Atos 10, a Visão do Lençol e Questões Paralelas

Prof. Azenilto G. Brito

       Um estudo cuidadoso da visão de Pedro, relatada em Atos 10, traz alguns pontos que muitos não conseguem perceber

       Alguém deu a entender que um anjo ordenou a Pedro, “mata e come”, referindo-se aos animais imundos que havia sobre o lençol, na sua visão relatada no capítulo 10 de Atos dos Apóstolos. Mas quem recebeu a visão do anjo não foi Pedro, e sim Cornélio. E em resultado da visão e da ordem do anjo, Cornélio enviou homens para chamarem a Pedro para o instruir.
       Ocorre que Deus precisava preparar Pedro para o impacto de ir ter com gentios para pregar-lhes o evangelho. As barreiras eram grandes porque os judeus consideravam os gentios “comuns e imundos”.
       Daí é que entra a lição do lençol, em que Pedro recebe a ordem, não de um anjo, mas de uma misteriosa voz--“mata e come”.
       Pedro, além de declarar de modo indiscutível que NUNCA se havia alimentado daquele tipo de carnes imundas (o que é significativo, pois mostra que não aprendeu diferente com Jesus ou seus companheiros apostólicos), ficou ainda sem entender a visão, até que lhe chegaram os visitantes. Daí a interpretou aplicando-a, não a coisas que devia comer ou não, e sim ao fato de que Deus “não faz acepção de pessoas”. Esta é a grande lição  transmitida ao Apóstolo.
       Claramente, Pedro não interpretou a visão como ordem literal para o Apóstolo comer livremente de tudo quanto antes era proibido. Ele não seguiu ordem nenhuma de comer alimentos imundos porque esse não era o sentido da visão. Onde aparece depois Pedro fazendo isso—comendo porcos, ratos, urubus, cobras e lagartos?
       Se lermos atentamente os vs. 15 em diante, percebemos que a voz lhe diz, “Não chames tu comum ao que Deus purificou”. Contudo, Pedro permanecia “perplexo, sobre o que seria a visão que tivera”.
       Vejam como os vv. 19 e 20 confirmam isso ainda mais: “Estando Pedro ainda a meditar sobre a visão, o Espírito lhe disse: Eis que dois homens te procuram. Levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu tos enviei”. A expressão “nada duvidando” é uma cláusula-chave no entendimento dessa questão. Pedro ainda duvidava de que devia ir pregar para gentios, mas a ordem reiterava que o fizesse porque era isso que Deus queria transmitir a Pedro. E isso nada tem a ver com o que comer ou beber.
       Obedecendo a ordem divina Pedro foi em sua missão à casa de Cornélio, que era não só um gentio, mas um “centurião”, ou seja, um comandante militar do inimigo do povo judeu.
       Prossegue o relato, a partir do vs. 27:

“E conversando com ele, entrou e achou muitos reunidos, e disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem devo chamar comum ou imundo; pelo que, sendo chamado, vim sem objeção”.
       Deus mostrou o quê? Que ele devia comer de tudo quanto antes era proibido? Era esse o sentido da visão? De modo nenhum!
       Vejamos como o próprio Apóstolo mais adiante oferece mais evidência do sentido real dessa mal compreendida passagem bíblica. Primeiro, eis o finalzinho do testemunho de Cornélio: “Portanto mandei logo chamar-te, e bem fizeste em vir. Agora pois estamos todos aqui presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto te foi ordenado pelo Senhor”.
       E o Senhor ordenou a Cornélio, e preparou a Pedro para a missão mediante a visão do lençol, que finalmente Pedro entendeu, como ele expressa à família de Cornélio:
“Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (vs. 33 a 35).
       Na verdade, simplesmente não há qualquer evidência de que entre os cristãos primitivos pairasse qualquer dúvida sobre o assunto e não ocorre JAMAIS qualquer discussão a respeito. O que Paulo discute NÃO É comer ou não alimentos imundos, e sim não levar em conta o que foi sacrificado a ídolos. O problema que havia não era de ter havido um “liberou geral” quanto à antiga proibição sobre alimentos, e sim quanto à conveniência ou não de usar carnes sacrificadas a ídolos.
       Tanto que o próprio apóstolo explica isso em 1 Cor. 8, ao iniciar a sua discussão falando:
“Ora, no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos . . . Quanto, pois, ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só” (vs. 1 e 4).
       Claramente, a preocupação do Apóstolo é sobre essa questão das carnes sacrificadas a ídolos, não de poderem comer ou não alimentos que a lei determinava como fora de cogitação para o consumo do povo de Deus. Afinal, o próprio Deus, em passagens escatológicas, nos dois últimos capítulos de Isaías (que tratam ambos dos “Novos Céus e Nova Terra”) diz claramente, condenando os rebeldes dentre o Seu povo:
 
