PARADOXOS BIBLICOS
Professor Azenilto G. Brito

        Há alguns paradoxos bíblicos que merecem melhor análise, como o rei de Israel que consultou uma médium (a feiticeira de Én-dor), a declaração do profeta, “a alma que pecar, essa morrerá” (pois não é a alma imortal?), a declaração de Cristo à Madalena após a Ressurreição, “ainda não subi para o Meu Pai. . .” (três dias após Sua morte?), o relato do rico e Lázaro (parábola ou história real?), o lançamento de Satanás e todos os ímpios no “lago de fogo” que ocorre sobre a superfície da terra (para onde vão depois?)

        Apenas para ilustrar algo das discussões eruditas de tais temas, veja as conclusões abaixo quanto à última das perguntas acima:

        * O lançamento de Satanás e todos os ímpios no “lago de fogo” ocorre sobre a superfície da terra. Para onde vão depois?

        A exemplo das imagens da parábola do homem rico e Lázaro (Lucas 16:19-31), que impõem dificuldades insuperáveis aos que alegam tratar-se o relato de uma história genuína, com suas almas com dedos e línguas que se molhariam, olhos que vêem, além de santos na glória em perpétua contemplação da sorte angustiosa dos perdidos, os textos de Apocalipse 14:10 e 11 apresentam uma situação igualmente difícil de entender num sentido literal: Iriam esses condenados sob tormentos assim permanecer “pelos séculos dos séculos” “diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro”? Será que estes últimos não encontram nada mais elevado para fazer no céu, em vez de ficarem a assistir “de camarote”, por tempo infinito, o espetáculo repugnante desses infelizes sob as agruras do fogo e enxofre?

        Mais adiante, no capítulo 20 do mesmo Apocalipse, pode-se ler a descrição do desesperado esforço final dos inimigos do povo de Deus, sob o comando de Satanás, para dominá-los e destruí-los nos seguintes termos:
        “Marcharam então pela superfície da terra e sitiaram o acampamento dos santos e a cidade querida; desceu, porém, fogo do céu e os consumiu. O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago do fogo e enxofre, onde também se encontram não só a besta como o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos. . . . Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago do fogo. Esta é a segunda morte, o lago do fogo. E se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago do fogo” (Apo. 20:9, 14 e 15).

        Na própria seqüência destes últimos versos temos o capítulo seguinte, o 21, que assim se inicia: “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe”. Com isso podem-se perceber três fatos relevantes:

a) esse ajuntamento dos perdidos sob o comando de Satanás ocorre sobre a superfície da terra aonde desceu a “cidade santa”, descida esta descrita em maiores detalhes em Apoc. 21:2-8;

b) o destino final deles é no “lago do fogo”, comparado a uma “segunda morte” (vs. 20:14 e 21:8), que também recebe a besta, o falso profeta, os covardes, incrédulos, abomináveis, etc., mas o cenário muda de imediato para o de um “novo céu e uma nova terra”;

c) não existe qualquer informação de que tal lago do fogo se transfira para outra parte do universo. Para onde foi com sua lotação de malfeitores agoniados? A resposta se acha em Malaquias 4:1: “Pois eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade, serão como o restolho; o dia que vem os abrasará diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo”. Isso ocorre no “lago do fogo”, sobre esta terra, antes de passar pela transformação miraculosa que a tornará uma “nova terra”, o Paraíso prometido ao longo das Escrituras aos fiéis “que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Apoc. 14:12). – Prof. Azenilto G. Brito.

E como um “fogo eterno” na verdade termina se extinguindo?

        Estes e outros temas relativos ao empolgante tema da morte/ressurreição/imortalidade são discutidos numa série de artigos eruditos, cristocêntricos e inteiramente fundamentados no “assim diz o Senhor das Escrituras”. Saiba quantos importantes eruditos cristãos, de diferentes denominações, inclusive católicos, do passado e do presente têm concluído sobre essas questões não muito bem compreendidas nos arraiais cristãos, mas que merecem análise mais demorada.

ARTIGOS QUE ACOMPANHAM O ASSUNTO

21, 21a, 21b

Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em Mim nunca morrerá” (João 11:25 e 26).
Imortalidade: Concepções em Contraste
Azenilto G. Brito

        A morte sempre se apresentou ao homem como um fato chocante e um mistério perturbador. Sm poder explicar pela lógica e pela razão o que se passa no além-túmulo, idéias e teorias as mais diversas passaram a povoar a imaginação popular. Povos tanto cultos como selvagens têm criado, ao longo da história, rituais sofisticados e adotado crenças extravagantes diante da falta de contarem com a iluminação da Palavra de Deus sobre a questão do que se passa além das fronteiras da existência humana, ou em vista da rejeição dessa fonte de Luz e Verdade.

Vários Conceitos Sobre a Morte

        Os egípcios mumificavam os corpos de seus mortos importantes para não ficarem sem um “referencial” para o elemento imaterial que abrigaria durante a vida e de que se separaria na morte. Os hindus desenvolveram idéias de uma evolução constante do espírito, refinado por repetidas reencarnações através de vidas em vários estágios, passando pela forma de bactérias, insetos ou animais inferiores, chegando ao elemento humano, sempre num ideal de superação contínua das tendências malévolas. Ainda hoje não são poucos os que mantêm tais pontos de vista, mesmo fora do âmbito das religiões do subcontinente, tornando-se estes conceitos bem popularizados no hemisfério ocidental. Todavia, os que os adotam entre nós quase nunca se preocupam com um aprofundamento filosófico-teológico da questão. Apenas crêem assim por parecer-lhes uma explicação  razoável e justa do “mistério” do além. Não é incomum, em programas de entrevistas e outras ocasiões no rádio ou TV, alguém famoso ser indagado se crê na reencarnação, com respostas positivas expressas com freqüência.

Influência Grega

        Os gregos, sob influência de Platão, desenvolveram uma teologia dualística segundo a qual o homem se compõe de dois elementos—o material, representado pelo corpo, e o imaterial, pela alma, ou espírito. As idéias de Platão encontravam paralelo entre as crenças dos demais povos pagãos em geral, apenas sendo expressas em linguagem mais refinada e num contexto mais filosófico.
        Já ao tempo da formação da igreja cristã, nos primeiros séculos de nosso calendário, as idéias platônicas foram desenvolvidas pelos adeptos do gnosticismo—heresia filosófica-teológica dos primeiros séculos da Era Cristã—que atribuíam à matéria a origem da maldade. O corpo, portanto, representava a corrupção, enquanto o espírito, que devia ser aprimorado, era o elemento divino que habitava o homem e que um dia haveria de retornar ao seio da divindade, sua origem. O corpo, pois, era visto como inimigo do espírito e não importava tanto.
        Inspirado em tais conceitos, e para que se desse o refinamento espiritual, o indivíduo precisaria submeter o corpo a constante sujeição. Daí derivaram-se práticas muito comuns entre os pagãos, e mesmo entre alguns cristãos, como autoflagelação, penitência, ascetismo, etc.

A Revelação Divina

        Contudo, durante todo o tempo em que os gregos desenvolviam sua filosofia que tanta influência exerceu sobre o mundo culto, e mesmo sobre o cristianismo nos primeiros séculos, o povo hebreu dispunha da revelação divina sobre a real condição dos mortos e a natureza do homem.
        O israelita tinha uma visão holística (ou integral) do homem. Antes que ser uma massa de matéria perecível contendo um elemento imaterial e “não perecível”, o homem era, para o hebreu conhecedor da Palavra de Deus, um ser completo, uma “alma vivente”, pois assim foi como saiu das mãos do Criador (Gên. 2:7). Por outro lado, a matéria não era encarada como algo mau e perverso, pois Deus a criou para o benefício e desfrute do homem (Gên. 1:28 e 31). O mundo foi criado para a glória de Deus (Salmo 19:1) e o objetivo último da Criação é glorificar e louvar o Criador (Salmo 98:7-9).
        Contrariamente à concepção de gregos e outros de que na morte parte-se para o convívio de seres celestiais descartando a prisão corporal e alçando às alturas com alma refinada, os hebreus, firmados na revelação da Palavra, entendiam que o pecado humano foi exatamente motivado pelo desejo do homem de tornar-se igual ao Criador (Gên. 3:5). Em vez de a matéria má corromper o espírito, os hebreus entendiam que o pecado é que afetou toda a ordem criada (Gên. 3:17-19; Rom. 8:22).

Restituição total

        Finalmente, na concepção bíblica, redenção não significa livrar-se o homem de sua condição física de ser criado por Deus, pois essa condição lhe é elemento permanente e essencial. O homem e a Criação pertencem à mesma ordem. Salvação não é o vôo da alma em direção à habitação da Divindade, num escape do corpo físico e mau. Antes, inclui todos os elementos que compõem o homem e seu ambiente no qual e para o qual Deus formou o par original. Dar-se-á a ressurreição dos corpos e a restauração do meio físico: Isaías 25:8; Daniel 12:2; Isaías 65:17, 66:33; Amós 9:13-15.
A visão  cristã do além-túmulo

        Ao contrário dos gregos, para os hebreus a realidade máxima é encontrada em Deus que se faz conhecido no fluxo e refluxo da história humana por Seus atos e palavras—um Deus que se comunica com o homem e lhe expressa Sua vontade e planos.
        Se o hebreu já tinha tão elevada visão do além-túmulo, com a esperança de viver eternamente focalizada sobre a promessa da ressurreição dos mortos, o cristão tem razões de sobra para firmar-se em tal perspectiva. A afirmação do Mestre, acima transcrita, somar-se-á à clara instrução do apóstolo Paulo sobre a restauração final à vida daquele que conhece a verdade de que “Cristo ressuscitou”, servindo tal fato de “garantia de que os que estão mortos também vão ressuscitar” (1 Cor. 15:20; ver todo o capítulo).
        Destarte, tanto para o hebreu quanto para o cristão, a salvação consiste em comunhão com Deus, não pelo abandono da matéria, e sim em meio a essa matéria reestruturada. Significará, finalmente, a redenção do homem integral (corpo, alma e espírito) e a constante presença divina nos “novos céus e nova Terra” (Apoc. 21:1-4).

Estudo Bíblico

Nesta tabela, como entender os significados dos termos
“alma” e “espírito” na Bíblia:

        A palavra espírito (em hebraico, neshamah ou ruach; em grego pneuma) é empregada na Bíblia em diversos sentidos, como sejam:

* Faculdades morais, índole, caráter, pensamento, sentimento, etc.: Salmo 51:10; Isaías 19:14; Lucas 1:17; 1 Coríntios 4:21; Filipenses 1;27; Tiago 3:16, etc.
* Ânimo, energia: Gênesis 45:27; Juízes 15;19; Jó 17:1; Salmo 143:7.
* Fôlego, respiração: Gênesis 7:15, 22; Jó 14:10; 27:3; Eclesiastes 12:7; Lucas 8:55; Apocalipse 11:11.
* Vida: Jó 12:10; Apocalipse 13:15.
* Poder Divino: Gênesis 1:2; Isaías 44:3; 61;1; 1 Coríntios 6:19.
* Anjo: 2 Crônicas 18:18 a 20; Atos 8:26 e 29; Hebreus 1:13 e 14 (comp. com Salmo 8:5).

A palavra alma (em hebraico nephesh; em grego psuchê)
pode ser traduzida por:

         * Vida: Gênesis 9:4; 1 Reis 19:14; Jó 6:11; Marcos 3:4; Atos 20:10.
         * Pessoa: Gênesis 46:27; Levítico 17:12; Atos 7;14; 27:37.
         * Coração: Êxodo 23:9; Provérbios 23:7; Efésios 6:6.
         * Corpo: Números 6:6; 9:6.

        IMPORTANTE: Apesar de todas estas diferentes formas em que alma e espírito são empregadas, em nenhuma ocasião é dito que signifiquem “entidade abstrata e imortal que sobrevive à matéria”. A palavra imortal só se encontra uma vez em toda a Bíblia e isto em referência à Divindade, em 1 Timóteo 1:17: “Ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos”.

Não há passagem alguma em toda a Bíblia que fale de
uma alma ou espírito imortal.
 
 

Artigos Relacionados ou de Especial Interesse:




[13a] - O ESTRANHO ENVOLVIMENTO DA TORRE DE VIGIA COM O ESPIRITISMO
– 4 páginas.

          Trata-se do “Apêndice VIII” do livro O Desafio da Torre de Vigia, 2a. (edição virtual) e mostra como as “testemunhas de Jeová”, a despeito de condenarem o espiritismo e a doutrina da imortalidade da alma, terminam ensinando algo muito semelhante ao interpretarem que os ungidos (da classe dos 144.000 que irão para o céu) ressuscitam espiritualmente logo ao morrer. Certos ensinos de que os que assim já foram para o céu têm meios de se comunicar com os seus líderes aqui sobre a terra dão margem a perceber-se uma clara contradição com o que a Bíblia ensina e revela uma forma de prática espírita que contradiz as próprias premissas anti-imortalistas dessa organização religiosa.

[17] - O ESPIRITISMO PERANTE A BÍBLIA (por Azenilto G. Brito) -- 3 páginas.*

        Análise do crescente desafio que o espiritismo moderno representa para o mundo cristão nas suas diferentes nuances (“alto” e “baixo” espiritismo). Como encarar essa filosofia religiosa, supostamente científica, à luz das Escrituras Sagradas, Este artigo foi publicado nos periódicos adventistas El Centinela e La Sentinelle, dos Estados Unidos, que visam a alcançar imigrantes hispânicos e francofones.

[35] - VATICANO ADMITE COMUNICAÇÃO COM OS MORTOS - Artigo captado via-Internet,
1 página.

        Oficialmente, a Igreja Católica nunca admitiu o contato com os mortos, como prega o espiritismo. Nem a atividade de médiuns e paranormais, até pouco tempo, era levada em conta por religiosos católicos. Essa posição, porém, está mudando, como o jornal Osservatore Romano, órgão oficial da Igreja com sede em Roma, informa através de significativa entrevista com autoridades do Vaticano.

[43] PACOTE DE MATERIAIS SOBRE OS “SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS” (Mórmons).

        Trechos de livros com discussão erudita de dados históricos, informações recentes e exegese bíblica dos chamados mórmons, ou membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, uma das entidades religiosas de maior crescimento  nos dias atuais.

[44] PACOTE ADICIONAL DE MATERIAIS SOBRE AS “TESTEMUNHAS DE JEOVÁ”.

        Além do anunciado sob o no. 15, este pacote contém uma série de artigos traduzidos de folhetos de ministério específico em prol da iluminação dos membros da Sociedade Torre de Vigia, tratando de diversos temas, como a divindade de Cristo, a Sua volta gloriosa, a falta de respaldo para a versão bíblica Tradução do Novo Mundo, etc.

[61] O MOVIMENTO “NOVA ERA” - Por Matthew J. Slick,  8 páginas.

         O M.N.E. vem conquistando crescentes contingentes de simpatizantes por todo o mundo. Trata-se, segundo o autor, de uma “conglomeração de teologias, esperanças e expectativas mantidas juntas com um ensino eclético de salvação, “pensamento correto” e “conhecimento correto”. É uma teologia de “bem-sentir”, “tolerância universal” e “relativismo moral”, centralizado no homem. Mas o que nos importa como cristãos é saber – tem base bíblica? O autor apresenta um bom estudo respondendo a esta indagação.
 

          Solicite o artigo (ou artigos) de seu interesse pelo número. Seu pedido será atendido por remessa via-E-mail (otavson@hotmail.com) ou correio regular. É um serviço grátis para propiciar subsídios de materiais relevantes à nossa comunidade de fé para estudo, análise e reflexão, visando ao progresso espiritual do pesquisador como um cristão bem informado e amadurecido. (Obs.: Artigos em Word for Windows 6.0, configurados para papel nas medidas 2,15x3,15 cm ou 2,15x2,79 cm ).

