunham severas leis dominicais (as famigeradas “blue laws”) para que nenhuma atividade secular se realizasse aos domingos, em harmonia com o que determinava suas Confissões de Fé denominacionais, que ainda estão em vigor, mas não são tão levadas a sério hoje em dia nesse aspecto. Adventistas do Tennessee chegaram a ser presos por estarem trabalhando em suas roças num domingo, sendo que já haviam assistido ao culto no dia anterior, que é o sábado bíblico. Um deles morreu pouco depois de ter sido libertado dadas as condições insalubras enfrentadas na prisão.

Ultimamente, desde que o Papa João Paulo II emitiu sua Carta Pastoral Domini Dies, uma preocupação paira no ar quanto ao que nos reserva o futuro, pois o documento papal apela a que os cristãos influenciem seus legisladores a estabecerem legislação civil que favoreça uma mais fiel observância do domingo. Mudando de orientação ao que tradicionalmente a Igreja Católica ensinava, o histórico documento apela ao imperativo moral do mandamento do sábado. Sem hesitação, João Paulo aplica ao domingo a bênção e santificação do sétimo dia por ocasião da Criação: “O domingo é o dia de descanso porque é o dia ‘abençoado’ por Deus e ‘santificado’ por Ele, posto à parte para ser, entre eles, ‘o Dia do Senhor’” (Dies Domini, parágrafo 14). A tentativa do Papa em tornar o domingo a “extensão e plena expressão” do significado do sábado (Dies Domini, parágrafo 17), é muito engenhosa, mas falta suporte bíblico e histórico a tal interpretação pela simples razão de que o domingo não é o sábado, pois ambos os dias diferem em autoridade, significado e experiência.

Seja como for, o empenho do Papa em promover esse reavivamento pela observância do domingo como o sábado do sétimo dia recebeu apoio de líderes da Igreja Católica. Por exemplo, em 27 de outubro de 2002 a agência noticiosa SIR, da Alemanha, informou que o Cardeal Karl Lehmann, Arcebispo de Mainz e presidente da Conferência de Bispos da Alemanha, falou numa conferência chamada “O Sétimo Dia: História do Domingo”. Ele descreveu o evento como uma “ocasião extraordinária para refletir novamente sobre o domingo e os perigos que o ameaçam”. Ao identificar o domingo com o sábado bíblico, Lehmann, à semelhança do Papa, tenta tornar a observância dominical o imperativo moral do mandamento do sábado.

Calendários trazendo o domingo no lugar do sétimo dia já estão se tornando comuns tanto na Europa quanto nos EUA. Tais tendências são significativas em dois aspectos: a) mostram como o princípio do dia de repouso, requerido pelo 4o. mandamento do Decálogo, é reconhecido como válido por cristãos das mais diferentes confissões; b)  esse apelo papal à força do poder civil para promover a guarda do domingo pode representar os primeiros passos para situações de intolerância já vivenciadas no passado, como acima descritas. Afinal, os que se batem pela observância do domingo no meio protestante têm tudo para “comprar” a idéia do Vaticano e dar um apoio “ecumênico” a tais iniciativas. Mas os cristãos estudiosos da Bíblia já prevêem essas dificuldades para os tempos finais, quando poderes religiosos e civis se unirão contra o remanescente, os que “guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus” (Apoc. 14:12).

A publicação adventista Liberty Magazine já completou mais de 100 anos de existência e é remetida regularmente a magistrados, autoridades civis e religiosas por todo o país, defendendo esse princípio constitucional de liberdade civil e religiosa para todos, indistintamente.

Em décadas passadas, Walter Martin, fundador do Christian Research Institute, teólogo batista que se especializou em Religiões Comparadas, submeteu aos adventistas um longo questionário buscando compreender devidamente os ensinos da IASD após um dedicado esforço de estudo realista de centenas de horas, cobrindo quase dois anos, indo com freqüência à Associação Geral dos adventistas (sede mundial), trocando idéias com líderes e teólogos adventistas, examinando milhares de páginas de literatura da Igreja e de opositores, enfim, realizando um trabalho realmente digno de um verdadeiro erudito. Agiu ele dentro de critérios éticos e numa metodologia científica, em lugar de lançar-se a esse triste empreendimento de ataques ferinos, inspirados num preconceito doentio, firmados em citações desonestamente torcidas de declarações e publicações da IASD, como fazem certos grupos supostamente combatentes de “seitas”.

Ao final desse empreendimento, com o que contou com a participação de outros dentre seus associados, inclusive o redator da revista Eternity, Martin concluiu que os adventistas, embora tenham doutrinas que considera “heterodoxas”, não devem ser considerados uma seita, mas uma genuína igreja cristã. Enfim, ele soube discordar sem distorcer, uma virtude de que estão longe, mas muito longe, os que modernamente pretendem realizar a mesma obra dele. Então, o fato de alguém que não realizou nem um décimo da obra de Martin, chamar-nos de heréticos não me impressiona e nem abala nem um pouco. É fruto do puro preconceito irracional sem qualquer base em fatos reais, devidamente pesquisados. Significa um zero à esquerda para nós.

Numa das perguntas que Martin submeteu aos adventistas constam estas interessantes declarações:

O mundo cristão geralmente mantém: (1) que a lei moral é eterna e não foi abolida; (2) que o princípio do sábado, ancorado na semana da Criação, especialmente na distinção entre os seis dias mais um--demarcando-os por autoridade divina para diferentes propósitos--é igualmente permanente e eterno.

Mais adiante ele argumenta que “há uma clara continuidade entre o sábado dos tempos do Velho Testamento, baseado na Criação, e o dia do Senhor do Novo Testamento. . .”  -- Citado em Seventh-day Adventist Answer Questions on Doctrine, pág. 154.

O teor da pergunta é acentuar sua crença na observância do domingo em substituição do sábado, mas dessa declaração destaca-se claramente a noção do grande teólogo, que pode certamente falar em nome da cristandade em geral, confirmando: a) a validade da lei dos Dez Mandamentos como não tendo sido abolida; b) que há uma “lei moral” destacada como tal; c) que o sábado deriva da semana da criação; d) que o princípio do dia do repouso é uma “clara continuidade” do sábado veterotestamentário. Ora, isso destoa completamente da posição do Presb. da Silva. E para usar a linguagem dele próprio noutra de suas matérias, só alguém muito obtuso que não percebe a clara divergência de posições.

Seja como for, percebe-se nestes episódios acima descritos como grandes contingentes de líderes e cristãos evangélicos, bem como o próprio chefe espiritual da Igreja Católica  e seus líderes, não têm este conceito tão negativo dos Dez Mandamentos, como o Presb. da Silva, que chega a dizer serem “frágeis . . . para corrigir o pecado do povo”. Só que ocorre aí outro lamentável equívoco de sua parte. O objetivo da lei não é “corrigir o pecado” e sim APONTÁ-LO para que o pecador vá buscar o socorro onde socorro é disponível. Quem corrige é o pecador mesmo por sua vontade fortalecida pela fé, permitindo a operação do Espírito Santo. É o que Paulo explica em Romanos 7:7-25; 8:3, 4, 6 e 7.

Esses líderes e contingentes populacionais evangélicos aceitam a vigência do Decálogo naturalmente, sem subterfúgios, sem “nova linguagem teológica” sem essa história de refazer os mandamentos “sem a roupagem judaica”. Nada disso, simplesmente não acatam a noção de terem sido “abolidos”, substituídos por uma suposta lei mais aprimorada, não mais do “ministério da morte”. Aliás, o Presb. da Silva cita um autor de texto de lição da Escola Dominical que transmite exatamente este incrível conceito:

“Com Cristo, veio a lei da graça, a lei do amor”. Isto significaria simplesmente que antes a lei não era “do amor”, só a partir de Cristo é que tal lei “melhorada” pelo amor prevaleceu. Como também, segundo tal autor, a graça inexistia antes de Cristo, o que explica o lamentável entendimento que muitos evangélicos conservam desse tema da lei e da graça--que a “dispensação da lei” passou, agora estando nós sob a “dispensação da graça”. Fica subentendido que os pecadores do passado salvavam-se por sua obediência à lei, como é o pensamento de muitos membros dessas igrejas, e a partir do Novo Testamento obtêm sua salvação somente pela graça (também, pudera, com instrutores desse tipo. . .). Nada teriam mais a ver com a lei, a não ser vagos princípios de “amor” como norma de obediência, sem mais regras estabelecidas.*

Tomando por base o fato de que em 2 Coríntios 3, ao falar da ministração do antigo concerto em contraste com o do novo, Paulo atribui-lhe o qualificativo de “ministério da morte”, por mencionar as tábuas de pedra nosso oponente confunde as coisas e diz que essas tábuas de pedra é que representariam o “ministério da morte”. Então, não há saída--o Deus que Se apresentava a Israel como “longânimo, misericordioso, bondoso, piedoso e perdoador” na verdade preparou foi uma terrível armadilha para aquele povo no Sinai, eis que lhes ofereceu ali uma norma legal que resultaria inapelavelmente em morte! Deixou em reserva a “lei do amor e graça” só para o povo do Novo Testamento! É esse o Deus que não faz acepção de pessoas?

Retornando ao ambiente onde a lei divina foi solenemente proclamada ao povo, lemos em Êxo. 19:10ss a ordem de Deus para o povo purificar-se, e até abster-se de atividade sexual (vs. 15) para uma dedicação integral a Ele em preparação ao proferimento da lei. Limites foram estabelecidos ao redor do monte para o povo não dirigir-se até ali, e finalmente os Dez Mandamentos foram audivelmente pronunciados.

Agora, tanta preparação, tanta expectativa, tanta solenidade para a entrega de . . . uma “lei da morte”! É incrível! Eu me sentiria trapaceado! E, no entanto, é, no fundo, a exegese que se lê nos escritos desses intérpretes semi-antinomistas que não conseguem perceber que “a lei do Senhor é perfeita e restaura a alma”, como disse o salmista (Sal. 19:7) referindo-se a TODA a lei (Torah), é verdade, o que significa inclusão, não exclusão, do Decálogo e, dentro dele, do mandamento do sábado.

O que a Bíblia nos diz, porém, é muito diferente disso. Em Êxo. 16:4 lemos como Deus provou o Seu povo escolhido se iria andar ou não em Seus mandamentos exatamente pela observância do sábado: “Então disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover do céu pão, e o povo sairá e colherá diariamente a porção para cada dia, para que Eu ponha à prova se anda na Minha lei ou não”. Uma comparação de Êxo. 16:1 com 19:1 mostra que isto ocorreu várias semanas antes da promulgação do Decálogo. Portanto, eles devem ter conhecido tanto a lei de Deus quanto o mandamento do sábado, conquanto não o observassem durante a escravidão egípcia.

Antes disso lemos que Abraão observava “os mandamentos, os estatutos e as leis” de Deus. A palavra usada para “mandamento” nesse texto é a mesma do Decálogo em Deut. 5:10, 29. O comentário erudito protestante The Companion Bible afirma que Abraão tinha mandamentos para cumprir; preceitos para serem obedecidos; estatutos para serem reconhecidos; e leis (“instrução”, o Torah) para serem seguidas”. Não há referência de que ele observasse o sábado, é verdade, nem de que se abstivesse de adorar imagens, ou de falar o nome de Deus em vão, ou de roubar, ou de cobiçar as coisas alheias, mas é claro que este texto abrange tudo isso. Sua obediência plena é tomada por assentado pelo autor de Gênesis, daí não entrar ele em detalhes desses princípios.

Então, algo saiu errado nesse concerto, transformando-se sua ministração em algo gerador de morte. Por quê? Onde se situa o problema? Era a lei desse teor, transmissora de morte? Então não poderia ser perfeita.