“. . . povo que de contínuo me provoca diante da minha face, sacrificando em jardins e queimando incenso sobre tijolos; que se assenta entre as sepulturas, e passa as noites junto aos lugares secretos; que come carne de porco, achando-se caldo de coisas abomináveis nas suas vasilhas. . .”

“Os que se santificam, e se purificam para entrar nos jardins após uma deusa que está no meio, os que comem da carne de porco, e da abominação, e do rato, esses todos serão consumidos, diz o Senhor”.

       Ver as referências aos Novos Céus e Nova Terra nos respectivos contextos, em 65:17 e 66:22, 23. – Estudo composto pelo Prof. Azenilto G. Brito.

10 Perguntas Pertinentes:

 1 - Se a ordem para Pedro na visão era que devia realmente comer alimentos imundos, onde é mostrado ele a cumprindo, passando a alimentar-se de tais? E ele teria estômago tão imenso assim para comer tantos animais de uma vez?

 2 - Se a ordem para Pedro na visão era que devia realmente comer alimentos imundos, por que ele mesmo deu interpretação diferente disso ao explicar a visão?

 3 - Por que Pedro tinha a convicção de que não devia comer alimentos imundos, sendo que conviveu com o Mestre dos mestres por três anos e meio, e tinha o testemunho e convivência com seus irmãos da Igreja, e apóstolos durante todo aqueles anos posteriores, que certamente ensinariam os princípios da fé?

 4 - Onde aparece a mínima referência específica a alimentos imundos no Novo Testamento, sobretudo como tema de discussão pelos apóstolos?

 5 - Se Deus considerava abominação a utilização de carne de porco e rato, indicando que isso mereceria castigo severo até o fim dos tempos, onde é mostrado que Deus mudou de opinião, e por que o teria feito?

 6 - Qual é exatamente o caráter prefigurativo das proibições sobre alimentos e como isso pode ser comprovado biblicamente?

7 - Em que aspectos a morte de Cristo na cruz poderia ter alterado a natureza intrínseca (constituição) dessas carnes, de modo que, se eram malsãs antes de Sua morte, deixaram de sê-lo depois?

8 - Por que no Concílio de Jerusalém, relatado em Atos 15, quando são tratadas questões de alimentação (carnes sacrificadas a ídolos, carne sufocada e sangue, que não deviam ser ingeridos), nada consta como tendo sido também discutida a liberação da lei de alimentos da legislação mosaica?

 9 - Como pode um cristão glorificar a Deus no que come e bebe, alimentando-se de comidas tremendamente prejudiciais à saúde, como seria a carne de porco, ou de rato, ou de cobras e lagartos (ver 1 Cor. 10:31)?

10 – Onde, na passagem que trata da substituição do Velho pelo Novo Concerto (Heb. 8:6-10), é dito que quando Deus escreve o que é chamado de “Minhas leis” nos corações e mentes dos que aceitam os termos de Seu Novo Concerto [Novo Testamento], Ele deixa de fora os princípios alimentares estabelecendo um “liberou geral” quanto ao que o cristão pode ou não comer, autorizando doravante o consumo de porco, rato, urubu, cobras e lagartos?


Professor Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura


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