DEBATE RAMALHETE-04
Prof. Azenilto G Brito

Segmento 03: O Desabar do Grande Mito Católico—Pedro Como Chefe da Igreja

        Eu me recordo muito bem daquele dia em 1990 em que visitei a famosa catedral de São Pedro, em Roma, ou melhor, no Vaticano. Segundo historiadores bem informados, os fundos para a edificação do majestoso edifício procederam em grande medida da venda das famigeradas indulgências que tanta polêmica causou ao tempo de Lutero. E não é para menos. Segundo certos relatos, o Cardeal Tetzel apregoava que no momento em que a moeda batia no fundo do cofre, a alma daquele beneficiado por indulgências adquiridas a posteriori saltava do purgatório direto para o céu.
        Meu amigo católico Y. P. admite que houve atos de corrupção nessa vergonhosa vendagem de perdão mas foram fatos isolados, de religiosos corruptos. Será?  Que líder, bispo, padre, cardeal, iria jamais lançar-se em campanhas a nível internacional desse tipo sem a autorização da sede eclesiástica maior?
Voltando, porém, ao Vaticano, lembro-me das grandiosas colunas recobertas de mármore finíssimo (deve ser de Carrara), os vitrais da mais fina arte, a amplidão do lugar, o altar riquíssimo, e, ao pé da rotunda, bem ao centro da nave, em letras douradas, o registro das palavras do texto que significa o próprio fundamento “bíblico” do catolicismo: “Et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam . . .” (Mateus 16:18).
        O que me veio à mente ao ler tais palavras foi: “Que coisa! 900 milhões de pessoas por todo o mundo [na época] e toda essa imensa estrutura abrangendo catedrais, seminários, procissões, estátuas, estações de rádio e TV, tradições milenares com base num único texto, fora do contexto!”
        Sim, pois se este texto não informa realmente que Pedro foi aquele sobre quem Jesus Cristo edificou a igreja e a quem colocou à frente da mesma, o portentoso edifício do catolicismo romano desaba fragorosamente e se provará apenas uma casa construída sobre a areia da pretensão infundada.
        Mas é interessante analisar primeiro um fato curioso: no próprio nome da instituição percebe-se uma óbvia contradição, pois se a palavra “católica” significa universal, global, já “romana” indica uma limitação qualitativa e espacial. Como algo pode ser ao mesmo tempo “universal” e “romano”?
        Contudo, sendo a teoria da primazia petrina a premissa básica sobre que se sustenta o catolicismo e suas teses, vejamos inicialmente um artigo erudito em que o autor, mediante uma análise exegética precisa e incontestável, define de modo claro o sentido de Mateus 16:18 e a questão de Pedro ser considerado a “pedra” fundamental da igreja, seguindo-se um breve estudo sobre a chamada “sucessão apostólica” e outros dados relevantes a tal exame.

Pedro é de fato a “rocha”, mas teria sido o primeiro papa?

