DEBATE RAMALHETE-03
Prof. Azenilto G Brito

        Disse Santo Agostinho: “Creio nos Evangelhos porque a Igreja me diz que o faça”.  – Cita do Prof. Carlos Ramalhete

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        Na sua triunfalística alegação de que o católico tem uma visão superior, porque crê na Bíblia com base na autoridade da Igreja fundada por Jesus Cristo, ele não percebe um problema sério: onde tem ele a garantia de que realmente “a Igreja foi fundada por Jesus Cristo”? Sabem onde ele vai buscar a “prova” disso? Em nada mais, nada menos do que. . . na Bíblia! Para tanto, pinça fora do contexto a passagem de Mateus 16:18!
Assim, a Bíblia é empregada pelo católico não só para provar ser ela INFERIOR à tradição oral, mas também para comprovar que houve uma igreja fundada por Jesus Cristo, segundo o testemunho dessa mesma Bíblia! – Prof. Azenilto G. Brito

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Questão de Autoridade

        Que bom que temos este ponto em comum—a crença nos evangelhos. Apenas prefiro dizer que creio nos evangelhos e na Bíblia toda (que contém a mensagem básica do evangelho de princípio a fim, desde Gênesis 3:15) porque Jesus Cristo, que é o CABEÇA DA IGREJA, também seu fundamento, estando, pois, acima dessa igreja (Efés. 1:22; 2:20; 4:15; Col. 1:18), além de Seus apóstolos, disseram que o faça (Mat. 22:29; João 5:39; 2 Tim. 2:15; 3:16).
        Jesus disse aos religionistas judaicos que era um erro não conhecer as Escrituras e que elas Dele testificavam, além de que “nelas cuidais ter a vida eterna”.
            Eu disse que Jesus Cristo sempre respeitou muito as Escrituras e o Prof. Ramalhete parece não ter entendido bem em que sentido eu disse isto. Ou entendeu, mas fez de conta que não. . .
Claro que quando eu disse que Jesus sempre respeitou as Escrituras, pelo próprio contexto vê-se que me refiro a respeitá-las como AUTORIDADE de origem divina para definir crenças e práticas. “Santifica-os na verdade”, rogou Jesus ao Pai em Sua oração sacerdotal, “a Tua Palavra é a verdade” (João 17:17).

A Palavra de Deus, O Que Vem a Ser?

        A questão é que toda vez que na Bíblia encontramos esta expressão PALAVRA DE DEUS, sempre se refere às manifestações de Deus tratando diretamente com Seus mensageiros ou aos escritos sagrados registrados em livros por “homens santos, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21). Seria interessante encontrar um só verso bíblico em que a expressão “Palavra de Deus” se refira especificamente à tradição oral. O prof. Ramalhete poderia indicar-nos algum para nosso exame?
        Aliás, é interessante como o apóstolo Pedro, diante de sua morte prevista para logo (segundo lhe revelara o Cristo), prometeu tomar providências “por fazer que, a todo tempo, mesmo depois da minha partida, conserveis lembrança de tudo”, ou seja, “da verdade já presente convosco, e nela confirmados” (ver II Pedro 1:15, cf. vs. 12). E mais adiante ele declara que os seus leitores deveriam “atender à palavra profética”, porque “nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo”. No início do capítulo 3 (vs. 1 e 2) ele reitera: “Amados, esta é agora a segunda epístola que vos escrevo; em ambas procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida para que vos recordeis das palavras que anteriormente foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos apóstolos”.
        Assim, fica bem claro que a escrita confirmava o ensinamento todo anteriormente transmitido, fosse oralmente, fosse por outros escritos (ele faz referência aos ensinos dos profetas [Velho Testamento] e dos apóstolos). Essa preocupação pelo registro escrito, para ficar claro àquela comunidade as coisas anteriormente ensinadas e para que as tivessem sempre em lembrança, mostra que não há ênfase alguma em deixá-los fiados a uma tradição oral como depósito de sua fé e convicção. O que estava e estaria escrito é que serviria de base para sua instrução e memória das verdades a serem mantidas intactas.
 

Cristo e a Tradição Judaica

        No contexto mais amplo, a questão defendida pelo oponente é a validade das tradições acima das Escrituras. Todavia, o ponto pacífico é que Cristo não deu a mínima para a tradição dos judeus, na forma de autoridade absoluta, como os católicos fazem com a Tradição católica, pondo-a acima das Escrituras. Houve episódios em que Jesus fez referências à tradição judaica, como na referência ao “seio de Abraão”, mas para extrair uma lição moral inserida numa parábola, a do Rico e Lázaro (Lucas 16:19-31). Quando Cristo se referiu à tradição dos judeus, fê-lo negativamente: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens”. (Marcos 7:7 e 8).

Vejamos um trecho do longo texto de Ramalhete:

        “Mais uma vez, petições de princípio: para provar que a Bíblia tem autoridade, o Prof. Azenilto apela para a autoridade . . . da Bíblia! Além disso, mais uma vez não vêm ao caso as tradições humanas errôneas dos judeus (que depois passaram a ser conhecidas como ‘Cabala’), que aliás não são a totalidade das tradições orais judaicas, já que muitas outras Nosso Senhor manda seguir (pois os rabinos estavam ‘na cadeira de Moisés’ e o que diziam – não o que faziam em segredo, a Cabala – deveria ser seguido)”.