I - DUALISMO E HOLISMO NO EXAME
DA CONSCIÊNCIA APÓS A MORTE

Dr. Samuele Bacchiocchi*
(Ver dados sobre o autor ao final)
        A crença na imortalidade da alma deriva de um entendimento dualístico da composição da natureza humana. Historicamente, a vasta maioria dos cristãos tem crido e ainda crê que a natureza humana é dualística, consistindo de um corpo material e mortal, e uma alma imaterial, imortal. Por ocasião da morte, a alma se desligaria do corpo e sobreviveria num estado desincorporado, seja no gozo do paraíso ou no tormento do inferno. Isso significa que a primeira etapa em analisar de uma perspectiva bíblica a crença popular na vida desincorporada após a morte é estudar o que a Bíblia nos ensina com respeito à composição da natureza humana. Este será o enfoque e nossa atenção neste estudo.
        Até recentemente apenas um punhado de denominações evangélicas, nem sempre consideradas cristãs, ensinava e pregava que a natureza humana é holística, consistindo de um ser indivisível, sendo o corpo, alma, e espírito somente características da mesma pessoa. A alma é o princípio animado do corpo manifesto na consciência, pensamento--os aspectos da vida de um indivíduo. Por ocasião da morte, o corpo e alma não se separam, mas simplesmente cessam de existir e descansam de modo inconsciente na sepultura até a ressurreição. Nesse tempo, a pessoa mortal integral será ressuscitada, seja para a vida eterna ou para a morte eterna.
        Católicos e protestantes têm historicamente rejeitado a visão holística da natureza do homem e rotulado como “sectária” as poucas igrejas que mantêm tal ponto de vista. Mas comprazo-me em relatar que uma mudança radical vem ocorrendo durante os últimos 50 anos no pensamento da comunidade de eruditos.
        Destacados eruditos católicos e protestantes têm reexaminado o ponto de vista bíblico da natureza do homem e têm concluído que não existe na Bíblia qualquer dicotomia entre um corpo mortal e uma alma imortal que “se separa” quando da morte. Tanto o corpo quanto a alma são unidades indivisíveis que deixam de existir ao tempo da morte, até a ressurreição. Em resumo, o veredicto da erudição moderna é de que o ponto de vista holístico é bíblico, enquanto o entendimento dualístico popular é antibíblico, derivado que é do dualismo platônico, antes que das Escrituras.
        Esses fatos têm suscitado sérias preocupações de parte daqueles que vêem seu entendimento dualístico da natureza humana severamente desafiado e minado. De fato, alguns líderes evangélicos têm reagido vigorosamente, adotando em alguns casos táticas ameaçadoras.
        Oscar Cullmann, renomado teólogo suíço, por exemplo, viu-se ferrenhamente atacado por muitos que faziam fortes objeções a seu livro Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? [Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos?]  Ele escreveu: “Nenhuma de minhas publicações provocou tal entusiasmo ou tão violenta hostilidade”.7 De fato, a crítica tornou-se tão intensa e tantos revelaram-se ofendidos com suas declarações que ele decidiu manter-se deliberadamente em silêncio por um tempo. Devo acrescentar que Cullmann não se deixou impressionar pelos ataque contra seu livro porque entende serem baseados, não em argumentos exegéticos, mas em considerações de ordem emocional, psicológica e sentimental.
        O respeitado teólogo canadense Clark Pinnock menciona algumas das “táticas de pressão” usadas para desacreditar aqueles eruditos evangélicos que abandonaram o ponto de vista dualístico tradicional da natureza humana e sua doutrina relacionada de tormento eterno num inferno de fogo. Uma das táticas tem sido associar tais teólogos com liberais ou denominações tidas por sectárias, como a dos adventistas. Escreve Pinock: “Parece que um novo critério para a verdade foi descoberto, segundo o qual, se os adventistas ou os liberais mantêm algum ponto de vista, esse deve estar errado. Aparentemente, a defesa de uma verdade pode ser decidida por sua associação e não precisa ser testada por critérios públicos em debate aberto. Tal argumento, conquanto inútil em discussão inteligente, pode surtir efeito com os ignorantes que são ludibriados por tal retórica”.8
         A despeito das táticas de pressão, o ponto de vista holístico da natureza humana que nega a imortalidade da alma e, em conseqüência, o tormento eterno dos perdidos no inferno, ganha espaço entre os evangélicos. Seu endosso público por John R. W. Stott, pregador popular e teólogo britânico altamente respeitado, está decerto encorajando tal tendência. “Numa deliciosa peça de ironia”, escreve Pinnock, “isto vem criando uma medida de crédito por associação, contrariando as táticas mesmas usadas contra ela. Tem-se tornado quase impossível alegar que somente heréticos e quase-heréticos [como os adventistas do sétimo dia] mantêm essa posição, embora esteja seguro de que alguns descartarão a ortodoxia de Stott precisamente sobre esse terreno”.9
        O próprio Stott expressa ansiedade quanto às conseqüências divisivas de seus novos pontos de vista na comunidade evangélica onde é um renomado líder. Ele escreve: “Sinto-me hesitante em ter escrito essas coisas, em parte porque tenho grande respeito pela longa tradição que reivindica ser uma correta interpretação da Escritura, e não a ponho de parte levianamente, e em parte porque a unidade da comunidade evangélica mundial sempre significou muito para mim. Contudo, o assunto é por demais importante para ser suprimido, e estou-lhe grato (a David Edwards) por desafiar-me a declarar meu atual modo de pensar. Não dogmatizo a respeito da posição a que cheguei. Eu a mantenho tentativamente. Mas eu apelo a diálogo franco entre os evangélicos com base nas Escrituras”.10
        O apelo de Stott por um “diálogo franco entre evangélicos com base nas Escrituras” pode ser muito difícil, se não impossível, de materializar-se. A razão é simples: Os evangélicos condicionam-se a seus ensinos denominacionais tradicionais, assim como os católicos-romanos e ortodoxos orientais. Em teoria, eles apelam à Sola Scriptura porém na prática os evangélicos muitas vezes interpretam as Escrituras de acordo com seus ensinos denominacionais tradicionais. Se novas pesquisas bíblicas desafiam suas doutrinas tradicionais, na maioria dos casos as igrejas evangélicas preferirão apegar-se à tradição antes que à Sola Scriptura. A diferença real entre evangélicos e católicos romanos é que os católicos dão grande destaque à autoridade normativa de sua tradição eclesiástica, enquanto as igrejas evangélicas não o fazem.
        Ser um “evangélico” significa sustentar certas doutrinas tradicionais fundamentais sem questionamento. Quem quer que questione a validade bíblica de uma doutrina tradicional pode tornar-se suspeito de ser um “herege”. Numa importante conferência em 1989 para discutir o que significa ser um evangélico, sérias questões foram suscitadas quanto a se pessoas como John Stott ou Philip Hughes deveriam ser considerados tais, uma vez que adotaram o ponto de vista da imortalidade condicional e da aniquilação dos que não se salvarão. O voto para excluir tais teólogos apenas não se confirmou por pouco.
        Por que os evangélicos são tão teimosos em recusar reconsiderar os ensinos bíblicos sobre a natureza e destino humanos? Afinal de contas, eles tomaram a liberdade de mudar outros ensinos tradicionais.
        Talvez uma razão de sua insistência em conservar o ponto de vista dualístico é que isso causa impacto sobre muitas outras doutrinas. Fizemos notar anteriormente que o que os cristãos crêem sobre a composição da natureza humana determina em grande medida o que crêem sobre o destino humano. Abandonar o dualismo também provoca o abandono de todo um conjunto de doutrinas que resultam disso, especialmente a acariciada crença na consciência da vida após a morte. Isso pode se chamar “efeito dominó”. Se uma doutrina cai, várias cairão junto.
        Para os leitores apreciarem a importância de uma correta compreensão do ponto de vista bíblico da natureza do homem, neste primeiro artigo desejamos comparar brevemente e contrastar as implicações práticas e doutrinárias do entendimento dualístico e holístico da natureza humana.

Implicações Práticas do Dualismo versus Holismo

        O Ponto de Vista Dualístico da Vida. Os cristãos que mantêm o entendimento dualístico da natureza humana conceitualizam a vida presente dualisticamente. Encaram a vida espiritual da alma como mais importante do que a vida física do corpo. Historicamente, esse ponto de vista dualístico tem retratado os santos como pessoas que se dedicam primariamente à vita contemplativa (vida contemplativa), desligando-se da vita activa (vida secular). Uma vez que o cultivo da alma tem sido visto como mais importante do que cuidar do corpo, o bem-estar físico do corpo muitas vezes tem sido intencionalmente ignorado ou até suprimido.
        Eu testemunhei essa mentalidade dualística durante os cinco anos que passei na Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma, Itália. Muitas vezes vi alguns de meus colegas de classe, a maioria deles monges e sacerdotes católicos de todo o mundo, primeiro indo para a capela para cultivarem sua alma mediante oração e meditação, e daí indo até o bar ao final do corredor para intoxicar seus corpos tomando bebidas alcoólicas e fumando. Eles não viam conflito entre as duas atividades, porque, segundo sua mentalidade dualística, o que faziam com seus corpos não afetava a salvação de suas almas.
        A mesma mentalidade dualística prevalece no mundo protestante, onde a redenção associa-se grandemente à salvação da alma, antes que ao cuidado do corpo. Muitos cristãos divorciam o corpo humano de sua alma tornando a salvação uma experiência interna da alma, antes que uma transformação total da pessoa inteira.
        Ouve-se constantemente o comentário em várias discussões de grupo de que participo compartilhando o que a Bíblia ensina sobre questões de estilo de vida, como a observância do sábado, vestuário e adornos, uso de bebidas alcoólicas, casamento, relações sexuais pré-matrimoniais: “Está dando muita importância a coisas de menor valor! Isso não é o evangelho. A salvação trata com aceitar e professar a Cristo como nosso Salvador pessoal, e não com questões de estilo de vida”. Tais comentários refletem uma mentalidade dualística: Na medida em que as pessoas aceitam a Cristo com a mente, o que fazemos com nossos corpos de fato não importa.

        A Visão Holística da Vida. Essa mentalidade dualística é abertamente rebatida na Bíblia, que nos ensina a glorificar a Deus não só com a mente, mas também com nosso corpo, por ser ele “o templo do Espírito Santo” (1 Cor. 6:19) para ser apresentado como um “sacrifício vivo” a Deus (Rom. 12:1). Temos há muito reconhecido e realçado que o modo como tratamos nosso corpo reflete a condição espiritual de nossa alma, pois nossos corpos e almas são um. Se poluímos o corpo com fumo, drogas, alimentos prejudiciais ou estilo de vida intemperantes provocamos não só a poluição de nossos corpos, como também a poluição espiritual de nossas almas.
        O desafio que os cristãos adeptos do ponto de vista holístico da Bíblia enfrentam hoje é integrar tal visão mais plenamente a seus programas de ensino, pregação, instrução e assistência médica. A perspectiva bíblica da natureza humana nos desafia a preocupar-nos com a pessoa inteira. Isso significa que em nossa pregação e ensino, precisamos não só atender às necessidades espirituais da alma, mas também as necessidades físicas do corpo. Precisamos ensinar as pessoas não só a cultivar sua vida espiritual, como também cuidar de seus corpos físicos.
        O evangelho não nos dá base para uma doutrina de redenção que salva a alma à parte do corpo ao qual pertence. A comissão evangélica não é salvar almas, mas pessoas inteiras. O que Deus juntou por ocasião da criação e redenção na cruz, nenhum cristão tem o direito de separar.
        Na educação bíblica cristã o holismo significa que devemos ter por alvo o desenvolvimento dos aspectos mentais, físicos e espirituais da vida. Um bom programa de educação física deve ser considerado tão importante quanto o seu programa acadêmico e religioso.
        Na medicina, o holismo bíblico significa que os médicos devem tratar a pessoa integral, incluindo a condição nutricional, espiritual, emocional e espiritual do paciente. O holismo bíblico nos desafia também a servir o mundo, e não evitá-lo.

        Implicações Doutrinárias do Dualismo. As implicações doutrinárias do ponto de vista dualístico da natureza humana são até mesmo alarmantes. Muitas das heresias que perturbam o mundo cristão hoje derivam do dualismo. Por exemplo, o dualismo deu lugar ao desenvolvimento do engano popular da vida consciente após a morte que se está espalhando hoje como fogo na palha, um engano promovido de forma bem sucedida pela sutil loucura do movimento da Nova Era e pela pesquisa de experiências de quase morte. Esta última tem, por seu turno, fomentado tais crenças como a intercessão dos santos, a oração pelos mortos, indulgências, purgatório, religação da alma quando da ressurreição, o tormento eterno do inferno, uma visão etérea do Paraíso onde almas glorificadas passarão a eternidade em eterna contemplação e meditação.
        É-nos impossível calcular o impacto negativo dessas crenças enganosas sobre a fé e prática cristãs. De um lado, essas crenças têm enfraquecido e obscurecido a expectativa da segunda vinda de Cristo. Se por ocasião da morte a alma do crente vai imediatamente para a bem-aventurança do Paraíso para estar com o Senhor, dificilmente haverá qualquer senso de expectativa para Cristo vir até aqui ressuscitar os santos adormecidos. A preocupação primária desses cristãos é ir para o céu para encontrar a Cristo imediatamente após a morte, conquanto isso seja com almas desincorporadas, não preparar-se a si próprios e outros para encontrarem a Cristo quando Ele vier a este planeta quando de Seu Retorno.
        Na Bíblia, a esperança do Advento significa uma reunião real sobre a Terra entre crentes em seus corpos e Cristo no glorioso dia do Seu retorno. Dessa reunião de fato derivará uma transformação radical que afetará a humanidade e a natureza. Essa grande expectativa é obscurecida pela crença na imortalidade individual e no gozo celestial imediatamente após a morte.
        O dualismo tem também contribuído para incompreensões sobre o mundo por vir. A maioria dos cristãos entende que o paraíso é um tipo de retiro espiritual em algum lugar do espaço, onde almas glorificadas passarão a eternidade em infindável contemplação e meditação. Como diz a letra de certo hino,  “In mansion of glory and endless delight I will ever adore Thee in heaven so bright” [Na mansão de glória e infindável deleite eu para sempre Te adorarei no tão luminoso céu].
        Essa visão etérea do mundo por vir tem sido mais inspirado pelo dualismo platônico do que pelo realismo bíblico. A visão bíblica do mundo futuro não é a de um retiro espiritual habitado por almas glorificadas, mas este planeta povoado por santos ressuscitados (Isa. 66:22; Apoc. 21:1).
        Nas Escrituras, Cristo vem a segunda vez, não para ajudar os santos a escaparem deste planeta, mas para transformar a Terra devolvendo-lhe a perfeição original. Sim, o mundo do porvir é um mundo real, habitado, não por almas desincorporadas, mas por corpos ressurretos, ou seja, pessoas reais como você e eu.

        Implicações Doutrinárias do Holismo. O ponto de vista holístico da Bíblia quanto à natureza humana pressupõe uma visão cósmica da redenção que abrange o corpo e a alma, o mundo material e o espiritual. A separação entre corpo e alma ou espírito é freqüentemente comparada à divisão entre o reino da Criação e o reino da redenção. O último tem sido associado em grande medida, tanto no catolicismo quanto no protestantismo, à salvação das almas dos indivíduos às expensas das dimensões físicas e cósmicas da redenção.
        Os santos são amiúde retratados como peregrinos que vivem sobre a terra mas são desligados do mundo, cujas almas na morte deixam de imediato seus corpos materiais para ascender a um lugar abstrato chamado “céu”. Esse ponto de vista reflete o dualismo clássico, mas fracassa, como veremos nesta série de estudos, em representar o ponto de vista holístico bíblico da criação humana e sub-humana.
        Notamos que o dualismo tradicional produziu uma atitude de desprezo para com o corpo e o mundo natural. Esse distanciamento do mundo reflete-se em linguagem de hinos tais como  “Este Mundo Não é Meu Lar”, “Sou um estranho aqui, o céu é o meu lar; a terra é um árido deserto, o céu é o meu lar”.
        Tal atitude de desprezo para com nosso planeta está ausente dos Salmos, o hinário hebreu, onde o tema central é o louvor de Deus por Suas obras magníficas. No Salmo 139:14, Davi declara: “Eu te louvarei pois fui formado de modo tremendo e maravilhoso: grandiosas são as Tuas obras; isso minha alma conhece muito bem” (NIV). Aqui o salmista louva a Deus por seu maravilhoso corpo, um fato bem conhecido por sua alma (mente). Este é um bom exemplo do pensamento holístico, onde o corpo e alma são parte da maravilhosa criação de Deus.
         No Salmo 92, o salmista insta todos a louvarem a Deus com instrumentos musicais, porque, diz ele, “Tu, ó Senhor, alegraste-me por Tuas obras;canto de alegria pelas obras de Tuas mãos. Quão grandes são as Tuas obras, ó Senhor!” (Sal. 92:4-5). O regozijo do salmista com seu maravilhoso corpo e maravilhosa criação baseiam-se em sua concepção holística do mundo criado como parte integral de todo o drama da criação e redenção.
            Num estudo futuro veremos que a Bíblia não retrata o mundo por vir como um paraíso etéreo onde almas glorificadas passsarão a eternidade trajando vestes brancas, cantando, tocando harpas, orando, perseguindo nuvens e bebendo leite de ambrósia. Antes, a Bíblia fala dos santos ressurretos habitando este planeta purificado, transformado e tornado perfeito por ocasião e mediante a vinda do Senhor (2 Ped. 3:11-13; Rom. 8:19-25; Apoc. 21:1). Os “novos céus e uma nova terra” (Isa. 65:17) não são um retiro espiritual remoto e inconseqüente em algum recanto do espaço; antes, são o céu e a terra presentes renovados à sua perfeição original.
 Os crentes entram na nova terra, não como almas desincorporadas, mas como pessoas ressuscitadas em seus corpos (Apoc. 20:4; João 5:28-29; 1 Tess 4:14-17). Conquanto nada impuro entre na Nova Jerusalém, é-nos dito que “os reis da terra trarão para ela a sua glória . . . a ela trarão a glória e honra das nações” (Apoc. 21:24, 26). Tais versos sugerem que tudo quanto tem real valor no velho céu e terra, inclusive as realizações da inventividade artística e conquistas intelectuais, encontrarão seu lugar na ordem da eternidade. A própria imagem da “cidade” transmite a idéia de atividade, vitalidade, criatividade e relacionamentos reais.
        É pena que essa visão terrena fundamentalmente concreta do novo mundo de Deus retratado nas Escrituras tenha sido em grande parte perdida de vista e substituída na religiosidade popular por um conceito etéreo, espiritualizado do céu. O último tem sido influenciado pelo dualismo platônico, antes que pelo realismo bíblico.

        Conclusão. Historicamente, duas visões principais, radicalmente diferentes da natureza humana, têm sido mantidas. Uma é chamada de clássica e a é conhecida como holismo bíblico. O ponto de vista dualístico mantém que a natureza humana consiste de um corpo material, mortal, e uma alma espiritual, imortal. A última sobrevive à morte do corpo e parte para o céu, ou purgatório ou inferno. Por ocasião da ressurreição, a alma é reunida ao corpo. Essa concepção dualística tem exercido um enorme impacto sobre a vida e pensamento cristãos, afetando a visão que as pessoas têm da vida humana, deste mundo presente, da redenção e do mundo do além.
Em tempos recentes, a visão dualística da natureza humana tem sofrido ataques de eruditos que reexaminaram o ponto de vista bíblico do corpo, alma e espírito. Eles concluíram que a visão bíblica da natureza humana não é de modo algum dualística, mas claramente holística. Muitas vozes de diferentes direções estão afirmando hoje que o dualismo está perdendo terreno e o holismo ganhando.
        Este breve relatório sobre o debate em andamento da posição bíblica da natureza humana demonstrou a importância fundamental deste assunto para toda a estrutura das crenças e práticas cristãs. Faz-se, pois, imperativo que diligentemente examinemos o que a Bíblia realmente ensina sobre esse tema vital.
Referências

  7. Oscar Cullmann, Immortality of the Soul orResurrection of the Dead? The Witness of the New Testament (N. York, 1958), p. 5.
  8. C. H. Pinnock, “The Conditional View”, in Four Views on Hell, W. Crockett, ed., (Grand Rapids, 1993), p. 161.
  9. Ibid., p. 162.
10. John W. Stott e David Edwards, Essentials, A Liberal-Evangelical Dialogue (Londres, 1988), pp. 319-320.
 
 

II - O PONTO DE VISTA BÍBLICO DA NATUREZA HUMANA

        O primeiro estudo mostrou que a crença na vida consciente após a morte deriva de uma visão dualística da natureza humana que é estranha à Bíblia.
        Este estudo explora a visão bíblica da natureza humana a partir de três perspectivas: Criação, Queda e Redenção. Consideraremos como era a natureza humana quando da Criação, o que se tornou após a Queda, e como se tornará em resultado da Redenção. Tais pensamentos derivam de meu livro Immortality or Resurrection?
        A Biblical Study on Human Nature and Destiny [Imortalidade ou Ressurreição, Um Estudo Bíblico Sobre a Natureza e Destino Humanos]1, onde o leitor encontrará um tratamento abrangente do assunto. Tal livro foi lançado em dezembro de 1997, e já recebeu críticas favoráveis por mais de 50 eruditos de diferentes persuasões.
        Desejo inicialmente chamar a atenção do leitor para dois importantes pontos encontrados no estudo a que agora se dedicará. O primeiro é a referência freqüente em Gênesis aos animais como “almas viventes”-que é a mesma expressão usada para caracterizar os seres humanos. Isto é significativo porque demonstra que a “alma” não é uma substância imaterial, imortal, que somente os seres humanos possuem, mas um princípio ativo de vida comum a todas as criaturas viventes. O segundo ponto é a referência de Paulo a “espírito” 146 vezes, comparado com 13 referências a “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psychê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Muito provavelmente isso se deu porque tal termo poderia levar seus conversos gentios a pensarem na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.