        Nenhuma tentativa pode ser feita neste espaço para expor todas as falácias da teoria petrina e da sucessão apostólica. Para efeito de brevidade limitarei meus comentários ao texto básico de Mateus 16:18 empregado para provar a teoria petrina. Cristo diz a Pedro: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
        A questão é, quem é a “rocha” sobre a qual Cristo edificou Sua igreja? Obviamente para os católicos, a “rocha” é Pedro como pedra fundamental sobre a qual Cristo edificou a Sua igreja. Eles corretamente assinalam que o jogo de palavras—“Tu és Petros e sobre esta Petra”—revela haver inegável conexão entre os dois termos. Assim, Pedro é a Petra sobre a qual Cristo edificou Sua Igreja. Os protestantes obviamente rejeitam essa interpretação, argumentando, ou que a “rocha” seria o próprio Jesus ou a confissão de Pedro quanto a Cristo. Pelo último ponto de vista, o texto rezaria: “Tu és Pedro e sobre mim como rocha eu edificarei a Minha Igreja”. Pela última: “Tu és Pedro e sobre a rocha de Cristo que tu confessaste edificarei Minha Igreja”.
        O problema com ambas essas interpretações populares é que não fazem justiça ao jogo de palavras. No grego há uma inegável ligação entre “Petros” e “Petra.” A questão não é se “Petra-a rocha” refere-se a Pedro, mas em que sentido Pedro é “Petra-a rocha”. Em minha opinião, Pedro é “Petra-a rocha”, não no sentido católico de ser a pedra fundamental sobre a qual Cristo edificou  Sua igreja, mas no sentido de que Pedro é o fundamento inicial da igreja, edificada sobre o fundamento dos apóstolos, com Cristo como pedra de esquina.
        Esta interpretação assenta-se sobre duas considerações principais. Em primeiro lugar, o Novo Testamento retrata a igreja como um edifício, sendo “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Efés. 2:20; cf. 1 Ped. 2:4-8; 1 Cor. 3:11). A imagem da igreja como edifício sugere que a igreja não se firma sobre a rocha fundamental de Pedro, mas começa com Pedro como primeira pedra. Ele foi a primeira pessoa a confessar e aceitar a Jesus de Nazaré, como o Cristo, ou seja, o Messias, “o Filho do Deus vivo” (Mat. 16:16). Sendo o primeiro converso a aceitar publicamente a Cristo, Pedro tornou-se num certo sentido “o primeiro membro oficial” da igreja, ou a primeira pedra fundamental do edifício espiritual que é e igreja.
        Um segundo ponto importante, ignorado pela Igreja Católica, é que o Novo Testamento considera a igreja, não como uma organização hierárquica visível dirigida pelo papa com seus bispos, mas como uma comunidade invisível de crentes que são unidos pela mesma fé em Cristo. Na Bíblia “a igreja” não é uma organização religiosa, mas o “povo de Deus”. Tanto o hebraico qahal quanto o grego ekklesia, traduzidas por “igreja”, referem-se, na verdade, à “congregação” de crentes, que foram chamados do mundo (Deut 7:6; Osé. 1:1; 1 Ped. 2:9) a fim de ser uma luz no mundo (Deut. 28:10; 1 Ped. 2:9).
        Isso significa que quando Jesus falou sobre edificar Sua igreja, Ele não tinha em mente o estabelecimento de uma organização religiosa hierárquica, mas a edificação de uma comunidade de crentes que pela fé O aceitariam e O confessariam perante o mundo. Neste contexto, Pedro, por ser a primeira pessoa a confessar e aceitar a Jesus como o “Cristo”, que significa “Messias”, tornou-se a primeira pedra viva do edifício espiritual que consiste de uma comunidade de crentes. A idéia de Pedro ser o fundamento da igreja como organização hierárquica identificada com a Igreja Católica é alheia ao texto e aos ensinos do Novo Testamento.

Existe de fato uma linha sucessória ininterrupta entre Pedro e João Paulo II?

