JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ E A CLAREZA DOS ENSINOS BÍBLICOS

 
       A despeito de questões complexas, verdadeiramente misteriosas com respeito a certos conteúdos bíblicos, os Reformadores consideravam a Bíblia um livro de grande clareza, mas isso quando entendida à luz de sua doutrina-mestra de justificação pela fé.
       O princípio formal da Reforma (a Bíblia só) e o princípio material da Reforma (justificação pela fé em Cristo) permanecem juntos.  Se um cai, também o outro cairá. Disse Lutero:
 
       Se o artigo de justificação pela fé for perdido, toda doutrina cristã se perderá ao mesmo tempo.  . . . Pois com ela vem o Espírito Santo, que ilumina o coração por ela e a mantém no verdadeiro entendimento correto de modo que seja capaz de precisa e claramente distinguir e julgar todos os demais artigos de fé, e com vigor sustentá-los”. – What Luther Says, ed., E. Plass (St. Louis: Concordia, 1959), Vol. 2, pp. 702-714, 715-718.
 
       Se essa declaração de Lutero for correta—e cremos que é—isso significa que há uma grande razão por que a Bíblia não parece clara para muitos na Igreja hoje. Perdemos de vista a verdade da justificação pela fé! Que esta doutrina central das Escrituras seja restaurada a sua devida posição e a Bíblia se tornará essencialmente clara.
 
A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ ILUMINA TODAS AS DEMAIS VERDADES
 
       A Bíblia é o registro da ação salvadora de um Deus gracioso e santo. Sua justiça não é apresentada como uma qualidade abstrata, mas como algo que se revela em eventos concretos, históricos. Deus interfere na trágica situação humana, e Sua justiça torna-se uma realidade dinâmica. Ele salva uma porção de crentes de um dilúvio universal, Ló das chamas de Sodoma, Israel da escravidão do Egito, Ezequias das ameaças de Senaqueribe, os judeus de seu cativeiro em Babilônia, e o salmista das armadilhas de seus inimigos. E todas essas libertações do Velho Testamento apontam àquele ato culminante de justiça, quando o próprio Deus vem a este planeta na realidade de carne e sangue de Jesus Cristo. Em Cristo Ele é o Deus que está conosco em face de tudo quanto é contra nós. Vemos que Ele é o Deus que enfrenta enfermidades corporais, pobreza, sofimento, solidão e morte. Ele, portanto, vem a nós porque Seu amor O impele dessa maneira. Em nossa alienação de Deus, somente Ele nos pode ajudar. Ele, pois, por causa do amor, deve deixar tudo, dar tudo e sofrer tudo.
       Esta ação redentora divina que foi levada a cabo em Jesus é o que a Bíblia chama de “a justiça de Deus” (Rom. 1:17). É eficaz para todos quantos crêem. É sobre isso que a Bíblia inteira trata. Quando a Bíblia é lida e entendida nessa perspectiva, sua mensagem se torna clara como o sol do meio-dia. Mas se o tema de Cristo e da justificação pela fé Nele é perdido de vista ou tirado do centro, a Bíblia não mais se faz clara. Torna-se distorcida como se fosse um gigantesco quebra-cabeças dispensacionalista, mutilada como se fora um manual para auto-melhoria, deturpada para dar lugar a inúmeras experiências religiosas bizarras, ou explorada pelos que imaginam que têm informações da parte de Deus sobre eventos em política internacional, e, pior, abusada para propiciar ganhos financeiros de pregadores e organizações religiosas que se especializam em oferecer vantagens materiais a incautos buscadores de “prosperidade”, numa base de enganoso toma lá/dá cá.
       A Bíblia se assemelha a um organismo vivo, com um coração pulsante. Quando doutrinas, mesmo legítimas, são desligadas desse coração, tornam-se artificiais, estéreis e sem vida, assumindo uma coloração totalmente diversa da bíblica.