A Natureza Humana na Criação

        O relato da criação nos informa que Deus criou a natureza humana como um organismo holístico, consistindo de corpo, sopro de vida, e alma, sendo tudo características da mesma pessoa. Essas características distintivas da natureza humana são expressas em dois textos principais. O primeiro é Gên. 1:26-27, que nos conta como Deus planejou os seres humanos criados, e o segundo é Gên. 2:7, que nos relata como Ele o fez. “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança’ . . . Assim criou Deus o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gên. 1:26-27).
        Tentativas elaboradas têm sido feitas para definir o que a “imagem de Deus” é na qual o homem foi criado. Alguns argumentam que a imagem de Deus é a alma imaterial, espiritual implantada no corpo humano. Assim, Calvino afirma: “Não se pode duvidar que a apropriada posição da imagem de Deus é a alma”.2 Esse ponto de vista pressupõe um dualismo entre o corpo e a alma que não se acha no relatório da criação. O homem não recebeu uma alma de Deus; ele foi feito uma alma vivente. Os animais também foram feitos “almas viventes” (Gên. 1:20, 21, 24, 30; 2:19), contudo, não foram criados à imagem de Deus.
        A imagem de Deus na humanidade deve ser encontrada na singular capacidade concedida aos seres humanos de refletir o Seu caráter moral. Entende-se a conformidade com a imagem de Cristo (Rom. 8:29; 1 Cor. 15:49) não em termos de uma alma imortal implantada na natureza humana, mas em termos de justiça e santidade: “Revesti-vos da nova natureza que está sendo renovada em conhecimento segundo a imagem de seu Criador” (Col. 3:10; cf. Efé. 4:24). Em vitude de serem criados à imagem de Deus, os seres humanos são capazes de refletir o Seu caráter em suas próprias vidas.
         A imortalidade nunca é mencionada na Bíblia em conexão com a imagem de Deus nos seres humanos. A árvore da vida representava imortalidade em comunhão com o Criador, mas em resultado do pecado, Adão e Eva tiveram barrado o acesso à fonte de vida contínua.

        Gênesis 2:7: “Uma Alma Vivente”. A segunda importante declaração bíblica para entender a natureza humana por ocasião da Criação é o breve relato da própria criação do homem: “Então formou Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida; e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7). Historicamente, este texto tem sido lido através das lentes do dualismo. Tem-se presumido que o fôlego de vida que Deus soprou nas narinas de Adão foi simplesmente uma alma imaterial, imortal, que Deus implantou em seu corpo. Assim, a frase “o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7) tem sido interpretada como significando que “o homem obteve uma alma vivente”. E tal como a vida terrena começou com a implantação de uma alma imortal num corpo físico, segundo os dualistas, ela termina quando a alma deixa o corpo.
        O problema com essa interpretação jaz no fato de que o “fôlego de vida [neshamah]” que Deus soprou nas narinas de Adão não foi uma alma imortal, mas o Espírito divino que transmite vida e é freqüentemente caracterizado como o “sopro de Deus”. Assim, lemos em Jó 33:4: “O espírito [ruach] de Deus me criou, e o sopro [neshamah] do Todo-poderoso me concede vida”. O paralelismo entre o “espírito de Deus” e “o sopro do Todo-poderoso”, que se acha com freqüência na Bíblia (Isa. 42:5; Jó 27:3; 34:14-15), sugere que os dois termos são usados intercambiavelmente porque ambos fazem referência ao dom da vida concedido por Deus a Suas criaturas.
        O Espírito de Deus que concede vida é descrito pela sugestiva imagem do “fôlego de vida”, porque a respiração é uma manifestação tangível de vida. Uma pessoa que não mais respira está morta. Jó declara: “Enquanto estiver em mim o meu fôlego [neshamah], e o espírito [ruach] de Deus estiver em minhas narinas; meus lábios não falarão a falsidade” (Jó 27:3). Aqui o “fôlego” humano e o “espírito” divino são equiparados, porque respirar é visto como uma manifestação do poder sustenedor do Espírito de Deus.
        A posse do “fôlego de vida” não confere em si mesmo imortalidade, porque, por ocasião da morte, “o fôlego de vida” retorna para Deus. A vida deriva de Deus, é sustida por Deus, e retorna para Deus. Essa verdade é expressa em Eclesiastes 12:7: “O pó volta à terra, como era, e o espírito volta para Deus que o deu”. O que retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus: “Se Ele [Deus] tomasse de volta o Seu espírito [ruach] para Si, e reavesse o Seu fôlego [neshamah], toda carne pereceria juntamente, e o homem retornaria ao pó” (Jó 34:14-15). O paralelismo indica que o fôlego de Deus é o Seu Espírito transmissor de vida.
        O fato de que a morte é caracterizada como a retirada do fôlego de vida (o Espírito divino que concede vida), demonstra que o “fôlego de vida” não é um espírito ou alma imortal que Deus confere a Suas criaturas, mas o dom da vida que os seres humanos possuem pela duração de sua existência terrena. Enquanto permanecer o “sopro de vida”, os seres humanos são “almas viventes”. Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia freqüentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13).

        Corpo é Alma Visível. A maior parte dos eruditos bíblicos reconhece que a “alma-nephesh” em Gênesis 2:7 não é uma essência imaterial, imortal distinta, implantada no corpo, mas simplesmente o princípio que anima o corpo. Comentando sobre Gên. 2:7, o erudito católico Dom Wulstan Mork, escreve: “É nephesh [alma] que dá vida ao bashar [corpo]. O corpo, longe de ser separado de seu princípio que anima o corpo, é a alma [nephesh].”3 Em idêntica linha de pensamento, Hans Walter Wolff, autor de um avançadíssimo estudo de Antropologia do Velho Testamento, pergunta: “O que nephesh [alma] significa aqui? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional]. . . . O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh [alma].”4
        Sumariando, a expressão “o homem se tornou uma alma vivente-nephesh hayyah” apenas significa que em resultado do sopro divino, o corpo inanimado tornou-se um ser vivente, que respirava-não mais e não menos do que isso. O coração começou a bater, o sangue a circular, o cérebro a pensar, e todos os sinais vitais foram ativados. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”.

        Os Animais Como “Almas Viventes”. Uma prova muito patente de que a expressão “alma vivente” não significa “alma imortal” é o repetido emprego da mesma frase “alma vivente-nephesh hayyah” para descrever a criação dos animais (Gên. 1:20, 21, 24, 30; 2:19; 9:10, 12, 15, 16; Lev. 11:46). Este importante fato é desconhecido da maioria das pessoas porque os tradutores da maioria das versões decidiu traduzir a frase hebraica “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e como “alma vivente” nas referências  a seres humanos. Por quê? Simplesmente porque os tradutores estavam tão condicionados por suas crenças de que tão-só os seres humanos contam com uma alma imortal não possuída pelos animais, que tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura”, antes que “alma”, quando quer que era empregada para animais.
        Norman Snaith condena com justiça esse interpretação arbitrária como “bastante repreensível” porque a frase hebraica devia ser traduzida exatamente do mesmo modo em ambos os casos. Fazê-lo doutro modo é enganar todos quantos não lêem o hebraico. Não há desculpas nem defesa apropriada”.5
        O repetido emprego de nephesh-alma como referência a toda sorte de animais claramente revela que a nephesh-alma não é uma essência concedida aos seres humanos, mas o princípio que anima a vida ou o “fôlego de vida” que está presente tanto nas pessoas quanto nos animais porque ambos são seres conscientes. O que distingue os seres humanos dos animais não é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais.
        O relato bíblico da criação do homem indica que a natureza humana consiste de um todo indivisível onde o corpo, o fôlego de vida, e a alma funcionam, não como entidades separadas, mas como características da mesma pessoa. O corpo é uma pessoa como um ser concreto; a alma é uma pessoa como um indivíduo vivo; o fôlego ou espírito de vida é uma pessoa tendo sua fonte em Deus. Esta é a essência do ponto de vista criacional da natureza humana, expandida no restante da Bíblia.

A Natureza Humana Após a Queda

        A Queda não mudou a constituição da natureza humana, mas alterou seu estado ou condição. De um estado em que era impossível para os seres humanos morrer (imortalidade condicional), passaram a um estado em que era impossível que não morressem (mortalidade incondicional). Antes da Queda, a segurança da imortalidade era transmitida por partilharem da árvore da vida, não pela posse de uma alma imortal. A presença da “árvore da vida” no Jardim do Éden indica que a imortalidade era condicional à participação no fruto daquela árvore.
        Para impedir à humanidade pecadora a possibilidade de “viver para sempre” (Gên. 3:22), após a Queda Deus barrou o acesso à árvore da vida (Gên. 3:22, 23). Esse ato divino por si só revela que por ocasião da Criação não era a imortalidade uma dotação que residia na alma, mas uma possibilidade condicional à obediência humana. Os que querem crer na imortalidade na alma, lêem na criação humana idéias do dualismo grego estranhas à Bíblia.
        Após a Queda, Adão e Eva não mais tiveram acesso à árvore da vida (Gên. 3:22-23) e, conseqüentemente, começaram a experimentar a realidade do processo da morte. O fato de que Adão e Eva não morreram no dia de sua transgressão como Deus lhes havia advertido (Gên. 2:17), tem levado alguns a concluir que não morreram porque eram dotados de uma alma imortal. Essa interpretação imaginativa dificilmente pode ser sustentada pelo texto, que, literalmente traduzido reza: “morrendo morrereis”. O que Deus quis simplesmente dizer é que no dia em que eles desobedecessem, o processo da morte teria início.

        A Pessoa Inteira Morre. A advertência divina (Gên. 2:17) estabelece uma clara ligação ética entre a vida e a obediência versus morte e desobediência. A natureza humana não foi criada com uma alma imortal, mas com a possibilidade de tornar-se imortal. A desobediência resultou em morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira. Deus não disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira, “morrereis”.
        Este é um ensino fundamental da Bíblia. O salário do pecado é a morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira (Rom 6:23; Eze. 18:4, 20). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4). A morte do corpo está ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Isto explica por que a morte de uma pessoa é amiúde descrita como a morte da alma. (Núm. 31:19; 35:15,30; Jos. 20:3, 9; Gên. 37:21; Deut. 19:6, 11; Jer. 40:14, 15; Juí. 16:30; Núm 23:10). É-nos dito repetidamente que quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (Jos. 10:28, 30, 31, 34, 36, 38). A destruição do corpo é vista como a destruição da alma porque por ocasião da morte a alma deixa de funcionar como o princípio transmissor de vida do corpo.
        Sumariando, a natureza humana após a Queda passou de um estado de imortalidade condicional para um estado de mortalidade incondicional para a pessoa inteira. A crença popular e tradicional de que a alma sobrevive ao corpo por ocasião da morte pode ter sua origem identificada na mentira de Satanás, “É certo que não morrereis” (Gên. 3:4). Essa sutil mentira tem perdurado em diferentes formas através da história humana até nosso tempo.
        Nossa única proteção contra esse engano popular deve ser encontrada mediante um claro entendimento da perspectiva bíblica sobre a natureza e destino humanos. As Escrituras Sagradas nos  ensinam  que  a  imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas o dom de Deus (Rom. 6:23) para ser buscada (Rom. 2:7) e dela se revestir (1 Cor. 15:53) por ocasião da ressurreição por aqueles que aceitaram a graciosa provisão da salvação (João 17:2-3; Mat. 19:29).

A Natureza Humana Resultante da Redenção

        A redenção revela o valor que Deus atribui à natureza humana porque nos fala de que Ele decidiu redimir a natureza humana assumindo-a mediante a encarnação de Seu Filho. O Verbo “Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). A idéia do Filho de Deus assumindo uma natureza humana física era incompreensível para os gnósticos, um movimento cristão primitivo influente vastamente influenciado pelo dualismo grego. Eles rejeitavam abertamente a encarnação de Cristo porque não viam valor no aspecto físico da natureza humana. Isso ilustra vigorosamente a diferença entre o ponto de vista holístico bíblico, e a concepção dualística da filosofia platônica, que considera o corpo como prisão da alma a ser descartada ao tempo da morte.
            O fato de que o divino Filho de Deus assumiu um corpo humano mortal quando de Seu nascimento e reteve um corpo humano glorificado por ocasião de Sua Ressurreição (João 20:27), demonstra do modo mais claro possível que a natureza humana tem o seu lugar no eterno propósito de Deus. Fala-nos que o corpo não é uma prisão temporária ou um meio para propiciar espaço para “almas”, mas nossa personalidade total que Deus Se dispõe a preservar e trazer de volta à vida no dia da ressurreição.

        A Regeneração Moral da Natureza Humana. O propósito da missão redentora de Cristo não é a libertação da alma do corpo, mas a regeneração da pessoa inteira nesta presente vida e a ressurreição da pessoa inteira no mundo por vir. O Espírito de Deus é o agente ativo tanto na criação quanto na recriação da natureza humana. A recriação da natureza humana tem lugar em duas fases: a regeneração moral tem lugar na vida presente e a transformação física da mortalidade para a imortalidade ocorrerá por ocasião da ressurreição. A função do Espírito-pneuma como princípio vital-é expandido no Novo Testamento para incluir tanto a regeneração moral presente quanto a transformação física futura.
        Ao tempo da Criação o homem foi feito uma alma vivente pelo Espírito de Deus (Gên. 2:7). Em resultado da redenção os crentes são tornados uma nova criação pela obra do Espírito Santo. A regeneração moral realizada pelo Espírito Santo é descrita por João como renascimento (João 3:5) e por Paulo como nova criação.
Paulo atribui importância vital ao papel do Espírito na nova vida do crente (2 Cor. 5:17; cf. 1 Cor. 6:11; Gál. 3:27; 6:15; Efé. 4:24). Isto é indicado pelo fato de que em suas cartas ele se refere ao “espírito” 146 vezes, comparado com somente 13 referências à “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psychê” para denotar a vida que prossegue além da morte. Pelo contrário, ele emprega a frase soma psychikon, que literalmente significa “corpo espiritual”, para descrever o corpo físico que será transformado em corpo espiritual (soma pneumatikon) quando da ressurreição. A razão por que Paulo evita o emprego do termo “alma-psychê” para designar a vida por vir é muito provavelmente porque tal termo poderia confundir seus conversos gentílicos levando-os a pensar na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.
        Para assegurar que a salvação deve ser entendida exclusivamente como um dom divino de graça mediante “o espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2), Paulo destaca o papel do Espírito Santo tanto na regeneração moral desta vida presente (Efé. 4:23; Rom. 8:5) quanto na transformação física da vida por vir (Rom. 8:11, 22-23). Tanto a criação quanto a recriação, nascimento e renascimento, são atos do Espírito porque, como Jesus explicou, “o Espírito é o que vivifica” (João 6:63).

        A Transformação Física da Natureza Humana. A transformação derradeira da natureza humana se realizará no glorioso dia da Vinda de Cristo “quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade” (1 Cor. 15:54). Paulo assegura aos crentes que “o Espírito Daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus . . . também vivificará os vossos corpos mortais” (Rom. 8:11). É evidente que a imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas um dom divino que os corpos mortais receberão (“se revestirão”) quando da ressurreição.
        A transformação final da natureza humana é descrita como “a ressurreição  do corpo” porque o Novo Testamento nunca aceita a crença na imortalidade da alma. A vida sem o corpo é inconcebível na Bíblia, porque o corpo é a expressão concreta da pessoa inteira. Sua ressurreição é indispensável para assegurar personalidade e vida plenas na nova terra.
        É digno de nota que em 1 Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia inteiramente dedicado à ressurreição/ trasladação dos crentes, não há referência à religação dos corpos ressurretos a almas espirituais. De fato, no capítulo inteiro Paulo nunca menciona a “alma-psychê”. Se a ressurreição envolvesse a religação do corpo à alma, como os católicos e a maior parte dos protestantes crêem, não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso inteiramente em sua discussão da natureza da ressurreição? Afinal de contas, tal conceito é fundamental para entender o que se dá com o corpo e a alma por ocasião da ressurreição . A ausência de qualquer referência à alma claramente indica que Paulo cria na ressurreição da pessoa inteira, não na religação do corpo à alma.

        O Sentido da Ressurreição  do Corpo. A ressurreição  do corpo não significa reabilitação de nossos corpos físicos presentes, que freqüentemente estão enfermos ou em sofrimento, mas a restauração de nossa pessoa integral. Na Bíblia o corpo se apresenta como referindo-se à pessoa inteira. Quando Paulo escreve:
    “Aguardamos a adoção como filhos, a redenção de nossos corpos” (Rom 8:23), ele simplesmente quer dizer a restauração de nosso ser total. Crer na ressurreição/trasladação do corpo significa crer que o meu eu humano, o ser humano que “eu” sou, será restaurado à vida novamente. Significa que não serei alguém diferente de quem eu sou agora. Serei exclusivamente eu mesmo. Em suma, significa que Deus Se comprometeu a preservar minha individualidade, personalidade e caráter.
        É meu caráter ou personalidade que desenvolvemos nesta vida que Deus preserva em Sua memória e reunirá à pessoa ressuscitada. Não há dois caracteres iguais porque não há duas pessoas que enfrentem as mesma tentações, lutas, derrotas, desapontamentos, vitórias e crescimento em sua vida cristã. Isso elimina a possibilidade de “duplicação” de pessoas por ocasião da ressurreição, todos se parecendo, agindo e pensando igual. Cada um de nós tem um caráter ou personalidade único que Deus preserva e unirá ao corpo ressuscitado. Isso explica a importância de desenvolver um caráter cristão nesta vida presente, porque essa será nossa identidade pessoal no mundo por vir. [NT: Talvez se possa ilustrar isso com as memórias eletrônicas num computador. Não há nenhum elemento físico visível quando se registra um texto, ou mesmo imagem, na memória do computador. Uma vez ativada a energia e entrados os devidos comandos, o texto ou imagem específicos surgirá na tela, e até poderão ser reproduzidos em papel através de uma impressora, etc.]
        A pesquisa precedente demonstrou que o ponto de vista bíblico da natureza humana é holística, consistindo de uma pessoa indivisível onde a alma é o princípio animado do corpo. Descobrimos que o relato da criação nos conta que originalmente a natureza humana integral era condicionalmente imortal. A Queda nos informa que a natureza humana integral tornou-se incondicionalmente mortal. A redenção nos reassegura que Deus fez provisões para a natureza humana integral ser moralmente renovada nesta vida presente e fisicamente restaurada no mundo por vir. Este é o plano glorioso de Deus para nossa natureza e destino humanos; um plano que abrange a criação, redenção e restauração final da natureza humana inteira, bem como do planeta todo.
        Nosso próximo estudo trata da “Visão Bíblica da Morte”. Ensina a Bíblia que a morte é separação da alma imortal do corpo mortal? Ou ensina que a morte é a terminação da vida para a pessoa inteira, corpo e alma? Para encontrar as respostas a estas perguntas pesquisaremos as Escrituras examinando todas as passagens pertinentes. Este é um importante estudo para desmascarar o prevalecente engano da vida consciente após a morte.