O problema não estava com a lei, e sim com o povo que tão precipitadamente declarou: “tudo o que o Senhor falou, faremos” (Êxo. 19:8) antes mesmo de conhecer plenamente o que seria pronunciado. Era um povo de “dura cerviz”, tantas vezes condenado por seus tropeços. Então, é tão fácil de entender isso--repito: o problema não estava na lei, e sim no povo, o que é tornado muito claro na promessa do Novo Concerto já ao tempo de Jeremias--“tirarei o vosso coração de pedra”.  Destarte, quem tinha o coração errado era o povo, daí a necessidade de o povo mudar de atitude, permitir que Deus operasse essa mudança de coração--o coração de pedra eliminado e trocado por um de carne.

Portanto, o que os semi-antinomistas em geral não conseguem entender é que a mudança necessária não era da lei, e sim do coração do povo. Em 2 Coríntios 3 Paulo discute este aspecto. Ele não diz que a lei é de morte, mas o ministério da velha aliança veio a assim se tornar. Não era, logicamente, o plano original de Deus. Então, basta ler Deuteronômio 6 para perceber o apelo divino, ao Moisés interpretar ao povo o sentido de tudo quanto viu e ouviu junto ao Sinai, a que acatassem voluntariamente as Suas palavras recém proferidas solenemente, sob o princípio da lei áurea--“amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força” (Deut. 6:5). Só tendo esse amor é que eles poderiam ter estas palavras em seus corações.

O que Moisés está apresentando aí é o princípio básico que governa a obediência à lei--o amor a Deus. Pois Jesus repetiu tais palavas, obtendo aprovação de um jurista judaico por perceber o acerto delas na definição de qual era o grande mandamento da lei. Jesus repetiu este, e o outro paralelo, “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Lev. 19:18, cf. Mateus 22:36-40). Ora, o Presb. da Silva alega que Jesus neste caso não mencionou nenhum mandamento do Decálogo, mas será que não conseguiu ler o que diz o vs. 40? “Destes dois mandamentos DEPENDEM toda a lei e os profetas”?  É tão claro que Ele está falando de PRINCÍPIOS básicos da lei. E Paulo repete a mesma idéia em Romanos 13:10--“o cumprimento da lei é o amor”, após repetir alguns dos mandamentos do Decálogo.

Negar que o Decálogo tenha por base o princípio de amor a Deus e ao próximo é uma das interpretações mais absurdas que já vi ocorrer no seio evangélico. Houve até quem alegasse que “graça” e “amor” são coisas diferentes, como se a “benignidade imerecida” não se inspire no amor imerecido da parte de Deus ao homem.

Mesmo porque quem alega isso terá que explicar então qual era o princípio motivador da obediência a essa lei, se não fosse o amor. Para os que achavam ter que cumpri-la só nessa base, porque a letra assim o exigia e por temer as conseqüências de não cumpri-la, então, sim, esse seria o princípio de morte, não de vida. Sem falar em como os grandes pensadores cristãos e as Confissões de Fé históricas da cristandade protestante sempre entenderam que a “lei áurea” é a síntese da lei divina compendiada no Decálogo, válido como regra de conduta cristã.

Não só a atitude de aprovação do líder judaico que queria pegar Jesus em contradição confirma que Cristo não lhe apresentou nenhuma novidade, nenhuma nova legislação “sem a roupagem judaica”, como em Mateus 19:16-22 vemos como esse princípio de “amar ao próximo” tem TUDO A VER com o Decálogo. Jesus recomenda ao jovem rico que guardasse os mandamentos. Este diz que o tinha feito desde sua juventude após ouvir de Cristo a repetição da parte da lei relativa ao relacionamento criatura-criatura, citando-lhe vários mandamentos e incluindo como fecho: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (ver Marcos 10:17-22). É tão claro e lógico, e o nosso caro presbítero não parece conseguir entender isso, com o que contraria os grandes próceres cristãos do passado e do presente que entendiam as coisas exatamente nessa linha.

Ele faz uma série de comentários cristocêntricos sobre a Nova Aliança, no que não está absolutamente errado. Só que com isso procura excluir o que não tem que sê-lo, pois a inscrição da lei nos corações e mentes do povo de Deus não é para perder a Cristo de vista de modo algum. Afinal, o próprio Cristo declarou: “Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos” (João 14:15). Como já vimos, os Seus mandamentos identificam-se com a lei áurea, que se harmonizam com os Dez Mandamentos, as “Minhas leis” escritas nas tábuas de carne dos cristãos--tudo, pois, se ajusta harmonicamente: lei e graça,  fé e obras, justificação e santificação.

E também é incrível como o Presb. da Silva parece ter se enfronhado tanto em pesquisas de autores vários que nem discriminou bem sobre suas filosofias básicas, misturando liberais e conservadores, dos primeiros obtendo noções muito popularizadas pela chamada “alta crítica” bíblica que atribui a origem dos Dez Mandamentos ao Código de Hamurabi, sendo mera cópia do mesmo “com roupagem judaica”, além de outras supostas influências de egípcios e sabe-se lá de que outros povos circunvizinhos. . .

E ele diz mais, em “gritante” adjetivação buscando impressionar o leitor com sua grande “erudição”, como é seu costume (vide o exemplo do ridículo artigo que escreveu em defesa do domingo, tentando passar a imagem de que refutou Samuele Bacchiocchi) que “a forma do pacto Israelita era baseado nos pactos das civilizações do antigo Oriente. Não cabe aqui descrever todos os documentos antigos escritos em pedras encontrados pela arqueologia que depõe gritantemente a favor do fato de que escrever os dez mandamentos em pedras, não passava de um costume da época”.
Ou seja, Deus condicionadamente à cultura da época simplesmente seguiu um costume local ao escrever com o Seu próprio dedo os Dez Mandamentos, que foram quebrados por Moisés e reescritos por. . . Moisés! É a tese incrível de da Silva. . . Ele não percebe o sentido de Êxo. 34:28 que diz: “E ali esteve [Moisés] com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão nem bebeu água; e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras”. Entende com isso que Moisés foi quem registrou a lei na segunda tábua. É verdade, o texto deixa tal impressão, mas será que Moisés contava com alguma “caneta mágica” que gravava em pedra? Ou teria martelo e cinzel para gravar na pedra tais divinas instruções? Quanto tempo não levaria para cumprir tal obra de arte?!

É claro que Deus escreveu novamente Sua lei nas novas tábuas de pedra, o que simboliza a eliminação do Velho Concerto, quebrado e inutilizado pelo povo, para ser oferecido um Novo Concerto em que novamente a mesma lei é transcrita pelo mesmo Deus, para quantos aceitem os seus termos, sejam judeus ou gentios (Heb. 8:6-10; 10:16). No original não existem sinais de pontuação, e pode haver até esse mal-entendido, mas quem escreveu as palavras foi Deus, não Moisés. Basta consultar bons comentários bíblicos para ver qual é o consenso dos eruditos pesquisadores a respeito.

Agora, é duro ter  que pôr alguém tão esforçado no seu empenho de demonstrar suas teses, em situação embaraçosa, mas creio que o Presbítero precisa aprender a ser mais humilde, parar com esse fraseado exibicionista, cheio de termos latinos que não servem a nenhum propósito prático, bem como sua linguagem triunfalista e comentários depreciativos quando quer que julgue ter apanhado contradições na minha exposição. Eu não pretendo ser nenhum infalível e estou aberto a qualquer corretivo quando demonstrado de modo claro e despreconceituoso.

Mas essa situação do Presbítero de dizer que Moisés foi quem escreveu o texto da 2a. tábua de pedra é realmente incrível (já vi isso também em escritos de seu companheiro de CACP, João Flávio Martinez). Desculpe o mau jeito, caro presbítero, mas avance umas páginas no próprio Deuteronômio e encontre o capítulo 10, vs. 1 a 5, que traz até (em minha Bíblia) o título “As segundas tábuas da lei”:

Vs. 2 Deus falando, após ordenar que Moisés providenciasse as tábuas lavradas: “Escreverei nas duas tábuas as palavras que estavam na primeira que quebraste e as porás na arca”.

Vs. 3-5: Moisés narrando o que se passou então : “Assim fiz uma arca de madeira de acácia, lavrei duas tábuas de pedra, como as primeiras, e subi ao monte com as duas tábuas na mão. Então escreveu o Senhor nas tábuas, segundo a primeira escritura, os dez mandamentos que Ele vos falara no dia da congregação, no monte, no meio do fogo; e o Senhor mas deu a mim. Virei-me, e desci do monte, e pus as tábuas na arca que eu fizera; e ali estão, como o Senhor me ordenou”.

Será que ele finalmente reconhecerá um milímetro de seu equívoco? Para uma pessoa que se revela tão dominada por um orgulho imenso, que jamais dá o braço a torcer apesar de se provar com uma caminhão de evidências que embora pretenda falar em nome dos evangélicos suas teses simplesmente não batem com o pensamento dos grandes próceres, eruditos autores e até compositores de hinos cristãos evangélicos isso será muito, mas muito difícil! Ele devia meditar sobre as sábias palavras de Salomão em Prov. 16:18--“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda”.

Recordemos um pouco o início de sua argumentação toda. Inicialmente, diante de meu estudo “Decálogo: Continuidade ou Ruptura?”, onde falava dos muitos autores e Confissões de Fé da cristandade que ensinam a validade do Decálogo como norma de fé cristã, admitem a divisão das leis como “moral”, “cerimonial”, “civil”, ele, tentando rebater o que falamos, percebeu a situação difícil em que se achava e tentou levantar uma tese de que o que tais Confissões de Fé declaram é simplesmente coisa do passado, do período formativo da cristandade protestante, etc.

 Após eu demonstrar com mais dados que simplesmente isso assim não é, como minhas citações de autores e mais autores do passado e mais recentes, e do período contemporâneo, ele mudou de estratégia argumentativa: passou a defender a esdrúxula teoria de que ocorre uma “nova linguagem teológica” que esses autores certamente nem sempre utilizam, etc. Enfim, uma enganação total para tentar cobrir o sol com a peneira.

No seu último texto ele sai-se com essa:

Não vou entrar no mérito da questão sobre os credos oficiais das várias igrejas históricas, mesmo porque, como já expliquei em minha réplica, elas são frutos do pensamento dos reformadores que foram de certo modo produto do seu meio e de sua época, moldados pelas experiências de vida de cada um. E é bom salientar que os reformadores não são a palavra final em assuntos de religião. Este lugar é ocupado majestosamente pela palavra de Deus--a Bíblia”.

Ele diz que não vai “entrar no mérito da questão sobre os credos oficiais das várias igrejas históricas” mas termina entrando, em parte. . .  Parece que ignora que tais “credos oficiais” não são necessariamente originários dos reformadores, mas muitos deles se desenvolveram pelo menos um século, ou mais, depois deles. Mas há alguns “méritos” da questão em que ele faz questão de não entrar--é que tais Credos confessionais AINDA ESTÃO EM VIGOR. Ele parece querer dar a entender que são “águas passadas”, tudo superado pela “nova linguagem teológica”, porém isso é puro sofisma. Basta recorrer ao  website da Igreja Metodista, por exemplo, e ali é informado que as posições doutrinárias de dita igreja firmam-se sobre os “39 Artigos de Religião da Igreja da Inglaterra”. Será que os presbiterianos aboliram o seu Catecismo Maior? Eu participava até recentemente de um Fórum Presbiteriano e lá há o maior respeito pela Confissão de Fé de Westminster, à qual carinhosamente tratam de CWF, e nesse famoso e secular documento confessional o Decálogo é indicado como norma de conduta cristã, o sábado é definido como principio originário do Éden, e indica-se que os quatro primeiros mandamentos referem-se ao nosso dever para com Deus, enquanto os últimos seis tratam de nosso dever para com os semelhantes.