       Em seu primeiro tratado escrito para o povo inglês em favor da Reforma, John Bugenhagen declarou: “Temos somente uma doutrina: Cristo e Sua justiça”.—Citado em J. P. Mozley, William Tyndale, p. 54. Isso sintetiza o espírito da Reforma, que foi em grande parte perdido na era do escolasticismo protestante que se seguiu e no subjetivismo religioso que caracterizou a ala evangélica da Igreja em épocas mais recentes.
       A ênfase dos Reformadores na “única doutrina” não significa que ignoravam as outras  doutrinas essenciais, mas que viam a verdade da justificação pela fé em Cristo como abrangendo todas as demais.
Ecclesia reformata semper reformanda é um moto da Reforma que expressa uma confissão de que a obra da Reforma não foi completada com Lutero e Calvino. O santuário da verdade deve ainda ser purificado de todos os erros introduzidos sob a capa da Idade Escura. Não temos razão para supor que a restauração de todas as verdades importantes e necessárias se tenham completado mesmo em nosso tempo.
O ERRO: POLVO DE OITO TENTÁCULOS E UM CORAÇÃO
       Alguém comparou o erro a um polvo de oito braços. Tem muitos tentáculos, mas um coração. Na sua maioria, os livros que expõem o erro de certas seitas ou falsos sistemas lutam contra todos os tentáculos desse polvo doutrinário. Poucos, porém, atingem diretamente o seu coração com a espada da verdade da justificação pela fé.
       Todos os erros têm como característica comum obscurecer a preciosa verdade da justificação pela fé. O mundo religioso contemporâneo carece urgentemente da verdade da justificação pela fé sem os artifícios de erros populares que a tem ofuscado. Todos temos muito a aprender, como também a desaprender.
       A história registra que mesmo grandes santos cometeram os seus erros, e na análise que se segue, de doutrinas que consideramos erradas, não há a mínima intenção de negar que haja fiéis cristãos que as adotem. Devemos “falar a verdade em amor” (Efé. 4:15) e humildade.
Romanismo
       A doutrina da justificação pela misericórdia divina somente, com base no que Cristo realizou, e mediante a justiça vicária de Cristo imputada pela fé somente, é um “Não” radical ao romanismo. Ao dizer isso não ignoramos que teólogos católicos do passado e do presente falam em justificação pela graça somente, Cristo somente, e, às vezes, pela fé somente. Não devemos acusar Roma de ensinar abertamente a salvação por obras.
       Mas conquanto os teólogos do romanismo empreguem todos os slogans da Reforma, isso não significa que tais frases tenham o mesmo sentido. Segundo eles, “justificação pela graça” tem o sentido de alcançar graça diante de Deus em vista de que a alma foi interiormente adornada com uma graça infusa (gratia infusa). “Justificação por Cristo” nessa concepção significa ser tornado justo por causa da real presença de Cristo no interior do homem mediante o Espírito Santo, que purifica a vida do homem, atuando internamente. Justificação pela fé representa que a fé é por si mesma uma qualitas que torna o crente justo à vista de Deus.
       O princípio Reformado de justificação sempre aponta às realidades salvíficas que são completamente fora do homem. A Graça é pura misericórdia que se acha fora do homem, no coração de Deus. A justiça que justifica acha-se fora do homem, não no seu interior, ligada à obediência de Cristo que se deu dentro da história, há pouco mais de 2.000 anos. Na justificação esta justiça não é infusa, mas imputada. Não se encontra no homem, sobre a Terra, mas em Cristo, no céu.
       A fé justifica, não por conter qualquer mérito intrínseco, mas somente como instrumentalidade que aceita o dom imputado. Ser justificado pela fé significa ser aceito em Outro por Este ter todos os méritos.