        Sucessão Apostólica. Um golpe fatal sobre a reivindicação petrina da Igreja Católica é  a falta de qualquer apoio neotestamentário para o primado de Pedro na igreja apostólica. Se, de acordo com a alegação católica, Cristo designou Pedro como Seu vigário para governar a igreja, então se esperaria que Pedro agisse como líder da igreja apostólica. Mas dificilmente seria este o caso.
        Por exemplo, não há indicação de que Pedro jamais tenha servido como presidente da igreja de Jerusalém. A estrutura organizacional da igreja de Jerusalém pode ser caracterizada como um colegiado com uma presidência. Mas não há indicação de que Pedro jamais serviu como o presidente em exercício daquela igreja. No Concílio de Jerusalém, foi Tiago, e não Pedro, quem presidiu nas deliberações (Atos 15:13).
        Ademais, a autoridade final da igreja de Jerusalém restava não sobre Pedro, mas sobre os apóstolos, mais tarde substituídos por “presbíteros”. Por exemplo, foram “os apóstolos” que enviaram Pedro a Samaria (Atos 8:14) para supervisionar as novas comunidades cristãs. Foram os “apóstolos” que enviaram Barnabé a Antioquia (Atos 11:22). Foram os “apóstolos e presbíteros” que enviaram a Judas e Silas para Antioquia (Atos 15:22-27). Foi “Tiago e os presbíteros” que recomendaram que Pedro se submetesse a um rito de purificação no Templo (Atos 21:18, 23-24).
        Tivesse Pedro sido designado por Cristo para servir como Cabeça da Igreja, ele teria desempenhado um papel significativo nas decisões acima mencionadas. Não há indicação de que Paulo considerasse a Pedro como líder da igreja. Narrando um incidente de quando Pedro foi para Antioquia Paulo declara: “resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível” (Gál. 2:11). A ação de Paulo dificilmente sugeriria que Pedro fosse reconhecido e respeitado como a infalível cabeça da igreja.
        Ademais, Paulo se refere aos “pilares” da Igreja apostólica como sendo “Tiago, Cefas, e João” (Gál. 2:9).
        O fato de que “Tiago”, o irmão do Senhor, é mencionado primeiro indica ser ele, antes que Pedro, quem servia como líder da igreja. Caso os apóstolos entendessem que Pedro houvesse sido designado por Cristo  para servir como cabeça da igreja, ter-lhe-iam confiado a liderança da igreja. Mas o fato é que Pedro nunca é visto no Novo Testamento como o único líder da igreja apostólica.
        A noção de que Cristo investiu a Pedro de autoridade para governar a igreja e que tal autoridade tem sido transmitida numa ininterrupta sucessão até seu último sucessor é invenção católica destituída de qualquer base bíblica. Isso primeiro apareceu nos escritos de Irineu, bispo de Lyon (175-195 A.D.), que usa o argumento da sucessão apostólica para refutar agnósticos heréticos alegando que os ensinos agnósticos eram heréticos por serem rejeitados pelas igrejas que podem traçar o seu pedigree  (Contra as Heresias, livro 3).
        O argumento da sucessão apostólica serviu a um propósito útil na igreja primitiva quando a formação do Novo Testamento estava ainda em progresso. Os líderes da igreja precisavam de uma autoridade objetiva para refutar os heréticos, e encontraram-no em igrejas como Antioquia, Éfeso e Alexandria, que podiam traçar suas origens aos apóstolos. Essas igrejas podiam servir como a pedra de toque da ortodoxia.
        Mas estender o conceito da sucessão apostólica a todo o curso da história cristã é infundado, por causa da interrupção e apostasia que essas igrejas haviam experimentado. A invasão muçulmana dos séculos sétimo e oitavo eliminaram completamente a maior parte das antigas igrejas orientais.
        O mesmo se aplica ao bispo de Roma. Qualquer pessoa familiarizada com a história do papado sabe quão difícil é até mesmo para a Igreja Católica provar a sucessão ininterrupta desde Pedro até o papa atual. Houve ocasiões em que o papado esteve nas mãos de vários papas corruptos, que lutavam entre si pelo trono papal.
        Por exemplo, em 1045 o Papa Benedito IX foi expulso de Roma pelo povo devido a ser indigno e Silvestre II foi colocado no trono papal. Mais tarde, Benedito IX retornou e vendeu o trono papal a um homem que se tornou Gregório VI.
        Durante esse curso de eventos, Benedito recusou renunciar a suas reivindicações papais, de modo que passou a haver três papas alegando ser o papa legítimo. Para resolver o problema o imperador alemão Henrique II convocou um sínodo em Sutri em A. D. 1046, que depôs todos os três papas e elegeu Clemente II no lugar.