Portanto nosso amigo, advogado do semi-antinomismo, faz questão de passar por alto os grandes autores, pesquisadores e próceres cristãos do passado e do presente que, interpretando o que dizem tais Confissões de Fé, confirmam exatamente o que temos repetidamente ressaltado: a validade do Decálogo que prossegue sendo a norma de conduta cristã, a divisão da lei em preceitos morais, cerimoniais, civis e a vigência do 4o. mandamento, devendo o dia de repouso ser respeitado nos “moldes” do sábado judaico (até os católicos já têm essa posição oficial pela carta pastoral Dies Domini).  Vamos ver mais alguns no “Adendo” a este texto das igrejas presbiteriana, batista, assembléia de Deus, pentecostal. . .

Esses autores simplesmente se referem ao Decálogo e a seus mandamentos do modo mais natural, como válidos, tal como um adventista o faria, sem saberem de nenhuma “nova linguagem teológica”, muito menos revelando qualquer intenção de promover um “strip-tease” de supostas “vestes judaicas” aos mandamentos constantes do Decálogo, pois isso simplesmente NÃO EXISTE. É mera astúcia de retórica que não se ancora em nada realmente concreto em estudos sérios na área da Teologia.

O Presb. da Silva a certa altura especula sobre as razões por que, após pronunciar a lei audivelmente, Deus a registrou em pedra (pelo menos na primeira vez):

. . . se o sábado é um mandamento moral como alardeiam nossos oponentes, porque então precisou ser santificado? Ora, um mandamento moral não precisa ser santificado, pois é tal por natureza. Imagine Deus precisando santificar algo que por natureza já o é!

Em primeiro lugar, o que Deus santificou não foi o mandamento, e sim o dia. O mandamento diz respeito ao dia a ser santificado, ou seja, separado para uso sagrado. Ora, Deus já é absolutamente santo, e não precisa santificar nada para Si, pois o fez para o homem (cf. Marcos 2:27).

Em segundo lugar, ele confirma que realmente não pode estar falando em nome dos evangélicos, como pretensamente faz no princípio de seu material, já que fala que os “oponentes” ensinam que o sábado é um mandamento moral. Sim, porque autoridades evangélicas e as Confissões de Fé da comunidade evangélica ensinam exatamente isto, colocando-se assim na “oposição” do Presb. da Silva. E com razão, pois noutros pontos ele também revela-se de candeia às avessas com o pensamento desses documentos e autores cristãos. Vejamos alguns exemplos:

Pergunta 116. Que se exige no quarto mandamento?

R: No quarto mandamento exige-se que todos os homens santifiquem ou guardem santos para Deus todos os tempos estabelecidos, que Deus designou em sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete; que era o sétimo desde o princípio do mundo até à ressurreição de Cristo, e o primeiro dia da semana desde então, e há de assim continuar até ao fim do mundo; o qual é o sábado cristão, e que no Novo Testamento se chama Dia do Senhor. - Ref.: Is 56.2, 4, 6, 7; Gn 2.3; I Co 16.2; Jo 20.19-27; Ap 1.10 (Catecismo Maior). -- Destaques acrescentados.
 

P. 103. Que é que Deus requer no quarto mandamento?

Primeiro, que o ministério do Evangelho e a educação cristã sejam mantidos e que eu freqüente diligentemente a igreja, especialmente no dia do Senhor, para ouvir a Palavra de Deus, para participar dos santos Sacramentos, para invocar publicamente o Senhor e para prestar serviço cristão aos que estiverem em necessidade. Segundo, que eu cesse a prática de minhas obras más todos os dias de minha vida, permita que o Senhor opere em mim pelo seu Espírito, e assim. comece nesta vida o descanso eterno. (Catecismo de Heidelberg) --Destaques acrescentados.
 

7. Por instituição divina, é uma lei universal da natureza que uma proporção de tempo seja separada para a adoração a Deus. Por isso, em sua Palavra--através de um mandamento explícito, perpétuo e moral, válido para todos os homens, em todas as eras--Deus determinou que um dia em cada sete lhe seja santificado,  como dia de descanso. Desde o começo do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia era o último da semana; e, desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que é chamado “Dia do Senhor”. A guarda desse dia como sábado cristão deve continuar até o fim do mundo, pois foi abolida a observância do último dia da semana. (Capítulo 22, Adoração religiosa e o dia do Senhor-- Confissão de fé Batista de 1689)--Destaques acrescentados.15. Do Sábado Cristão

Cremos que o primeiro dia da semana é o dia do Senhor, ou o sábado cristão; e deve ser mantido sagrado para propósitos religiosos, pela abstenção de todo o labor secular e recreações pecaminosas; pela observância devota de todos os meios de graça, tanto privado quanto público; e pela preparação para aquele repouso que restará para o Povo de Deus. (XV -- Confissão Batista de New Hampshire)

Pergunta. O que se exige no quarto mandamento?

Resposta. O quarto mandamento exige que sejam reservados santos a Deus os tempos que Ele determinou em Sua Palavra, especialmente um dia completo dos sete, que deve ser um sábado santo a Ele (Levítico 19:30). (Pergunta 50, Catecismo da doutrina Batista).

Tais Confissões de Fé ainda vigoram com todo peso, não são apenas expressões de eras passadas, refletindo algum período “intermediário”, formativo, até atingirem uma suposta maturidade, pela qual desenvolvessem uma “moderna linguagem teológica”, como parecia ser inicialmente o discurso de da Silva, até tê-lo modificado um pouco, pelas circunstâncias de isso ser totalmente infundado, como demonstramos ao citar autores bem modernos que empregam a mesma linha de pensamento desses antigos documentos cristãos . Essa alegação rebuscada termina significando, na verdade: todos os princípios de nove mandamentos dos Dez Mandamentos aplicam-se aos cristãos, menos o sábado.

Toda essa conversa de “moderna linguagem teológica” e “roupagem judaica” é pura  enganação, só e unicamente visando a livrar-se do mandamento mais negligenciado da lei, como diz a revista Christianity Today ao fazer crítica favorável ao livro de Bacchiocchi Divine Rest for a Restless Humanity. Creio que ele próprio sabe disso, mas prefere prosseguir no seu jogo retórico para ver no que vai dar. . .

Contudo, analisando sua argumentação de que Deus não precisaria santificar o sábado por ser um mandamento moral por natureza, eu pergunto: o que há de “moral” em abster-se de adorar a Deus por meio de imagens, ou não pronunciar o Seu santo nome em vão? Logicamente é o princípio de dedicação a Deus de máximo respeito e o reconhecimento de Seu senhorio. Será que entre os anjos celestiais haveria essa preocupação direta de não adorarem imagens? Certamente não havia a prática de confeccionar-se imagens no céu, antes da criação do homem, mas adorar a criatura em lugar do

Criador era o princípio moral envolvido no pecado, ou “transgressão da lei”, por Lúcifer. Na adaptação da “lei natural” de Deus que prevalecia desde a eternidade às circunstâncias humanas é que a questão das imagens entrou, pois trata-se de um costume humano praticado pelos pagãos contra que Deus desejava preservar o Seu povo.

O mandamento do sábado foi “criado” para o homem sobre a terra, santificado por Deus para o homem, pois Deus já é absolutamente santo e não necessita de santificar nada para Si. O que havia de moral nesse mandamento? O mesmo princípio de dedicar a Deus especial homenagem como Criador do céu e da terra. Deus sabiamente uniu duas coisas--o necessário descanso físico e mental para o homem (necessidade natural) com essa dedicação de tempo exclusiva a Sua adoração, louvor e comunhão vertical e horizontal (com Deus e os semelhantes). Isso é confirmado pela própria citação que ele faz de um importante pesquisador cristão, Finney. Então, analisemos sua própria cita:

“A lei moral é uma regra de ação moral com sanções” e mais “É isso que se entende por lei da natureza. É a lei ou regra de ação imposta a nós por Deus na natureza e pela natureza que ele nos deu”. . .“É a lei da natureza, a lei que a natureza ou constituição de todo agente moral impõe a si próprio e que Deus nos impõe porque é inteiramente adequadas a nossa natureza e relações, sendo, portanto, naturalmente obrigatória para nós” (págs. 45, 46, 48, 314).

Estamos sujeitos ao espírito ou a letra da lei?  “Para a letra da lei moral é possível haver exceções” (pág.290).

Existe algum exemplo a ser dado?

“Os mesmos princípios se aplicam à profanação governamental do sábado. O sábado é uma instituição Divina clara, fundamentada nas necessidades dos seres humanos. A letra da lei do sábado proíbe todo trabalho de todo tipo e sob todas as circunstâncias nesse dia. Mas conforme já disse numa aula anterior, o espírito da lei do sábado, sendo idêntica ao da lei da benevolência, às vezes requer a violação da letra da lei. Tanto governos como indivíduos podem e devem fazer no sábado tudo o que seja claramente exigido pela grande lei da benevolência” (pág. 316)

Muito bem, então é este o fundamento do sábado--as necessidades materiais dos seres humanos aliadas ao princípio de respeito a Deus como Criador. Tal associação é feita pelo próprio Deus ao “descansar, abençoar e santificar” o sétimo dia na Criação, fato que é confirmado no próprio texto do mandamento do sábado em Êxodo 20:8-11: “o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou”.

Logicamente a letra da lei é fria e não leva em conta casos especiais. Daí as distorções que possam derivar de tal fato, o que leva um testemunha de Jeová, por exemplo, a preferir ver um filhinho morrendo à míngua sobre um leito hospitalar a permitir que um médico efetue uma transfusão sangüínea salvadora. Mas “a vida é mais do que o sustento”, como disse Jesus, e nada pode ser mais sagrado do que a própria vida. No sábado também a preservação da vida terá prioridade sobre a letra da lei, pois Jesus o ilustrou nos seus debates com os líderes judaicos, tão mal compreendidos por tantos cristãos, dado que muitos de seus instrutores religiosos confundem também as coisas nesse ponto.

Ao Jesus declarar-se “Senhor também do sábado” (Marcos 2:28) Ele o fez num desses debates com os líderes judaicos, não para sugerir poder negligenciar o mandamento ou alterá-lo, mas como Aquele que zela pela correta observância do mesmo. Na mesma base é que Cristo zelou pelo culto no Templo expulsando de lá os cambistas e declarando num outro debate: “Aqui está quem é maior do que o Templo” (Mat.12:6).

Agora, tudo quanto Finney diz aplica-se, logicamente, ao domingo, para os que o observam, pois para os grandes próceres cristãos do passado e do presente a guarda do domingo devia aplicar-se tal e qual era o caso do sábado de Israel. Alguns até o chamam “sábado cristão ”. Prova disso é que existe nos Estados Unidos uma instituição cujo escritório tive oportunidade de visitar, em Atlanta, Ga., ligada à Southern Baptist Convention [Convenção Batista do Sul], chamada ”Aliança do Dia do Senhor”. Entrevistei-me pessoalmente com o seu diretor na época, Rev. Jack Lowndes, e inteirei-me dos propósitos da mesma que são basicamente incentivar uma mais fiel observância do dia de repouso, seja o sábado ou o domingo pelos cristãos  (preferentemente o domingo, da maioria). E para tanto eles mantêm conferências, publicam a revista Sunday e promovem vários tipos de outras atividades nesse respeito. Posteriormente o Dr. Bacchiocchi conta que foi convidado pelo seu diretor atual a realizar palestra num dos encontros.

Assim, mais e mais se confirma que as noções de da Silva sobre a vigência da lei e a motivação por trás da guarda do domingo simplesmente não batem com o ponto de vista dos mais diferentes líderes, autores e próceres cristãos do passado e do presente.