       Em contraste, no romanismo tudo é internalizado. As palavras "graça", "justiça", "justificação" e "substituição" podem até  aparecer, mas elas não têm o sentido de algo fora do homem. A obra do Espírito em nós substitui a obra de Cristo por nós, como “causa formal” do perdão e aceitação. A renovação interior do homem é colocada no lugar da justiça imputada de Cristo. O ato transfomador de Deus no homem supera inteiramente o ato redentor divino pelo homem. O enfoque é completamente interior, e não exterior, não situado à destra de Deus, mas dentro do coração do homem. Aliás, nesse ponto o romanismo não difere de nenhum culto pagão que sempre dá esse mesmo enfoque, promovendo o potencial humano ligado à ação divina para se alcançar as glórias da eternidade.
Pentecostalismo
       A verdade da justificação pela fé coloca em disputa todo o sistema carismático-pentecostal. A filosofia básica do movimento pentecostal é uma negação dos princípios de justificação pela fé por que se bateram os Reformadores do Século XVI.
       Não negamos haver genuínos cristãos entre os adeptos das várias correntes pentecostais. Negar isso seria negar a graça. Muitos pentecostais expressam sua aceitação plena da justificação pela fé e somos gratos a Deus por isso. Nosso apelo a tais é que juntos busquemos assimilar tudo quanto está implícito nessa doutrina básica.
       Ensinar que o “batismo com o Espírito Santo” seria uma experiência superior ao ato da justificação é um erro grosseiro. O dom do Espírito prometido ao que crê é somente um “pagamento de entrada” (Efé. 1:13, 14) do que nos tem sido concedido em Cristo Jesus. A graça da justificação é como água de todo o oceano. A experiência interior da ação do Espírito assemelha-se à água contida numa concha na praia. Um dom divino que se pode reduzir à dimensão intra-humana de um homem mortal não é lá grande coisa, afinal de contas. Uma herança que alguém pode carregar consigo, ou mesmo em algumas malas, não parecerá tão valiosa.
       O apóstolo Paulo declara que o Espírito é concedido junto com a bênção da justificação. Uma justificação que não traga no seu rastro o Espírito Santo abundantemente não é em absoluto genuína (ver Rom. 5:1-5; 8:1-10; Gál. 3:1-14; Efé. 1:13; Tito 3:5-8).
       Cria-se no pentecostalismo um novo “legalismo” em que a preocupação é com a experiência interior, a “completa submissão”, “total dedicação”, “erradicação do eu”. O enfoque é tirado da obra realizada por Cristo em obter o Espírito para o crente, voltando-se aos próprios atos de contrição do pecador, quando, de fato, os pecados foram perdoados inteiramente no Calvário (Atos 2:33; Gál. 3:13, 14; João 7:38, 39).
       Paulo lembra aos insensatos gálatas que o Espírito veio (Gál. 3:2) e continua a ser concedido abundantemente (tradução literal do grego de Gál. 3:5) “pelo ouvir com fé”. A preocupação dominante do pentecostal é a sua vida interior, e o seu testemunho não é do que Deus realizou em Cristo dentro da história, mas a sua história pessoal do que Cristo nele operou pela ação do Espírito.
       A conclusão que se tira é que o pentecostalismo representa um sutil retorno ao catolicismo e uma inegável “ponte ecumênica” para unir católicos e protestantes, como de fato se percebe em muitas iniciativas de contatos entre líderes pentecostais e católicos, sobretudo a partir da eclosão do carismatismo no seio do catolicismo, onde encontrou o seu ambiente natural e tem prosperado de modo explosivo.
Subjetivismo (O falso evangelho do “deixar Cristo entrar no coração”)
       Entre as noções que acentuam um subjetivismo antievangélico e antiprotestante ocorre a ênfase comum entre pregadores contemporâneos sobre a salvação basear-se em Cristo vir habitar no coração do pecador e daí operar o novo nascimento. Na verdade, em termos práticos quem vem habitar no coração é o Espírito Santo, embora em João 14:23 fique claramente definido que quem crê em Cristo, recebe o Espírito e isso é como se o próprio Pai e o Filho viessem fazer morada no crente. Esta passagem é uma excelente confirmação da doutrina da Trindade, pois o Espírito representa perfeitamente as demais Pessoas divinas (ver também 1 João 3:24).