Fica-se a indagar, qual dos três papas depostos se enquadraria na sucessão apostólica? Como pode a Igreja Católica ainda legitimamente defender a noção de uma sucessão ininterrupta desde Pedro até o papa atual, quando alguns de seus papas foram depostos por sua corrupção?! É evidente que existem alguns elos interrompidos na corrente da sucessão apostólica. – Dados do Dr. Samuele Bacchiocchi.
        A promessa que Cristo fez à igreja, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, faz paralelo à promessa dada por Deus a Moisés, quando definiu a saída do povo do Egito, reiterada a Josué mais tarde: “O Senhor é quem vai adiante de ti”. No Salmo 78 o salmista recapitula a história daquele privilegiado povo que teve sempre o respaldo divino a despeito de sua constante apostasia para que se cumprisse os propósitos de Deus de trazer salvação ao mundo mediante o Messias.  As portas do inferno não prevaleceram contra o povo de Israel a despeito de seus tantos deslizes e os santos objetivos foram cumpridos.
        Também a promessa do Espírito é dada a cada cristão (João 14:16; 16:13; Romanos 5:5, 8:16, etc.) e “as portas do inferno” certamente não prevalecerão contra aquele que “perseverar  até  o fim” (Mat. 24:13). Mas significa isso que então não poderia haver deslizes pessoais e coletivos, como ocorrido com a nação quase inteira de Israel? Ao tempo de Elias, quando se julgava que ninguém mais servia ao Senhor, o profeta lembrou ao incrédulo auxiliar que havia ainda 7.000 que não dobraram os joelhos a Baal (1 Reis 19:18; Rom. 11:4).
        Que dizer da promessa feita à  igreja? Significaria que esta jamais falharia e se afastaria de Deus? Não é o quadro que o próprio apóstolo Paulo nos apresenta ao profetizar o seu futuro, lembrando que haveria lamentáveis desvios. O tal “cristianismo original” que os católicos pretendem preservar na verdade, segundo profetizado, já bem cedo se havia contaminado por influências do paganismo romano. Paulo disse em Atos 20: 29 e 30 que isso ocorreria, e mesmo no seu próprio tempo dizia que “o mistério da iniqüidade já opera” (2 Tess. 2:7). João no Apocalipse, dirigindo-se às sete igrejas da Ásia se queixava de várias heresias que já haviam contaminado a fé original (ver Apoc. caps. 2 e 3).  Mas sempre houve os “7.000” que de tempos em tempos se levantaram para buscar trazer a igreja à  pureza original e divulgar a Palavra de Deus, as Escrituras, quando a Igreja dela se desviou em muitos aspectos e até proibia sua circulação.
        Voltando ao tema de Pedro, o texto a seguir foi adaptado do SDA Bible Commentary, Vol. 5:
Pedro, a quem as palavras foram dirigidas, enfaticamente nega que por tais ensinos, a “rocha” a que Jesus se referia era ele (Atos 4:8-12; 1 Pedro 2:4-8). Mateus registra o fato de que Jesus novamente empregou a mesma figura de linguagem, sob circunstâncias que claramente sugerem que o termo deve ser entendido como aplicável a Ele (Mat. 21:43; cf. Lucas 20:17, 18).
        Desde tempos bem remotos a figura da rocha era empregada pelo povo hebreu como um termo específico para Deus (Deut. 32:4; Sal. 18:2, etc.). O profeta Isaías fala de Cristo como a “grande rocha numa terra cansada” 32:2), e como uma “preciosa pedra de esquina, um seguro fundamento” (28:16). Paulo afirma que Cristo era a ‘Rocha’ que estava com o Seu povo em tempos antigos (ver 1 Cor. 10:4;  cf. Deut. 32:4; 2 Sam. 22:32; Sal. 18:31).
        Jesus Cristo é a “rocha de nossa salvação” (Sal. 95:1; cf. Deut. 32: 4, 16, 18). Ele somente é o fundamento da igreja, pois “nenhum outro fundamento poderia ser posto, além de Jesus Cristo” (1 Cor. 3:11), “nem há salvação em nenhum outro” (Atos 4:12).
        Intimamente associados com Jesus Cristo que é “a principal pedra de esquina” no fundamento da igreja estão os “apóstolos e profetas” (Efés. 2:20). No mesmo sentido que Cristo é a Rocha, “uma pedra viva, desprezada pelos homens mas escolhida por Deus”, todos quantos crêem Nele, “como pedras vivas, são edificados como um edifício espiritual” (1 Pedro 2:4, 5), “no qual todo edifício bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor” (Efés. 2:21). Contudo, Jesus é e sempre será a única “Rocha” sobre a qual toda a estrutura se apóia, pois sem Ele não haveria igreja nenhuma. Fé Nele como o Filho de Deus torna-nos possível também tornar-nos filhos de Deus (ver João 1:12; 1 João 3:1, 2).
        A percepção de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, como Pedro enfaticamente afirmou como registrado em Mateus 16:16, é a chave para a porta da salvação. Mas é incidental, não fundamental, que Pedro fosse o primeiro a reconhecer e declarar sua fé, que, na ocasião em que o fez, falava como porta-voz de todos os discípulos.