        O que aqueles judeus faziam não era em segredo, mas às claras, pois nos debates de Cristo com eles, condenou-os abertamente por suas práticas enquanto aprovava o que faziam de certo (ver, por exemplo, Mateus 23:23). Nada de coisas secretas somente.
        Jesus ofereceu o paradigma da reinterpretação do Velho Testamento mostrando que os religionistas de Seu tempo davam uma interpretação falaciosa ao sentido real, espiritual, da lei (ver Mateus 5:21-23, 33, 34—“Ouvistes o que foi dito aos antigos . . . Eu porém vos digo. . .”). Os apóstolos deram sua interpretação inspirada aos textos veterotestamentários. Assim, nosso caro professor parece negar que o Novo Testamento interpreta o Velho, e que as epístolas interpretam os evangelhos, mas não indica outra metodologia superior e mais eficaz para o aprendizado da Palavra.
        É verdade, Jesus recomendou que o povo cumprisse o que seus líderes religiosos ensinavam, mas não segundo a prática hipócrita do “faça o que eu digo, mas não o que eu faço” (ver Mateus 23:1-3). Eles diziam, por exemplo, que era para guardar o sábado, no que estavam certos, porém não acrescentando suas tradições e distorções do sentido espiritual do mandamento à prática de curar (Luc. 13:14), o que seria o erro deles a ser evitado (cf. Mateus 12:12).
        Vejam a seguir outro trecho interessante, quando menciono o fato de que Cristo derrotou a Satanás no deserto com o “Está Escrito”. Diz o Prof. Ramalhete:

        “O argumento pode – aliás com mais facilidade, se tomarmos a versão de Lucas 4 – ser usado no sentido oposto: O Diabo baseou-se única e exclusivamente na Bíblia para tentar a Nosso Senhor, dizendo sempre que ‘está escrito’. Foi, porém, vencido quando aos seus ‘está escrito’ Nosso Senhor respondeu que ‘foi dito’, mostrando assim que a letra mata. Além disso, um muçulmano poderia perfeitamente apelar para esta ou aquela passagem do Corão para ‘provar’ que o Corão é inspirado, incorrendo na mesma petição de princípio.

          Está aí um ponto que merece uma análise mais detida. O professor diz que Jesus respondeu “foi dito”, enquanto o diabo é quem teria usado o “está escrito”. Será que ele está insinuando que o diabo usou a Bíblia, enquanto Jesus, a ele superior, citava a “tradição oral”? De onde o nosso caro professor tirou essa diferença no texto da tentação? Pois para o evangelista Mateus (cap. 4) o “está escrito” (do grego gégraftai) é usado por Jesus três vezes, enquanto o diabo usa só uma. O placar é de 3 x 1 para a Bíblia, em termos de autoridade final, definidora da verdade para Jesus. É certo que no texto de Lucas, numa das ocasiões aparece o “dito está”, mas, para desconsolo do professor Ramalhete, logo em seguida o “dito está” é uma referência ao texto escrito, refere-se também, pois, ao ESTÁ ESCRITO: “Não tentarás o Senhor Teu Deus”, uma clara repetição da passagem de Deuteronômio 6:16, um texto escrito!

Vício de Análise: A Parte Pelo Todo

        Tomando a parte pelo todo, como é seu hábito costumeiro em vários pontos de seu texto, cita o caro professor episódios isolados, como a instrução de Filipe ao eunuco etíope (Atos 8: 26-40) e algumas declarações aqui e acolá nas Escrituras para tentar convencer-nos de que só se pode entender a Bíblia com auxílio alheio, ou seja, de instrutores oficializados pela igreja. Contudo, Jesus declarou ser o Espírito Santo atuando no coração do que sinceramente deseja fazer a vontade de Deus que nos guia à  verdade (João 7:17), e as recomendações sobre o exame das Escrituras acima expostas jamais dizem que só mediante instrutores podemos e devemos examinar o texto sagrado (ver ainda João 16:13). Que a promessa de que o Espírito Santo estaria iluminando os Seus seguidores é feita a nível individual, não por instrumentalidade da igreja, está por demais claro nessas passagens. Fica o ônus da prova em contrário com quem nega tal realidade.
        O exemplo dos bereanos em Atos 17:11, que foram elogiados por seu livre exame das Escrituras, sem nada ser dito de eles buscarem instrutores eclesiásticos é também por demais óbvio, e ante a clareza da passagem o professor sai-se com esta explicação nem um pouco convincente:

        “Os tessalonicenses eram menos nobres porque não aceitaram a palavra ORAL trazida pelo Apóstolo, preferindo manter-se apenas na ‘ortodoxia’ escrita judaica da época. Eles não aceitaram a palavra oral. Os bereanos, ao contrário, aceitaram a revelação oral que lhes foi feita pela Igreja, verificando apenas que a novidade que lhes era trazida (o evangelho – ‘novidade boa’, em grego – oral) não contradizia os textos veterotestamentários. Eles não foram louvados por ater-se ao texto escrito, e só a ele. Ao contrário, mesmo! Os tessalonicenses foram considerados menos nobres exatamente por não aceitarem isto que lhes foi trazido (traditum est -> traditio = tradição) oralmente pela Igreja”.

        Que provas ele oferece disso? Nenhuma! Onde as Escrituras apresentam essa situação concernente aos tessalonicenses? Eis aí um dos pontos que merecem ser repisados e mais bem esclarecidos.  Basta ler as epístolas aos tessalonicenses e percebe-se que Paulo oferece elogios rasgados àqueles crentes por sua fidelidade e pela cálida acolhida a ele e a seu discípulo enviado, Timóteo. Se os tessalonicenses tivessem agido de modo contrário a isso, sem dúvida receberiam é repreensões do apóstolo. Leiam ambas as epístolas e isso se ressaltará. Eles foram nobres, porém os bereanos foram ainda mais nobres por agirem segundo o princípio do livre exame. Atos 17:11 deve ser um texto muito odiado pelos católicos radicais.
        Sobre os discípulos no caminho de Emaús, eles não haviam entendido o sentido dos últimos acontecimentos pois a Bíblia diz que a mente deles foi aberta após a exposição inteiramente bíblica de Cristo. Portanto, não estavam a examinar as Escrituras para entender o sentido dos acontecimentos que há pouco haviam testemunhado nas cercanias de Jerusalém. Claro que “a fé vem pelo ouvir . . . a Palavra de Deus” (não a tradição eclesiástica) (Rom. 10:17). A eles, sem dúvida, se aplicaria a repreensão do Mestre: “Errais não conhecendo as Escrituras”. Se a tivessem estudado devidamente, em busca da verdade, não passariam por aqueles momentos de angustiosa dúvida e incerteza.
        Tomando a parte pelo todo mais uma vez, o professor cita as palavras de Pedro em 2 Pedro 3:16 onde faz referência aos escritos do grande e profundo teólogo Paulo, sistematizador da teologia cristã, dizendo que ele escreve “certas cousas difíceis de entender”. Pedro claramente não está estabelecendo nenhuma regra de só se buscar entender a Bíblia com o amparo de instrutores eclesiásticos. Como pode alguém devidamente alfabetizado deixar de perceber o sentido de “certas cousas” e buscar ver isto como significando TODAS AS COISAS, TODOS OS TEXTOS, TODA A ESCRITURA?

