Os Aspectos Legais e Morais da Salvação-II
 
      O que cobrimos no Segmento I deste estudo resume-se nisto:

1. A doutrina da justificação é negligenciada, rebaixada, desprezada, mal compreendida ou inteiramente rejeitada no atual cenário religioso. O evangelicalismo atual, falando em termos gerais, apresenta bem pouca semelhança com a teologia paulina ou o tipo de teologia revivida na Reforma.
2. A triste condição de justificação na Igreja contemporânea deriva de uma falha em reconhecer a tremenda importância dos aspectos legais da redenção.
      O que devemos agora considerar é a razão real por que a Igreja contemporânea falha em assimilar os aspectos legais da redenção. É por que tem negligenciado ou rejeitado o lugar apropriado da lei de Deus na teologia cristã.
      Todos sabem que a Reforma foi o grande inimigo do legalismo. Mas de algum modo uma sutil evolução teve lugar pela qual a antipatia para com o legalismo foi transferida para a própria lei. Gordon H. Clark assinala que o legalismo agora adquiriu novo significado. Enquanto costumava designar  uma teoria de justificação pelas obras, agora é empregada para designar (ou denegrir) qualquer obrigação de obedecer leis objetivas–como se o amor amorfo substitui ordenanaças definidas. Clark culpa os liberais por situarem o ódio pelo legalismo sobre qualquer atitude de respeito pela lei. Conquanto Clark aplique bem tal ponto, não podemos concordar que a ala liberal da Igreja seja inteiramente responsável por esse estado de coisas.
      O fato é que nós evangélicos somos amiúde culpados de apresentar o evangelho em tal maneira que engendra o desprezo e desrespeito pela lei divina. Uma infindável litania de que somos salvos pela fé e não pelas boas obras pode até transmitir a idéia de que Deus não se preocupa com lei, justiça ou boas obras. O fato é que o Deus justo tem tão apaixonada consideração pelas obras e tal elevado padrão de obediência aceitável  que os pecadores caídos são inteiramente incapazes de atender a suas justas demandas. Um homem que tenta ser justificado pelas obras da lei não é condenado porque observa a lei, mas porque falha em cumpri-la (ver Gál. 3:10).
      Paulo reconhece que há uma justiça válida na lei. Se um homem pudesse guardá-la (em todas as ocasiões e sem qualquer falha ou defeito em qualquer ponto), ele seria justificado (Rom. 10:5; Gál. 3:12; ver também Sal. 106:3; Tia. 2:10). O legalismo é condenável, não por honrar a lei, mas por desonrá-la! O legalista presume que as elevadas e poderosas exigências de Deus de justiça serão satisfeitas pela obediência imperfeita, interrompida de uma criatura cujas melhores ações são sempre contaminadas pelo canal corrupto da natureza humana. A lei, não fazendo acepção de pessoas (pois o próprio Cristo teve que sofrer sua penalidade), não aceitará qualquer pessoa que falhe em cumprir a perfeita justiça que lhe é devida (ver Rom. 2:13). Refletindo quanto a isso, declarou Calvino: “Nós, portanto, confessamos voluntariamente que a perfeita obediência à lei  é perfeita justiça”. – Institutas, Lv. 3, cap. 17, seç. 7). “O Senhor nada promete exceto ao perfeito cumpridor da lei”. – Ibid., seç. 1. E Lutero até poderia ter dito: ‘A lei deve se cumprida de modo que nenhum jota ou til seja negligenciado, doutro modo o homem será condenado sem esperança”.–Luther’s Works (ed. americana; Muhlenberg Press; Concordia, 1955), Vol. 31, p. 348.
 

Lançando Mão da Perfeita Obediência–Não Nossa, de Cristo
 
      O evangelho nos ensina que somos salvos tão somente pela obra de Cristo. Mas em que consistia a Sua obra? Ele fez por nós o que éramos obrigados a cumprir. Diz Calvino: “Pois se a justiça consiste na observância da lei, quem negará que Cristo mereceu favor por nós quando, por assumir esse fardo sobre Si, reconciliou-nos com Deus como se tivéssemos guardado a lei?” – Institutas, Lv. 2, cap. 17, seç. 5. Diz-se que a fé justifica não porque somos tornados justos perante Deus em vista da fé, e não porque a própria fé agrada a Deus mais do que a obediência a Sua lei, mas simplesmente porque a fé lança mão da perfeita obediência de Cristo, com que a lei é plenamente satisfeita. A menos que claramente vejamos que a justificação honra e estabelece a lei (Rom. 3:31), não estamos captando a doutrina bíblica da justificação pela fé.
      Numa excelente discussão sobre o significado da justificação, Leon Morris assinala que o conceito bíblico integral de justificação “testemunha da importância da lei na economia divina”.–Leon Morris, The Apostolic Preaching of the Cross, p. 293. Isso assim é porque a justificação é um termo legal que se relaciona com a lei e pode ser definida como acertando as coisas perante a lei. Morris também declara:
 