A seguir, temos a linguagem sofismática e descaridosa do nosso oponente ao dizer:

Se Adão foi criado no sexto dia não justificaria ele ter de descansar já no dia seguinte, sem falar que ele estaria quebrando o mandamento de primeiro trabalhar seis e só então, descansar um, pois só merece o descanso divino quem trabalha. Mas se pelo contrário, ele manteve o mandamento corretamente, seu descanso iria cair numa sexta feira e não no sábado. Não, Adão não guardou o sábado, nada, absolutamente nada nas escrituras justifica isto. Todas essas escoras ruem entre os escombros da sofismática interpretação em torno de Mc.2:27 pois são erigidas sobre bases falsas de premissas contraditórias, uma mistura de sofisma com subterfúgio.

Lembramos que este seu empenho em ofender os adventistas e demais observadores do sábado como sofismáticos por dizerem que: a) o sábado é mandamento moral; b) procede da criação do homem, atinge diretamente importantes autores, próceres e Confissões de Fé cristãs evangélicas, que dizem A MESMA COISA e que estão realmente às avessas com o pensamento de da Silva, conquanto ele se apresente voluntariamente falando em favor de toda essa comunidade sem, porém, tê-la consultado antes. Isso não parece nada ético.

Analisemos primeiro, porém,  mais essa suposta “dificuldade técnica” com o primeiro sábado de Adão. É verdade, Adão foi criado no 6o. dia, e já no dia seguinte ocorre o sábado no qual Deus “descansou”, “abençoou” e “santificou” (Gên. 2:2, 3). Então temos Deus cessando Sua atividade e estabelecendo um dia especial (para Si próprio?) enquanto Adão alheava-se inteiramente dessa santificação do dia e já mostrava sua independência com relação ao Criador! E isso num dia santificado, ou “separado” por Deus, não para Si mesmo, pois Deus já é absolutamente santo e nada precisa santificar para Seu próprio uso ou benefício. Claro que o Senhor convidou Adão a com Ele desfrutar do descanso e apreciação da obra criada. Foi um sábado muito especial e feliz, um privilégio inenarrável do nosso primeiro pai, já experimentando o seu primeiro sábado tão logo criado, o que não tem importância nenhuma, pois ele estava na companhia de Deus, adorando-O e honrando-O como Criador, que é o objetivo do próprio sábado!

Por outro lado, se essa é uma “dificuldade técnica” tão tremenda que anula o princípio do sábado, todo aquele que aceitar a mensagem do sábado tem que ser batizado exatamente ao pôr do sol do sábado e início do domingo para não falhar na sua primeira semana de cristão sabatista e cumprir rigorosamente a quota dos “seis dias trabalharás”. Mas, logicamente, o presbítero achará irrelevantes os “usos e costumes” dos sabatistas, então consideremos um dos “filhos dos estrangeiros” que aceitassem os termos do concerto de Deus para Israel, em Isaías 56. A mesma situação se daria--só podia aceitar esse concerto e unir-se ao povo escolhido de Deus exatamente ao findar-se o pôr do sol do sábado, com o início de uma nova semana.

Contudo, o problema prevalece para o domingo, pois, como acentuei, o princípio do domingo é de continuidade da norma do sábado, com todos os “direitos e deveres” que se aplicavam ao dia, como praticado pelos filhos de Israel (mudando-se apenas de “pôr do sol” para meia-noite). É assim como entendem importantes autoridades do mundo evangélico, interpretando corretamente o que estipulam as suas Confissões de Fé históricas.

Então, são sofismas e mais sofismas, as instrumentalidades do erro para engabelar o “respeitável público” num deplorável exercício de indução explícita para levar as pessoas a crerem que está tudo bem em passar por cima do “Assim diz o Senhor” das Escrituras. É realmente lamentável. . .

No artigo que redigi--“Decálogo: Ruptura ou Continuidade?”--tendo convidado outros a escreverem outro que o conteste para posterior submissão de ambos em nossa homepage, desde que com idêntica extensão de texto, apenas deixei as passagens bíblicas relativas ao tema fluírem naturalmente. Assim, em apenas 4 páginas, de fonte Times New Roman-12, consegui demonstrar a verdade da continuidade, e não ruptura, da legislação moral divina do Velho Testamento no tempo da “dispensação cristã”. Os que tentaram contestá-lo para defender a tese da ruptura demonstraram que não conseguem limitar-se ao mesmo espaço indicado porque simplesmente não têm como permitir que a exposição bíblica flua naturalmente, deixando as várias referências à lei divina no Novo Testamento falarem por si mesmas. Em vez disso, vêem-se forçados a recorrer a longas exposições contornando as claras evidências bíblicas que podem ser demonstradas sem requerer grande espaço.

Enumero abaixo 10 itens ou pontos levantados no referido artigo enriquecidos com alguns textos adicionais.

 1o.) - A obediência à lei não propicia méritos salvíficos a ninguém, pois entra no campo da santificação, não da justificação. Devemos, porém, ter em mente que sem santificação “ninguém verá o Senhor” (Heb. 12:14).

2o.) - A obediência à lei divina não é para ser tida como uma penosa obrigação, mas deve, antes, ser uma demonstração de nosso amor a Deus e ao próximo. “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). É o fruto de uma vida guiada pelo Espírito em que o pecado foi abandonado (Romanos 8:3, 4; Gál. 5:16-21). Pecado, pela definição bíblica, é “transgressão da lei” (1 João 3:4).

3o.) - A noção de continuidade do Decálogo como regra de conduta cristã corresponde à tese de credos e declarações de fé históricos de praticamente todas as várias igrejas evangélicas protestantes (ver o adendo ao final).

4o.) - Essa noção também corresponde ao pensamento dos mais ilustres líderes e autores cristãos do passado e do presente, como Calvino, Wesley, Lutero, Moody, Spurgeon, Billy Graham, John Davis, James D. Kennedy, O. S. Boyer, Amaral Fanini, Harold Brokke, Dinelcir de Souza Lima, etc. (ver adendo ao final).

5o.) - Ao Jesus dizer em Mateus 5:17-19 que não veio abolir a lei, mas cumpri-la, todo o contexto enfatiza, não o fim da vigência da lei, mas sua permanência. Cristo incentiva a obediência dessa lei  (vs. 19). Os princípios dessa lei deviam ser compreendidos (e praticados) de forma muito mais profunda do que os fariseus e escribas o faziam (vs. 20). Em todo o Sermão do Monte não se encontra qualquer sugestão de abolição do decálogo divino, para ser substituído por outra norma de conduta.

6o.) - Quando um doutor da lei quis apanhar Jesus em contradição daquilo que havia aprendido em termos da lei de Israel, ficou gratamente surpreso em ouvir Dele a confirmação, não negação, da vigência dessa lei, baseada que é no princípio de “amor a Deus” e “amor ao próximo” (ver Marcos 12:32-34).

7o.) - Ao propor um novo mandamento Jesus demonstrou a coerência de Seu “novo mandamento” com a antiga lei moral divina, que tem a mesma base: o amor (João 13:34, cf. 14:15). Logo, a lei de Cristo e a lei de Deus, são uma só e a mesma.

8o.) - O apóstolo Paulo confirmou esse princípio básico da lei em Romanos 13:8-10, citando alguns mandamentos mas demonstrando que tinha em mente o conjunto de todos como firmando-se sobre a base do amor. Tiago e João manifestaram a mesma noção quanto à lei de Deus, ou de Cristo, tida como uma só e a mesma por ambos esses autores (Tia. 2:8-12; 1 João 2:7; 3:21-24; 4:7-11, 21).

9o.) - O golpe mortal na teoria da descontinuidade do padrão divino de conduta para os cristãos do Velho Testamento para o Novo é a promessa de um Novo Concerto que Deus faz com o Seu povo na dispensação cristã pelo qual escreveria e imprimiria Sua lei nos corações dos que o acatassem. A promessa contida em Hebreus 8:6-10, representa uma reiteração da mesma feita antes aos filhos de Israel como transmitida no livro de Jeremias, cap. 31, vs. 31-33. Os leitores hebreus-cristãos da epístola entenderiam perfeitamente bem que essas “Minhas leis (de Deus)” eram as da promessa a Israel no passado--o decálogo, contendo todos os mandamentos, inclusive o do sábado do sétimo dia, e não há como provar que estaria de fora dessas “Minhas leis” da divina escrita. Em 2 Coríntios 3 Paulo usa a ilustração “tábuas de pedra/tábuas de carne” reforçando a idéia de que o conteúdo INTEGRAL das tábuas de pedra (o Decálogo) estaria nas “tábuas de carne” na ministração desse Novo Concerto, que tem o caráter de ser respaldado pelo Espírito Santo (Ezeq. 36:26, 27; Rom. 8:3, 4, 7 e 8).

10o.) - Parece mais do que óbvio, que os pregadores da noção de ruptura da legislação moral divina só visam a eliminar UM mandamento, já que todos os demais permanecem intactos. Não passa tudo de uma pregação anti-sabática, como uma forma de encontrar pretextos para justificar a negligência evidente das igrejas cristãs evangélicas de observarem o Dia do Senhor bíblico, já que acataram a tradição católica romana da observância do domingo (seja oficialmente como o “dia do Senhor” comemorativo da Ressurreição de Cristo, ou como um feriado conveniente para suas reuniões principais, vagamente ligado à Ressurreição).

Mais adiante, ocorre essa afirmação:

Jesus ensinou sobre guardar a lei, no entanto era TODA A LEI e não só os Dez Mandamentos. O contexto de forma alguma sugere dizer que esta lei era apenas os dez mandamentos. Este argumento fica por conta do senhor....É como o senhor bem disse “Basta deixar o texto falar por si, sem pressupostos”.

Quando se lê o sermão do monte, deixando o texto falar por si só, sem pressupostos, percebe-se que a discussão de Cristo o tempo todo trata sobretudo das relações criatura-criatura, e Criador-criatura, com referências a este último aspecto em menor escala (ensinar a orar, o buscar primeiro o Reino e Deus. . .). Pelos próprios intertítulos das várias seções dos capítulo 5 a 7 de Mateus pode-se perceber qual é a intenção do Cristo neste discurso: as bem-aventuranças, os discípulos--sal da terra e luz do mundo, a não abolição da lei e a necessidade de os cristãos observá-la e ensinar outros a fazê-lo, o que disseram os antigos em contraste com o princípio superior e espiritual da lei (perdido de vista pelos líderes judaicos), o adultério, a vingança, “Do amor ao próximo” (5:43-48), “Da prática da justiça”, como dar esmolas, como orar, como jejuar, os dois senhores, a solicitude pela vida, a proibição do juízo temerário, as duas estradas, os falsos profetas, os dois fundamentos. A preocupação básica, portanto, é ressaltar exatamente esses princípios que fazem parte integral dos dez mandamentos. O povo poderia até continuar cumprindo os ritos cerimoniais prefigurativos, mas no devido tempo entenderiam o seu sentido, caso aplicassem devidamente os ensinos do próprio Cristo.

As palavras de Cristo, “ouvistes o que foi dito aos antigos. . . Eu, porém, vos digo”, devem ser entendidas à luz de Mateus 5:19 e 20:  “Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”.**

Que o “será considerado mínimo no reino dos céus” não dá margem para alguém ir para o céu assim mesmo, enquanto violador dos mandamentos (uma esperança que a certa altura o Presb. da Silva parece expressar, com que intenções seria?) fica claro neste verso 20--“jamais entrareis no reino dos céus”.