Referências

1.   Para adquirir um exemplar de Immortality or Ressurrection? A Biblical Study  of  Human Nature  and Destiny,  (em  inglês)  dirija-se  ao  seguinte  endereço:  Biblical  Perspectives -  4990  Appian  Way,   Berrien  Springs, Mich.,  49103, USA. Também poderá dirigir-se ao e-mail: samuele@andrews.edu ou Sbacchiocchi@csi.com. Dito livro está sendo traduzido para o português. Para informações a respeito comunique-se com o próprio tradutor pelo e-mail: azeniltogb@aol.com  ou  otavson@hotmail.com.
2.   John Calvin, Institutes of the Christian Religion I, XV, 3 (Londres, 1949), Vol. 1, pp. 162, 165.
3.   Dom Wulstan Mork, The Biblical Meaning of Man (Milwaukee, Wisconsin, 1967), p. 34.
4.   Hans Walter Wolff, Anthropology of the Old Testament (Filadélfia, 1974), p. 10.
5.   Norman  Snaith,  “Justice and Immortality,”  Scottish  Journal  of  Theology 17, 3, (setembro de 1964), pp. 312-313.
 
 

III - ESBOÇO HISTÓRICO DA CRENÇA NA
SOBREVIVÊNCIA DA ALMA

        Ao longo da história humana, as pessoas têm recusado aceitar a finalidade que a morte representa para nós. A morte acarreta uma inaceitável e súbita interrupção do trabalho, planos e relacionamentos de uma pessoa.
        Conquanto a inscrição em muita pedras tumulares de cemitérios reze, “Descansa em Paz”, a verdade é que a maioria das pessoas não dá boa acolhida ao pacífico repouso da sepultura. Prefeririam estar vivas e produzindo. Assim, não é de surpreender que o tema da morte e do além túmulo sempre tenha sido uma questão de intensa preocupação e especulação. Afinal de contas, o índice de mortalidade é ainda de um por pessoa. Cada um de nós, no tempo determinado, enfrentará a sombria realidade da morte.
        Hoje vivemos numa cultura que nega a morte. As pessoas vivem como se a morte não existisse. Médicos e pessoal hospitalar geralmente pensam que a morte é algo que não devia acontecer. A despeito de quão miseráveis as pessoas se sintam, geralmente respondem ao cumprimento “como vai?” com um sorriso artificial e dizem: “Estou bem”. Quando não mais conseguimos manter a fachada, começamos a nos indagar, “O que ocorrerá comigo agora?”
        Mesmo no final da vida, tendemos a negar a realidade da morte embalsamando os mortos e empregando cosméticos para restaurar o cadáver para dar-lhe uma aparência natural e saudável. Vestimos os mortos em ternos e belas vestes como se estivessem indo a uma festa, em lugar de ser um retorno ao pó da terra.
        Em anos recentes, cursos sobre a morte e o morrer têm sido introduzidos em muitas faculdades e escolas de nível médio. Algumas faculdades e universidades também oferecem cursos sobre o oculto e outros fenômenos, tais como experiências de quase morte que, segundo se alega, oferecem evidência científica da vida após a morte. Todas essas tendências sugerem que há renovado interesse hoje em desfazer os mistérios da morte e reassegurar-se de alguma forma de vida após a morte.

        “É certo que não morrereis”. Em preparação do cenário para a visão bíblica da morte e da condição dos mortos nos estudos que se seguem seria de auxílio considerar brevemente a história da crença da sobrevivência da alma após a morte. A mentira da serpente “é certo que não morrereis” (Gên. 3:4) tem sobrevivido ao longo da história humana até a nossa época. A crença em alguma forma de vida após a morte tem sido mantida praticamente por cada sociedade. A necessidade de segurança e certeza em face do desafio que a morte representa tem levado as pessoas em toda cultura a formularem crenças em alguma forma de vida após a morte.
        Na história do cristianismo, a morte tem sido definida geralmente como a separação da alma imortal do corpo mortal. Esta crença na sobrevivência da alma por ocasião da morte tem sido expressa em várias maneiras e dado origem a um corolário de doutrinas tais como a oração pelos mortos, indulgências, purgatório, intercessão dos santos. O tormento eterno do inferno, etc. Desde o tempo de Agostinho (354-430 AD), os cristãos têm sido ensinados que entre a morte e a ressurreição há um período conhecido como “estado intermediário”-as almas estão, ou a desfrutar as bem-aventuranças do Paraíso, ou sofrendo a aflição do purgatório ou do inferno.
Pressupõe-se que a condição desincorporada da alma continua até a ressurreição do corpo, que trará a complementação da salvação dos santos e a perdição dos ímpios.
        Durante a Idade Média, o temor da morte e as especulações a respeito do que acontece com a alma após a morte dominavam a imaginação das pessoas e inspiraram obras literárias e teológicas. A Divina Comédia de Dante é apenas um pequeno fragmento da imensa literatura e obras artísticas que descrevem vividamente os tormentos das almas dos pecadores no purgatório ou inferno, e o gozo das almas dos santos no Paraíso.
        A crença da sobrevivência da alma tem contribuído para o desenvolvimento da doutrina do purgatório, um lugar onde as almas dos mortos são purificadas pelo sofrimento da punição temporal de seus pecados antes de ascenderem ao Paraíso. Essa doutrina vastamente admitida sobrecarregou os vivos com tensão emocional e financeira. Como Ray Anderson comenta, “não só se tinha que ganhar o suficiente para viver, mas ainda pagar a ‘hipoteca espiritual’ pelos mortos”.1

        Os Reformadores Rejeitam o Purgatório. A Reforma Protestante começou em grande medida como uma reação contra as crenças supersticiosas medievais a respeito da pós-vida no purgatório. Os reformadores rejeitaram como antibíblica e despropositada a prática de comprar e vender indulgências para reduzir a permanência no purgatório das almas dos parentes que partiram. Contudo, continuaram a crer na existência consciente das almas, fosse no Paraíso ou no inferno durante o estado intermediário. Calvino expressou essa crença de modo mais agressivo que Lutero.2  Em seu tratado psychopannychia,3 que redigiu contra os anabatistas que ensinavam que as almas simplesmente dormem entre a morte e a ressurreição, Calvino argumentava que durante o estado intermediário as almas dos crentes desfrutam as bem-aventuranças celestiais, enquanto as dos descrentes sofrem as torturas do inferno. Por ocasião da ressurreição, o corpo é reunido à alma, assim intensificando o prazer paradisíaco ou as angústias infernais. Desde esse tempo, esta doutrina do estado intermediário tem sido aceita pela maioria das igrejas protestantes e se reflete em várias Confissões de Fé.4

        A Confissão de Westminster (1646), considerada a declaração definitiva das crenças presbiterianas no mundo de língua inglesa, afirma: “O corpo dos homens após a morte retorna ao pó, e passa pela corrupção; mas suas almas (que nem morrem nem dormem), tendo uma subsistência imortal, imediatamente retornam a Deus que as deu. As almas dos justos, sendo então tornadas perfeitas em santidade, são recebidas nos mais altos céus, onde contemplam a face de Deus em luz e glória, aguardando pela plena redenção de seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas no inferno onde jazem em tormento e trevas completas, reservados para o juízo do grande dia”.5 A confissão prossegue declarando ser antibíblica a crença no purgatório.
       Ao rejeitar como antibíblicas as supertições populares concernente ao sofrimento das almas no purgatório, os reformadores prepararam o caminho para um reexame da natureza humana pelos filósofos racionalistas do Iluminismo. Esses filósofos não abandonaram de imediato a noção da imortalidade da alma. O primeiro ataque significativo à crença na sobrevivência da vida após a morte veio de David Hume (1711-1776 AD), um filósofo e historiador inglês. Ele questionou a imortalidade da alma porque cria que todo conhecimento procede das percepções sensoriais do corpo.6  Uma vez que a morte do corpo assinala o fim de toda percepção sensorial, é impossível que a alma tenha existência consciente após a morte do corpo.
        O declínio da crença na pós-vida atingiu seu clímax em meados do século XVIII à medida que o ateísmo, ceticismo e racionalismo se espalhavam pela França, Inglaterra e América. A publicação da Origem das Espécies de Darwin (1859) infligiu outro golpe no sobrenaturalismo, especialmente na idéia de imortalidade da alma. Se a vida humana é produto de geração espontânea, então os seres humanos não têm um espírito divino ou alma imortal neles. As teorias de Darwin desafiaram as pessoas a procurarem evidência “científica” para os fenômenos sobrenaturais tais como a sobrevivência da alma.

        O Espiritismo e o Reavivamento no Interesse da Alma. O interesse do público na vida da alma após a morte logo teve um reavivamento com a publicação de The Coming Race (1860), por Bulmer Lytton. Esse livro influenciou bom número de escritores que contribuíram em tornar práticas ocultistas algo da moda na sociedade britânica. Na América, o interesse público pela comunicação com as almas dos mortos foi despertado pelas sessões mantidas pelas irmãs Fox que viviam em Hydesdale, Nova York. Em 31 de março de 1848, conduziram uma sessão em que o suposto espírito de um homem assassinado, que a si mesmo se chamava de William Duesler, as informava de que se cavassem no porão, encontrariam o seu cadáver. Isso se demonstrou verdadeiro; um corpo foi encontrado.
        Uma vez que os espíritos dos mortos na casa das irmãs Fox se comunicavam através de batidas sobre a mesa, sessões de “batidas sobre a mesa” tornaram-se populares por toda a América e Inglaterra como uma maneira de comunicar-se com os espíritos dos falecidos. Esse fenômeno atraiu a atenção de numerosas pessoas de cultura que, em 1882, organizaram a Sociedade Para Pesquisa Psíquica. Henry Sedgwich, notável filósofo de Cambridge, tornou-se a instrumentalidade para atrair para a sociedade as pessoas mais influentes da época, inclusive William Gladstone (ex-primeiro ministro britânico) e Arthur Balfour (futuro primeiro-ministro).
        Um importante resultado do movimento da SPP é representado pela obra de Joseph Banks Rhine, que, em 1930, começou a pesquisar a vida consciente após a morte. Rhine tinha formação de biólogo pela Universidade de Chicago, e mais tarde envolveu-se com a SPP enquanto lecionava na Universidade Harvard. Ele redefiniu e renomeou os temas que a SPP havia pesquisado por anos, cunhando termos tais como “percepção extra-sensorial” (PES), “psicologia paranormal” ou “parapsicologia”. Isso tinha o objetivo de dar credibilidade científica ao estudo da além-túmulo. Posteriormente, Rhine, juntamente com William McDougal que serviu como presidente tanto para os grupos britânico e americano da SPP, estabeleceu um Departamento para Estudos psíquicos na Universidade Duke.
        Os russos conduziram suas próprias experiências psíquicas. Suas descobertas foram publicadas em forma popularizada em Psychic Discoveries Behind the Iron Curtain por Sheila Ostrander e Lynn Schroeder (1970).
Pelo final dos anos 60, o falecido bispo episcopal James A. Pike concedeu nova e ampla atenção à idéia de comunicação com os espíritos dos mortos comunicando-se numa base regular com o seu filho falecido. Hoje nossa sociedade está invadida de médiuns e paranormais que fazem publicidade de seus serviços por todo o país mediante a TV, revistas, rádios e jornais. Em seu livro At the Hour of Death, K. Osis e E. Haraldson escrevem: Experiências espontâneas de contato com os mortos são surpreendentemente bastante difundidas. Numa pesquisa nacional de opinião . . . 27 por cento da população americana declarou ter tido encontro com parentes mortos. . . . viúvas e viúvos . . . relataram encontros com seus cônjuges falecidos com dupla freqüência-51 por cento!7 A comunicação com os espíritos dos mortos não é um fenômeno apenas americano. Pesquisas conduzidas em outros países revelam um percentual semelhantemente elevado de pessoas que contratam os serviços de médiums para se comunicarem com o espírito de seus seres amados falecidos.8
        Em sua obra Immortality or Extinction? Paul e Linda Badham, ambos professores da Universidade St. David, no País de Gales, dedicaram um capítulo à “Evidência de Pesquisa psíquica” para apoiar sua crença na vida consciente após a morte. Eles escreveram: “Algumas pessoas crêem que o contato direto com os mortos pode ser conseguido através de médiuns que, alega-se, têm a habilidade, enquanto num estado de transe, de transmitir mensagens entre os mortos e os vivos. A crença na realidade de tais comunicações é o sangue vital de Igrejas Espiritualistas e os enlutados que consultam os médiuns muitas vezes se impressionam com as descrições dos queridos mortos feitas pelos médiuns. Ocasionalmente um médium pode também demonstrar conhecimento da vida pregressa do falecido”.9
        Os Badhams reconhecem que em muitos casos os médiuns são charlatães que baseiam suas comunicações em “arguta observação e pressuposições inteligentes”.10 Contudo, acreditam que há “evidência genuína para a sobrevivência da personalidade humana sobre a morte corporal”.11 Eles apóiam sua crença relatando casos de vários membros da Sociedade para Pesquisa Psíquica que, após morrerem, começaram a enviar mensagens aos membros vivos do SPP para provar que haviam sobrevivido à morte.12
        Não é nossa intenção debater a habilidade de alguns médiuns receberem e transmitirem mensagens dos espíritos. A questão é se tais mensagens são dos espíritos dos mortos ou dos espíritos de Satanás. Faremos referência a esta questão no próximo estudo, em conexão com uma análise da consulta do rei Saul à feiticeira de Endor (1 Samuel 28:7-25). Neste ponto, é suficiente fazer notar que o espiritismo ainda desempenha um destacado papel hoje em fomentar a crença da sobrevivência da alma após a morte. As pessoas que mediante médiuns têm sido capazes de se comunicar com supostos espíritos de seus amados falecidos têm razão para crer na imortalidade da alma.

        Experiências de Quase-Morte. Outro acontecimento significativo de nossa época, que tem contribuído para promover a crença na sobrevivência da alma, é o estudo de “experiências de quase morte”. Tais estudos baseiam-se em relatos de pessoas que foram ressuscitadas de um quase encontro com a morte, e de médicos e enfermeiras que registraram as experiências de leito de morte de alguns de seus pacientes.
        As experiências relatadas por pessoas que tiveram um quase encontro com a morte muitas vezes correm paralelas ao que muitos crêem ser a vida da alma no Paraíso. Conquanto não haja dois relatos iguais, algumas das características comuns são: a impressão de paz, a sensação de ser atraído rapidamente através de um espaço sombrio de alguma espécie, flutuar numa condição de ausência de gravidade, corpo espiritual, consciência de estar na presença de um ser espiritual, um encontro com uma luz brilhante, muitas vezes identificada com Jesus Cristo ou um anjo, e uma visão de uma cidade de luz.13 Tais experiências são interpretadas como prova de que, por ocasião da morte, a alma deixa o corpo e vive numa condição desincorporada.
        Os relatos de experiências de quase morte não são novos. Podem ser encontrados na literatura clássica, tais como a História da Igreja e Povo da Inglaterra pelo Venerável Beda, o Livro Tibetano dos Mortos, por Sir Edward Burnett Tylor, e a República de Platão.14 Na República, Platão oferece um impressionante relato de uma experiência de quase morte que ele emprega para substanciar a crença na imortalidade da alma.Ele escreveu: “Er, filho de Armênio . . .  foi morto em batalha, e quando os cadáveres foram levados no décimo dia já em decomposição, foi encontrado intacto, e tendo sido levado para casa, no momento de seu funeral, no décimo-segundo dia, ao estar sobre a pira, reviveu, e após ter recobrado a vida relatou o que, disse ele, havia estado no mundo do além. Ele disse que quando sua alma deixou o seu corpo viajou com uma grande companhia e chegaram a uma região misteriosa onde havia duas aberturas lado a lado na terra, e acima e por sobre e contra eles no céu duas outras, e que juízes estavam assentados entre ambas, e que após cada julgamento eles indicavam aos viajantes que seguissem para a direita e para cima pelo céu com senhas a eles presas diante do juízo . . . e os injustos para tomarem o caminho à esquerda e para baixo, também usando sinais sobre tudo quanto lhes havia pesado e que quando ele próprio se aproximava disseram-lhe que precisava ser mensageiro à humanidade para lhes dizer  sobre esse outro mundo. . .  Contudo como e de que modo ele retornou ao corpo, disse que não sabia, mas subitamente recuperou sua visão e viu-se no alvorecer deitado sobre a pira funerária”.15
         Platão conclui sua história com este comentário revelador: “Assim o relato foi conservado . . . E ele nos salvará se crermos nele . . . que a alma é imortal e que é capaz de suportar todos os extremos de bem e mal”.16 Fica-se a imaginar que tipo de salvação a crença na imortalidade da alma oferecerá  uma pessoa. A sobrevivência como uma alma ou espírito desincorporado num mundo etéreo dificilmente se compara com a esperança bíblica da ressurreição da pessoa integral para uma vida real sobre este planeta restaurado a sua perfeição original. A esta questão retornaremos num estudo futuro que examina a visão bíblica do mundo vindouro.
        Estudos de Experiências de Quase-Morte. Em nosso tempo, o estudo de experiências de quase morte teve grande impulso desde que o psiquiatra americano Raymond A. Moody a ele se lançou pioneiramente. Seus dois livros disso motivadores, Life After Life (1975) e Reflections on Life After Life (1977) geraram uma grande quantidade de livros, artigos e debates focalizados sobre experiências extracorpóreas.17 Mais recentemente, uma bibliografia de livros e artigos relevantes a experiências de quase morte foram publicados, alistando dois mil e quinhentos títulos.18
        Moody estudou experiências de quase-morte de 150 pessoas, em alguns casos, clinicamente mortas. A questão é como os dados devem ser interpretados. O editor de Moody assegura que os relatos são “casos reais que revelam haver vida após a morte”.19   O próprio Moody, contudo, é muito mais cauteloso. Ele explicitamente nega que tentou “construir uma prova de sobrevivência da morte corporal” embora considere os dados “altamente significativos” para tal crença.20  Ele deixa em aberto a possibilidade de conceber as experiências de quase-morte como evidências da imortalidade ou meramente o resultado de eventos fisiológicos terminais.
        Não é nossa intenção examinar o suposto valor comprobatório de experiências de quase-morte para crer na sobrevivência da alma. Nossa autoridade normativa para definir a natureza humana não são as experiências subjetivas de quase morte das pessoas, mas a revelação objetiva que Deus propiciou-nos em Sua Palavra (2 Pedro 1:19). Assim, somente três observações básicas sobre experiências de quase morte serão aqui consideradas:
        Primeiro, há o problema de definir a morte. O Editor de Lancet, revista dedicada à pesquisa médica, assinala que “somente um deliberado emprego de definições obsoletas de morte podem capacitar alguém a reivindicar que algum indivíduo, sob condições clínicas, retornou para contar-nos o que jaz além da morte, pois por definição de trabalho, periodicamente atualizado, a morte está simplesmente além do ponto do qual alguém possa retornar para nos dizer seja o que for”.21 Semelhantemente, o Prof. Paul Kurts comenta: “Não temos evidência real de que os indivíduos dos relatos de quase-morte tenham de fato morrido. Tal prova não é impossível de obter: rigor mortis é um sinal, e morte cerebral é outro. O que os relatos realmente descrevem é um ‘processo de morrer, ou experiência de quase-morte, não a própria morte’”.22
        Em segundo lugar, precisamos nos lembrar, como Paul e Linda Badham observam, que “qualquer pessoa que esteja num suspense entre a vida e a morte deve estar sofrendo profunda tensão física e psicológica. Um cérebro carente de oxigênio, drogado por analgésicos halucinógenos, ou excitado por febre dificilmente tende a funcionar apropriadamente e quem sabe que visões não poderiam ser atribuídas a essas condições de perturbação”.23 Algumas pesquisas demonstraram a semelhança que existe entre experiências de quase morte e os efeitos causados por drogas psicodélicas. “Pesquisas modernas sobre a consciência têm revelado que essas semelhanças podem ser reproduzidas por drogas em sessões psicodélicas. Essas experiências, portanto, tendem a pertencer à gama de sessões psíquicas, que têm comprovado, não a vida após a morte, mas que a relação entre o ‘eu’ consciência e o ‘eu’ incorporado é mais complexo do que se imaginava anteriormente.”24
Por fim, como se pode estabelecer que as “experiências de quase morte sejam experiências reais”, antes que o produto da própria mente dos pacientes? E por que se dá que quase todos os relatos de experiências de quase-morte focalizam experiências de felicidade e alcance do céu, mas nenhum lampejo dos tormentos chamejantes do inferno? É evidente que quando as pessoas estão morrendo, preferem sonhar a respeito da glória celestial, e não do sofrimento do inferno. Mas mesmo as visões do céu dependem grandemente da formação religiosa da pessoa.
        Karlis Osis e Erlendur Haraldsson avaliaram os relatos de mais de 1.000 experiências de quase-morte nos EUA e Índia. Descobriram que a visão dos pacientes hindus era tipicamente indiana, enquanto a dos americanos era ocidental e cristã. Por exemplo, uma mulher indiana de formação universitária teve a experiência de ser conduzida ao céu sobre uma vaca, enquanto um paciente americano que havia orado a São José encontrou o seu santo padroeiro na experiência.25 Tais relatos sobre experiências de quase morte refletem as crenças pessoais dos pacientes. O que experimentaram no processo de morrer quase certamente condiciona-se a suas crenças pessoais.
        Devemos sempre recordar que as experiências de quase-morte ou de leito de morte são de indivíduos ainda vivos, ou cuja mente readquiriu consciência. Seja qual for sua experiência sob tais circunstâncias é parte de sua vida presente, não da vida após a morte. A Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (1 Reis 17:17-24; 2 Reis 4:25-37; Lucas 7:11-15; 8:41-56; Atos 9:36-41; 20:9-11), mas nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar.
        Lázaro, que foi trazido à vida após estar clinicamente morto por quatro dias, não trouxe qualquer relato de emocionantes experiências fora do corpo. A razão para isso é simples: A morte, segundo a Bíblia, é a cessação da vida da pessoa inteira, corpo e alma. Não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurreição. Os mortos repousam inconscientemente em suas sepulturas até que Cristo os chame no glorioso dia de Sua vinda.