Ultrapassando o Que Está Escrito

        Por outro lado, Paulo diz que não se deve ultrapassar “o que está escrito”, e o Prof. Ramalhete admite que era na ocasião o Antigo Testamento (ver 1 Cor. 4:16):

        “Nesta estranha tradução, a ordem das frases é alterada, modificando o entendimento. São Paulo escreveu que os Coríntios deveriam aprender a não se ensoberbecer um acima do outro, acima do que está escrito, não que deveriam aprender a não ultrapassar o escrito.
        “O que ele ensina é que não se coloque aquilo que é acidental (quem foi o professor - e a própria existência e necessidade de um professor já nega a suficiência do texto escrito sozinho!) acima do essencial, ou seja, da união em Cristo. ‘O que está escrito’ (ou seja, naquela ocasião, o Antigo Testamento) não deve ser sobrepujado por fatores acidentais, como quem foi o professor de Fulano ou Beltrano”.

        Mas ele se esquece que no contexto, Paulo diz que deviam seguir o seu próprio exemplo como alguém que não faz isso—vai além do que as Escrituras determinam. Isso é reforçado nos vs. 15-21 onde o apóstolo ressalta a necessidade de firmarem-se nos ensinos que ele próprio lhes transmitiu, para o que até enviaria Timóteo “o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como por toda parte ensino em cada igreja”.
        Então, não há nenhuma ênfase em Tradição, mas na Palavra de Deus ensinada por Paulo de igreja em igreja, às quais depois enviou epístolas específicas ou recomendou que fossem lidas em intercâmbio nas várias congregações.

Superioridade Incontestável da Bíblia

        Diante de minha exposição sobre Cristo ser a Palavra, e a Bíblia ser a expressão dessa palavra, pois o Cristo pôde dizer, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”, o Prof. Ramalhete deu a entender que Maomé teria dito algo semelhante a isso. Será mesmo? Possuo o Corão em forma de CD-Rom e até já comecei a examiná-lo. Teria imenso prazer em pesquisar essas declarações de Maomé para ver se são comparáveis aos dizeres de Cristo. Poderia indicar-me, por favor, em que Surata se acham tais asserções? Vamos compará-las para ver se podem ser equivalentes, ou até superiores em termos de reivindicação de encarnação da verdade e da salvação.
        Já que falei no Corão, pensemos num muçulmano, dominado pela convicção de que a sua é a única religião verdadeira. Se lhe perguntássemos com base no que ele abriga tal certeza, dirá que Alá revelou-se a Maomé instruindo-o a fundar a religião de sua formação e a escrever o Corão. E ele certamente recorrerá ao  próprio Corão para mostrar como sua religião é, de fato, validada por intervenção divina, tal como o católico faria: valer-se-á da Bíblia para convencer-nos de que a Igreja foi fundada por determinação de Cristo envolvendo a figura de Pedro apóstolo, e daí essa igreja é que dá validade ao estudo da Bíblia, desde que seja por seu intermédio. Qual é fundamentalmente a diferença? No fundo, é tudo uma questão de fé.
        Então, resta-nos demonstrar a superioridade da Bíblia através de evidências internas e externas de sua inspiração.
        O Prof. Ramalhete, ao referir-se repetidamente ao Corão e Maomé, fez-me dedicar algum tempo ao exame de um material que eu possuía em casa há uns anos sem nunca ter-lhe dedicado atenção—a edição do Corão em CD-Rom. Fazendo uma leitura dinâmica de seu texto pude logo comprovar a evidente inferioridade de tal livro em cotejo com a Bíblia. Para ilustrar melhor: imaginemos que um sacerdote católico (ou mesmo um pregador protestante) assuma o púlpito para sua homília, ou sermão, e anuncie: "Irmãos, tenho um assunto muito importante a expor-lhes!" Claro que com isso a congregação prestaria redobrada atenção na expectativa das relevantes palavras a serem proferidas.
        Daí o nosso hipotético padre, ou pastor, começa a falar das viagens missionárias de Paulo, e o faz por cinco minutos, passando a seguir a falar do sentido da Páscoa cristã, no que gasta mais uns cinco minutos, dedicando-se, então, a discutir a importância de todos os cristãos escolherem bem seus candidatos para as próximas eleições, e partindo desse ponto trata da necessidade de "orar sem cessar", mudando daí a temática para o relato de Daniel na cova dos leões e findando com referências ao sermão da montanha. . .  Enfim, uma salada total de temas, sem objetivo, sem seqüência lógica, sem levar a congregação a concluir nada de objetivo.
É mais ou menos isso que se encontrará lendo o Corão—uma mistura de exortações, referências a episódios da história hebraica e cristã, pensamentos de caráter devocional, enfim, uma salada sem harmonia, sem um roteiro claro, sem inspirar o leitor a uma reflexão equilibrada. Só mesmo quem tenha a mente lavada, sob intensa propaganda ideológica, para sentir que haja inspiração divina em tal livro.
        Como dizemos no artigo “O Islamismo e o Mundo Ocidental”, que disponibilizamos a qualquer interessado gratuitamente em forma de arquivo eletrônico, Maomé julgava-se

        “o último de uma sucessão de profetas inspirados a começar com Adão e chega a dizer que ninguém poderá jamais apresentar princípios mais elevados do que os que constam de seu livro, o Corão. . . . Logicamente, com isso não concordariam cristãos e judeus que em contestação logo apresentariam alguns dos sublimes pensamentos dos Salmos, Provérbios ou as máximas inigualáveis de Eclesiastes ou do Sermão da Montanha, bem como as exortações e profundidade teológica do apóstolo Paulo”.