       Seja como for, o problema maior nesse raciocínio está na idéia de que a salvação deriva da experiência de “novo nascimento” do pecador arrependido, o que é um grave erro. A “paz com Deus” procede da justificação pela fé (Rom. 5:1) e não do fato de que o pecador nasceu de novo, ou seja, teve sua vida transformada pela ação do Espírito. Essa noção causaria sérios problemas, pois, em última análise, quem se faz salvador nesse processo não é Cristo, e sim o Espírito! Contudo, a Bíblia diz que “o Espírito não falará de Si mesmo”. Ademais, temos uma estranha modalidade de cristianismo em que o seu elemento básico está faltando: a cruz. E um cristianismo sem cruz pode ser qualquer tipo de confissão, menos a religião cristã.
       Afinal de contas, o próprio Cristo não disse claramente a Nicodemos, “importa-vos nascer de novo”? Sem dúvida, e ninguém está querendo negar a necessidade de regeneração e renovação de vida de quem aceitou a Cristo pela fé. Só que Jesus NÃO DISSE SÓ ISSO, antes, prosseguiu apontando à raiz do processo de salvação ao acentuar, nos vs. 14 em diante, de João cap. 3:  “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”.
       Falar em Cristo vir habitar o coração não está errado, desde que se acentue o sentido disso no campo da SANTIFICAÇÃO, e não da JUSTIFICAÇÃO. Paulo fala que não era ele mais quem vivia, e sim “Cristo vive em mim”, contudo ele prossegue mostrando que não está exaltando nenhuma experiência mística, mas aponta à base histórica de sua certeza, que é a “fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gál. 2:20).
       Enfim, a verdade da justificação pela fé tem que ver com a experiência de Cristo, não a do homem. Esse entendimento é que nos livrará da visão egocêntrica, mesmo na fé, para conduzir-nos a vidas de santidade (Isa. 55:11). Isso nos põe em liberdade para vivermos para a glória de Deus, e não para a nossa própria.
Predestinismo
       A doutrina da eleição não deve ser apresentada como um conceito filosófico e especulativo. Quando abstraído de sua estrutura bíblica, surge diante das pessoas como uma doutrina de predestinação que mais parece um determinismo arbitrário que afasta os homens de Deus, em lugar de atraí-los a Ele.
       A Bíblia apresenta a eleição em seu correto contexto, quando a apresenta como eleição em Cristo (Efé. 1:4). A salvação é inteiramente devida à iniciativa divina em Jesus Cristo. Ele buscou, escolheu e nos encontrou. Nós não buscamos, escolhemos e O encontramos. Nossa salvação está firmada na Sua decisão prévia de salvar a humanidade na Pessoa de Jesus. Portanto, a “plena garantia” não repousa sobre o delgado fio de nossas volúveis decisões.
       Nossa fé jamais pode ser uma contribuição ou causa de nossa eleição, uma vez que Deus elegeu a esse homem, Jesus Cristo, em nosso lugar, muito antes que chegarmos à fé. Nossa fé somente pode ser um eco da “fé [ou fidelidade] de Deus” (Rom. 3:3). Ele ancorou tudo em Cristo, desde a eternidade.
Dispensacionalismo
       Os dispensacionalistas em geral não negam a doutrina da justificação pela fé, apenas a têm como uma doutrina mais, no rol de ensinos importantes do cristianismo. Contudo, deve é ser vista como o fundamento de tudo, a doutrina pela qual “a Igreja permanece de pé ou cai”, como acentuava Lutero.