Destarte, todo o discurso de Cristo em Mateus 5-7 não visa a ensinar qualquer nova lei, e sim uma nova mentalidade de captar o sentido espiritual mais profundo da lei divina. Não há preocupações com cerimonialismo, pois a ênfase não está no ritual, e sim nos princípios morais relativos ao relacionamento humano e na ligação particular e íntima da pessoa com Deus (oração, jejum, submissão ao Senhor dos céus sobre os da terra. . .) e com o próximo. Isto posto, é interessante ele dizer que “essa lei não era apenas os Dez Mandamentos”.  Bem, toda a legislação relativa às relações Criador-criatura/criatura-criatura derivam direta ou indiretamente do Decálogo. Seja como for, Não EXCLUI o decálogo nem o substitui. E nem o anula, do contrário Jesus estaria sendo extremamente contraditório ao dizer: “Não vim para abolir a lei, vim para cumprir”, especialmente diante do que diz NESSE CONTEXTO IMEDIATO em Mateus 5:19, uma linguagem totalmente inadequada se Sua intenção fosse falar do fim dessa lei.

Vejamos alguns comentários de gente de grande capacidade e conhecimento teológico sobre estes dizeres de Cristo. Primeiramente consideremos o que disse William C. Taylor, ministro, escritor e mentor batista de grande projeção, referindo-se especificamente ao Decálogo, num opúsculo de sua autoria chamado Os Dez Mandamentos:

Seria uma bênção se de cada púlpito no mundo trovejasse ao povo a voz divina do Decálogo, pois a Lei é o aio para guiar a Cristo. A Lei aqui [em Mateus 5:17-19] não é nenhuma lei civil, nem a de Israel. Não se trata de cerimônias levíticas. Trata-se de religião no seu âmago, na moral, e especialmente trata-se do pecado, de criar uma consciência acerca do pecado. . . O decálogo fica. A lei de ordenanças morre na cruz do Calvário e é destruída por Tito, na queda de Jerusalém”.Os Dez Mandamentos são quase todos repetidos no Novo Testamento. . . São aumentados e reforçados no cristianismo”. (Págs. 5, 6 e 42)

Por seu turno, o Dr. James D. Kennedy, o já mencionado evangelista presbiteriano, com ampla programação de rádio e TV nos EUA (que apoiou integralmente o Juiz Roy Moore em seu projeto do monumento ao Decálogo no Alabama), ao começar uma de suas mensagens citava as palavras de W. C. Taylor, sobre o trovejar “ao povo a voz divina do Decálogo”, acima reproduzidas. E completou:

Há aqueles que declaram que [o Decálogo] foi abolido por Cristo e não mais vigora hoje. Mas o que as Escrituras ensinam? As Escrituras não ensinam que Cristo jamais anulou, ab-rogou ou aboliu o sábado ou qualquer dos mandamentos. Pelo contrário, a Escritura muito claramente ensina que os Mandamentos permanecem em vigor hoje e foram fortalecidos por Cristo que declarou que não só os atos, mas o pensamento e a palavra são parte daquilo que Deus nos concedeu. Ele claramente afirma que se nós O amamos, guardaremos os Seus mandamentos. . . . Mesmo no Livro do Apocalipse, muito depois, lemos que ‘aqui está a paciência dos santos [de Deus], os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus’. No exato último capítulo da Bíblia lemos sobre aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm direito à árvore da vida.

Salomão Ginsburg, afamado ministro batista, em seu livro O Decálogo ou os Dez Mandamentos, págs. 4 e 7, declara:

As idéias que alguns fazem da Lei de Deus são errôneas e muitas vezes perniciosas. O arrojo ou a ousadia dos tais, chega ao ponto de ensinar ou fazer sentir que a Lei já foi abolida. . . . Os que ensinam a mentira de que a Lei não possui mais valor . . . ainda não leram com certeza os versículos que nos servem de texto (Mat. 5:17-19). Deus não muda, nem o Seu poder, nem a Sua glória; os Seus preceitos são eternos.

Vamos mais longe: essa Lei é a base da moralidade social, e será crível que tal base seja abolida, isto é, que se mate, adultere, furte, calunie? Não! Essa Lei é toda digna de nossa admiração, respeito e acatamento. Jesus veio pôr em prática a Lei e não abolir. -- Destaque acrescentado.

E eis mais algumas declarações impressionantes nessa linha:
Não deveríamos supor que os Dez Mandamentos eram disposições inteiramente novas quando foram proclamados no Sinai, pois a palavra hebraica torah é empregada em tais passagens anteriores do Velho Testamento como Gênesis 26:5; Êxodo 12:49; Gênesis 35:2  13:9; 16:4, 28; 18:16, 20. [Gênesis 4:26; 14:22; 31:53 são citados para o princípio do terceiro; Gênesis 2:3 e Êxodo 16:22-30 para o quarto; Gênesis 9:6, para o sexto; e Gênesis 2:25 para o sétimo]. O decálogo pode, destarte, ser considerado a plena e solene declaração dos deveres que haviam sido mais ou menos revelados previamente, e essa enunciação pública teve lugar sob circunstâncias absolutamente singulares. É-nos dito que ‘as dez palavras’ foram pronunciadas pela própria voz de Deus (Êxo. 20:1; Deut. 5:4, 22-26); e duas vezes após escritas sobre tábuas de pedra com o dedo de Deus’ (Êxo. 2:12; 31:18; 32:16; 34:1, 28; Deut. 4:13; 5:22; 9:10; 10:1-4), assim apelando igualmente aos ouvidos, aos olhos, e realçando tanto sua suprema importância e permanente obrigação. -- William C. Procter, Moody Bible Institute Monthly, outubro de 1933.

Sobre o evento da entrega da lei, o Presb. da Silva perde-se em detalhes inúteis para provar não se sabe bem o quê. Ele cita várias passagens para tentar demonstrar que “os dez mandamentos” seriam O CONCERTO, e não a sua base. Insiste, com letras em destaque, na interpretação literal de Deut. 4:12, 13, “Então, vos  anunciou ele o seu concerto, que vos prescreveu, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra” (Dt.4:12-13), complementando com expressões tais como “as tábuas do concerto que o Senhor fizera convosco”as palavras do concerto, os dez mandamentos. (Êx.34:27,28), e “as tábuas do pacto” (Hebreus 9:4). Daí alega triunfalisticamente:

O peso da prova é tão contundente que dispensa qualquer comentário. É exigido um esforço descomunal, uma verdadeira ginástica teológica para tentar rebater tais provas que per si, já demonstra que os argumentos sabatistas estão fadados ao fracasso. Pois para as coisas claras não há necessidade de qualquer interpretação...

Não consigo ver motivo para tanto alarde e auto-glorificação de alguma “grande descoberta” teológica, mesmo porque os destacados próceres e autoridades cristãs não dão nenhuma ênfase a tais detalhes lingüísticos, certamente porque compreendem bem o sentido das palavras bíblicas e não analisam o Escrito Sagrado com os mesmos pressupostos preconceituosos do Presbítero.

No material que “colei” em minha exposição a ele remetida primeiramente, ocorre esta explicação de Arnaldo Christianini que não tem por que rejeitar: De fato, em Deut. 4:13 se afirma que os Dez Mandamentos (dez palavras, no original) eram o concerto, porém essa maneira de expressar é um modismo hebraico. Do mesmo modo Moisés  dissera  aos  israelitas: “. . . tomei o vosso pecado, o bezerro que tínheis feito, e o queimei”. Deut. 9:21. Em linguagem exata, o pecado era o volver deles para um falso deus--um ato da vontade rebelde--mas o bezerro era a base daquele pecado, apenas aquilo em relação ao qual fora o pecado cometido. Assim também, o concerto fora feito pela vontade dos israelitas em resposta a Deus (Êxo. 19:5-8); os Dez Mandamentos eram a base--o ponto de referência sobre que fora o concerto feito. Esta é claramente a legítima relação do decálogo com o concerto.

Em Êxodo 24:8 lemos: “Então, tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis palavras” da lei, a elas dizendo respeito.

O que ele se empenha em provar torna-se, na realidade, uma prova de ocorrer de sua parte um mero “tropeço em linguagem”. É tão simples de entender. . .  Agora, eu perguntaria ao Presb. da Silva--Moisés tomou mesmo literalmente e queimou “o pecado do povo”? Ou foi o bezerro, a “base” de tal pecado?

O fato de Moisés ressaltar “tábuas do concerto”, “tábuas do pacto” mostram que essas tábuas continham o fundamento legal de tal concerto. Não eram O concerto em si. Se fosse, nada mais natural que, então, o texto dissesse que Moisés tomou o concerto e o pôs dentro da arca. Tal linguagem, porém, nunca ocorre.

Depois do proferimento ao povo desses Dez Mandamentos, eles foram escritos nas tábuas de pedra pelo próprio Deus. E o sábado foi pronunciado junto com os demais mandamentos da “lei natural”, “lei moral”, ou seja lá o que quiserem chamar.

Mas o interessante é que o próprio Presbítero, talvez sem o perceber, ao aparentemente “colar” material alheio, faz esta declaração numa enumeração mais adiante das características do Novo Concerto:

7. A Base da antiga aliança era[m] as dez palavras Ex 34:27, mas ele próprio [Cristo] é a própria palavra de Deus e conseqüentemente a nossa lei (João 1:1; Hb. 1:1).--(Destaque acrescentado).

Pronto, está resolvido! Aí está, ele próprio admitindo que “as dez palavras” eram a “base” da aliança E NÃO A PRÓPRIA ALIANÇA. Agora, posso também dizer quanto a isso, usando suas próprias palavras: O peso da prova é tão contundente que dispensa qualquer comentário. É exigido um esforço descomunal, uma verdadeira ginástica teológica para tentar rebater tais provas que per si, já demonstram que os argumentos de da Silva estão fadados ao fracasso. Pois para as coisas claras não há necessidade de qualquer interpretação. . . Disse Jesus: “Pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado. . .” Mateus 12:37.

Partindo a seguir para uma nova “tática”, o Presb. da Silva procura encontrar “dificuldades técnicas” que revelariam a virtual impossibilidade de observar o sábado, como sejam, o fato de que “Não deviam ascender fogo Ex. 35:3”; “Não deviam cozinhar naquele dia Ex. 16:23”.; “Não era para saírem de casa. Ex.16:29”; “Os israelitas deviam apedrejar aqueles que não guardassem o sábado. Ex. 31:14”; “Era para os filhos de Israel obrigarem seus escravos a guardá-lo também Ex. 20:10”; “Não deveria comprar nem vender neste dia”. E pergunta desafiadoramente:

Cumprem isto os sabatistas? Não usam eles do trabalho de outros no sábado quando ascendem a luz elétrica, compram uma passagem de ônibus para ir ao culto, saem de casa para ir a igreja em longas distâncias coisa que era vedado pela lei. Sugiro que sejam coerentes também no cumprimento deste mandamento punindo aqueles que não guardam o sábado com a lei do apedrejamento. Pois invoca-se inutilmente o auxilio da lei quem a infringe.

Primeiramente é bom lembrar que todas os textos citados acham-se no contexto da estada do povo no deserto, quando recebiam diariamente o maná e não precisavam cozer, para o que nenhum fogo se fazia necessário acender. Também lembremo-nos que o acender fogo naquela época era uma atividade bem diferente do que temos hoje. Com apenas um “click” num acendedor automático, ou um riscar de um fósforo,  . . . pronto, temos fogo ou luz. Na própria regra de que não eram para sair de casa percebe-se que isso não tinha aplicação permanente, pois o dia seria para “santa convocação”, como se explicará mais adiante.

Em segundo lugar, se há tão incríveis dificuldades e barreiras para cumprir um mandamento divino, então o problema está com o Legislador. Deus seria o responsável pela irrazoabilidade de tal norma. E uma tal lei de modo algum poderia ser considerada “perfeita”, “santa, justa, boa, espiritual, prazerosa” (Sal. 19:7; Rom. 7:12, 14, 22, 25; I Tim. 1:8).