A justificação não é um conceito isolado. É parte de um modo todo de ver a Deus e o mundo que considera a lei um meio de entender a divina ordem das coisas. Para os homens do Velho Testamento Deus era um Deus de lei, e em grande medida, sua religião não pode ser entendida se isso for perdido de vista. . . . A lei é assim não simplesmente um requisito que Deus impõe sobre o Seu povo: é a maneira em que Nele se pode confiar para agir segundo a lei. – Ibid., pp. 253, 255, 257.

Mas não podemos passar sem justificação sem sua insistência de que parte do que foi feito no Calvário quanto à lei inflexível é a própria base de ser de Deus. A lei foi honrada no processo pelo qual o perdão foi operado. – p. 296.

 
      A mensagem de justificação pode somente fazer sentido num contexto onde a lei de Deus é levada tão a sério quanto a Bíblia requeira. Um homem tem que ser pressionado com sua obrigação de atender às reivindicações da lei, e precisa perceber que não há esperança de vida eterna a menos que a lei de perfeita justiça seja satisfeita. Como diz Lutero, ele precisa aprender “mediante os mandamentos a reconhecer o seu desamparo” e tornar-se “angustiado sobre como poderia cumprir a lei”. – Luther’s Works, Vol. 31, p. 348. Mas o ouvinte que conforma sob o convite do moderno evangelicalismo (“Deixe Cristo entrar em seu coração . . . resolver todos os seus problemas . . . satisfazer todas as suas necessidades . . . dar novo alento a sua vida”) torna-se obcecado com uma paixão consumidora para estar certo perante a lei de Deus? Acaso ele clama, “Aqui está a santa vontade de Deus! Como posso atender e satisfazer suas reivindicações?” Os comentários seguintes do Dr. J. I. Packer acertam com o martelo na cabeça do prego:
 
Os protestantes de hoje (cujo hábito é orgulharem-se de sua modernidade) nesse sentido tendem a levar a sério a uniforme insistência bíblica de que o trato de Deus com o homem regula-se por lei. . . . Assim, o protestantismo moderno de fato nega o valor dos termos forênsicos todos em que a Bíblia explica nosso relacionamento com Deus.

O moderno protestante, portanto, está disposto a ver o homem como um filho que vagueia, um pródigo perdido em necessidade de encontrar o caminho de casa para alcançar o Pai celeste, mas, falando em termos gerais, não se dispõe a ver-se como um criminoso culpado convocado perante o Juiz de toda a Terra. A doutrina bíblica de justificação, contudo, é a resposta à pergunta do quebrantador da lei convicto: como posso acertar-me diante da lei de Deus? Como posso ser justo para com Deus? Os que recusam ver sua situação nesses termos não irão, portanto, ter muito interesse em doutrina. Ninguém pode revelar muito interesse na resposta a uma pergunta, que, no que lhe concerne, nunca é suscitada. Assim, o moderno protestantismo, por sua recusa em pensar no relacionamento do homem com Deus nos termos bíblicos básicos, derribou o fundamento do evangelho de justificação, fazendo com que se pareça simplesmente irrelevante às necessidades básicas do homem”. – “Introductory Essay” para The Doctrine of Justification, de James Buchanan.

 
Relação Entre Lei e Evangelho

      Na teologia dos Reformadores a relação entre lei e evangelho foi claramente definida e muito bem expressa. Eles expressaram o que se tornou conhecido como “os três usos da lei”:
 

1. A lei tem um uso social no sentido de que sua pregação e conhecimento restringem o pecado na sociedade em geral.

2. A lei tem um emprego “pedagógico” em que é um espelho que aponta o pecado e nos leva a ver nossa necessidade da livre salvação de Cristo.