        Por outro lado, o Livro de Mórmon, que possuo em edição de papel, também lembrado pelo Prof. Ramalhete, apresenta problemas internos e externos. A linguagem da Bíblia King James, por exemplo, das suas constantes citações bíblicas, não faz sentido para um texto supostamente escrito 600 anos antes de Cristo, bem como os relatos das multiplicações de civilizações num nível que pesquisadores dentre os próprios mórmons têm posto em disputa. Sobre isso, assim se manifesta um pesquisador mórmon chamado John Kunich:

         “‘Com base em minha formação em Biologia sabia que algo estava errado no que eu lia aqui [no Livro de Mórmon]. . . . Realizei alguma pesquisa quanto ao crescimento da população humana ao longo da história e descobri que nenhum dos índices relatados poderia ter produzido os resultados constantes  do  Livro  de  Mórmon’. . . . Kunich descobriu que as alegações de crescimento populacional do Livro de Mórmon equivaleriam a 50 vezes o que se acha em qualquer civilização histórica”. – Artigo “Também no Mórmonismo: Inquietantes Pesquisas e Descobertas” (disponibilizado em forma de arquivo eletrônico).

        Sem falar em suas inúmeras e gritantes contradições de seus próprios elementos, bem como com elementos de outros livros da mesma fonte, como os livros Pérola de Grande Valor e Doutrina e Convênio. Quem queira obter mais informações sobre isso pode solicitar que enviamos gratuitamente um pacote de materiais de pesquisa sobre esses problemas da literatura mórmon. Por outro lado, no livro O Vale da Decisão, da Casa Publicadora Brasileira, se poderá também encontrar uma riqueza de informação sobre essas contradições nos diferentes livros mórmons, supostamente inspirados por Deus.
        Enfim, resta-nos a satisfação de saber que a Bíblia é um livro de divina origem, não se tratando isso de convicção firmada meramente numa atitude de fé cega, triunfalística, mas em estudos profundos que comprovam a coerência e legitimidade de seu texto, por evidências internas e externas. Tal comprovação certamente será fundamental para o próprio Prof. Ramalhete, pois ele dependerá integralmente da veracidade e competência deste livro básico do cristianismo para firmar sua convicção de que a Igreja foi realmente fundada por autoridade de Jesus Cristo, uma informação que colherá dessa mesma Bíblia.
        Por coincidência, sábado passado o pastor em minha igreja fez referência em seu sermão ao agnóstico francês Voltaire (oh, sim, um dos grandes destaques do “Iluminismo”), grande combatente das Escrituras, que as considerava um repositório de lendas e artifícios enganosos para iludir as massas ignorantes. Voltaire "profetizou" que dentro de 100 anos ninguém mais prestaria atenção a esse livro, totalmente descartado após os progressos adicionais da ciência demonstrarem irremediavelmente sua insignificância.
        Ocorre que, como dizem as Escrituras, "de Deus não se zomba", e cinqüenta anos após sua morte, a própria casa de Voltaire, numa incrível ironia histórica, foi adquirida pela Sociedade Bíblica Francesa para servir de depósito de Bíblias, e até alguns equipamentos gráficos utilizados por Voltaire para diminuir o valor da Bíblia e do cristianismo, passaram a ser utilizados para promover a Palavra de Deus! Sem falar que a Bíblia prossegue sendo o absoluto best seller, cada vez mais lida, mais promovida e mais crida por príncipes e plebeus, sábios e pouco letrados, ricos e pobres. Sobretudo, prossegue como magnífica instrumentalidade para levar almas sinceras aos pés da cruz, produzindo vidas transformadas e resgatadas de vícios e pecados, algo que Voltaire com toda a sua sabedoria e conhecimento, jamais poderia conseguir com sua vasta literatura, à qual hoje em dia pouquíssima atenção se dá.
        Agora, ao dizer o Prof. Ramalhete que crê nos evangelhos porque a Igreja lhe diz para fazê-lo, vem-me à lembrança um episódio vivenciado há alguns anos, quando viajava com um casal amigo de carro pelo Paraguai e desejávamos visitar parentes de um dos viajantes em Posadas, capital da província argentina de Misiones, onde ficaríamos apenas umas horas. Havia um problema: um dos viajantes somente tinha uma cópia Xerox de sua identidade, que nem mesmo era autenticada. Não havia sido fácil nem mesmo entrar no Paraguai com aquele documento, quanto mais agora na Argentina. Como eu previa, o guarda da fronteira não queria autorizar nosso ingresso no país dada a referida dificuldade documental. Eu pensei: o problema pode ser superado se houver um pouco de boa vontade por alguém mais razoável. Assim, pedimos para falar com o comandante do guarda, explicamos a ele nossos objetivos de ingresso no país, a dificuldade com o documento do meu amigo, e, como eu imaginava, aquele oficial de maior gabarito e autoridade, mais compreensivo e experiente, autorizou nossa passagem para o território argentino.
        Assim, prefiro recorrer ao "superior" da Igreja, Jesus Cristo, para a instrução quanto a atitude a ter para com a Bíblia, a indiscutível Palavra de Deus. E Ele me diz ser um erro não conhecer as Escrituras, que Dele testificam e é a verdade, além de prometer o Espírito Santo para iluminar aquele que as estuda disposto a fazer a vontade do Pai que está no céu, nelas revelada.
        Também o Bhagavad-Gita (que também possuo em CD-Rom) ensina a reencarnação. Agora, eu creio na ressurreição final porque Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá”. Será que algum dos gurus autores do livro sagrado indiano jamais poderia ter dito, “Eu sou o princípio da reencarnação. Ninguém terá chance de nova existência senão por mim”? Os indianos têm essa garantia da parte de seus autores sagrados como os cristãos têm em Cristo Jesus? Será que é tudo igual, em termos de inspiração? – Corão, Bíblia Sagrada, Bhagavad-Gita, etc.? É assim que o Prof. Ramalhete crê? Às vezes ele deixa essa impressão.
        Contudo, além do testemunho de profetas, discípulos e do próprio Cristo (que o Prof. Ramalhete garante que aceita, o que já facilita bastante as coisas) dentro da própria Bíblia encontramos evidências de sua inspiração e superioridade sobre outros livros religiosos básicos. Acaso no Corão ou no Bhagavad-Gita se acham as profecias sobre o fato de que Babilônia, Tiro e Sidom jamais seriam reconstruídas, e jamais realmente o foram (ver Isa. 13:19-22; Eze. 26:3-5; 28:21-23), a impressionante seqüência de profecias messiânicas com seu exato cumprimento em Cristo? Teria qualquer desses livros oferecido uma antecipação da história humana tão impressionante, como nas profecias de Daniel caps. 2 e 7, apresentando a seqüências de impérios a partir do tempo do profeta (Babilônia), ao qual se seguiria a Medo-Pérsia, Grécia, Roma e um mundo dividido em muitas nações, não mais havendo espaço para impérios imensos e abrangentes após a decadência do 4o. e último grande império? E Daniel ainda acentuou que haveria tentativas nesse sentido, mas como o barro não se liga ao ferro (Daniel 2: 41-43), assim o resultado da divisão do 4o. império (Roma)  seria uma Europa dividida até o fim da história humana, e com ela o resto do mundo, a despeito de Carlos V, Napoleão, Hitler tentarem formar novos impérios universais segundo o modelo do antigo Império Romano. Não mais houve, não mais haverá, está estabelecido na Palavra de Deus. E no Corão acha-se algo semelhante, de tal precisão?
        E o que dizer das descobertas da Arqueologia comprovando a historicidade da Bíblia? Ur dos Caldeus, a existência do próprio Abraão, ou da cidade de Nínive, ou de tantos outros episódios narrados na Bíblia eram postos em dúvida por críticos e agnósticos até meados do século XIX. Não obstante, “as pedras clamaram”, e entre as grandes descobertas que lançaram luz sobre a veracidade histórica das Escrituras podem-se citar a Pedro Moabita, as Cartas de Laquis, os Rolos do Mar Morto, o Cilindro de Ciro, a Pedra de Rosetta, etc., etc.
E há também unidade coerente. Em mais de 3000 lugares a Bíblia atesta de sua inspiração, como diz Pedro na sua 2a. epístola 1:21. Se tais afirmativas forem falsas seria este o livro mais mentiroso que jamais se produziu.
Mas sendo que o Prof. Ramalhete afirma que  “Os católicos aceitamos a Bíblia como Palavra de Deus porque a Igreja que Cristo fundou e confiou a São Pedro (Mt 16,18), e que é a Coluna e Firmamento da Verdade (1Tim 3,15), diz que a Bíblia é Palavra de Deus”, então ele admitirá que também é bom assegurar-se de que sua fé nas Escrituras não é uma crença cega conduzida por uma instituição, mas leva em conta todas essas evidências internas e externas de sua própria inspiração.