        Agostinho (cerca de 400 AD), o maior dos teólogos cristãos dos primeiros séculos, deixa a seus leitores decidirem se Cristo aqui designou-Se a Si mesmo ou a Pedro como “a rocha” (Retractaciones i. 21. 1). Crisóstomo, o pregador “língua de ouro”, outro Pai dos primeiros séculos, declara que Jesus prometeu lançar o fundamento da igreja sobre a confissão de Pedro [não sobre Pedro], mas noutra parte chama a Cristo mesmo nosso verdadeiro fundamento (Comentário Sobre Gálatas, cap. 1:1-3; Homílias Sobre 1 Timóteo, nº  xviii, cap. 6:21). Eusébio, o historiador da igreja primitiva, cita Clemente de Alexandria como declarando que Pedro e Tiago e João não lutavam por supremacia na igreja de Jerusalém, mas escolheram a Tiago o Justo como líder (História Eclesiástica, ii. 1). Outros Pais da igreja primitiva, tais como Hilário de Arles, ensinavam a mesma coisa.
Foi quando se buscava suporte escriturístico em favor das reivindicações do bispo de  Roma para o primado da igreja que as palavras de Cristo nessa ocasião foram tomadas de seu contexto original e interpretadas para significar que Pedro era essa “rocha”. Leão I foi o primeiro pontífice romano a reivindicar (cerca de 445 AD) que sua autoridade derivava de Cristo mediante Pedro. Dele, Kenneth Scott Latourette, destacado historiador eclesiástico, declara: “Ele insistia em que por decreto de Cristo, Pedro era a rocha, o fundamento, o porteiro do reino celestial, estabelecido para ligar e desligar, cujos julgamentos conservavam sua validade no céu, e que mediante o Papa, como seu sucessor, Pedro continuava a realizar a atribuição que lhe havia sido confiada” (A History of Christianity [1953], pág. 186).
        É verdadeiramente estranho que se isso realmente foi o que Cristo quis dizer, nem Pedro nem qualquer dos demais discípulos, ou outros cristãos por quatro séculos desde então, descobriram o fato!
        Também é algo extraordinário que nenhum bispo romano haja descoberto esse sentido nas palavras de Cristo até que um bispo no século V achou algum apoio bíblico para a primazia papal. O sentido atribuído às palavras de Cristo, transformadas em atribuição aos chamados sucessores de  Pedro, os bispos de Roma, está em total desacordo com todos os ensinos que Cristo transmitiu a Seus seguidores (ver cap. 23:8, 10).
        Talvez a melhor evidência de que Cristo não designou a Pedro como “rocha” sobre a qual edificar Sua igreja seja o fato de que nenhum dos que ouviram a Cristo nessa ocasião—nem mesmo Pedro—assim percebeu tais palavras, seja durante o tempo de Cristo sobre a terra ou depois. Tivesse Cristo tornado Pedro o principal entre os discípulos eles não iriam daí em diante empenhar-se em disputas sobre quem dentre eles deveria ser considerado “o maior” (Lucas 22:24; Marcos 9:33-35).
        O nome Pedro deriva do grego petros, uma “pedra”, geralmente um pequeno seixo. A palavra “rocha” no grego é petra, a grande massa pétrea, um pico montanhoso ou laje maciça de pedra. Uma petra é uma rocha fixa, não removível, enquanto petros é uma pequena pedra. Em que extensão Jesus pode ter tido tal distinção em mente é difícil de determinar, mas pode-se deduzir que, ainda que estivesse falando em aramaico, onde o termo é kepha’ e tal distinção talvez inexista como no grego, não se pode excluir a possibilidade de que Cristo empregasse um sinônimo do termo aramaico com o mesmo sentido básico do que representa a terminologia em grego com suas distinções. Parece provável que Cristo desejou fazer tal distinção, do contrário Mateus, inspirado pelo Espírito Santo ao escrever em grego, não a teria feito.
        Obviamente uma petros, pequena pedra, criaria um fundamento impossível para qualquer edifício, e Jesus aqui afirma que nada menos do que uma petra, ou “rocha”, seria suficiente. Este fato é tornado ainda mais seguro pelas palavras de Cristo em Mat. 7:24: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha”.
        Qualquer edifício construído sobre Pedro, petros, um ser humano errante e falho, como o registro do evangelho torna claro (ver Mateus 16:23) teria um fundamento pouco melhor do que a areia.
        O sentido das palavras de Cristo sobre “as portas do inferno” não prevalecerem sobre Sua igreja está no contexto quando Ele fala que iria ser morto mas ressuscitaria ao terceiro dia. Cristo triunfou gloriosamente sobre o poder de Satanás e por esse triunfo trouxe a garantia de que a Sua igreja sobre a terra também triunfaria (Mateus 16:21). Os versos anteriores contêm a introdução ao tema da messianidade de Cristo, pela primeira vez discutida entre os apóstolos.
        Pedro, dentro de sua característica pessoal, foi o primeiro a expressar fé nessa messianidade, assim como era geralmente o primeiro em tudo dentre os apóstolos.