Em terceiro lugar, é de etar a ignorância quanto aos usos e costumes judaicos de alguém que se dispõe a escrever uma tão longa dissertação bíblica especializada. Dizer que o sábado não era dia de sair de casa é a maior estupidez que já vi em termos de exegese bíblica. E para que existia o Templo, depois as sinagogas, se todo mundo tinha que ficar sem sair de casa?  As instruções divinas quanto ao sábado eram de que seria o dia para reunião solene de “santa convocação” (Levítico 23:3). Só para citar do Novo Testamento, Jesus ia nos sábados à sinagoga (Lucas 4:16). Paulo aos sábados pregava nas sinagogas, ou quando não havia nenhuma, buscou um lugar onde cultuar a Deus junto a um rio (Atos 13:14, 42; 16:13). Em certo local ficou um ano e meio, todos os sábados indo à sinagoga discutir a Bíblia com os judeus, os quais abandonaram o local, ficando somente os gentios, e Paulo nunca se lembrou de dizer-lhes para passarem a se reunir aos domingos (Atos 18:1-4 e 11).

Jesus ensinou os princípios de observância do sábado mostrando que tudo quanto sirva aos melhores propósitos, inclusive de tratamentos de saúde e cura, são “lícitos” de se cumprir no sábado (Mateus 12:12). O exemplo de Cristo, que corrigia os extremos sobre a guarda do dia pelos fariseus, deve ser o modelo de nossa observância. Também é interessante observar que as supostas dificuldades com a guarda do sábado, pelas regras rigorosas apontadas, se aplicariam a uma correta observância do domingo, a levar-se em conta o que estabelecem as Confissões de Fé que chamam ao domingo “sábado cristão” e requerem um tratamento para o domingo segundo o que estabelecia o 4o. mandamento do Decálogo!

As circunstâncias de viver numa sociedade que não é “teocrática” torna a observância do sábado (ou do domingo) mais dificultosa, realmente. Mas as dificuldades para cumprir a lei divina não ser restringem ao mandamento do sábado. Como disse numa correspondência a uma consulente de nosso Ministério Sola Scriptura:

Primeiramente, Deus estabeleceu o sábado para o bem do homem, não para servir-lhe de perturbação e ser-lhe um peso. Jesus disse que “o sábado foi feito por causa do homem” (não por causa dos judeus), para o benefício de todos os seres por Ele criados, sobretudo nestes tempos de tanta tensão e inquietude.

Devidamente considerado, o sábado é uma indiscutível bênção e não há fundamento para falar em “sentido levítico” desse mandamento. Ao proclamá-lo no Sinai Deus não acrescentou a Ele regras insensatas que mais tarde foram adicionadas por religiosos fanáticos de Israel.
A própria irmã admite ser necessário ter um dia para descanso e especial dedicação a Deus. Pois bem, foi Deus quem o estabeleceu para um duplo propósito: para que o homem descansasse de suas obras ao longo da semana, e para que servisse de memorial a Sua criação e um dia especial para dedicar-se à Sua adoração.

É verdade, ninguém guarda o sábado perfeitamente, mas isso não se aplica só ao sábado. Ninguém guarda mandamento nenhum de modo perfeito, pois “a lei do Senhor é perfeita”, “santa, justa e boa” (Sal. 19:7; Rom. 7:12) e nós somos todos tão imperfeitos. . . Até nossas obras de justiça não passam de “trapos de imundície” (Isa. 64:6).

Jesus disse que “se me amais, guardareis os Meus mandamentos”. João diz que tais mandamentos “não são penosos” (I João 5:3). Temos aí um dos muitos paradoxos bíblicos. Como se pode considerar os mandamentos “não-penosos” quando a sociedade que nos rodeia não nos permite uma observância perfeita dos mesmos? Lembre-se, isso não se aplica só ao sábado. O mundo que nos rodeia incentiva acima de tudo o pecado, em suas várias formas: egoísmo, adultério, mentira, cobiça. . .

Eu diria que os mandamentos não são penosos para quem realmente ama ao Senhor de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (Mat. 22:36-42). Esse é o grande desafio: desenvolver esse tipo de amor a Deus e aos semelhantes ao ponto de que a obediência a Deus, por difícil que humanamente pareça, não se revele um peso, e sim um prazer.
Quanto ao fato de que os judeus não querem nem apertar um botão no sábado, ou caminhar certa distância nesse dia, onde na Bíblia o sábado é estabelecido nesses termos? Jesus veio corrigir as falsas concepções quanto à observância do sábado, que tinha sido desvirtuada pelos fariseus e saduceus de Seu tempo.

Em quarto lugar, não era só a transgressão do sábado que acarretava em morte. Todos os mandamentos violados eram motivo de condenação à morte na rigorosa lei penal de Israel (ou seja, menos o mandamento contra a cobiça, pois ninguém pode ler a mente humana). Inclusive há aquele conhecido texto sobre os filhos rebeldes que deviam ser apedrejados fora das portas da cidade. Que cristão pratica isso hoje? Claro que ninguém faz isso, pois a legislação penal de Israel é uma coisa, os princípios da lei moral são outra. Onde no decálogo se manda apedrejar alguém? É o caso da diferença entre a Constituição Brasileira e o Código de Direito Penal. Não são a mesma coisa, embora o último deva basear-se na primeira.

Agora, temos esta didática exposição do Presb. da Silva:
O termo “lei” e “mandamentos” em ambos os testamentos tem conotações diferentes. Dentro do contexto do VT a palavra “lei e mandamentos” sempre se referem aos ditames de Moises dado a Israel. Os israelitas estavam  debaixo da lei de Moises, sujeito ao velho concerto. Já no NT quando se fala em “seus mandamentos” ou na “lei de Cristo” deve-se levar em consideração o contexto da Nova Aliança e não o da antiga. Leva-se em consideração a Cruz e não o Sinai.

O que ele se esquece é que ao considerarmos a “lei” ou os “mandamentos” no contexto da Nova Aliança, nada é alterado quanto à nossa responsabilidade para com as normas morais divinas. Prova disso é que Paulo reitera (não restaura) o 5o. mandamento sobre a obediência dos filhos aos pais em Efés. 6:1-3 e aplica a promessa do mandamento do Velho Pacto apenas o adaptando às novas circunstâncias. Em lugar de que “se prologuem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Canaã) , temos a promessa para os cristãos de todas as terras: “para que . . . sejas de longa vida sobre a terra”.

E o texto de Hebreus 8:6-10 e 10:16 que é o que justifica o nome desta seção bíblica como “Novo Testamento”, trata do novo arranjo do Senhor com os Seus filhos, os que acatam os termos desse novo concerto: “Escreverei AS MINHAS LEIS em seus corações, e nas suas mentes as imprimirei”. Então, este é o contexto da Nova Aliança. E o sábado está aí incluído, pois o nosso desafio continua em pé--provar pelo contexto desta própria passagem (que é reprodução de Jeremias 31:31-33). No próximo segmento analisaremos a tentativa do Presbítero da Silva em respondê-lo.

A seguir, o Presbítero parte para mais uma de suas tiradas anti-adventistas que tem por base ou má informação, ou má intenção, ou ambas as coisas:

Os adventistas estão errados em admitir que sempre que se fala de mandamentos no NT o entendimento que se deva ter é que se refiram aos 10 mandamentos. É mais ou menos o que fazem as TJs com o “nome de Deus”. Sempre que encontram o vocábulo “nome” no NT dizem ser uma prova de que o tetragrama YHWH ou sua corruptela “Jeová” foi usado. Mesmo não tendo prova alguma, querem forjar uma prova.

Só que ele não apresentou nenhuma prova disso. A sua caricatura do que ensinam os adventistas não passa de um exercício em falsa alegação. É claro que há inúmeros mandamentos que não são necessariamente da lei moral, como “Ide por todo o mundo, pregai, batizai, ensinai. . .”, “pais, não provoqueis vossos filhos à ira”, “revesti-vos de toda armadura de Deus”, “orai sem cessar”, só para dar alguns exemplos ao acaso. . . O grande problema é essa prática lamentável de ‘malhar’, acusar infundadamente, tentar desmoralizar um oponente à base da calúnia gratuita, preconceituosa, desinformada e maliciosa. Jesus adverte seriamente os que assim agem em Mateus 12:36.

Agora, o outro extremo é querer EXCLUIR toda menção a mandamentos como NÃO SE APLICANDO aos Dez Mandamentos em geral, e ao sábado em particular. Isto é o que se vê em todos esses malabarismos exegéticos e eisegéticos do nosso contendor. Por exemplo, em Apoc. 14:12 o povo remanescente de Deus é caracterizado como “os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus”. Será que esses “mandamentos de Deus” aí referidos significaria TUDO, menos o Decálogo? Ou inclui o Decálogo? O que é mais natural e lógico de se perceber? E quando o próprio Paulo diz: “o que importa é observar os mandamentos de Deus” (1 Cor. 7:19), estaria ele pensando em todo e qualquer mandamento, ou ordenança divina, menos os da lei moral?

Esse tipo de raciocínio falacioso se acha no estudo de da Silva sob o título “A Natureza dos Mandamentos de Jesus” onde ele se esforça por provar que por tais “mandamentos” o Salvador apenas se refere ao princípio do amor entre os cristãos, ou entre os homens, citando João 13:34; 1 João 3:23, etc. Só que Ele se esquece que Jesus ressaltou o princípio subjacente de “amor a Deus” e lembrou o outro mandamento "semelhante a este" como sendo “amarás ao próximo como a ti mesmo” (ver Mateus 22:36-40).

Eis como expomos isso no texto paralelo de 10:32, 33, numa das matérias oferecidas ao nossos amigos, intitulada “Tiros’ Interpretativos Que Saem Pela Culatra”:

. . . a reação de Jesus foi: “Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do Reino de Deus”. Quanto à reação dos demais diante desse diálogo esclarecedor, eis como a Bíblia a descreve: “E já ninguém mais ousava interrogá-lo”.

Tivesse a resposta de Jesus indicado uma revolução na legislação divina para Seus seguidores, com ordenanças inteiramente novas, a reação do líder judaico seria bem outra! Ele sairia é dizendo que Jesus contradizia os ensinos de Moisés, anulando a lei dada por Deus para impor novos mandamentos. Afinal, sua intenção era exatamente pegar Jesus numa contradição!

Na verdade, aquele jurista judaico só poderia mesmo ter tal reação de aprovação a Cristo, pois Jesus nada mais fez do que citar-lhe as passagens de Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18, que ele bem conhecia. Ou seja, os “novos” mandamentos de amor a Deus e ao próximo não o eram em termos de tempo e sim de renovado significado, perdido de vista pela liderança judaica. . . .

A palavra grega utilizada para “novo” neste caso é kainós, que significa ‘algo novo em qualidade’, a mesma palavra empregada para “nova criatura” (2 Cor. 5:17) e “novos céus e nova terra” (Apo. 21:1). Não se trata de novo em substância (o que requereria o adjetivo néos) mas algo que já existia e que passa por uma renovação.

Conclusão:

A lei de Cristo e a lei de Deus são uma só e a mesma, pois Cristo declarou: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Eles não romperam, com Cristo estabelecendo nova legislação, suplantando a lei divina, como quase dão a entender certos “apologistas cristãos” que adotam uma postura a que chamaríamos “semi-antinomismo”. Sempre, em todos os tempos, a lei de Deus firmou-se no princípio de amor a Deus sobre todas as coisas (os primeiros quatro mandamentos) e amor ao próximo (os últimos seis mandamentos).