A Verdade Bíblica Seria Incompleta?

        Agora, a argumentação de que a Bíblia não tem a verdade completa é muito conveniente a quem deseje justificar idéias que não só não constam das Escrituras, mas são condenadas por elas. Assim, há os que empregam tal argumento para justificar noções tais como a da reencarnação e comunicação com os mortos.  Por outro lado, os católicos têm seus motivos para exaltarem a tradição eclesiástica acima das Escrituras, repetindo sempre o slogan de que “A Bíblia é filha da Igreja, e não a Igreja da Bíblia”. Mas se remontarmos à história do povo de Israel, que o católico que crê na Bíblia admite ser composta por aqueles que têm os “oráculos de Deus”, foram os guardiães de Sua Palavra (Rom. 3:2), veremos que quando Deus ordenou a Moisés tirar o povo de Israel do cativeiro egípcio, apresentou-Se a ele como o “Deus de Abraão, Isaque e Jacó” (Êxo. 3:6,15,16)! Assim, Ele não disse para Moisés consultar a tradição dos anciãos de Israel sobre as divinas promessas de fazer da descendência de Abraão uma grande nação. Mencionou-a diretamente àquele que haveria de ser o grande líder para libertar o Seu povo, levando-o à Terra Prometida. Antes disso, Ele Se apresentara diretamente a Abraão, depois a Jacó e a Isaque, com eles comunicando-se diretamente. Assim, os descendentes de Abraão sabiam da especial promessa divina a ele não pela Tradição Oral mantida por Abraão, mas repetindo a promessa a cada um desses patriarcas (ver Gênesis, capítulos 17: 1-8;  26:24, 25 e 35:9-15).
        Muita coisa aconteceu na jornada do povo desde sua saída do Egito até os limites da Canaã prometida. Certamente muitas histórias os pais e avós teriam para contar a filhos e netos, deveras uma rica tradição. Contudo, Deus ordenou a Moisés: “Escreve isto para memória num livro” (Êxo. 17:14). Deus não deixou tudo aquilo por conta da Tradição Oral.
Como lembra um autor protestante e o próprio Prof. Ramalhete refere em parte:

         “Recorde-se à dificuldade imensa que envolvia a arte de escrever antes da descoberta da imprensa por Gutenberg em meados do século XV. Naqueles remotíssimos tempos o instrumento apto para ensinar e legislar era a palavra oral.
        “Este veículo do pensamento teve sua ampla aplicação no setor da religião. Compulsando-se a História das religiões mais antigas, verifica-se que elas dependiam de um patrimônio doutrinário transmitido de geração a geração por via meramente oral. Em certos sistemas religiosos os fiéis se negaram sempre a escrever alguns dos seus preceitos mais caros. É de se observar, por exemplo, a fórmula freqüentíssima: ‘Eu ouvi. . .’ adotada na primitiva religião chinesa, da qual procedem o taoísmo e o confucionismo.
        “Chama a atenção para o nosso caso ainda mais a circunstância assaz agravante de estar o povo de Israel acampado no deserto, com dificuldades humanamente instransponíveis para executar a arte da escrita.
        “Em condições dignas de nota, surgiu a Escritura Santa! Anteriormente Deus se revelara a pessoas individuais (como já vimos acima). A Adão e Eva. A Noé. A Abraão. A Jacó. Falava-lhes! Interferiu em acontecimentos! Mas, quando se revelou ao Seu Povo já separado dos egípcios, à coletividade, mandou escrever.
        “A marcha triunfante e cheia de percalços continuou. Acampou-se o povo ao sopé do Monte de Sinai em circunstâncias solidíssimas. ‘Todo o Monte do Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente’ (Êx. 19:18). E ‘Deus falou. . .’  Êx. 20:1). Proferiu o Seu Decálogo. Apresentou as Suas Leis acerca dos servos, dos homicidas, da propriedade, da imoralidade, da idolatria, dos que amaldiçoam os pais ou ferem qualquer pessoa, do testemunho falso e das injustiças, do descanso e das três festas. Não se limitou Moisés relatá-las ao seu povo (Ex. 24:3), mas, ‘escreveu todas as palavras do Senhor’ (Êx. 24:4).
‘“. . . Erigiu um altar ao pé do monte (Êx. 24:4) . . . e tornou o livro da aliança, e o deu ao povo, e eles disseram: tudo o que falou o Senhor, faremos, e obedeceremos’” (Êx. 24:7).
“Note-se: Moisés ouviu. Em seguida relatou ao povo. E depois ESCREVEU. E, então, leu ao povo o que havia escrito no livro da aliança. Por quê? É porque o Senhor não queria TRADIÇÃO ORAL alguma! A Tradição é traição à Fideldade”.