        Reiterando e ampliando o acima exposto, eis uma seqüência de perguntas que os católicos são incapazes de responder convincentemente:

* Se Pedro foi designado como primeiro líder da igreja por que Jesus declarou enfaticamente: “A ninguém sobre a terra chameis de pai [papa]; porque só um é o vosso Pai, aquele que está no Céu. Nem sereis chamados de guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo” (Mateus 23:9 e 10)? O contexto indica que a referência é a autoridade final quanto a questões espirituais. Homem nenhum pode assumir este papel.

* Se Pedro e os demais discípulos tivessem entendido as palavras de Cristo em Mateus 16:18 como estabelecendo a sua supremacia e posição de liderança à frente da igreja, por que logo adiante os discípulos disputavam quanto a quem dentre eles seria o maior? Quando muito, iriam disputar a posição nº. 2, pois a nº. 1 já estaria assegurada a Pedro, que jamais reivindicou ser líder dos demais.

* Se Pedro fosse o líder da igreja, por que não está claro que foi quem apresentou a decisão final no Concílio de Jerusalém, e sim Tiago? Ele apenas fez um discurso introdutório, mas quem falou em nome do corpo de apóstolos foi Tiago. Leia-se atentamente Atos 15, especialmente versos 12 em diante.

* Se Pedro fosse o líder da igreja, como poderia ser enviado para Samaria com João, em lugar de estar ele à frente enviando missionários? Ver Atos 8:14.

* Se Pedro fosse o líder da igreja, a “pedra” de seu fundamento, por que atribuiu a Cristo esse papel de ser a pedra fundamental, e nada disse sobre seu próprio papel à frente da igreja? 1 Pedro 2:6-8. Paulo confirma isso em 1 Coríntios 10:4, dizendo que Cristo é a pedra fundamental.

* Se Pedro fosse o primeiro papa, como pôde Paulo repreendê-lo severamente porque agia de forma repreensível? Ora, onde já se viu alguém repreender o papa, sendo-lhe subalterno?  Ver em Gálatas 2:11 a 14.

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que Paulo fala da igreja como edifício firmado sobre os apóstolos e profetas, sem discriminar que Pedro era mais importante? Ver Efésios 2:20. Cristo neste texto é apresentado como a pedra angular.

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que não discriminou Paulo a Pedro como o principal, fazendo referência a Pedro, juntamente com Tiago e João, como colunas da igreja, citando a Tiago em primeiro lugar? Ver Gálatas 2:9.

* Se Pedro foi o primeiro papa, por que a autoridade final da igreja de Jerusalém restava não sobre Pedro, mas sobre os apóstolos, mais tarde substituídos por “presbíteros”? Por exemplo, além de terem sido “os apóstolos” que enviaram Pedro a Samaria (Atos 8:14) para supervisionar as novas comunidades cristãs, eles também que enviaram Barnabé a Antioquia (Atos 11:22), Judas e Silas para Antioquia (Atos 15:22-27).

* Se Pedro foi o primeiro papa, por que foram “Tiago e os presbíteros” que recomendaram que  Pedro se submetesse a um rito de purificação no Templo (Atos 21:18, 23-24)?

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que Paulo em sua epístola aos gálatas torna claro que não considerava Jerusalém um centro administrativo divinamente apontado para toda atividade congregacional e após a conversão nem se dirigiu a Jerusalém, a procura de Pedro e da liderança da igreja ali, mas a Damasco? Paulo recebeu as divinas instruções através de um damasceno chamado Ananias. Em Gálatas 1: 16, 17 ele diz claramente que não recorreu após sua conversão a fontes humanas de autoridade.

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que só três anos depois é que Paulo viajou para Jerusalém e declara que apenas viu a Pedro e Tiago, nenhum outro apóstolo, em sua estada ali de quinze dias? Mais tarde, fez de Antioquia a sua base de operações, e embora essa cidade fosse próxima de Jerusalém, não via razão para dirigir-se até lá.