 Citando vários mandamentos do Decálogo, Paulo conclui em Rom. 13:8-10: “O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” [Obs.: ele diz “é”, e não “era”] (ver também Gál. 5:13 e 14). Ele cita alguns mandamentos, como, “não matarás” e “não adulterarás” e a seguir diz retoricamente, “e se há qualquer outro mandamento. . .”. Ou seja, ele está abrangendo todos os mandamentos do Decálogo, do qual cita alguns poucos. Isso  refuta totalmente a tese do fim da vigência da lei moral dos Dez mandamentos  como norma de conduta cristã. A teoria da “nova lei do amor” diferente e “superior” às normas dos Dez Mandamentos representa mais um “tiro” interpretativo que sai pela culatra.

Ao da Silva dizer que “Jesus deu mandamentos aos seus seguidores, mas nunca mandou guardar o Sábado (Jo.14:15,21; 15:10; I Jo.2:3; 5:3)” ele demonstra uma pobreza realmente franciscana de argumentação. Esquece-se que Jesus também não mandou ninguém abster-se de adorar imagens de escultura ou de falar o nome de Deus em vão. Significa isto que os Seus seguidores estão livres para praticar tais coisas? O interessante, porém, é que ele nem percebe, ao ler sua Bíblia, que na verdade JESUS MANDA OS SEUS SEGUIDORES GUARDAREM O SÁBADO SIM. Querem ver? Basta comparar Mateus 23:2 e 3 e Lucas 13:14: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles [os líderes judaicos] vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem”. O verso 1 diz que Jesus falou tais palavras “às multidões e aos Seus discípulos”.

Agora, em Lucas 13:14 encontramos os líderes judeus lembrando ao povo, que ia em busca de Jesus para obter cura, que deviam guardar o sábado fielmente. Então, era para “fazer e guardar” o que eles diziam, mas não dentro da visão distorcida deles, que lhes impediam acesso ao alívio de suas enfermidades, pois “é lícito fazer o bem no sábado” (Mateus 12:12).

Isso liqüida a questão do argumento de que Jesus  “nunca mandou guardar o sábado”. Neste caso é evidente que o Presb. da Silva revela-se pouco atento a esses pormenores sutis quando lê sua Bíblia, devido, certamente, a seus pressupostos anti-sabáticos e preconceito anti-adventista.

E vem mais argumento que demonstra mais falta de atenção ou compreensão na leitura bíblica por parte de nosso antagonista:

Paulo contrasta a lei da dispensação mosaica com a lei de Cristo. Ele chama a lei de Cristo de Lei do Espírito Rm. 8:2; diz que essa lei livrou-o da lei do pecado, algo que a lei mosaica nunca conseguiu fazer v. 3. Em Gálatas ele contrasta a lei de Moises com a lei de Cristo e diz que se você é guiado pelo espírito não está debaixo da velha lei. Esta lei também pode ser chamada de “lei da liberdade” pois é a que dá liberdade Gl.5:1,13, ao contrário da lei mosaica que escravizava Gl. 4:21,22, também é sinônimo de “lei real” Tiago 2:8,12, que nada mais é do que a lei do amor ensinada por Cristo.

Em última análise podemos dizer que a lei de Cristo e a lei de Deus são a mesma, pois Jesus também é Deus. Todavia seus mandamentos nada têm a ver com o decálogo. Não é porque alguns mandamentos são citados ao longo do NT que significa que o decálogo em si esteja em vigor hoje para os crentes da Nova Aliança. Diante do exposto acima o argumento de nosso oponente não prevalece. O que eles querem mesmo, contudo isso, é preservar o abrogado sábado judaico na igreja.

Podemos reverter essa linguagem preconceituosa é dizer, “o que ele quer mesmo, contudo, é descartar o sábado ‘judaico’ na igreja”. Interessante que só o sábado é “judaico”, por que não os demais nove mandamentos? Quando Paulo recomendou o 5o. mandamento aos efésios, seria tal mandamento “judaico”? A obediência dos filhos aos pais tem caráter realmente judaico, ou é de validade universal?

No mais, basta ler todo o contexto de Romanos 7 e 8 para perceber que Paulo não faz essa dicotomia entre “lei da dispensação mosaica” e “lei de Cristo”. Ele fala em “lei” simplesmente no sentido que os seus leitores compreenderiam de pronto tratar-se do Decálogo, quando não se referindo especificamente às normas rituais, como a circuncisão, por exemplo. Então, se ele chama a lei de Deus de “lei de Cristo”, isto cai no mesmo caso de quando fala do “Espírito de Deus e Espírito de Cristo” num só fôlego em Romanos 8:9: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”. E no vs. 11 ele se refere, no contexto imediato, ao “Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos”. Paulo costuma usar palavras intercambiavelmente com sentidos paralelos ou contrastantes. É o caso de como usa o termo “lei” em Romanos 7, ora falando dessa lei em termos positivos, como “santa, justa, boa, prazerosa”, ou aplicando o termo “lei” para referir-se ao princípio que inspira o pecado, a “lei do pecado e da morte”, contrastada com a “lei do Espírito de vida” ou ainda “lei da minha mente”.

Assim, o Apóstolo fala em estar “debaixo da lei” num sentido que nosso amigo simplesmente distorce, como é de praxe de todo semi-antinomista. Para ele, quando Paulo fala em estar “debaixo da lei” é para quem a queira obedecer. Contudo, basta um exame do contexto de passagens como Romanos 6:1-14 e Gálatas 5:16-21 para perceber que o sentido é exatamente o contrário: os que estão “debaixo da lei” não é por serem a ela obedientes, e sim por serem dela transgressores! O tema não é a prática da lei, e sim a prática DO PECADO. E qual é a definição bíblica de “pecado”? Eis outro texto que os antinomistas e semi-antinomistas detestam: 1 João 3:4-- “Pecado É [e não Era] a transgressão da lei”.

Em Gálatas fica bem patente que os que não são “guiados pelo Espírito”, e, conseqüentemente, estão “debaixo da lei” são os que praticam aquela série de pecados alistados nos vs. 19-21. Isso é tão claro de perceber! O próprio título da seção do capítulo 6 de Romanos nas várias versões bíblicas torna isto claro: “Livres do pecado [não da lei] pela graça”, traz a Almeida Revista; “Be dead to sin and alive to Christ” [estar morto para o pecado e vivo para Cristo], aduz a New International Version, “Sin Deposed in the New Life” [o pecado descartado na nova vida], traz o The New Testament in Modern English, “Dead to Sin but Alive Because of Christ” [morto para o pecado mas vivo por causa de Cristo], acrescenta a Contemporary English Version, da American Bible Society, “Dead to Sin, Alive to God”, [morto para o pecado, vivo para Deus], sintetiza The New King James Version, e, finalmente, a versão francesa de Louis Segond traz um título mais longo, porém bem didático neste respeito: “La grâce, loin d‘autoriser le péché, délivre de l‘empire du péché” [a graça, longe de autorizar o pecado, livra do império do pecado].

É isso, portanto. Basta ler o contexto em vez de pinçar textos isolados, apenas porque parecem favorecer certos pressupostos pré-adquiridos. Agora, é verdade que Paulo em1 Cor. 9:21 diz que não está sem lei de Deus, mas debaixo da “lei de Cristo”. Esta passagem é interessante pois mostra que “lei de Deus” e “lei de Cristo” são uma só e a mesma, na consideração dele. Agora, o uso da expressão “debaixo” confunde alguns nesta e outras passagens, o que é um perigo à luz de 2 Pedro 3:15-17! Mas é o caso do uso dinâmico de termos que Paulo pratica, como mencionamos acima.

Estar debaixo da lei de Cristo NESTE CASO é estar sob a sua jurisdição, assim como estar “debaixo da graça” em contraste com “debaixo da lei” em Romanos 6:14 significa estar sob a proteção da graça que não condena, como a lei. Logo, os condenados pela lei (não por obedecê-la, mas por não terem abandonado o pecado, como o contexto determina que seja entendido) é que se acham debaixo da mesma. Tão fácil de perceber. . .
Esta exposição esclarece muitas das demais coisas ditas no seu longo escrito que dispensa maiores explicações e desfaz muitas das arengas de nosso contendor sobre a questão da lei e da graça, tão má compreendida nos círculos evangélicos.

O homem do CACP a certa altura alega que “se percebe que a lei do Sinai não é a mesma lei do espírito de vida (segundo acredita nosso amigo adventista dizendo que ela é apenas renovada no coração).” No entanto, quando Deus deu a lei aos filhos de Israel no Sinai Moisés a comentou para o povo nestes termos: “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor teu Deus se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas a possuir; para que temas ao Senhor teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos. . . . Estas palavras que hoje te ordeno, estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Deut. 6:1, 2, 6 e 7).

Iria Deus dar ao povo uma lei que não fosse “do Espírito de vida”, se na exposição de Moisés ele acentua o “espírito” em que tal lei devia ser observada? Neste mesmo contexto é onde encontramos a famosa passagem mais tarde referida por Jesus: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma , e de toda a tua força” (vs. 5). O contexto de tais palavras se acha na interpretação que Moisés faz ao povo do sentido de tudo quanto viram e ouviram no excepcional evento do Sinai. Basta ler todo o capítulo 5 e 6 para percebê-lo.

E o próprio Presbítero lembra as palavras de Ezequiel 36:26 e 27 onde Deus promete ao povo como parte da promessa de restauração nacional: “Dar-vos-ei coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis”.

Ora, esta magnífica promessa era a intenção divina para Israel no passado. Já analisamos isso antes, que Deus queria dar àquele povo um novo começo de vida de dedicação a Ele em obediência plena, com o Espírito dando-lhes força para isso, enfim, que desenvolvessem a experiência que Davi alcançou, como declara a respeito de sua vida espiritual: “Agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a Tua lei” (Salmo 40:8). Esta seria a condição ideal para TODO o povo de Israel, caso acatasse as palavas e promessas divinas.

Mas o povo falhou outra vez. Eles não reconheceram Aquele que “veio para o que era Seu, contudo, “não O receberam”. Então a MESMA promessa da posse do Espírito é renovada a um Novo Israel, agora constituído de judeus e gentios.

E uma “prova” que o Presbítero quer apresentar para sua tese semi-antinomista é o que escreveu um obscuro autor assembleiano, Elinaldo Renovato*, em comentários da revista da escola dominical  de sua igreja, do 3º Trimestre de 2001, sobre o livro de Hebreus:

No Antigo Pacto, o culto era mais exterior: havia sacrifícios de animais, os rituais, a guarda dos sábados, das luas novas, etc. O Novo Concerto trazido por Cristo, em tudo é superior. A lei de Cristo é colocada no coração do homem.” E ainda faz uma comparação entre as duas alianças dizendo que a antiga aliança era escrita em pedras, mas que a nova é escrita no coração. Que na antiga era a lei, mas que na nova é a graça. ( lição 8 - pág. 48,53/5). E é bom frisarmos que estes escritos tem a supervisão do Dr. Antonio Gilberto (àquele pentecostal - que fala em línguas - que o senhor Brito fez questão de frisar), que é o consultor doutrinário e teológico da referida revista.

Mas será que Elinaldo Renovato é mesmo a última palavra em Teologia? O ele dizer isso ou não para mim não faz a mínima diferença, pois ele certamente não reparou bem no que diz a promessa do Novo Concerto em Hebreus 8:6-10. A ele também sugiro que veja como explicar se nas “minhas leis” que o Senhor promete escrever o 4o. mandamento ficando de fora, ou o domingo tomando o lugar do sábado e como demonstrá-lo bíblica e historicamente.

Finalmente, citando minhas palavras, da Silva tenta dar resposta a minhas perguntas. Vejamos se teve êxito:

O Presb. da Silva diz que “mudando a Aliança ou Concerto muda-se também a Lei - mutatis mutantis - como de fato se deu”. Só que ele se esqueceu de dizer onde mudou, e como mudou, pois no final de contas a única mudança que ele pretende demonstrar é a do fim do sábado (para a entrada do domingo?). Todos os demais preceitos morais permanecem intactos na nova aliança! Então, por que ele não diz logo--“na nova aliança houve UMA mudança: o fim do sábado, para o domingo tomar o seu lugar. No mais, permanece ‘tudo quanto dantes, no quartel dos Abrantes. . .’”?  Pra que tantos volteios, e subidas, e descidas, e avanços e recuos para expor a sua intenção óbvia que é livrar-se do mandamento do sábado de qualquer jeito?