Paradoxos e Raciocínio em Círculos

        Se há outras verdades necessárias à nossa salvação fora da Bíblia, onde vamos encontrá-las? Nesse caso tanto faz a tradição budista, muçulmana, hinduísta, animista pois valerá tudo! Qual fica sendo a autoridade final para determinar tais “verdades extrabíblicas”? Os católicos dirão: logicamente é a igreja fundada por Cristo sobre Pedro, a rocha (Mateus 16:18). Contudo, esta interpretação sobre Pedro como fundamento da igreja não leva em conta o contexto todo do que a Bíblia ensina, sobretudo o texto integral do Novo Testamento, e escora-se muito mais na sua própria tradição. Então, temos um evidente raciocínio circular: emprega-se a tradição para comprovar a validade da própria tradição acima das Escrituras! Noutro segmento analisaremos a fundo esta questão da validade da alegação católica sobre Pedro como pedra fundamental da igreja.
        Outro paradoxo, contudo, é que autoridades católicas defendem amiúde a validade de sua tradição recorrendo nada menos do que às próprias Escrituras! Destarte, a Bíblia é utilizada para provar que a tradição é superior a ela própria na definição da fé e práticas cristãs!
        Contudo, há outro evidente paradoxo. O Prof. Ramalhete repetidamente deixa a impressão de que me flagrou praticando uma forma de “raciocínio circular”—creio na Bíblia porque ela diz que é para crer nela, e ponto final. Assim, eu estaria usando como “prova” da validade da Bíblia e sua inspiração as próprias palavras da Bíblia.
        Mas na sua triunfalística alegação de que o católico tem uma visão superior, porque crê na Bíblia com base na autoridade da Igreja fundada por Jesus Cristo, ele não percebe um problema sério: onde tem ele a garantia de que realmente “a Igreja foi fundada por Jesus Cristo”? Sabem onde ele vai buscar a “prova” disso? Em nada mais, nada menos do que. . . na Bíblia! Para tanto, pinça fora do contexto a passagem de Mateus 16:18!
Assim, a Bíblia é empregada pelo católico não só para provar ser ela INFERIOR à tradição oral, mas também para comprovar que houve uma igreja fundada por Jesus Cristo, segundo o testemunho dessa mesma Bíblia! E vem ele falar em “petição de princípio”, ora, ora. . .
        Pois bem, mas essa Bíblia é empregada para fazer valer a força da tradição. Contudo já vimos que Jesus Cristo não dá força alguma a tal pretensão, jamais exaltou a tradição acima das Escrituras. Ele insiste:  “Nosso Senhor constantemente apelou a estas tradições orais, assim como o fez São Paulo (pedra que seguiu os judeus, disputa pelo túmulo de Moisés, etc.)”.
           É mesmo, professor? Por favor, apresente uma pequena relação das vezes em que Jesus se valeu de tradições orais com o mesmo peso que os católicos atribuem à sua tradição oral, ou seja, como “Palavra de Deus” de autoridade para determinar crenças e práticas. Uma pequena listinha, por obséquio, não precisa ser muito longa. . .
        Quanto à suposta tradição da pedra que sempre acompanhou os israelitas, desde tempos bem remotos a figura da rocha era empregada pelo povo hebreu como um termo específico para Deus (Deut. 32:4; Sal. 18:2, etc.). Isaías fala de Cristo como a “grande rocha numa terra cansada” 32:2), e como uma “preciosa pedra de esquina, um seguro fundamento” (28:16). Paulo afirma que Cristo era a “Rocha” que estava com o Seu povo em tempos antigos (ver 1 Cor. 10:4;  cf. Deut. 32:4; 2 Sam. 22:32; Sal. 18:31). Jesus Cristo é a “rocha de nossa salvação” (Sal. 95:1; cf. Deut. 32: 4, 16, 18). Ele somente é o fundamento da igreja, pois “nenhum outro fundamento poderia ser posto, além de Jesus Cristo” (1 Cor. 3:11), “nem há salvação em nenhum outro” (Atos 4:12).

Nenhum Apoio Para a Tradição Também Entre os Apóstolos

        Ele não será capaz de apresentar lista alguma como a sugerida, logicamente. Então, sem apoio nenhum da parte de Jesus Cristo, resta ao Prof. Ramalhete o testemunho dos apóstolos. E o que temos aí? Vejamos:
Paulo, a exemplo de Cristo, refere-se NEGATIVAMENTE à tradição oral em Gálatas 1: 13 e 14, onde fala que perseguia os cristãos seguindo a tradição de seus pais pela qual tinha grande zelo. Em Colossenses 2:8 ele recomenda cuidar-se contra os que ensinavam “sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens”. E quando o apóstolo dos gentios refere-se à tradição cristã, ele de modo algum está falando de algo derivado do pensamento popular ou de algum depósito de verdades da Igreja na forma de tradições de nebulosa origem, mas do que ele mesmo ensinou: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”. De modo algum sugere apoio a ensinamentos alheios ou diversos das Escrituras.
        Os católicos citam este texto para insinuar que além do texto escrito, haveria tradições relevantes não registradas nas páginas sagradas. Contudo, a própria passagem ressalta aos leitores  primários do apóstolo a importância de se aterem ao que lhes fora ensinado, “seja por palavra, seja por epístola nossa”. Que o “seja por palavra” não difere do que foi dado “por epístola” é a conclusão mais lógica a se tirar. Ou será que algum tema fundamental, básico para a fé e prática cristãs, ficaria sem registro? Iria Paulo ser tão omisso em suas 13 ou 14 epístolas, deixando de fora  de seu repertório de ensinos teológicos, práticos e admoestações individuais ou coletivas algum tema de fato vital para a comunidade cristã? O que ele expressou “por palavra” certamente não destoaria do que fez “por epístola”.
        Paulo e os demais apóstolos podiam aconselhar os irmãos a seguirem o que dissessem ou lhes escreveram, pois estavam ainda vivos e seu testemunho era real. Após sua morte, tudo que pudessem alegar terem ouvido seria mera especulação. Tome-se por exemplo a igreja da Galácia: tinha sido evangelizada e fundada pessoalmente pelo apóstolo (Atos 18:23), o que  não impediu que os crentes lá  logo perdessem a fé genuína para as idéias dos judaizantes, obrigando Paulo a, por escrito, trazê-los de volta à verdadeira fé: “Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco” (Gál. 4:11).  E confirma: “É bom ser zeloso, mas sempre do bem, e não somente quando estou presente convosco” (Gál. 4:18).
        Estando ausente, Paulo termina sua pregação com um documento escrito: “Vede com que grandes letras vos escrevi por minha mão” (Gál. 6:11). Se isso aconteceu num curto período de tempo, ainda em vida do apóstolo que os evangelizou pessoalmente, mas em sua ausência se perderam, o que não dizer de séculos de ignorância quando a Igreja de Roma inclusive proibia a leitura da Bíblia por seus seguidores? Sem falar que além de estarem vivos para confirmar a fé dos irmãos Paulo realizava constantes viagens e redigia epístolas, com a recomendação de que estas fossem feitas circular entre as várias igrejas.