       Ninguém que genuinamente se apegue ao princípio apostólico e Reformado de justificação pela fé pode ser um dispensacionalista, pelas seguintes razões:

       1. O Novo Testamento sempre destaca que Cristo é o cumprimento das esperanças e promessas do Velho Testamento (Atos 13:32, 33; 2 Cor. 1:20). Em Jesus Cristo Deus deu fim ao pecado, concedeu paz, sabedoria, riqueza e justiça a Israel. Nele a velha ordem passou e eis que tudo se fez novo (2 Cor. 5:17). No Velho Testamento lemos, “Eis que virá dias. . .”, ou, “E ocorrerá. . .”. O Novo Testamento aponta a Cristo, dizendo: “A hora é agora. . .”, e “Hoje se cumpriu esta Escritura”.
       A menos que creiamos que tudo quanto Deus prometeu aos judeus realmente se cumpriu em Cristo, admitimos ao judeu não crente que Jesus não é o verdadeiro Messias. Decerto quando Jesus voltar se dará uma completa revelação de Sua vitória a todo o mundo, mas tudo já foi conseguido Nele, e disso já somos possuidores pela fé.

       2. Paulo diz aos gálatas de modo indiscutível que a justificação em Cristo (Gál. 2:17) é a bênção que foi prometida à semente de Abraão (ver Gál. 3). Qualquer judeu que for justificado pela justiça de Cristo recebeu tudo que Deus prometeu a Abraão e à sua posteridade. Os que queriam obter as promessas feitas a Abraão mediante a circuncisão foram condenados como os que negariam com isso ao próprio Cristo, cumprimento das promessas que buscavam alcançar, pois agora os verdadeiros filhos de Abraão são os da fé (Gál. 3:7 e 29), os da "casa de Israel e casa de Judá", aos quais Deus oferece o Novo Concerto (ver Heb. 8:6-10).
       O centro da esperança para Israel não está em eventos presentes ou futuros na Palestina, e sim na justificação pela fé em Cristo, e todos quantos experimentaram isso são integrantes do Israel de Deus (Gál. 6:16).

Perfeccionismo
       A noção de perfeccionismo é de que “é possível que o crente, mesmo antes de sua morte, alcance a perfeição. . . . que o crente seja capaz de transcender completamente a poluição do pecado” (G. C. Berkouwer, Faith and Sanctification, (Grand Rapids: Eerdmans), págs. 49, 53. Nesse respeito há considerável concordância entre o catolicismo e o protestantismo. De fato, o Artigo 18 dentre os “Decretos” do Concílio de Trento, da Contra-Reforma católica, determina:
“CÂNONE 18. Se alguém disser que os mandamentos de Deus são, mesmo para alguém que é justificado e constituído em graça, impossíveis de observar, seja anátema”.
       Entre alguns crentes circula até a estranha idéia de que Jesus herdou a natureza do homem APÓS A QUEDA, e venceu o pecado pelo poder do Espírito Santo (o chamado conceito “pós-lapsariano”). E assim como Ele venceu, nós poderemos igualmente vencer, atingindo um status de perfeitos ontologicamente, ou seja, do próprio ser. Seria o caso de imaginar crentes, quando orando o Pai Nosso, saltando a parte que diz, “perdoa as nossas dívidas”, já que não mais as teriam! . . .
       O fato é que ninguem conseguiria JAMAIS preencher plenamente o que é requerido pela lei divina, que é “perfeita” (Sal. 19:7), pois toda nossa obediência é e sempre será imperfeita, maculada como está pelo “pecado original”, mesmo que se alegue que isso ocorra com o divino auxílio. Devemos, sim, obedecer plenamente a Deus, mas motivados pelo fato de que “amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo. 4:19).
       A verdade bíblica da justificação pela fé significa que nesta vida não há justiça diante de Deus por regeneração, batismo do Espírito, vida de nova obediência ou qualquer realidade interior, empírica. Nós somos justos diante de Deus única e tão-somente pela fé, que é “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” (Heb. 11:1).