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que os relatos das viagens missionárias  de Paulo (Atos 13, 15, 20, etc.--especialmente 15:36) não indicam que as empreendia por recomendação de alguma “mesa administrativa”, com um roteiro e orçamento aprovados por um líder eclesiástico? De fato, ele subiu a Jerusalém só após quatorze anos acompanhado de Barnabé e Tito, e mesmo assim devido a uma “revelação” do Senhor (ver Gál. 2: 1, 2).

* Se Pedro fosse o primeiro papa, por que os únicos manuscritos bíblicos depois da queda de Jerusalém, os do apóstolo João, escritos décadas após a desolação de Jerusalém, nada mencionam quanto a um corpo administrativo centralizado sobre os cristãos de seus dias com um papa como dirigente máximo? No Apocalipse, as visões de João retratam a Cristo enviando mensagens a sete igrejas da Ásia Menor (Apoc. 1 a 3). Em nenhuma dessas mensagens existe qualquer sugestão ou indicação de que tais congregações estivessem sob uma direção externa, a não ser do próprio Cristo.

* Se Pedro foi o primeiro papa, por que nos escritos disponíveis de autores cristãos do segundo e terceiro séculos nada é indicado quanto à existência de uma administração centralizada para supervisionar as numerosas congregações cristãs, sob o comando de Pedro? A história do período revela, ao contrário, algo bem diferente disso--que a autoridade religiosa centralizada foi produto de um desenvolvimento pós-apostólico e pós-bíblico.

Alguns comentários adicionais:

a) Quando repete a sentença: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, o evangelista Marcos omite a referência à Pedra (Mar. 8:27-30). Marcos por muito tempo foi companheiro de Pedro e no seu evangelho há uma profunda influência do mesmo. Pedro chamava Marcos de filho (I Pe 5:13), no entanto, este deixou de fazer qualquer referência a ele, o que demonstra não considerá-lo como tendo alguma primazia sobre os demais. Também o evangelista Lucas, que escreveu o seu evangelho, diz ele, após intensa pesquisa daquelas “verdades” em que seu destinatário Teófilo havia sido instruído (Luc. 1:1), não faz qualquer referência ao episódio da confissão de Pedro sobre Cristo ser o Messias, tendo Este, então, o colocado à frente dos demais. Portanto, não havia qualquer firme crença de Pedro ter primazia entre os demais apóstolos.

b) Há também a afirmação católica de que Pedro teria recebido as chaves do céu. É outra deturpação das Escrituras, baseada em Mateus 16.19: “Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” O fato, em, é que a declaração de Cristo não foi somente dirigida a Pedro, mas a toda igreja (Ver Mateus 18:15 a 18). Fica então patente que o ligar e desligar não se refere apenas a um homem, mas à toda igreja, que têm a Cristo como cabeça , “. . . o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre” (Ap 3:7).
         O que seria abrir e fechar ou ligar e desligar que Cristo fala que a igreja realizaria com respeito às pessoas?  O que se segue: quando a igreja prega o evangelho, abre o reino; quando deixa de pregar, o fecha. Isto fica bem claro quando observamos o “ai” de Cristo a respeito dos fariseus. “Mais ai de vós escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.” (Mt 23:13). Porque os fariseus fechavam o reino? Por não divulgarem corretamente as Escrituras, o Antigo Testamento, naquela época. Veja: “ai de vós, doutores da lei, que tiraste a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.” (Lc 11:52). Assim observamos que quando a igreja prega o evangelho genuíno esta abre o reino dos céus, quando não,  fecha o reino.

c) Ao analisarmos o trecho bíblico de Mat. 16:13-20, devemos partir para a análise da afirmação católica que Pedro foi o primeiro papa. Se ele realmente foi o primeiro papa, o foi de maneira totalmente diferente dos padrões papais. Há um abismo enorme entre Pedro e os seus pretensos sucessores. A verdade é que Pedro não foi o primeiro papa e a ordenação de um dirigente humano universal para a igreja está totalmente contrária às Escrituras. Jorge Buarque Lyra (in: Catolicismo Romano) argumentou muito bem: “Poderia, acaso, de alguma forma, um homem ser fundamento de uma obra divina? Se pudesse (admitindo-se o absurdo), tal obra deixaria de ser divina.”

d) Vejamos as seguintes características de Pedro:

1.ª) Pedro não era celibatário. Tanto que teve sogra curada por Cristo (Mc 1:29-31). O papa é celibatário, sendo o celibato uma imposição a todo o clero. Em I Timóteo está escrito: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e doutrinas de demônios; . . . proibindo o casamento.” (4:1-3).