Significativo Exemplo de Formação da Tradição Oral

        Vejamos um exemplo de como se forma uma “tradição oral”: Na análise da historiadora Martha dos Reis, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao tratar da devoção a Nossa Senhora Aparecida, oficialmente considerada Padroeira do Brasil, ela lembra que “desde o início, quando a imagem de Aparecida foi encontrada, em 1717, houve conflitos entre a fé popular e o catolicismo oficial. Aos poucos, porém, houve a síntese entre as duas coisas: o povo incorporou parte dos ritos oficiais e a Igreja aceitou parte das manifestações populares, como soltar rojões em honra à santa, tocar a imagem, divulgar milagres não reconhecidos oficialmente”. Na sua tese de doutorado, O Culto à Senhora Aparecida—Síntese entre o Catolicismo Oficial e o Popular no Brasil, Martha assegura que “o sagrado e o profano se uniram” (como citado pelo cronista católico Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo).
        O comentário dessa pesquisadora revela algo que deve ter-se repetido vez após vez ao longo da história eclesiástica em vista de tantas crenças e práticas do catolicismo que não encontram respaldo nas Escrituras. Sem falar nas tradições regionais que as próprias autoridades eclesiásticas toleram, sem darem aprovação oficial. É o caso do culto ao Padre Cícero, no nordeste brasileiro ou das tradicionais festas dos “Santos Reis” de Minas Gerais e Goiás.
O amigo católico Y.P. até reconhece que existem abusos. Diz ele:

        Algumas pessoas, por absoluta falta de informação ou por piedade exacerbada, se excedem no trato com as imagens, que são permitidas pela Igreja, na medida em que representam o original. No caso do Santuário de Aparecida do Norte, reconheço que há necessidade de um redirecionamento da fé popular, no sentido de que Maria, mãe de Jesus, seja cultuada na sua essência e não apenas sob a forma de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Inúmeros católicos têm na imagem da “santa” seu objeto de fé como se ela se constituísse em uma entidade diferente de Maria. Eu, particularmente, defendo um retorno às origens, ao cristianismo primitivo, onde a santa mãe de Deus era cultuada, venerada, simplesmente por sua posição de mãe de Jesus.

        Logicamente esta última afirmação tem por base alguma tradição oral, não as Escrituras, onde não existe um só exemplo de alguém cultuando Maria “simplesmente por sua posição de mãe de Jesus”. Mas sobre isso poderemos tratar em maiores detalhes mais adiante, num futuro segmento.
        Assim, a Igreja Católica admite práticas e crenças não-oficiais por motivo de conveniência e/ou pressão popular. Na Bíblia, contudo, encontramos um exemplo nada nobre de um líder religioso que cedeu às pressões do povo em acatar as suas formas de culto: Arão ordenou a confecção do bezerro de ouro para o povo cultuar como a um deus, cedendo à pressão deste, dada a demora de Moisés que estava sobre o monte Sinai recebendo as leis do Senhor (Êxo. cap. 32). As conseqüências dessa sua decisão, que revela fraqueza de caráter e falta de fibra moral como líder religioso naquelas circunstâncias, foi a condenação, morte e tristeza sobre o acampamento daquela nação que há pouco havia solenemente declarado: “Tudo o que falou o Senhor, faremos” (Êxo. 24:3).

Mil Anos de Tradição Comum, e Quanta Divergência. . .

        Por fim, é interessante notar que os ortodoxos mantiveram POR MAIS DE MIL ANOS uma tradição com os religiosos alinhados à liderança eclesiástica sediada em Roma e, entretanto, conservam diferenças profundas e significativas com estes últimos. Entre as diferenças que dividem ortodoxos e católicos podem-se citar:

* A Igreja Ortodoxa só admite sete Concílios, enquanto a Romana adota vinte.
* A Igreja Ortodoxa discorda da procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho; unicamente do Pai é que admite.
* A Sagrada Escritura e a Santa Tradição representam o mesmo valor como fonte de Revelação, segundo a Igreja Ortodoxa. A Romana, no entanto, considera a Tradição mais importante que a Sagrada Escritura.
* A consagração do pão e do vinho, durante a missa, no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, efetua-se pelo Prefácio, Palavra do Senhor e Epíclese, e não pelas expressões proferidas por Cristo na Última Ceia, como ensina a Igreja Romana.
* Em nenhuma circunstância, a Igreja Ortodoxa admite a infalibilidade do Bispo de Roma. Considera a infalibilidade uma prerrogativa de toda a Igreja e não de uma só pessoa.
* A Igreja Ortodoxa entende que as decisões de um Concílio Ecumênico são superiores às decisões do Papa de Roma ou de quaisquer hierarcas eclesiásticos.
* A Igreja Ortodoxa não concorda com a supremacia universal do direito do Bispo de Roma sobre toda a Igreja Cristã, pois considera todos os bispos iguais. Somente reconhece uma primazia de honra ou uma supremacia de fato (primus inter pares).
* A Virgem Maria, igual às demais criaturas, foi concebida em estado de pecado original. A Igreja Romana, por definição do papa Pio IX, no ano de 1854, proclamou como “dogma” de fé a Imaculada Concepção.
* A Igreja Ortodoxa repele a agregação do “Filioque”, aprovado pela Igreja de Roma, no Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
* A Igreja Ortodoxa nega a existência do limbo e do purgatório.
* A Igreja Ortodoxa não admite a existência de um Juízo Particular para apreciar o destino das almas, imediatamente, logo após a morte, senão um só Juízo Universal.
* O Sacramento da Santa Unção pode ser ministrado várias vezes aos fiéis em caso de enfermidade corporal ou espiritual, e não somente nos momentos de agonia ou perigo de morte, como é praticado na Igreja Romana.
* Na Igreja Ortodoxa, o ministro comum do Sacramento do Crisma é o Padre; na Igreja Romana, o Bispo, extraordinariamente, o Padre.
* A Igreja Ortodoxa não admite a existência de indulgências.
* No Sacramento do Matrimônio, o Ministro é o Padre e não os contraentes.
* Em casos excepcionais, ou por graves razões, a Igreja Ortodoxa acolhe a solução do divórcio.
* São distintas as concepções teológicas sobre religião, Igreja, Encarnação, Graça, imagens, escatologia, Sacramentos, culto dos Santos, infalibilidade, Estado religioso. . .

        Diferenças especiais: Ademais, subsistem algumas diferenças disciplinares ou litúrgicas que não transferem dogma à doutrina. Tais seriam, por exemplo:

* Na Igreja Ortodoxa, só se permitem ícones [imagens] nos templos.
* Os sacerdotes ortodoxos podem optar livremente entre o celibato e o matrimônio.
* O batismo é por imersão.
* No Sacrifício Eucarístico, na Igreja Ortodoxa, usa-se pão com levedura; na Romana, sem levedura.
* Os calendários ortodoxo e romano são diferentes, especialmente, quanto à Páscoa da Ressurreição.
* A comunhão dos fiéis é efetuada com as espécies, pão e vinho; na Romana, somente com pão.
* Na Igreja Ortodoxa, não existem as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, Corpus Christi, Via Crucis, Rosário, Cristo-Rei, Imaculado Coração de Maria e outras comemorações análogas.
* O processo da canonização de um santo é diferente na Igreja Ortodoxa; nele, a maior parte do povo atua no reconhecimento de seu estado de santidade.
* Existem somente três ordens menores na Igreja Ortodoxa: leitor, acólito e sub-diácono; na Romana, quatro: ostiário, leitor, exorcista e acólito.
* O Santo Mirão e a Comunhão na Igreja Ortodoxa se efetuam imediatamente após o Batismo.
* Na fórmula da absolvição dos pecados no Sacramento da Confissão, o sacerdote ortodoxo absolve não em seu próprio nome, mas em nome de Deus-”Deus te absolve de teus pecados”; na Romana, o sacerdote absolve em seu próprio nome, como representante de Deus-”Ego absolvo a peccatis tuis. . .”.
* A Ortodoxia não admite o poder temporal da Igreja; na Romana, é um dogma de fé tal doutrina.
* Os Dez Mandamentos: A Igreja Católica Apostólica Ortodoxa conservou os dez mandamentos da Lei de Deus em sua forma original, sem a menor alteração. O mesmo não sucedeu com o texto adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana, no qual os dez mandamentos foram arbitrariamente alterados, ficando totalmente eliminado o segundo mandamento e o último dividido em duas partes, formando dois mandamentos distintos. Esta alteração da Verdade constitui um dos maiores erros teológicos desde que a Igreja Romana cindiu a união da Santa Igreja Ortodoxa no século XI. Esta modificação nos dez mandamentos, introduzidos pelos papas romanos, foi motivada pelo Renascimento das artes. Os célebres escultores daquela época tiveram, assim, amplo setor de atividades artísticas, originando obras de grande valor e estimação. Não obstante, as esculturas representando Deus, a Santíssima Virgem Maria, os santos e os anjos, estavam em completo desacordo com o segundo mandamento de Deus. Havia, pois, duas alternativas, ou impedir a criação de estátuas ou suprimir o segundo mandamento. Os papas escolheram esta última solução, caindo em grave erro.

[Obs.: o texto acima das diferenças entre ambas as igrejas procede de um documento da Igreja Ortodoxa].

        Quando se sabe que o rompimento dos cristãos do Oriente com os do Ocidente ocorreu mais por questões políticas do que doutrinárias, no Cisma de 1054 AD, fica patente que a base de tradição comum entre os religiosos de ambos os lados demonstra quão inseguro é tal fundamento, dando margem a tantas diferenças fundamentais e significativas ao longo dos séculos. Mil anos de tradição comum e quantas práticas e ensinos divergentes!
        Destarte, não será bem melhor e mais seguro ater-nos ao “está escrito” das Santas Escrituras, pois, recomenda o profeta Isaías, “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (8:20)?

Em suma:

        A Bíblia traz em si evidências internas e externas suficientes para demonstrar ser um livro divinamente inspirado no qual podemos seguramente crer. Jesus Cristo e os Seus apóstolos JAMAIS se referem à tradição oral como fonte autorizada para determinar doutrinas e práticas cristãs. Jesus Cristo simplesmente tratou as tradições judaicas com menosprezo e jamais as citou como equiparáveis, e muito menos superiores, às Escrituras, como pretendem absurdamente os católicos romanos.
        Para alegar que a Igreja foi fundada por Jesus Cristo e é a sua fonte de autoridade absoluta para crer na Bíblia, o nosso oponente recorre à própria Bíblia, fazendo-se mister a aceitação de sua inspiração divina e superioridade sobre outros livros religiosos para tal mister.
        Também constatamos seu constante recurso ao expediente de tomar a parte pelo todo, reprovável sob todos os aspectos para a integridade de análises sérias. Afinal, é sempre bom lembrar o dito cristão de que "um texto fora do contexto nada mais é do que um pretexto".

Professor Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura


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