       Ser interiormente perfeitos não pertence à justiça da fé, mas é a justiça da realidade palpável, das boas obras, da lei (Rom. 8:4). Ser justo pela fé até Jesus voltar implica que em nós mesmos seremos pecadores até que Ele venha, pois a justiça da fé é somente para pecadores.
       É a justificação que garante a nossa glorificação no fim do mundo (Rom. 5:1, 2; 8:30). A vida do crente aqui e agora deve ser vivida na tensão entre ser “perfeitos em Cristo” e prosseguir no alvo da perfeição. A carne e o Espírito devem prosseguir numa guerra incansável (Gál. 5:17) e a esperança anseia pela realidade da plena rendenção e justiça quando Cristo vier (Rom. 8:23; Gál. 5:5; Heb. 11:40).
       O perfeccionismo nega a todo-suficiência e centralidade, se não a primazia, da justificação pela fé. Inevitavelmente se volta para a preocupação com a vida interior. Contrariamente à imagem que busca transmitir, o perfeccionismo não é a negação do pecado, e sim a sua perpetuação. Ao tentar cumprir a vida e a história aqui e agora, rouba ao crente de sua esperança no lá e então, numa tentativa de forçar a obtenção da glória futura.
Dualismo
       O erudito Reformado Herman Hoeksema declara que a doutrina da imortalidade da alma, além de não contar com a mínima prova nas Escrituras, “é uma dessas doutrinas herdadas pela Igreja da filosofia platônica, que foram simplesmente recebidas acriticamente e sem serem julgadas à luz das Escrituras. . .” – Reformed Dogmatics (Reformed Free Pub. Assoc.), p. 208.
       Em que a doutrina da justificação pela fé põe em disputa a crença na imortalidade da alma? Temos que considerar a questão numa perspectiva histórica, lembrando que a ação salvadora de Jesus Cristo é vista em três momentos:
Passado. O evangelho da obra consumada de Cristo significa que em Cristo Deus eliminou o pecado, trouxe a justiça eterna e aperfeiçoou para sempre a comunidade eleita (Heb. 9:26; 1:3; 2 Cor. 5:21; Heb. 10:14). Também, “destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho” (2 Tim. 1:10). Devia ser evidente que esses dons que são concedidos ao homem no evangelho não pertencem a ele inatamente.

Futuro. Todas as coisas que Deus realizou em Cristo quando de Seu primeiro advento Deus nos trará visivelmente quando da Sua segunda vinda. Essa é a natureza da escatologia—a aberta revelação do que Deus já realizou. Quando de Seu retorno a este mundo, Cristo realmente nos trará o estado de  ausência de pecado, perfeição e imortalidade (Gál. 5:5; Heb. 11:40; Fil. 3:11, 12; Col. 3:2-4; 1 Cor. 50-55; Rom. 8:16-23).

Presente. Nesse entretempo o crente possui todas as coisas pela fé. Ele é perfeito somente pela fé. Ele já passou da morte para a vida pela fé. Sua justiça e inteireza se acham em Cristo (Col. 3:3). Ele não é imortal em si mesmo, embora já tenha passado “da morte para a vida” (João 5:4). Ele só terá a vida tendo ao Filho (1 João 5:12) e sua herança se acha à sua espera no céu, enquanto sobre a Terra ele vive pelo poder de Deus e mediante a fé (1 Ped. 1:3-5). A justificação pela fé ensina ao crente que sua justiça está fora dele, na pessoa de Cristo, e também Nele se acham a sua vida em seu eterno potencial.