E a resposta tentativa dele:

Bom, isto é fácil de demonstrar: Ora, o lugar foi a cruz; e o modo foi cumprindo-a por nós; foi ai que introduziu-se o novo pacto com a mudança da lei. Em seu aspecto cultural dentro do contexto do pacto não foi só o sábado que mudou, mas muitas coisas mudaram no decálogo. Demais disso, não somos nós que nos livramos do sábado, mas o próprio NT.

Observemos esta ousada declaração: “Muitas coisas mudaram no Decálogo”. É mesmo, Presbítero? Que coisa estranha! Confesso ser esta a primeira vez que ouço uma declaração tal. Fico muitíssimo curioso--que “muitas coisas” seriam essas? Quanto eu saiba, o que mudou foi a versão católica romana do Decálogo, em que se eliminou o 2o. mandamento totalmente, contra a confecção e culto às imagens, e o 4o. mandamento transformou-se em 3o., “guardar domingos e festas”. Fora isso, que mudanças teriam sido estas? Pois Paulo faz referência a vários mandamentos DENTRO DO NOVO PACTO (Romanos 10:8-10) e Tiago idem (2:8-12) e são exatamente aqueles velhos conhecidos dos tempos passados. . . Ah, sim, já mencionei a mudança na PROMESSA do 5o. mandamento, num detalhe até irrelevante--longa vida, não na terra literal de Canaã, mas em qualquer terra. . . Seria esta uma das “muitas coisas” que mudaram? Por favor, explique-se melhor. . .

Bem, por hoje é só. No próximo segmento examinaremos mais algumas coisas referentes ao tema da lei, sua vigência sob o velho e novo concertos, e o analisaremos a “fortaleza do anti-sabatismo” que é o texto de Colossenses 2:16, 17.

Antes de concluir por agora, revisemos as perguntas que supostamente não foram por mim respondidas:

1. Onde, na Nova Aliança e debaixo da Lei de Cristo, está a ordem de Jesus ou algum dos apóstolos para guardarmos (nós os cristãos gentios), o sábado judaico?

Esta já foi respondida acima, apenas recordando que se o sábado era “judaico”, também tal qualificativo devia aplicar-se aos demais nove mandamentos, obviamente incorporados no Novo Pacto.

2. Onde, na Nova Aliança, os apóstolos ensinaram a termos a lei como regra de vida?

Sob a Nova Aliança ocorre a inscrição das “minhas leis” [de Deus] para o cristão e à luz das “superiores promessas” temos o Espírito Santo para nos inspirar a obediência (Romanos 8:3, 4 e 7, 8, cf. Ezequiel 36:26, 27 e Hebreus 8:6-10). Então, é mais do que óbvio que a lei escrita por Deus nos corações e mentes dos cristãos é regra de vida, com o que concordam plenamente todas aquelas famosas autoridades cristãs e Confissões de Fé. . . Também Paulo em Romanos 13:8-10 fala de cumprir a lei através do amor citando alguns dos mandamentos do Decálogo, de forma abrangente ao dizer retoricamente, “. . . e se houver algum outro mandamento. . .”.

3. Onde, na Bíblia uma referência que aponta a lei como dividida em duas: moral e cerimonial?

Onde na Bíblia a Divindade está claramente definida em termos de Trindade, Personalidade do Espírito Santo; onde fala de “onisciência”, “onipresença”, “onipotência”? Contudo, Paulo mesmo, sem precisar entrar em linguagem teológica técnica, estabelece as leis que valiam mas não valem mais, e o que “vale” agora, que é “observar os mandamentos de Deus” (1 Cor. 7:19).

Essa divisão didática é admitida pelos mais variados comentaristas bíblicos, autores cristãos e Confissões de Fé, inclusive pelo Presbítero Paulo Cristiano da Silva que admitiu na sua primeira dissertação em resposta ao nosso estudo: “dentro desta lei una, existia[m] suas prescrições morais, cerimoniais, civis etc.  Ele [Jesus] fala sobre o elemento cerimonial da lei mencionando o ‘altar’ e o ‘templo’, fala também no seu aspecto civil quando menciona ‘os juizes’, ‘o sinédrio’”. (Destaques e textos entre colchetes acrescentados).

4. Onde na Bíblia existe o mandamento para Adão e os patriarcas guardarem o sábado?

Eis aí o fragilíssimo “argumento do silêncio” já exposto acima. Por este raciocínio pode-se até alegar que Adão, Abraão, José do Egito, Jacó, Abel, etc., seriam batedores de carteira nas horas vagas, pois em parte alguma é dito que respeitassem  o mandamento, “não furtarás”.

Posso, então valer-me do mesmo raciocínio e perguntar com igual força: onde está escrito que Adão e os patriarcas NÃO guardavam o sábado? O desempate fica por conta de Jesus Cristo que declarou: “o sábado foi feito por causa do homem-anthropós (Marcos 2:27 Cf. Mateus 19:5 e Gên. 5:2)”. Agora, Adão e os patriarcas eram homens ou bichos?

5. Mostra-me, por favor, onde no NT aparece alguma vez a igreja gentia se reunindo no sétimo dia da semana?

Onde aparecem se reunindo no domingo? A única suposta reunião dominical é a de Atos 20:7, que várias traduções indicam ser o “sábado à noite”, e na manhã seguinte, domingo, Paulo passou o dia viajando. Agora, temos em Atos 21:20 a declaração de que os cristãos conversos do judaísmo eram “zelosos pela lei”. Como em Atos 15:20, ante as dúvidas suscitadas pelos judaizantes, nota-se que NÃO HAVIA qualquer regra para os gentios estipuladas nas decisões do Concílio de Jerusalém contrárias ao sábado, o que indica de que NÃO HAVIA DISPUTA sobre a questão.

Se Paulo pregasse contra o sábado, sem dúvida isso suscitaria um tremendo debate entre os cristãos, pois o sábado era algo muito arraigado na cultura nacional e religiosa dos judeus. Todavia, não se acha tal debate no Novo Testamento. Em Atos 25:8 o próprio Paulo defende-se dos seus acusadores dizendo: “Nenhum pecado cometi contra a lei dos judeus”. Se ele fosse um violador do sábado prontamente alguém apontaria esse seu “pecado” contra a lei dos judeus, mas nunca foi disso acusado.

Esse mesmo Paulo freqüentava as sinagogas aos sábados para estudar a Bíblia com os judeus (Atos 13:42, 44; 16:13; 18:1-4). É interessante que num local onde não havia sinagogas ele foi para junto a um rio, e em Corinto ficou um ano e meio onde também passava os sábados discutindo na sinagoga com os judeus, os quais abandonaram e lugar ficando
Paulo só com os gentios, e NUNCA se lembrou de dizer a eles que passassem a se reunir aos domingos. . .

E vem ainda Lucas, que escrevendo 30 anos após a morte de Cristo, deixa claro que as santas mulheres que preparavam ungüentos para o corpo de Jesus “no sábado descansaram segundo o mandamento” (Lucas 23:56). Esse Lucas declara que se informou pormenorizadamente de todos os fatos (Lucas 1:1-4) e não passou por alto esse detalhe. Era o dia a ser observado “segundo o mandamento” no entender dele.

Sem falar na profecia de Cristo da continuação da observância sabática pelos cristãos, fato comprovado historicamente, em Mateus 24:20, segundo reconhecem autoridades protestantes:

Cristo está aqui falando da fuga dos apóstolos e outros cristãos de toda de Jerusalém e Judéia pouco antes de sua destruição final, como manifesto por todo o contexto, e especialmente pelo 16o. verso ‘então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes’. Mas a destruição final de Jerusalém deu-se após a dissolução da constituição judaica, e após a dispensação cristã estar plenamente estabelecida. Contudo, está plenamente implícito nestas palavras do Senhor, que mesmo nessa época os cristãos estavam sujeitos a uma estrita observância do sábado. -- Jonathan Edwards, Works, Vol. 4, pp. 621, 622.

E temos também este pesquisador a declarar:

O Grande Mestre nunca ensinou que o sábado fosse uma ordenança cerimonial a cessar com o ritual mosaico. . . . Em lugar de antecipar sua extinção juntamente com a lei cerimonial, Ele fala de sua existência após a derrocada de Jerusalém [ver Mateus 24:20]. -- W. D. Killen, (presbiteriano), The Ancient Church, p. 188.

Em suma, numa avaliação final diríamos que ocorrem vários equívocos nesse material preparado pelo Presb. da Silva, sendo o principal o de que suas idéias representam o pensamento oficial e ortodoxo dos evangélicos, no que combatem os supostos erros e distorções dos adventistas na questão da lei divina. Contudo, creio que ficou claro--e mais claro ainda se fará examinando-se os dados do Adendo ao final do segundo segmento--que o oposto disso é que se dá: ele é que está contrariando o pensamento tradicional e ortodoxo dos cristãos evangélicos, enquanto os adventistas apresentam-se como os verdadeiros preservadores da “santa tradição” protestante no que se refere à verdade de que o Decálogo divino prossegue como norma de conduta para os cristãos, que as leis divinas se classificam segundo uma divisão didática em “moral”, “cerimonial”, “civil”, etc., e que o princípio do dia de repouso, estabelecido pelo 4o. mandamento, prossegue com todo vigor e rigor do que se estabelecia no tempo da Antiga Aliança, princípio este que procede da fundação do mundo.

Por outro lado, a premissa básica do texto do Presb. da Silva decorre de um equívoco evidente--de que o problema nos insucessos espirituais de Israel estava com a lei de Deus, que precisou ser “reformada” na Nova Aliança em vista de não ser eficaz para transmitir a tal povo a condição espiritual ideal que Deus requer. O engano jaz no fato de não perceber ele que “a lei do Senhor é perfeita, e restaura a alma” (Salmo 19:7) e que o problema estava COM O POVO, não com a lei. A atitude do povo para com essa lei é que precisava ser reformada, daí as palavras de Cristo, “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mat. 5:20).
__________

*Casualmente tive depois contato com o autor Elinaldo Renovato e trocamos mensagens num espírito de bastante cordialidade. Ele confessou apreciar muito a literatura adventista no que se refere aos princípios de saúde e elogiou-me por alguns estudos sobre o tema da lei que lhe enviei, garantindo que até se empenha em levar sua congregação a ter o máximo respeito pela instituição do “dia do Senhor”.

**Um amigo e colaborador do grupo do CACP, um tal Pastor Natanael Rinaldi, que gosta de posar de “teólogo” sem sequer ter formação em Teologia, costuma desafiar os observadores do sábado com o seguinte argumento: Se o que Cristo diz em Mateus 5:17-19 significa a necessidade de observar os mandamentos do Decálogo, então quem isso faz deve respeitar todas as 613 regras da legislação judaica. Só que esse cavalheiro se esquece que no próprio contexto das palavras de Cristo destacando a importância de dedicar à lei divina--que não veio abolir--perfeita e fiel obediência que “em muito” exceda a dos escribas e fariseus (vs. 20), Ele também declarou que Seus ouvintes deviam ser “o sal da terra” e “a luz do mundo”, além de ter-lhes ensinado a oração do Pai Nosso. Perguntei ao Sr. Rinaldi se os que acatam tais palavras do Mestre e se consideram “sal da terra”, “luz do mundo” e oram o Pai Nosso também têm que sujeitar-se às tais 613 regras do judaísmo. Até hoje ele não me deu qualquer resposta.
 

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