3. A lei é uma regra de vida para o crente no que mostra que as obras são boas e agradáveis a Deus e que pecados evitar.

 
      A ala liberal da Igreja tem advogado coisas tais como o relativismo ético e a ética situacional, mas não são os únicos culpados de abandonar “o terceiro uso da lei”. Os evangélicos mantêm o seu próprio tipo de antinomianismo, disfarçado em frases de aparência piedosa como “Cristo viverá a vida vitoriosa em mim”, “O amor toma o lugar de qualquer mandamento exterior”, “Quando se é guiado pelo Espírito Santo, não se precisa da lei”. Querem ser mais sábios do que Paulo, que encheu todas as suas epístolas com imperativos morais e éticos.
      É perfeitamente bíblico pregar que a lei é abolida para o crente como um meio de salvação, mas é pura heresia antinomista dizer que está eliminada como regra de vida. Toda criatura existente está sujeita à lei, e o homem que declara, “Não estou sujeito a qualquer lei” introduziu imediatamente sua própria lei–tal como o indivíduo que se levanta e diz que “não há absolutos” e que com isso introduz o seu próprio absoluto.
      Exceto por alguns luteranos e grupos Reformados e uns outros poucos, o movimento evangélico proclama que a lei foi descartada como regra de vida. Em seu livro The Suicide of Christian Theology (Bethany Fellowship), o erudito luterano John Warwick Montgomery chama a atenção a essa difundida rejeição do terceiro uso da lei e a chama de “santificação dessantificada” (ver pp. 423-428).
      A questão realmente não se detém com uma rejeição do terceiro uso da lei. Sobre o terceiro uso da lei depende os outros dois usos. Não é possível escolher e apanhar aqui, pois os três usos mantêm-se juntos. Se um se for, os demais também irão.
      Ilustremos o que queremos dizer. Como pode a lei efetivamente apontar o pecado e conduzir a Cristo (segundo uso) se a lei não é apresentada e aceita como uma regra válida de vida (terceiro uso)? Somente a pessoa que defronta a demanda radical da lei, sabendo que ele devia observá-la e desejando observá-la, é que será golpeada pela lei com um senso de pecado e completo desamparo. Se Deus não intenciona que os homens seriamente observem Sua lei, como pode ela eficazmente apontar o pecado?
      Suponhamos que o pregador declara o que ele realmente pensa: “Aqui está a lei de Deus. Ela está desatualizada, e Deus não intenciona que os crentes devam observá-la ou prestar-lhe qualquer respeito hoje em dia–somente legalistas assim agem. Mas ela tem um certo uso: se você examinar essa lei antiquada, atuará como um espelho e assinalará o pecado de modo que perceberá a sua necessidade de Jesus Cristo”. Ridículo! Sob essas circunstâncias a lei não convencerá ninguém, nem o fará a menos que seja apresentada no que Calvino claramente viu ser o seu desígnio original–a regra de vida imutável de Deus (terceiro uso).
      Ademais, se o terceiro uso da lei for abandonado, o mesmo se dá com o seu primeiro uso–como uma restrição sobre a sociedade. Se o que dizemos aqui for verdadeiro, significa que muito da culpa pela quebra da moralidade na sociedade, o espírito de permissividade, e o desrespeito pela lei devem jazer à porta da Igreja, que se esperaria ser o sal (como um elemento preservador) da sociedade.
      Os oponentes da Reforma no século XVI mantinham que a doutrina de Lutero e Calvino da justificação forênsica resultaria em permissividade moral e numa grande derrocada da ordem social. Muitos bons católicos romanos hoje, considerando a condição do protestantismo moderno, sinceramente sentem que a apreensão deles sobre a doutrina protestante se justifica. Pela maior parte, o protestantismo moderno é vacilante e sem fibra  por falta de disciplina moral. Amiúde parece haver mais respeito pela lei divina e reverência por Deus entre os católicos do que entre os protestantes; e se deve haver uma outra Reforma final, o solo mais favorável para tanto poderia ser achada fora da corrente maior do protestantismo moderno.
      Uma coisa é certa: A justificação, no que concerne ao aspecto legal da redenção humana, nunca será entendida ou fará qualquer sentido exceto àqueles que respeitarem a lei de Deus e levarem a sério as suas exigências. Para esses, a doutrina da justificação não será uma raiz fora da terra seca, mas a mais doce mensagem sob o céu. – Condensado de Present Truth Magazine, Vol. 26.
 
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Professor Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura


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