       As idéias de justificação por uma justiça interior e a noção de posse de uma alma imortal vêm juntas. Como disse o teólogo alemão Helmut Thielicke, “A noção de infusão também produz da mesma raiz uma nova doutrina de imortalidade que deve operar com a idéia de que a alma agora cheia da substância da divina graça, fornecida com zoe [vida], por assim dizer, não pode sucumbir à morte, mas a ela sobreviver. Em contraste, a fé bíblica redescoberta por Lutero sabe que tanto a justificação quanto a zoe permanecem exclusivamente à disposição de Deus e que eu deles participo somente na medida em que a comunhão em Cristo me é transmitida pessoalmente, ou seja, transmitida a mim sem qualquer razão intrínseca para isso. . . . Neste ponto o entendimento dos Reformadores de justificação atinge, por assim dizer, o seu ponto culminante. Tal como eu compareço perante Deus com mãos vazias e ali permaneço, tal como posso somente rogar  a Deus que, não obstante, me aceite, do mesmo modo  parto para minha morte com mãos vazias e sem qualquer substância à prova de morte em minha alma, mas somente com meu olhar focalizado na mão de Deus e com a petição em meus lábios, “Mão que perdura, sustém-me firme” – Helmut Thieliecke, Death and Life, págs. 196-199.
Opcionalismo (“Uma vez salvo, sempre salvo”)
       Este tipo de ensino chega ao extremo de insinuar que uma vez salvo um pecador, ele jamais se perderá, ainda que renegue a sua fé e viva em pecado. Representa um absurdo divórcio entre justificação e santificação. Calvino ensinava que Deus não justifica ninguém que ao mesmo tempo não santifique. Um bom calvinista entenderá que embora a salvação não seja pela perserverança do crente, esta não ocorrerá sem a perserverança.
       Escrevendo aos gálatas Paulo enfaticamente lhes expôs a possibilidade de perda da salvação (Gál. 5:4) ao acentuar que os que buscassem justificar-se pela lei, da graça teriam caído. Ora, quem cai de algum lugar é por estar antes ali firmado.
A palavra “crer” no grego aparece na maioria dos casos no tempo presente. Aquele que presentemente não crê, não tem fundamento sobre que esperar estar justificado. Um cristão é um crente e não alguém que outrora creu. A fé não se mantém sem o Espírito Santo, sem boas obras e uma vida de santidade. E nem pode conviver com a intenção voluntária de pecar.
Legalismo
       O legalismo pode adquirir muitas formas e é mais fácil de se ver em outros do que em nós próprios. Há tanto o legalismo aberto e declarado, à base de crer que a salvação depende de cumprir certas normas, como uma forma mais sutil que, em lugar de se pregar o evangelho do que Cristo realizou para obter-nos a salvação, acentuam-se coisas tais como as “condições” para a salvação-- arrependimento, confissão, batismo, submissão, etc.
       Não é errado destacar a necessidade desses aspectos. O problema está na alteração da ordo salutis que fica implícita. Deixa a impressão de que a salvação é obtida quando tomamos a iniciativa e cumprimos essas coisas, de modo que a salvação se torna a resposta divina à ação humana. Bem diferente disso é o genuíno evangelho que proclama que o pecador pode se arrepender, crer e ser batizado por causa da ação salvífica já ter tido lugar em Jesus Cristo.
       E há o legalismo da ortodoxia extrema, quando nossa relação com Deus é espelhada na forma como tratamos nossos semelhantes. Foi esse tipo de legalismo que levou muitos da própria fé protestante a perseguir dissidentes, até de modo violento. Um desses, Roger Williams, do tempo da América colonial, chegou a ser banido de sua comunidade e foi encontrar guarida entre os índios. Ele chegou a dizer que preferia viver com selvagens cristãos do que com cristãos selvagens.
Antinomianismo
       A noção de que uma vez salvo pela graça nada mais temos com a lei é outra forma de distorção da mensagem do evangelho. Sempre, em todos os tempos, lei e graça vieram juntas. Quando Deus outorgou a lei a Israel no Sinai, na própria introdução do Decálogo encontramos Suas solenes palavras: “Eu sou o Senhor que te tirou da terra do Egito”. Esta é uma revelação de divina graça. Segue-se a enunciação da lei.