        Movimento Nova Era. A crença na vida consciente após a morte é popularizado hoje especialmente pelo     Movimento Nova Era.26  Não é fácil definir esse novo movimento popular porque representa um complexo de organizações e indivíduos que compartilham valores comuns e uma visão comum. Esses valores derivam do misticismo e ocultismo orientais e uma cosmovisão panteísta segundo a qual todos compartilham Daquele que é Deus. Eles prevêem uma “nova era” vindoura de paz e iluminação maciça, conhecida como Era de Aquário”.
Os adeptos da Nova Era podem divergir sobre quando ou como começa a Nova Era, mas todos concordam que podem apressar a nova ordem envolvendo-se na vida política, econômica, social e espiritual. De acordo com alguns analistas sociais, o Movimento Nova Era tornou-se uma destacada tendência cultural de nosso tempo. Elliot Miller o define como “uma terceira proeminente força social competindo com a religião judaica-cristã e o humanismo secular por domínio cultural.27
        Para os seguidores da Nova Era, a realidade última é um Deus panteístico manifestado com uma consciência e força infinitas, impessoais. Os seres humanos são parte da consciência divina e são separados de Deus somente em sua própria consciência. Mediante técnicas específicas, como a meditação, o canto, dança e privações sensoriais, os adeptos da Nova Era buscam experimentar a Unidade com Deus. Assim, a salvação para os adeptos é igualada a auto-realização mediante técnicas espirituais especiais.

        A Loucura da canalização. Um aspecto importante do Movimento da Nova Era é a alegação de comunicação com inteligências humanas e extra-humanas que se foram. Este fenômeno é chamado de “canalização”, mas tem corretamente sido chamado de “Espiritismo ao Estilo da Nova Era”.28 Miller acertadamente faz notar que “o espiritismo desempenhou uma parte importante historicamente em virtualmente todas as formas de paganismo. Os que permitiram que espíritos empregassem seus corpos dessa foram têm sido chamados por uma variedade de nomes, inclusive ‘vidente’, ‘feiticeiro’, ‘curandeiro’, ‘oráculo’. Em nossa cultura, o termo comum tem sido ‘médium’, mas em anos recentes tem sido abandonado em grande medida em favor de ‘canal’ou ‘canalizador’, refletindo em parte, um desejo de romper com estereótipos negativos que se têm associado com médiuns ao longo dos anos”.29
        Um “canalizador” é essencialmente uma pessoa que alega ser recebedora dos ensinos e sabedoria dos grandes espíritos do passado. O negócio de canalizar expande-se em todas as principais cidades americanas. Segundo o Los Angeles Times, numa década, o número de conhecidos canalizadores profissionais aumentou de dois para mais de mil numa década.30 Isso está obrigando os canalizadores a usar psicologia da Ave. Madison [N.R. centro de publicidade] para vender seus serviços. . . Uma propaganda de Taryn Krive, popular canalizador, dá boa idéia dos serviços oferecidos: “Mediante Taryin um número de espíritos-guia traz seus ensinos e mensagens. Eles responderão a suas perguntas sobre esta vida ou outras vidas e ajudarão você a identificar as lições de sua vida e desbloquear seus mais elevados potenciais para viver e amar. . .  . Conheça seus espíritos-guia. Aprenda a relembrar suas vidas passadas e liberar a influência delas de seu presente. Desenvolva suas habilidade de canalização (canalização consciente, escrita automática, canalização com transe)”.31
        A pessoa que tem desempenhado um papel destacado na promoção do Movimento Nova Era, especialmente quanto a canalização, é a famosa artista Shirley MacLaine. Seus livros venderam mais de cinco milhões de exemplares. A mini-série “Out on a Limb” despertou interesses sem precedentes em canalização. MacLaine leva bastante a sério o seu papel como principal evangelista da Nova Era. Seguindo-se a sua mini-série para a TV, ela conduziu seminários de dois dias por toda a nação, intitulados “Ligando-se Com o Eu Superior”. Depois, empregou a receita dos seminários para estabelecer um centro espiritual de 120 hectares perto de Pueblo, Colorado. O objetivo do centro é propiciar um lugar confiável para as pessoas se comunicarem com Espíritos superiores.32
        Um fator importante que tem contribuído para o êxito da Nova Era é sua alegação de ligar as pessoas não só com os seus queridos que morreram, mas também com os Grandes Espíritos do passado. Como destaca o parapsicólogo e canalizador Alan Vaughan: “A emoção, o imediatismo desse contato com outra consciência pode ser a força impulsora por detrás do fenomenal crescimento da prática de canalização”.33

        Morte Como Transição Para Uma Existência Superior. A comunicação com o espírito dos mortos tem por base a crença de que a morte não é o fim da vida, mas meramente uma transição para uma plano de existência superior que torna possível no devido tempo reencarnar-se, seja sobre a terra ou outra parte. Virginia Essene, que reivindica estar falando como um canal para Jesus, declara: “A morte é uma entrada automática e quase imediata na grande esfera do crescimento de aprendizagem e serviço a que já está bem acostumado. Você simplesmente vive nesse nível superior de propósito, gozo e entendimento”.34
        Em muitas maneiras, o ponto de vista da Nova Era como entrada imediata numa esfera mais elevada de viver reflete a crença tradicional cristã na sobrevivência consciente da alma por ocasião da morte. Ambas as crenças podem remontar à primeira mentira proferida pela serpente no Jardim do Éden: “É certo que não morrereis” (Gên 3:4). Essa mentira tem atravessado os séculos com efeitos tão devastadores sobre as religiões tanto cristãs quanto não cristãs.
        Nesta análise penetrante do Movimento da Nova Era, Elliot Miller observa com perspicácia: “Tem sido feito notar corretamente por muitos observadores cristãos que o cerne das doutrinas de Nova Era/canalização, ‘Podeis ser como Deus’ e ‘Não morrereis’ foram as primeiras proferidas pela serpente no Jardim do Éden. (Gên 3:4-5). Acatado, então, esse ‘evangelho’, produziu toda a miséria do mundo. Acatado agora, tornará sem efeito tudo quanto Deus realizou em Cristo para remediar a situação do indivíduo em questão”.35
        Miller está certo em destacar que a crença na imortalidade inerente promovida pela Nova Era hoje torna de nenhum efeito a provisão de salvação em Cristo, uma vez que as pessoas pensam que já dispõem dos recursos para entrar num nível mais elevado de existência após a morte. Desafortunadamente, Miller deixa de reconhecer que o êxito da Nova Era em promover tal crença deve-se em grande medida à crença tradicional cristã  dualística quanto à natureza humana. Os cristãos que crêem que o corpo é mortal e a alma imortal não têm maiores dificuldades em aceitar o ponto de vista da Nova Era quanto à transição para uma esfera superior de existência das almas dos santos nos páramos da glória paradisíaca.

        Conclusão. A pesquisa precedente mostra como a mentira de Satanás tem prevalecido em diferentes formas ao longo da história humana até nossos dias. Enquanto durante a Idade Média a crença no pós-vida era promovida mediante representações literárias e artísticas da bem-aventurança dos santos e o tormento dos pecadores, hoje tal crença é propagada numa forma mais sofisticada por médiuns, paranomrias, pesquisa “científica” em experiências de quase-morte e pela Nova Era com sua canalização com espíritos do passado. Os métodos satânicos mudaram, mas seus objetivos são ainda os mesmos: fazer as pessoas crerem na mentira, de que não importa o que façam, não morrerão, mas se tornarão como deuses por viverem para sempre. Nossa única proteção contra tal engano é mediante um claro entendimento do que a Bíblia  ensina a respeito da natureza da morte e o estado dos mortos.
 
 

Referências

   1.  Ray S. Anderson, Theology, Death and Dying (New York, 1986), p. 104.
   2.  Ver Hans Schwarz, “Luther’s Understanding of Heaven and Hell,” Interpreting Luther’s Legacy, ed. F. W. Meuser and S. D. Schneider (Minneapolis, 1969), PP. 83-94.
   3. O texto dessa obra é encontrado em Tracts and Treatises of the Reformed Faith, de Calvino, trad. H. Beveridge (Grand Rapids, 1958), Vol. 3, pp. 413-490.
   4. Ver, por exemplo, Charles Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids, 1940), Vol. 3, pp. 713-30; W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology (Grand Rapids, n.d.), Vol. 2, pp. 591-640. G. C. Berkouwer, The Return of Christ (Grand Rapids, 1972), pp. 32-64.
   5. Westminster Confession, cap. 32, como citado por John H. Leith, ed., Creeds of the Churches (Atlanta, 1977), p. 228.
   6. Ver David Hume, A Treatise of Human Nature (Publicado em 1739). Para uma breve mas informativa pesquisa daqueles que atacavam a crença na vida do além túmulo, bem como os que reviveram tal crença, ver Robert A. Morey, Death and the Afterlife (Minneapolis, 1984), pp. 173-184.
   7. K. Osis e E. Haraldsson, At the Hour of Death (Avon, 1977), p. 13.
   8. Ibid., pp. 13-14. Ver também W. D. Rees, “The Hallucinations of Widowhood,” BMJ 4 (1971), pp. 37-41; G. N. M. Tyrrell, Apparitions (Duckworth, 1953), pp. 76-77.
   9. Paul Badham e Linda Badham, Immortality or Extinction? (Totatwa, New Jersey, 1982), pp. 93-94.
10. Ibid., p. 94.
11. Ibid., p. 98.
12. Ibid., pp. 95-98.
13. Estas características são tomadas do relatório do psiquiatra americano Raymond A. Moody, que escreveu dois livros seminais sobre este assunto, Life after Life (1976) e Reflections on Lifeafter Life (1977). O relatório de Moody é citado por Hans Schwarz (nota 14), pp. 40-41.
14. Para uma discussão de experiências de quase-morte ao longo da história, ver Hans Schwarz, Beyond the Gates of Death: A Biblical Examination of Evidence for Life After Death (Minneapolis, 1981), pp. 37-48.
15. Platão, Republic, 10, 614, 621, em Edith Hamilton e Huntington Cairns, eds., The Collected Dialogues of Plato Including the Letters (Nova York, 1964), pp. 839, 844.
16. Ibid., p. 844.
17. Ver C. S. King, Psychic and Religious Phenomena (Nova York, 1978). Para literatura adicional sobre o assunto, ver Stanislav Grof e Christina Grof,Beyond Death:The Gates of Consciousness (Nova York, 1989); Maurice Rawlings, Beyond Death’s Door (Nova York, 1981); John J. Heaney, The Sacred and the Psychic: Parapsychology and the Christian Theology (Nova York, 1984); Hans Schwarz, Beyond the Gates of Death: A Biblical Examination of Evidence for Life After Death (Minneapolis, 1981).
18. Paul Badham e Linda Badham (nota 9), p. 88.
19. Sobre a capa de R. A. Moody, Life after Life (New York, 1975).
20. Ibid., p. 182.
21. Editorial, Lancet (24 de junho de 1978).
22. Paul Kurtz, “Is There Life After Death?” uma dissertação submetida à Oitava Conferência Internacional Sobre a Unidade das Ciências, Los Angeles, novembro de 1979.
23. Paul Badham e Linda Badham (nota 9), p. 81.
24. Ray S. Anderson (nota 1), p. 109.
25. K. Osis e E. Haraldsson (nota 7), p. 197.
26. Alguns dos estudos significativos sobre o Movimento Nova Era são: Vishal Mangalwadi, When the New Age Gets Old: Looking for a Greater Spirituality (Downers Grove, Illinois, 1992); Ted Peters, The Cosmic Self. A Penetrating Look at Today’s New Age Movements (New York, 1991); Michael Perry, Gods Within: A Critical Guide to the New Age (London, 1992); Robert Basil, ed., Not Necessarily the New Age (New York, 1988).
27. Elliot Miller,A Crash Course on the New Age Movement (Grand Rapids, 1989), p. 183.
28. Ibid., p. 141.
29. Ibid., p. 144.
30. Lynn Smith, “The New, Chic Metaphysical Fad of Channeling,” Los Angeles Times (5/12/1986), Parte V.
31. Anúncio publicitário, The Whole Person, julho de 1987, p. 1.
32. Ver Nina Easton, “Shirley MacLane’s Mysticism for the Masses,” Los Angeles Times Magazine (6 de septembro de 1987), p. 8.
33. Alan Vaughan, “Channels-Historic Cycle Begins Again,” Mobius Reports (Primavera/Verão 1987), p. 4.
34. “Jesus” (ao longo de Virginia Essene, “Secret Truths-What Is Life?”. Life Times, 1, p. 3, como citado em Elliot Miller (nota 27), p. 172.
35. Elliot Miller (nota 27), p. 178.
 
 

IV - A VISÃO BÍBLICA DA MORTE

        Para entender a visão bíblica da morte precisamos remontar ao relato da criação onde a morte é apresentada, não como um processo natural desejado por Deus, mas como algo desnatural, oposto a Deus. A narrativa do Gênesis nos ensina que a morte veio ao mundo em resultado do pecado. Deus ordenou a Adão não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal e acrescentou a advertência: “No dia em que dela comerdes, certamente morrereis”. (Gên 2:17). O fato de que Adão e Eva não morreram no dia de sua transgressão tem levado alguns a concluir que os seres humanos não morrem de fato porque possuem uma alma consciente que sobrevive à morte do corpo.
        Esta interpretação figurativa dificilmente pode ser defendida pelo texto, que literalmente traduzido assim reza: “morrendo morrereis”. O que Deus quis simplesmente dizer é que no dia em que desobedecessem, o processo de morte começaria. De um estado em que lhes era possível não morrer (imortalidade condicional), passaram a uma condição em que lhes era impossível não morrer (mortalidade incondicional). Antes da Queda, a garantia de imortalidade configurava-se pela árvore da vida (Gên. 3:22-23) e, em conseqüência, começaram a experimentar a realidade do processo de mortalidade. Na visão profética da Nova Terra, a árvore da vida se acha em ambos os lados do rio como um símbolo do dom da vida eterna concedido aos remidos (Apo. 21:2).
        O pronunciamento divino encontrado em Gênesis 2:17 estabelece uma clara ligação entre a morte humana na Bíblia e a transgressão do mandamento de Deus. Assim, a vida ou morte humana são dependentes da obediência ou desobediência humanas a Deus. Este é um ensino fundamental da Bíblia, ou seja, de que a morte veio a este mundo em resultado da desobediência do homem (Rom. 5:12; 1 Cor 15:21). Isto não diminui a responsabilidade do indivíduo por sua participação no pecado (Ezeq. 18:4, 20). A Bíblia, contudo, faz uma distinção entre a primeira morte, que todo ser humano experimenta em resultado do pecado de Adão (Rom. 5:12; 1 Cor. 15:21), e a segunda morte experimentada após a ressurreição (Apoc. 20:6) como salário pelos pecados pessoalmente cometido (Rom. 6:23).