2.ª) Pedro era pobre. “E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro. . .” (At 3:6). O papa está cercado de riquezas. Segundo artigo do semanário americano Time, de 3/6/02, só nos Estados Unidos a Igreja Católica fatura anualmente o montante de 7,5 bilhões de dólares, sem falar nos milhões e milhões de seu patrimônio em forma de catedrais, seminários, retiros à beira mar, estações de rádio e TV, e muitos outros empreendimentos comerciais.

3.ª) É interessante observar que o chefe da igreja de Roma nunca esteve em Roma. Os católicos lançam mão de fontes extrabíblicas para afirmar que Pedro esteve em Roma. E mesmo que Pedro tenha estado em Roma ele não fundou ali a Igreja.

4.ª) Pedro nunca consentiu que ninguém se ajoelhasse a seus pés. “E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornélio a recebê-lo, e, prostrando-se a seus pés, o adorou. Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem.” (At 10:25 e 26). O papa constantemente recebe este tipo de reverência e adoração.

5.ª) Pedro não era infalível. “E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível. Porque antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartando deles, temendo os que eram da circuncisão.” (Gl 2:11 e 12). O papa é considerado infalível. A infalibilidade papal foi definida e aceita oficialmente em 1870 no Concílio do Vaticano I.
A Igreja Católica demorou 1870 anos para considerar o papa infalível. É importante observar que não foi Deus que decidiu, mas foram homens pecadores reunidos que chegaram à conclusão que  o  papa era infalível. Na Bíblia está escrito: “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23) e ainda está escrito que quando dizemos que não temos pecado fazemos a Deus mentiroso. Veja: “Se dissermos que não pecamos fazemo-lo mentiroso, e a Sua palavra não está em nós.” (I Jo 1:10).

6.ª) Pedro não tinha a primazia na igreja. Observe o que Pedro escreveu: “Aos presbíteros, que estão entre vós, que sou também presbítero como eles e testemunha das aflições de Cristo. . .” (I Pe 5:1). Em Atos 11:1-18 vemos Pedro justificando-se perante a igreja. Quero destacar principalmente o versículo 2: “E subindo Pedro a Jerusalém, disputavam com ele os que eram da circuncisão”. Enquanto que a igreja Católica afirma que as decisões do papa não podem ser questionadas.

7.ª) Pedro era um homem de personalidade forte, ousado, o primeiro nas iniciativas. Ele foi quem pediu para andar sobre as águas, foi o primeiro a querer ver o Cristo ressuscitado, quis repreender ao próprio Cristo por este profetizar Sua Paixão e morte, sendo chamado por Cristo de “pedra de tropeço” (ver Mateus 16:23). E isso não muito depois de Cristo ter-lhe dito que ele era a “pedra”, e que tudo que abrisse ou fechasse na terra seria aberto ou fechado nos céus (comparar com Mateus 18:18, onde  isso se aplica também aos demais apóstolos). Ele também era o mais ousado—foi quem puxou a espada e feriu o soldado romano quando Cristo foi preso.

8ª) Pedro recebeu a consolação e apoio de Cristo que lhe disse três vezes, “amas-me? . . . apascenta as Minhas ovelhas. . .” (ver João 21:15-25), pelo fato de estar tremendamente deprimido por ter também negado três vezes a Cristo. O objetivo dessa entrevista de Cristo com ele, portanto, não era para pô-lo como chefe da igreja ou líder entre os demais apóstolos, como os católicos entendem.

        Para finalizar, quero deixar uma nota positiva: Nos nove anos passados o percentual de católicos que crêem na salvação pela graça somente e que aceitaram a Jesus como seu Salvador cresceu  de 16  para 24 por cento. Denominacionalmente, os católicos são o segundo maior grupo de cristãos nascidos de novo, perdendo apenas para os batistas”.
        Oxalá cada vez mais católicos compreendam esta importante verdade bíblica e entendam que a salvação não se obtém por obras de espécie alguma nem por rituais de uma igreja. Jesus Cristo é o único e suficiente Salvador, e só por Sua vida e morte expiatória podemos ter a compensação por nossos pecados.

Professor Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura


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