       No Novo Testamento, temos outra bela demonstração de harmonia entre os dois princípios quando Cristo expressa a graça do perdão à mulher apanhada em adultério: “Nem Eu tampouco te condeno”. A seguir, recomendou: “Vai, e não peques mais”. Estão aí juntos novamente lei e graça, cada qual cumprindo a sua função.
       Jesus Cristo não veio para abolir a lei, como Ele mesmo disse (Mat. 5:17-19), no contexto de um apelo à prática de obras que levassem os homens a glorificar a Deus. O verso imediatamente anterior a essa sua conhecida e disputada declaração lança luz sobre o real sentido de Suas palavras: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (vs. 16). O verso que se segue lança luz adicional sobre a real intenção das mesmas: “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”.
       A graça justifica o pecador com base na perfeita justiça de Cristo (Rom. 5:18, 19). Essa justiça consiste em Sua perfeita obedência à lei em nosso lugar. Por Sua vida imaculada Cristo cumpriu o preceito da lei  e por Sua morte satisfez sua penalidade em favor do pecador. Deus não salvou o homem por contornar as exigências de Sua lei. Ele não enviou o Seu Filho para enfranquecer sua força ou criar um padrão inferior. A profecia sobre o Cristo é de que Ele iria “engrandecer a lei e torná-la gloriosa”, como fica claro por várias versões bíblicas de Isaías. 42:21.
       Justificação significa que o pecador crente, mediante a justiça de Cristo, se põe em uma relação justa com a lei. Essa relação é primeiramente legal (justificação), mas através do dom do Espírito Santo torna-se vital (santificação). A nova vida de graça obediência e santidade é o começo da vida eterna. A salvação não é somente DO pecado, mas PARA a santidade. Conquanto seja certo que nenhum homem é salvo por lograr santidade, também é certo que a pessoa é salva para obedecer às leis divinas. É impossível ser justificado sem ser santificado (ver Efé. 2:8-10).
       A vida santificada não é um mero borbulhar de euforia e fervor religioso, mas uma atitude de confiante obediência da parte daquele que confessa, “Cristo é o Senhor”.

       Conclusão: Cada um dos “ismos” considerados é um desvio radical da verdade da justificação pela fé. A doutrina bíblica da justificação coloca a graça, a ação salvadora de Deus, a perfeição, a segurança, a imortalidade e a lei fora do homem. O que é necessário e fica com o homem inteiramente é a fé que permanece em seu coração ativada pelo Espírito Santo. Mas mesmo essa fé leva o homem a olhar para fora de si, tanto para a justiça com a qual apresentar-se perante Deus, quanto para santificação, para caminhar na Sua presença.
       Começando com o romanismo, vemos a corrupção do evangelho, lançando-o ao chão na internalização da verdade dentro do homem, colocando a graça salvadora no seu interior, não à destra de Deus, no céu. O pentecostalismo internaliza o testemunho cristão, testificar da obra de Deus no seu coração, de preferência à Sua obra sobre o Calvário. O dualismo internaliza o dom da imortalidade, enquanto o legalismo internaliza a base de aceitação para com Deus. O antinomianismo internaliza a lei, e o opcionalismo internaliza a obra completa de Cristo e a segurança eterna, enquanto o perfeccionismo deseja antecipar a glória da perfeição eterna que só se concretizará no Advento.
       O correto entendimento da mensagem de justificação pela fé precisa ser captado para que a verdade, lançada por terra (Dan. 8:11, 12), seja restaurada, de modo que o santuário da verdade seja purificado de tais distorções (Dan. 8:14).

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Condensado e adaptado de “Justification by Faith and the Clarity of the Bible”, Present Truth, dezembro de 1975, (Vol. 4, No. 6), págs. 10-30.
 

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