        A Morte Como Separação da Alma do Corpo. Uma questão importante que precisamos levantar a esta altura é o ponto de vista bíblico da natureza da morte. Para ser específico: é a morte a separação da alma do corpo mortal, de modo que quando o corpo morre, a alma sobrevive? Ou é a morte a cessação da existência da pessoa integral, corpo e alma?
        Historicamente, os cristãos têm sido ensinados que a morte é a separação da alma imortal do corpo mortal, de modo que a alma sobrevive ao corpo num estado desincorporado. Por exemplo, o Novo Catecismo da Igreja Católica declara: “Pela morte, a alma é separada do corpo, mas na ressurreição Deus concederá vida incorruptível ao nosso corpo, transformado pela reunião com nossa alma”.40 Augustus Strong define a morte em sua bem conhecida obra Systematic Theology [Teologia Sistemática]: “A morte física é a separação da alma do corpo. Distinguimo-la da morte espiritual, ou a separação da alma de Deus”.41  Em suas Lectures in Systematic Theology [Conferências em Teologia Sistemática] (vastamente utilizadas como livro de texto) o teólogo calvinista Henry Clarence Thiessen se expressa de modo semelhante: “A morte física tem relação com o corpo físico, a alma é imortal e como tal não morre”.42 Em sua obra Christian Dogmatics [Dogmática cristã], Francis Pieper, um teólogo luterano conservador, declara de modo muito claro o ponto de vista histórico da morte: “A morte temporal não é nada mais do que uma separação profunda do homem, a divisão da alma do corpo, o desnatural rompimento da união de alma e corpo criados por Deus para serem um”.43  Declarações como essas poderiam ser multiplicadas, uma vez que se encontram na maioria dos livros de texto de teologia sistemática e em todos os mais destacados documentos confessionais.
        O ponto de vista histórico acima quanto à natureza da morte como separação da alma do corpo tem sido submetido a intenso ataque por muitos eruditos modernos. Alguns exemplos são suficientes para ilustrar este ponto. O teólogo luterano Paul Althaus escreve: “A morte é mais do que um partir da alma do corpo. A pessoa, corpo e alma, é envolvida na morte.  . . A fé cristã nada sabe sobre uma imortalidade da personalidade. . . . Apenas sabe de um despertar da morte real mediante o poder de Deus. Há existência após a morte somente por um despertamento da ressurreição da pessoa integral”.44
        Althaus argumenta que a doutrina da imortalidade da alma não faz justiça à seriedade da morte, uma vez que a alma passa pela morte sem ser afetada.45  Ademais, a noção de que uma pessoa pode ser totalmente feliz e abençoada sem o corpo nega a significação do corpo e esvazia a ressurreição de seu significado.46  Se os crentes já são abençoados no céu e os ímpios já estão sob tormentos no inferno, por que o juízo final se faz ainda necessário?47 Althaus conclui que a doutrina da imortalidade da alma põe à parte o que deve permanecer junto: o corpo e a alma, o destino do indivíduo e o do mundo.48
        Em seu livro The Body [O corpo], John A. T. Robinson afirma: “A alma não sobrevive ao homem-apenas se esvai, escorrendo com o sangue”.49  Em sua monografia Life After Death [Vida após a morte], Taito Kantonen faz essa aguda observação: “A noção cristã da morte está em pleno acordo com o ponto de vista da ciência natural em toda sua extensão. O homem não difere do resto da criação por ter uma alma que não pode morrer”.50
        Até mesmo o Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário bíblico do intérprete], de concepção liberal, em seu verbete sobre a morte declara explicitamente: “A partida do nephesh [alma] deve ser vista como uma figura de linguagem, pois não continua a existir independentemente do corpo, mas morre com ele (Núm. 31:19; Juí. 16:30; Eze. 13:19). Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a ‘alma’ é separada do corpo no momento da morte. O ruach, ‘espírito’, que faz do homem um ser vivente (cf. Gên. 2:7), e que ele perde por ocasião da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ecl. 12:7)”.51
        Este desafio da erudição moderna quanto ao ponto de vista tradicional da morte como separação da alma do corpo tem sido passado por alto há longo tempo. É difícil crer que pela maior parte de sua história o cristianismo em grande medida sustentou um ponto de vista da morte e destino humanos tão vastamente influenciado pelo pensamento grego, em lugar de sê-lo pelos ensinos das Escrituras. O que surpreende ainda mais é que nenhum montante de erudição bíblica mudará a crença tradicional mantida pela maioria das igrejas quanto  ao estado intermediário. A razão disso é simples. Conquanto eruditos individualmente possam alterar seus pontos de vista doutrinários sem sofrerem conseqüências devastadoras, o mesmo não é verdade para com igrejas bem estabelecidas. Uma igreja que introduzir uma mudança radical em suas posições doutrinárias históricas solapa a fé de seus membros e assim a estabilidade da instituição. Um exemplo disso é a Worldwide Church of God [Igreja de Deus Universal] que perdeu mais de metade de seus membros quando mudanças doutrinárias foram introduzidas por seus dirigentes no princípio de 1995. O elevado custo de retificar crenças religiosas denominacionais não deveria deter cristãos crentes na Bíblia que estão comprometidos, não a preservar crenças tradicionais por causa da tradição, mas a buscar constantemente um entendimento mais pleno dos ensinos da Palavra de Deus em questões relevantes para sua vida.

        Morte Como Cessação da Vida. Quando pesquisamos a Bíblia em busca de uma descrição da natureza da morte, encontramos muitas declarações claras que não carecem praticamente de interpretação. Primeiro, as Escrituras descrevem a morte como um retorno aos elementos dos quais o homem foi originalmente feito. Ao pronunciar a sentença sobre Adão após sua desobediência, Deus disse: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado: porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gên. 3:19).
Esta vívida declaração nos diz que a morte não é a separação da alma do corpo, mas o término da vida de um indivíduo, que resulta na decadência e decomposição de seu corpo. “Uma vez que o homem é criado de matéria perecível, sua condição natural é a mortalidade (Gên. 3:19)”.53
        Um estudo das palavras “morrer”, “morte”e “morto” no grego e hebraico revela que a morte é percebida na Bíblia como a privação ou cessação da vida. A palavra  comum hebraica com o significado de “morrer” é muth, que ocorre no Velho Testamento mais de 800 vezes. Na vasta maioria dos casos, muth é empregada no sentido simples de morte de homens e animais. Não há qualquer indício em seu emprego de qualquer distinção entre as duas. Um exemplo claro disso se acha em Eclesiastes 3:19, que assim reza: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade”.
        O termo hebraico muth “morrer” é às vezes empregado, como em português, num sentido figurado para denotar a destruição ou eliminação de uma nação (Isa. 65:15; Osé. 2:3; Amós 2:2), uma tribo (Deut. 33:6; Osé. 13:1), ou uma cidade (2 Sam. 20:19). Nenhum desses usos figurados sustenta a idéia de sobrevivência do indivíduo. Pelo contrário, descobrimos que a palavra muth [“morrer”] é utilizada em Deuteronômio 2:16 num paralelo com tamam, que significa “ser consumido” ou “ser terminado”. O paralelismo sugere que a morte é vista como o fim da vida.
        A palavra grega comum correspondente a “morrer” é apothanein usada 77 vezes no Novo Testamento. Com poucas exceções, o verbo denota a cessação de vida. As exceções são principalmente usos figurativos que dependem do sentido literal. Por exemplo, Paulo declara: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram” (2 Cor. 5:14). É evidente que isto não está se refere à morte física, mas aos efeitos da morte de Cristo sobre a posição do crente perante Deus. Poderíamos traduzir “portanto, todos morreram” como “portanto, todos são contados como tendo morrido”. Nenhum dos empregos literais ou figurativos valendo-se do hebraico muth ou do grego apothanein sugere que a “alma” ou o “espírito” sobreviva à morte de um indivíduo.

        Descrições da Morte no Velho Testamento. Acabamos de fazer notar que os verbos em hebraico e grego para “morrer” não explicam realmente o significado e natureza da morte, exceto para nos dizer que a morte dos homens e animais é idêntica. Mais revelador é o uso do substantivo hebraico maveth empregado cerca de 150 vezes e geralmente traduzido por “morte”. Do emprego de maveth no Velho Testamento aprendemos três coisas importantes a respeito da natureza da morte.
        Primeiramente, não há lembrança do Senhor na morte: “Pois na morte [maveth] não há recordação de Ti; no sepulcro quem te dará louvor?” (Sal. 6:5). A razão de não haver lembrança na morte é tão-só porque o processo de pensamento cessa quando o corpo morre com o seu cérebro. “Sai-lhes o espírito e eles tornam ao pó, nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios”. (Sal. 146:4). Sendo que na morte os “pensamentos perecem”, é evidente que não há alma consciente que sobreviva à morte do corpo. Se o processo de pensamento que geralmente se associa à alma sobrevivesse à morte do corpo, então os pensamentos dos santos não pereceriam. Seriam capazes de se lembrar de Deus. O fato, porém, é que “os vivos sabem que hão  de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento” (Ecl. 9:5).
        Em segundo lugar, nenhum louvor a Deus é possível na morte ou sepultura. “Que proveito obterás no meu sangue [maveth], quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua verdade?” (Sal. 30:9).
Ao comparar a morte com o pó, o salmista claramente mostra que não há consciência na morte porque o pó não pode pensar. O mesmo pensamento é expresso no Salmo 115:17: “Os mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio”. Aqui o salmista descreve a morte como um estado de “silêncio”. Que contraste com a visão popular “barulhenta” da vida após a morte onde os santos louvam a Deus no céu e os ímpios clamam em agonia no inferno!
        Em terceiro lugar, a morte é descrita como um “sono”. “Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (Sal. 13:3). Essa caracterização da morte como um “sono” ocorre freqüentemente no Velho e Novo Testamentos porque representa adequadamente o estado de inconsciência na morte. Brevemente examinaremos o significado da metáfora do “sono” para compreender a natureza da morte.
        Alguns argumentam que a intenção das passagens que acabamos de citar e que descrevem a morte como um estado de inconsciência “não é ensinar que a alma do homem é inconsciente quando ele morre”, e sim de que “no estado de morte o homem não mais pode participar nas atividades do mundo presente”.54 Em outras palavras, uma pessoa morta é inconsciente no que concerne a este mundo, mas sua alma é consciente no que concerne ao mundo dos espíritos. O problema com essa interpretação é que tem por base o pressuposto gratuito de que a alma sobrevive à morte do corpo, um pressuposto que é claramente negado no Velho Testamento. Descobrimos que no Velho Testamento a morte do corpo é a morte da alma porque o corpo é a forma exterior da alma.
        Em vários lugares, maveth [morte] é empregada com referência à segunda morte. “Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que haveis de morrer, ó casa de Israel” (Eze. 33:11; cf. 18:23, 32). Aqui a “morte do ímpio” evidentemente não se refere à morte natural que toda pessoa experimenta, mas a morte infligida por Deus no Fim sobre os pecadores impenitentes. Nenhuma das descrições literais ou referências figuradas da morte no Velho Testamento sugere a sobrevivência consciente da alma ou espírito à parte do corpo. A morte é a cessação da vida para a pessoa integral.

        Referências Neotestamentárias à Morte. As referências do Novo Testamento à “morte”, termo traduzido do grego thanatos, não são tão informativas com respeito à natureza da morte quanto as encontradas no Velho Testamento. A razão deve-se parcialmente ao fato de que no VT muitas referências à morte são encontradas nos livros poéticos ou de sabedoria, como Salmos, Jó e Eclesiastes.
        Esse tipo de literatura não ocorre no Novo Testamento. Mais importante é o fato de que a morte é vista no Novo Testamento da perspectiva da vitória de Cristo sobre a morte. Este é o tema dominante no Novo Testamento que condiciona a perspectiva cristã da morte.
        Mediante Sua vitória sobre a morte, Cristo neutralizou o aguilhão da morte (1 Cor. 15:55); Ele aboliu a morte (2 Tim. 1:10); venceu o diabo que tinha o poder sobre a morte (Heb. 2:14); tem nas mãos as chaves do reino da morte (Apo. 1:18); é o cabeça da nova humanidade como primícias dentre os mortos (Col. 1:18); faz com que os crente sejam novas criaturas para uma viva esperança mediante Sua ressurreição dos mortos (1 Ped. 1:3).
        A vitória de Cristo sobre a morte afeta o entendimento do crente quanto à morte física, espiritual e eterna. O crente pode defrontar a morte física com a confiança de que a morte foi tragada pela vitória de Cristo que despertará os santos adormecidos por ocasião de Sua vinda. (1 Cor. 15:51-56).
        Os crentes que estavam espiritualmente “mortos nos vossos delitos e pecados” (Efé. 2:1; cf. 4:17-19; Mat. 8:22) foram regenerados para uma nova vida em Cristo (Efé. 4:24). Os descrente que permanecem espiritualmente mortos por toda a sua existência e não aceitam a provisão de Cristo para sua salvação (João 8:21, 24), no Dia do Juízo experimentarão a segunda morte (Apo. 20:6; 21:8). Esta é a morte eterna final da qual não há retorno.
        Os sentidos figurados da palavra thanatos-morte dependem inteiramente do significado literal como cessação da vida. Argumentar em favor da existência consciente da alma à base do sentido figurado da morte é atribuir à palavra um significado a ela estranha. Isso contraria regras literárias e gramaticais e destrói as ligações entre a morte física, espiritual e eterna.

        A Morte Como um Sono no Velho Testamento. Tanto no Velho quanto no Novo Testamento a morte é muitas vezes descrita como um “sono”. Antes de tentar explicar a razão para o emprego bíblico da metáfora do “sono” para a morte, consideremos alguns exemplos. No Velho Testamento, três palavras hebraicas com o sentido de “sono” são empregadas para descrever a morte.
        A palavra  mais comum, shachav, é empregada na expressão que ocorre com freqüência de que fulano de tal “dormiu com os seus pais”. (Gên. 28:11; Deut. 31:16; 2 Sam. 7:12; 1 Reis 2:10). Começando com sua aplicação inicial a Moisés (“Eis que estás para dormir com teus pais” -- Deut. 31:16), e depois com Davi (“Quando teus dias se cumprirem, e descansares com teus pais” -- 2 Sam. 7:12), e Jó (“Agora me deitarei no pó” - Jó 7:21), encontramos este belo eufemismo para a morte atravessando qual fio ininterrupto por toda a extensão do Velho e Novo Testamentos, findando com a declaração de Pedro de que “os pais dormem” (2 Ped. 3:4). Comentando sobre essas referências, Basil Atkinsom faz uma observação perspicaz: “Assim, os reis e outros, que morreram, são tidos por dormindo com seus pais. Se seus espíritos estivessem vivos noutro mundo poderia possivelmente ser dito de forma regular, sem qualquer pista, que a pessoa real não estava de modo algum dormindo?”55
        Outra palavra  hebraica para “dormir” é yashen. Esta palavra ocorre tanto como um verbo no sentido de “dormir” (Jer. 51:39, 57; Sal. 13:3) e como um substantivo, “sono”. O último emprego se acha no bem conhecido verso de Daniel 12:2: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para; vergonha e horror eternos”. Note-se que nesta passagem tanto os ímpios quanto os santos estão no pó da terra e ambos os grupos serão  ressuscitados no final.
        Uma terceira palavra  hebraica usada para o sono da morte é shenah. Jó faz a pergunta retórica: “O homem, porém, morre e fica prostrado; expira o homem, e onde está?” (Jó 14:10). Sua resposta é: “Como as águas do lago se evaporam, e o rio se esgota e seca, assim o homem se deita, e não se levanta: enquanto existirem os céus não acordará, nem será despertado do seu sono [shenah]” (Jó 14:11-12; cf. Sal. 76:5; 90:5). Esta é uma descrição bem vívida da morte. Quando uma pessoa exala seu último suspiro, “o que é ele?”, isto é, “que é deixado dele?” Nada, não mais existe. Torna-se como um lago ou rio cujas águas se secaram. Ele dorme na sepultura e “não despertará” até o fim do mundo.
        Ponderemos: iria Jó apresentar uma descrição tão negativa da morte se cresse que sua alma sobreviveria à morte? Se a morte introduzisse a alma de Jó na presença imediata de Deus, por que fala ele de esperar até não mais “existirem os céus” (Jó 14:11) e até ser “substituído” (Jó 14:14)? É evidente que nem Jó nem qualquer outro crente no VT sabia de uma existência consciente após a morte.

        A Morte Como Um Sono no Novo Testamento. A morte é descrita como um sono no Novo Testamento mais freqüentemente do que no Velho. A razão pode ser que a esperança da ressurreição, que é esclarecida e fortalecida pela ressurreição de Cristo, dá novo significado ao sono da morte do qual os crentes despertarão  por ocasião da segunda vinda de Cristo. Assim como Cristo dormiu na sepultura antes de Sua ressurreição, igualmente os crentes dormem em suas tumbas enquanto esperam por sua ressurreição.
        Há duas palavras gregas com o sentido de “sono” empregadas no Novo Testamento. A primeira é koimao, empregada quatorze vezes para falar do sono da morte. Um derivado desse substantivo grego é koimeeteerion, do qual deriva nossa palavra cemitério. Incidentemente, a raiz dessa palavra é também a do termo “home-oikos.”
        Destarte, o lar e o cemitério estão ligados porque ambos são lugares de dormida. A segunda palavra grega é katheudein, geralmente empregada para o sono ordinário. No Novo Testamento é usada quatro vezes para o sono da morte (Mat. 9:24; Marc. 5:39; Luc. 8:52; Efé. 5:14; 1 Tess. 4:14).
        Ao tempo da crucifixão de Cristo, “abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos, que dormiam, [kekoimemenon] ressuscitaram” (Mat. 27:52). No texto original consta: “Muitos corpos dos santos adormecidos foram ressuscitados”.  É óbvio que o que foi ressuscitado foi a pessoa integral, não só os corpos. Não encontramos qualquer referência quanto a suas almas serem reunidas com seus corpos, certamente porque esse conceito é estranho à Bíblia .
        Falando figuradamente da morte de Lázaro, Jesus declarou: “Nosso amigo adormeceu, mas vou para despertá-lo” (João 11:11). Quando Jesus percebeu que não tinha sido compreendido, disse-lhes claramente “Lázaro morreu” (João 11:14). A seguir, Jesus apressou-se a reassegurar a Marta: “Teu irmão há de ressurgir” (João 11:23).
        Este episódio é significativo, primeiro de tudo porque Jesus claramente descreve a morte como um “sono” do qual os mortos despertarão ao som de Sua voz. A condição de Lázaro na morte foi semelhante a um sono do qual alguém desperta. Cristo disso: “Vou despertá-lo do sono” (João 11:11). O Senhor levou a efeito Sua promessa indo até a sepultura para despertar a Lázaro chamando: “Lázaro, vem para fora. Saiu aquele que estivera morto tendo os pés e as mãos ligados com ataduras e o rosto envolto num lençol” (João11:43-44).
        Esse despertar de Lázaro do sono da morte pelo som da voz de Cristo faz paralelo com o despertar dos santos adormecidos no dia de Sua gloriosa vinda. Eles também ouvirão a voz de Cristo e sairão  para a vida novamente. “Vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a Sua voz e sairão” (João 5:28; cf. João 5:25). “Porquanto o Senhor mesmo, dada a Sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (1 Tes. 4:16).
        Há harmonia e simetria nas expressões “dormir” e “despertar” como empregadas na Bíblia, no sentido de entrar e sair da condição da morte. As duas expressões corroboram a noção de que a morte é um estado de inconsciência, do qual os crente despertarão no dia da vinda de Cristo.

        Lázaro Não Teve Experiência de Pós Morte. A experiência de Lázaro é também significativa porque ele passou quatro dias na sepultura. Esta não foi uma experiência de quase-morte, mas uma experiência de morte real. Se, como popularmente se crê, a alma por ocasião da morte deixa o corpo e vai para o céu, então Lázaro teria tido uma experiência impressionante para compartilhar a respeito dos quatro dias que teria passado no Paraíso. Os líderes religiosos e as pessoas teriam feito tudo a seu alcance para extrair de Lázaro tanta informação quanto possível sobre o mundo invisível. Como Robertson Nichol assinala, “tivesse ele [Lázaro] aprendido alguma coisa do mundo dos espíritos, isso teria transpirado”.56 Tal informação teria propiciado valiosas respostas às indagações da vida após a morte sobre que se debatia tão acaloradamente entre os saduceus e os fariseus (Mat. 22:23, 28; Mar. 12:18, 23; Luc. 20:27, 33).
        Lázaro, contudo, nada tinha para compartilhar a respeito da vida após a morte, porque durante os quatro dias que passou na sepultura dormiu o sono inconsciente da morte. O que é verdadeiro a respeito de Lázaro é também verdadeiro quanto a seis outras pessoas que foram levantadas da morte: o filho da viúva (1 Reis 17:17-24); o filho da sunamita (2 Reis 4:18-37); o filho da viúva de Naim (Luc. 7:11-15); a filha de Jairo (Luc. 8:41, 42, 49-56); Tabita (Atos 9:36-41); e Eutico (Atos 20:9-12). Cada uma dessas pessoas veio da morte como se tivessem estado num profundo sono, com o mesmo sentimento e individualidade, mas sem qualquer experiência de pós-vida para compartilhar.
        Não há qualquer indicação de que a alma de Lázaro, ou das demais seis pessoas levantadas da morte, tenha ido para o céu. Nenhuma delas teve uma “experiência celestial” para narrar. A razão disso é que nenhuma delas ascendeu ao céu. Isso é confirmado pela referência de Pedro a Davi em seu discurso no dia de Pentecoste: “Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente, a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu túmulo permanece entre nós até hoje” (Atos 2:29). Alguns poderiam argumentar que o que estava na sepultura era o corpo de Davi, não sua alma que havia ido para o céu. Essa interpretação, porém, é negada pelas explícitas palavras de Pedro: “Porque Davi não subiu aos céus” (Atos 2:34). A tradução de Knox assim reza: “Davi nunca subiu para o céu”. A Bíblia  de Cambridge traz a seguinte nota: “Pois Davi não ascendeu.  . . . Ele desceu à sepultura e ‘dormiu com os seus pais’”. O que dorme na sepultura, de acordo com a Bíblia, não é meramente o corpo, mas a pessoa integral que aguarda o despertar da ressurreição.

        Paulo e os Santos Adormecidos. Nos dois grandes capítulos sobre a ressurreição em 1 Tessalonicenses 4 e 1 Coríntios 15, Paulo repetidamente fala daqueles que “dormiram”em Cristo (1 Tes. 4:13, 14, 15; 1 Cor. 15:6, 18, 20). Um exame de algumas das declarações de Paulo lança luz sobre o que Paulo quis dizer ao caracterizar a morte como um sono.
        Escrevendo aos tessalonicenses, que estavam lamentando o passamento de alguns de seus entes queridos por terem adormecido antes de experimentar a vinda de Cristo, Paulo lhes reassegura que assim como Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos, Ele, mediante Cristo, “trará juntamente em Sua companhia os que dormem” (1 Tes. 4:14). Alguns sustentam que Paulo está aqui falando de almas desincorporadas, que supostamente ascenderam para o céu por ocasião da morte e que retornarão com Cristo quando Ele descer à Terra no evento de Seu retorno.
        Tal interpretação ignora três coisas principais. Primeiro, nosso estudo mostra que a Bíblia em parte alguma ensina que a alma ascende ao céu por ocasião da morte. Em segundo lugar, no contexto, Paulo não está falando de almas imortais, mas sobre os “que dormem” (1 Tes. 4:13; cf. v. 14) e dos “mortos em Cristo” (1 Tes. 4:16). “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” de suas tumbas (1 Tes. 4:16) e não descerão do céu. Não há indício de que os corpos subam das sepulturas e as almas desçam do céu para se reunirem aos corpos. Tal noção dualística é estranha à Bíblia. O comentário de Leon Morris de que “Paulo declara, ‘trará’ e não ‘levantará57 é impreciso porque Paulo diz: Cristo tanto levantará os mortos quanto os trará com Ele. Assim, o contexto sugere que Cristo traz consigo os mortos que são primeiramente levantados, ou seja, antes da trasladação dos crente vivos.
        Em terceiro lugar, se Paulo realmente cresse que “os mortos em Cristo” não estavam de fato mortos em suas sepultura, mas vivos no céu como almas desincorporadas, teria se aproveitado de sua bendita condição no céu para explicar aos tessalonicenses que a lamentação deles era sem sentido. Por que deviam lamentar pelos seus amados, se estavam já desfrutando as bênçãos celestiais? A razão por que Paulo não lhes deu tal encorajamento é, obviamente, o fato de que sabia que os santos adormecidos não estavam no céu, mas em suas sepulturas.
        Tal conclusão apóia-se na garantia que Paulo dá a seus leitores de que os cristãos vivos não se encontrariam com Cristo quando de Sua vinda antes dos que haviam dormido. “Nós os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem” (1 Tes. 4:15). A razão é que “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com ele entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor”  (1 Tes. 4:16-17).
        O fato de que os santos vivos se encontrarão com Cristo ao mesmo tempo que os santos adormecidos indica que os últimos ainda não foram reunidos com Cristo no céu. Se as almas dos santos adormecidos já estivessem desfrutando comunhão com Cristo no céu e devessem descer com Cristo para a terra quando de Seu Segundo Advento, então obviamente teriam uma indiscutível prioridade sobre os santos vivos. Mas a verdade é que tanto os crentes vivos quanto os adormecidos estão aguardando sua tão ansiada união com o Salvador; uma união que ambos os grupos experimentará ao mesmo tempo, no dia da vinda de Cristo.
        A discussão de Paulo sobre os santos adormecidos em 1 Coríntios 15 confirma muito do que já temos em 1 Tessalonicenses 4. Após afirmar a importância fundamental da ressurreição de Cristo para a fé e esperança cristãs, Paulo explica que “se Cristo não ressuscitou . . . os que dormiram em Cristo pereceram” (1 Cor. 15:18-19). Paulo dificilmente teria podido dizer que os santos adormecidos teriam perecido sem a garantia da ressurreição de Cristo se cresse que suas almas eram imortais e já estavam a desfrutar das bênçãos paradisíacas.
        Se Paulo cresse assim, ele provavelmente teria dito que sem a ressurreição de Cristo as almas dos santos adormecidos permaneceriam desincorporadas por toda a eternidade. Todavia, Paulo não faz tal alusão quanto a essa possibilidade, porque cria que a pessoa integral, corpo e alma, teriam “perecido” sem a garantia da ressurreição de Cristo.
        É significativo que no capítulo inteiro, dedicado à importância e dinâmica da ressurreição, Paulo nunca dá indício de alguma suposta reunificação do corpo com a alma por ocasião da ressurreição.
Se Paulo tivesse tal crença, dificilmente poderia ter evitado fazer algumas alusões da reconexão de corpo e alma, especialmente em suas discussões da transformação dos crentes de uma condição mortal para uma imortal quando da volta do Senhor. O único “mistério” que Paulo revela, porém, é que “Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos” (1 Cor. 15:51). Essa transformação de uma natureza perecível para uma imperecível ocorre para todos, mortos e vivos, e ao mesmo tempo, ou seja, ao som da “última trombeta” (1 Cor. 15:52). A transformação nada tem a ver com almas desincorporadas reconquistando a posse de seus corpos ressurretos. Antes, é uma mudança da vida mortal para a imortal, para tanto vivos quanto mortos em Cristo, quando  “o mortal se revestir da imortalidade” (1 Cor. 15:54).

        O Significado da Metáfora do “Sono”. O uso popular da metáfora do “sono” para descrever o estado dos mortos em Cristo suscita a questão  de suas implicações para a natureza da morte. Especificamente, por que é esta metáfora empregada e que lampejos podemos legitimamente extrair dela a respeito da natureza da morte? Há três principais razões para o uso da metáfora do “sono” na Bíblia. Primeiramente, há uma semelhança entre o “sono” dos mortos e o “sono”dos vivos. Ambos são caracterizados por uma condição de inconsciência e inatividade que é interrompida por um despertar. Assim, a metáfora do “sono” representa adequadamente o estado de inconsciência dos mortos e seu despertar no dia do retorno de Cristo.
        Uma segunda razão para o emprego da metáfora do “sono” é sugerida pelo fato de que é a esperança-figura inspiradora de linguagem para representar a morte. Deixa implícita a segurança de um despertamento posterior. Ao ir uma pessoa dormir à noite na esperança de despertar pela manhã, também o crente adormece no Senhor com a garantia de ser despertado por Cristo na manhã da ressurreição. Albert Barnes assinala de modo adequado: “Nas Escrituras o sono é empregado para sugerir que a morte não será final: haverá um despertar desse sono, ou uma ressurreição. É uma expressão bela e terna, removendo tudo quanto é sombrio na morte, e enchendo a mente com a idéia de tranqüilo repouso após uma vida de lutas, com uma referência a uma futura ressurreição com faculdades renovadas e aumentadas”.58
        Quando ouvimos ou dizemos que uma pessoa morreu, automaticamente pensamos que não há mais esperança de trazer esse alguém à vida. No entanto, quando dizemos que uma pessoa está dormindo no Senhor, expressamos a esperança de sua restauração à vida no dia da ressurreição.
        Bruce Reichenbach faz notar que a metáfora do “sono” não é somente uma bela maneira de falar sobre a morte, mas ainda mais importante, “sugere vigorosamente que a morte não é o fim da existência humana. Assim como uma pessoa que está dormindo pode ser erguida, também os mortos, como ‘adormecidos’, têm a possibilidade de serem recriados e viver novamente.
        Este é, talvez, o significado dos difíceis relatos em Mateus 9:24ss onde Jesus declara que a menina não morreu, estava apenas dormindo. Os que a consideravam morta não tinham esperança para ela. Contudo, em vista de que Jesus a considerou adormecida, Ele viu que havia de fato esperança de ela poder ser ressuscitada para viver novamente. Ele viu uma potencialidade nela que outros, inconscientes do poder de Deus, não podiam ver. A metáfora do ‘sono’, portanto, não descreve o estado ontológico dos mortos [isto é, a condição do sono], mas, refere-se muito mais à possibilidade dos falecidos: de que embora eles agora não mais existam, pelo poder de Deus podem ser recriados para viver novamente”.59

        O Sono da Morte Como Inconsciência. Uma terceira razão  para o uso da metáfora do “sono” é sugerida pelo fato de que não há consciência do lapso de tempo no sono. Assim, a metáfora propicia uma representação adequada do estado de inconsciência dos falecidos entre a morte e a ressurreição. Eles não têm consciência da passagem do tempo. É digno de nota que em 1 Coríntios 15, Paulo emprega 16 vezes o verbo egeiro,60 que literalmente significa “despertar” do sono. O reiterado contraste entre o dormir e o acordar é impressionante. A Bíblia  emprega o termo “sono” com freqüência porque envolve uma verdade vital, qual seja, de que os mortos que dormem em Cristo estão inconscientes de qualquer lapso de tempo até sua ressurreição. O crente que morre em Cristo adormece e descansa inconsciente até ser despertado quando Cristo o chamar à vida por ocasião de Sua vinda.
        A imortalidade na Bíblia não é uma posse humana inata, mas um atributo divino. O termo “imortalidade” deriva do grego athanasia, que significa “ausência de morte”, e, portanto, existência infindável. Esse termo ocorre somente duas vezes; primeiro com relação a Deus “o único que possui imortalidade” (1 Tim. 6:16) e, em segundo lugar, com relação à mortalidade humana que deve revestir-se da imortalidade (1 Cor. 15:53) por ocasião de sua ressurreição. A última referência nega a noção de uma imortalidade natural da alma, porque declara que a imortalidade é algo de que os santos ressuscitados se “revestirão”. Não é algo de que já sejam possuidores.
        “A base da imortalidade”, declara Vern Hannah, “é soteriológica e não antropológica”.61  O que isso significa é que a imortalidade é um dom divino aos salvos e não uma possessão  humana natural.
        Em parte alguma a Bíblia sugere que a imortalidade é uma qualidade natural ou direito dos seres humanos. A presença da “árvore da vida” no jardim do Éden indica que a imortalidade era condicional à participação do fruto de tal árvore. As Escrituras ensinam que a imortalidade deve ser buscada (Rom. 2:7) e “revestida” (1 Cor. 15:53). É, como a “vida eterna,” um dom de Deus (Rom. 6:23) a ser herdado (Mat. 19:29) por conhecer a Deus (João 17:3) através de Cristo (João 14:19; 17:2; Rom. 6:23). A visão paulina da imortalidade está ligada unicamente à ressurreição de Jesus (1 Cor. 15) como fundamento e penhor da esperança do crente”.62 Os que insistem em encontrar a idéia filosófica de imortalidade da alma na Bíblia  ignoram a revelação de Deus e inserem idéias do dualismo grego na fé bíblica.

        Conclusão. A crença tradicional e popular de que a morte não é a cessação da vida para a pessoa integral, mas a separação da alma imortal do corpo mortal pode ser identificada com a mentira de Satanás, “é certo que não morrereis” (Gên. 3:4). Essa mentira persiste em diferentes formas ao longo da história humana até nosso tempo. Hoje, a crença da sobrevivência da alma, seja no Paraíso ou no inferno, é promovida, não através das toscas representações literárias e artísticas da Idade Média, mas através da polida imagem de médiuns, paranormais, de sofisticadas pesquisas “científicas” em experiências de quase-morte, e da popular canalização da Nova Era com espíritos do passado. Os métodos de Satanás mudaram, mas seu objetivo é o mesmo: fazer as pessoas crerem na mentira de que não importa o que façam, não morrerão, mas se tornarão como deuses para viver para  sempre.
        O ponto de vista tradicional da morte limita a experiência da morte ao corpo, uma vez que a alma continua sua existência. Vern Hannah apropriadamente declara que “tal redefinição radical da morte é, de fato, uma negação da morte--uma definição, sem dúvida, que a ‘sutil serpente’ de Gênesis 3 acharia muito  apeladora”.63 A Bíblia leva a morte muito mais a sério. A morte é o último inimigo (1 Cor. 15:26) e não o libertador da alma imortal. Como Oscar Cullmann destaca, “a morte é a destrução de toda a vida criada por Deus. Portanto, é a morte, e não o corpo que deve ser vencido pela ressurreição”.64
        Nossa única proteção contra as falsas concepções populares da morte é mediante um claro entendimento do que a Bíblia ensina sobre a natureza da morte. Descobrimos que tanto o Velho quanto o Novo Testamento claramente ensinam que a morte é a extinção da vida para a pessoa integral. Não há lembrança nem consciência na morte (Sal. 8:5; 146:4; 30:9; 115:17; Ecl. 9:5). Não há existência independente do espírito ou alma à parte do corpo. A morte é a perda do ser total, e não meramente a perda do bem-estar. A pessoa inteira  repousa na sepultura num estado de inconsciência caracterizado na Bíblia  como “sono”. O “despertar” desse sono terá lugar quando Cristo vier e chamar de volta à vida os santos adormecidos.
        A metáfora do “sono” é freqüentemente utilizada na Bíblia para caracterizar o estado dos mortos porque representa adequadamente o estado inconsciente dos mortos e seu despertar no dia da vinda de Cristo. Sugere que não há consciência do lapso de tempo entre a morte e a ressurreição. A metáfora do “sono” é verdadeiramente uma bela e terna expressão que indica que a morte não é o destino humano final, porque haverá um despertar do sono da morte na manhã da ressurreição.
        Um destacado desafio para nossa conclusão de que a morte na Bíblia é a extinção da vida para a pessoa integral deriva de interpretações infundadas de cinco textos neotestamentários (Luc. 16:19-31; 23:42-43; Fil. 1:23; 2 Cor. 5:1-10; Apo. 6:9-11) e a duas palavras, sheol e hades, empregadas na Bíblia para descrever o lugar de habitação dos mortos. Muitos cristãos encontram nestes textos e palavras bíblicas apoio para sua crença na existência consciente da alma após a morte. Prosseguiremos examinando esses textos e palavras no próximo estudo, que dará enfoque à condição dos mortos durante o ínterim entre a morte e a ressurreição.

Referências

40.  Catechism of the Catholic Church (Roma, 1994), p. 265.
41.  Augustus Hopkins Strong, Systematic Theology (Old Tappan, Nova Jersey, 1970), p. 982.
42.  Henry Clarence Thiessen, Lectures in Systematic Theology (Grand Rapids, 1979), p. 338.
43.  Francis Pieper, Christian Dogmatics, trans. Theodore Engelder (St. Louis, 1950), Vol. 1, p. 536.
44.  Paul Althaus ,Die Letzten Dinge (Gutersloth: Alemanha, 1957), p. 157
45.  Ibid., p. 155
46.  Ibid.
47.  Ibid., p. 156.
48.  Ibid., p. 158.
49.  John A. T. Robinson, The Body, A Study in Pauline Theology (Londres, 1957), p. 14.
50.  Taito Kantonen, Life After Death (Philadelphia, 1952), p. 18.
51.  E. Jacob, “Death,” The Interpreter’s Dictionary of the Bible (Nashville, 1962), Vol. 1, p. 802.
52.  Herman Bavink, “Death”, The International Standard Bible Encyclopaedia (Grand Rapids, 1960), Vol. 2, p. 812.
53.  E. Jacobs (nota 51), p. 803.
54.  Howard W. Tepker, “Problems in Eschatology: The Nature of eath and the Intermediate State,” The Springflelder (verão de 1965), p. 26.
55.  Basil F. C. Atkinson, Life and Immortality (Taunton, Inglaterra, s.d.), p. 38.
56.  W. Robertson Nicoll, ed.,Expositor’s Bible (Nova York, 1908), p. 362.
57.  Leon Morris, The Epistles of Paul to the Thessalonians (Grand Rapids, 1982), p. 86.
58.  Albert Barnes, Notes on the New Testament. Luke and John (Grand Rapids, 1978), p. 297.
59.  Bruce R. Reichenbach,Is Man the Phoenix (Grand Rapids, 1978), p. 185.
60.  “Egeiro”, em A Greek-English Lexicon of the New Testament, ed. William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich (Chicago, 1979), p. 214.
61.  Vern A. Hannah, “Death, Immortality and Resurrection: A Response to John Yates, ‘The Origin of the Soul,”’ The Evangelical Quarterly 62:3 (1990), p. 245.
62. Ibid.
63. Ibid.
64.  Oscar Cullmann (nota 36), p. 19.
 


V - INFERNO: TORMENTO ETERNO OU ANIQUILAMENTO?

        Poucos ensinos têm perturbado mais a consciência humana ao longo dos séculos do que a tradicional visão do inferno como um lugar onde os perdidos sofrerão conscientemente punição de fogo em corpo e alma por toda a eternidade. A perspectiva de que um dia vastos números de pessoas serão consignadas ao tormento eterno do inferno é por demais perturbadora e angustiosa a cristãos sensíveis. Afinal de contas, quase todos têm amigos ou familiares que morreram sem terem assumido um compromisso com Cristo. A perspectiva de um dia vê-los agonizando no inferno por toda a eternidade pode facilmente levar pessoas conscienciosas a dizerem a Deus: “Não, muito obrigado Senhor, mas não estou interessado em Seu tipo de Paraíso!”
        Não admira que hoje raramente ouvimos sermões de “fogo e enxofre” até de pregadores mais fundamentalistas, que, teoricamente, ainda estão comprometidos com tal crença. Sua reticência em pregar sobre o fogo do inferno é, com toda probabilidade, não devido a uma falta de integridade em proclamar uma verdade impopular, mas a sua aversão em pregar uma doutrina que acham difícil de crer. Algo instintivo no seu íntimo lhes diz que Deus amou tanto o mundo que enviou o Seu Filho unigênito para salvar pecadores, não pode também ser um Deus que tortura as pessoas (mesmo o pior dos pecadores) por tempo infindável. Esse paradoxo inaceitável tem inspirado eruditos bíblicos de todas as persuasões a reexaminarem os ensinos bíblicos concernentes à punição final.
        A questão fundamental a ser tratada é: Acaso os pecadores impenitentes sofrem punição consciente em corpo e alma por toda a eternidade, ou são aniquilados por Deus na segunda morte após sofrerem uma punição temporária? Para expressá-lo de modo diferente: acaso o fogo do inferno atormenta os perdidos eternamente ou os consome permanentemente?

Inferno: A Visão Metafórica

        As respostas a esta pergunta fundamental variam consideravelmente. Duas interpretações recentes destinadas a tornar o inferno mais humano merecem breve consideração. A primeira é a interpretação metafórica de que o inferno é um lugar onde o tormento é eterno, mas o sofrimento é mais mental do que físico. O fogo não é literal, mas metafórico, e a dor é causada mais pelo senso de separação de Deus do que por tormentos físicos.1
Billy Graham, que conduziu dezenas de milhares a Cristo, expressa o ponto de vista metafórico quando diz:
        “Tenho muitas vezes me indagado se o inferno é um terrível queimar interior dentro de nossos corações por Deus, ter comunhão com Deus, um fogo que nunca podemos apagar”.2 A interpretação de Graham do fogo do inferno como algo “dentro de nossos corações por Deus” é muito engenhosa. Infelizmente, ignora que o “queimar” tem lugar, não dentro do coração, mas fora, onde os ímpios são consumidos. Se os ímpios tivessem uma queima interior de ansiedade por Deus, não experimentariam o sofrimento da punição final, em primeiro lugar.
        William Crockett conclui sua defesa do ponto metafórico do inferno declarando: “O inferno, pois, não deve ser retratado como uma fornalha ardente à semelhança  da fornalha de Nabucodonosor. O máximo que podemos dizer é que a vontade rebelde será lançada da presença de Deus, sem qualquer esperança de restauração. À semelhança de Adão e Eva, serão expulsos, mas dessa vez na ‘noite eterna’, onde ‘o gozo e a esperança estarão para sempre banidos”.3
        O problema com esse ponto de vista do inferno é que meramente deseja substituir o tormento físico com uma angústia mental mais suportável. Alguns podem questionar se a angústia mental eterna seja realmente mais humana do que o tormento físico. Mesmo que isso seja verdade, a redução do quociente da dor num inferno não literal não modifica substancialmente a natureza do inferno, uma vez que ele ainda permanece um lugar de tormento sem fim.
        A solução deve ser encontrada, não em humanizar ou buscar refinar a visão tradicionalista do céu/inferno, de modo que possa demonstrar-se no fim de contas um lugar mais tolerável para os ímpios passarem a eternidade, mas em compreender a verdadeira natureza da punição final, que, como veremos, é o aniquilamento permanente, e não o tormento eterno.

        O Ponto de Vista Universalista do Inferno. Uma segunda e mais radical revisão do inferno tem sido tentada pelos universalistas, que reduzem o inferno a uma condição temporária de punições graduadas que por fim conduz ao céu. Os universalistas acreditam que por fim Deus terá êxito em levar todo ser humano à salvação e à vida eterna de modo que ninguém, de fato, será condenado no juízo final seja para o tormento eterno ou para o aniquilamento.4
        Ninguém pode negar que o universalismo apela à consciência cristã, porque qualquer pessoa que sentiu o amor de Deus anseia por vê-Lo salvando a todos e odeia pensar que Ele seria tão vingativo para punir milhões de pessoas com torturas eternas, especialmente aqueles que viveram na ignorância. Não obstante, nossa apreciação pela preocupação dos universalistas em sustentar o triunfo do amor de Deus e justamente refutar o conceito bíblico de um sofrimento eterno não nos deve cegar ao fato de que essa doutrina é uma séria distorção do ensino bíblico. A salvação universal não pode estar certa apenas pelo fato de o sofrimento eterno estar errado.
        O escopo universal do propósito salvador de Deus não deve ser confundido com o fato de que aqueles que rejeitam Sua provisão de salvação perecerão. Esta verdade é adequadamente expressa no texto mais conhecido a respeito do amor de Deus: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). O destino dos que recusam crer é a destruição (“perecer”), e não a salvação universal.
        Conquanto tanto o ponto de vista metafórico quanto universalístico do inferno representem tentativas bem intencionadas de “tirar o fogo do inferno”, deixam de fazer justiça aos dados bíblicos e assim representam mal, em última instância, a doutrina bíblica da punição final dos perdidos. A solução sensata aos problemas do ponto de vista tradicionalista deve ser encontrada, não por rebaixar ou eliminar o quociente de dor de um inferno literal, mas aceitando-se o Inferno por aquilo que realmente é-a punição final e permanente aniquilamento dos ímpios. Como declara a Bíblia, “Mais um pouco de tempo e já não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar, e não o acharás”, porque “o destino deles é a perdição” (Fil. 3:19).

A Visão do Aniquilamento Final

        A crença no aniquilamento final dos perdidos tem por base quatro destacadas considerações bíblicas: (1) a punição para o pecado é a morte; (2) a linguagem de destruição dos ímpios; (3) as implicações morais do tormento eterno, e (4) as implicações cosmológicas do tormento eterno.

A Punição do Pecado é a Morte

        O aniquilamento final dos pecadores é, primeiro de tudo, indicado pelo princípio estabelecido em ambos os testamentos de que a punição final é a morte: “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20); “o salário do pecado é a morte” (Rom. 6:23). A punição pelo pecado, como é óbvio, abrange não só a primeira morte, que todos experimentam em resultado do pecado de Adão, mas também o que a Bíblia chama de segunda morte (Apoc. 20:14; 21:8) que é a morte final, inversamente, experimentada pelos pecadores impenitentes. O princípio básico é fundamental para entender-se a natureza da punição final em vista de que nos fala de início que a paga final pelo pecado não é o tormento eterno, mas a morte permanente.
        A morte na Bíblia é o cessar da vida. Não fosse pelo fator ressurreição (1 Cor. 15:18) a morte por que cada indivíduo passa seria o fim de sua existência. A ressurreição é que faz com que a morte deixe de ser o final da vida para tornar-se um sono temporário. Mas não há ressurreição da segunda morte, pois os que a experimentam são consumidos no que a Bíblia chama “o lago de fogo” (Apoc. 20:14). Esse será o aniquilamento final.
        Essa verdade fundamental foi ensinada no Velho Testamento, especialmente através do sistema sacrificial. A penalidade pelo pecado mais grave era somente e sempre a morte da vítima e nunca uma tortura ou aprisionamento da vítima. A consumação da oferta pelo pecado tipificava de modo dramático a destruição derradeira de pecado e pecadores.
        A disposição final do pecado e a destruição dos pecadores eram revelados especialmente através do ritual do Dia da Expiação que tipificava a execução do juízo final divino sobre crentes e descrentes. Os israelitas penitentes que se arrependiam de seus pecados eram pronunciados “purificados . . . perante o Senhor” ao completarem-se os ritos de purificação. Os israelitas impenitentes que pecaram desafiadoramente contra Deus (cf. Lev. 20:1-6) e não se arrependiam, no Dia da Expiação eram “eliminados” do povo de Deus (Lev. 23:29, 30).
        A separação que se procedia no Dia da Expiação entre israelitas impenitentes e penitentes tipifica a separação que ocorrerá por ocasião do Segundo Advento. Jesus comparou essa separação com a que tem lugar ao tempo da colheita entre o trigo e o joio. Os malfeitores serão lançados “na fornalha de fogo” e os “justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mat. 13: 42, 43).
        As parábolas de Jesus e o ritual do Dia da Expiação ensinam a mesma importante verdade: cristãos falsos e genuínos coexistirão até Sua vinda. Mas por ocasião do juízo final uma separação permanente ocorre quando pecado e pecadores serão erradicados para sempre e um novo mundo será estabelecido. Como no serviço típico do Dia da Expiação, os pecadores impenitentes eram “eliminados” e “destruídos”, assim no cumprimento antitípico do juízo final, os pecadores “sofrerão penalidade de eterna destruição banidos da face do Senhor” (2 Tes. 1:9).

A Linguagem de Destruição na Bíblia

            A segunda e mais vigorosa razão para crer no aniquilamento dos perdidos no juízo final é o rico vocabulário e imagem de “destruição” freqüentemente usado no Velho e Novo Testamentos para descrever a sorte dos ímpios. Os escritores do Velho e Novo Testamento parecem ter esgotado os recursos das línguas grega e hebraica por eles utilizados para afirmarem a completa destruição dos pecadores impenitentes. Segundo Basil Atkinson, mais de 25 substantivos são usados no Velho Testamento para descrever a destruição final dos ímpios.5 Uma listagem detalhada de todas as ocorrências nos faria superar os limites do escopo deste artigo.
        Somente uma amostragem de textos significativos é aqui considerada.
        Vários salmos descrevem a destruição final dos ímpios em dramáticas imagens (Sal. 1:3-6; 2:9-12; 11:1-7; 34:8-22; 58:6-10; 69:22-28; 145: 17, 20). No Salmo 37, por exemplo, lemos que “definharão como a erva” (v. 2), “serão exterminados . . . já não existirá o ímpio” (vs. 9 e 10), “serão à uma destruídos” (vs. 38). O Salmo 1, memorizado por muitos, contrasta o caminho dos justos com o dos ímpios. Dos últimos, é dito: “Não prevalecerão no juízo” (v. 5). Serão “como a palha que o vento dispersa” (v. 4). “O caminho dos ímpios perecerá” (v. 6).
        Novamente, no Salmo 145, Davi afirma: “O Senhor guarda a todos os que o amam; porém os ímpios serão exterminados” (v. 20).Essa amostragem de referências, quanto à destruição final dos ímpios, está em perfeita harmonia com o ensino do restante das Escrituras.

        A Destruição do Dia do Senhor.Os profetas freqüentemente anunciam a derradeira destruição dos ímpios em conexão com o dia escatológico do Senhor. Em seu capítulo de abertura, Isaías proclama que “os transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos; e os que deixarem o Senhor perecerão” (v. 28). O quadro de destruição total é adicionalmente desenvolvido pela imagem de pecadores queimando como carvão sem água para apagar o fogo: “O forte se tornará em estopa, e a sua obra em faísca; ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague” (v. 31).
        Descrições semelhantes podem ser encontradas em Sofonias (1:15, 18) e Oséias (13:3). A última página do Velho Testamento traz vívida descrição do contraste entre o destino de crentes e descrentes. Para os que temem o Senhor, “nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas” (Mal. 4:2). Mas para os descrentes, o Dia do Senhor “vem . . . como fornalha; . . . todos os que cometem perversidade, serão como o restolho . . . de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramos” (Mal. 4:1).
        A mensagem transmitida por essas imagens simbólicas é clara. Enquanto os justos se regozijam na salvação em Deus, os ímpios são consumidos como “palha” de modo que “não lhes deixará nem raiz nem ramos”. Este é um quadro claro de consumo total por fogo, não por tormento eterno.

        Jesus e a Linguagem de Destruição. O Novo Testamento segue de perto o Velho Testamento ao descrever a sorte dos ímpios com palavras e imagens que denotam aniquilamento total. Jesus comparou a destruição dos ímpios a coisas tais como as ervas que são reunidas em molhos para serem queimadas (Mat. 13:30,40), os maus peixes que são lançados fora (Mat. 13:48), as plantas prejudiciais que são arrancadas (Mat. 15:13), a árvore infrutífera que é cortada (Luc. 13:7), os galhos secos que são queimados (João 15:6), os servos infiéis que são destruídos (Luc. 20:16), o mau servo que será despedaçado (Mat. 24:51), os galileus que pereceram (Luc. 13:2, 3), as dezoito pessoas que foram esmagadas pela torre de Siloé (Luc. 13:4, 5), os antediluvianos que foram destruídos pelo dilúvio (Luc. 17:27), as pessoas de Sodoma e Gomorra que foram destruídas pelo fogo (Luc. 17:29) e os servos rebeldes que foram mortos quando do retorno do seu mestre (Luc. 19:14, 27).
        Todas essas ilustrações empregadas pelo Salvador descrevem vividamente a destruição final dos ímpios. O contraste entre o destino dos salvos e o dos perdidos é um de vida versus destruição. Jesus disse: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28). “Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”. Dentro do contexto destas passagens, não há razão para reinterpretar a palavra “perecer” ou “destruir” para significar tormento eterno.
        Os que apelam às referências ao fogo do inferno-gehenna (Mat. 5:22, 29, 30; 18:8, 9; 23:15; Mar. 9:44, 46, 47, 48) em apoio a sua crença no tormento eterno dixam de perceber, como John Stott assinala, que o “próprio fogo é chamado de ‘eterno’ e ‘inextinguível’, mas seria muito estranho se o que é nele lançado se revele indestrutível. Nossa expectativa seria o oposto: seria consumido para sempre, não atormentado para sempre. Assim é a fumaça (evidência de que o fogo realizou sua obra) que se ergue para sempre e sempre (Apoc. 14:11; cf. 19:3)”.6
        Nenhuma das alusões de Cristo ao inferno-geena, indica que o inferno é um local de tormento infindável. O que é eterno e inextinguível não é a punição, mas o fogo que, como no caso de Sodoma e Gomorra, provoca a completa e permanente destruição dos ímpios, uma condição que perdura para sempre. O fogo é inapagável porque não pode ser apagado até que consuma todo material combustível.

        “Punição Eterna”. A solene declaração de Cristo, “irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna” (Mat. 25:46) é geralmente considerada como a mais clara prova do sofrimento consciente que os perdidos suportarão por toda eternidade. Esta interpretação ignora a diferença entre punição eterna e vida eterna. O termo “eterno-aionios”, que em grego literalmente significa “duração de uma era” com freqüência se refere à pemanência do resultado, antes que a continuação de um processo. Por exemplo, Judas 7 diz que Sodoma e Gomorra sofreram “punição” do fogo eterno-adaionios]. É evidente que o fogo que destruiu as duas cidades é eterno, não em virtude de sua duração, mas por seus resultados permanentes.
        Outro bom exemplo se acha em 2 Tess. 1:9 onde Paulo, falando dos que rejeitam o evangelho, declara: “Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu poder”.
        Evidentemente a destruição dos ímpios não pode ser eterna em duração porque é difícil imaginar um processo eterno, inconclusivo de destruição. A destruição pressupõe aniquilamento. A destruição dos ímpios é eterna, não porque o processo de destruição continue para sempre, mas porque os resultados são permanentes. Do mesmo modo, os resultados da “punição eterna” de Mat. 25:46 são permanentes. É uma punição que resulta em sua eterna destruição ou aniquilamento.

        A Segunda Morte. A linguagem da destruição está presente, especialmente no livro de Apocalipse porque representa o modo divino de vencer a oposição do mal para Si mesmo e Seu povo.
João descreve em vívida imagem o lançamento da besta, falso profeta, morte, inferno e todos os ímpios no lago de fogo que define como “segunda morte” (Apo. 21:8; cf. 20:14; 2:11; 20:6).
        A frase “segunda morte” era freqüentemente  empregada pelos judeus para  descrever a morte final, irreversível. Numerosos exemplos podem ser encontrados no Targum, que é a tradição aramaica e interpretação do Velho Testamento. Por exemplo, o Targum sobre Isa. 65:6 é muito próximo de Apoc. 20:14 e 21:8. Assim reza: “A punição deles será no Geena onde o fogo queima o dia todo. Eis que está escrito perante mim: ‘Não lhes darei descanso durante sua vida, mas lhes atribuirei a punição por suas transgressões e entregarei seus corpos para a segunda morte”.7  Novak, o Targum sobre Isa. 65:15 reza: “O Senhor Deus vos matará com a segunda morte mas os seus servos, os justos, Ele chamará por um nome diferente”.8 Aqui a segunda morte é explicitamente igualada à morte dos ímpios pelo Senhor, uma clara imagem da destruição final, não de tormento eterno.
        Para os salvos, a ressurreição marca o início de uma segunda e superior vida, mas para os perdidos assinala o fim de uma segunda morte mais profunda. Sendo que não há mais morte para  os remidos (Apoc. 21:4) não resta mais vida para os que não se salvam (Apoc. 21:8). A “segunda morte” é, portanto, morte final, irreversível. Interpretar a frase doutro modo, como tormento eterno e consciência ou separação de Deus, significa negar o significado bíblico de “morte” como cessação de vida.

As Implicações Morais do Tormento Eterno

        Uma terceira razão para crer no aniquilamento final dos perdidos são as inaceitáveis implicações morais da doutrina do tormento eterno. A noção de um Deus que deliberadamente tortura pecadores através de eras infindáveis é totalmente incompatível com a revelação bíblica de Deus como amor infinito. Um Deus que inflige torturas infindáveis a Suas criaturas, não importa quão pecadoras possam ser, assemelha-se muito mais a Satanás do que a um Pai amoroso a nós revelado por Jesus Cristo.
        Tem Deus duas caras? Ele é infinitamente misericordioso por um lado e insaciavelmente cruel por outro? Pode Deus amar tanto os pecadores ao ponto de enviar Seu amado Filho para salvá-los, e, contudo, odiar pecadores impenitentes tanto que os sujeita a um cruel e infindável tormento? Podemos legitimamente louvar a Deus por Sua bondade se atormenta os pecadores ao longo de eras eternas?
        Desejaríamos ser semelhantes a Deus em Seu trato desapiedado dos perdidos? Fica-se a pensar se essa visão de Deus não pode ter inspirado a Inquisição a aprisionar, torturar e, finalmente, queimar na estaca os chamados “heréticos” que recusavam aceitar os ensinos tradicionais da Igreja. Se Deus é impiedoso ao punir pecadores com tormentos infindáveis no mundo por vir, porque não devia a Igreja agir de modo semelhante neste presente mundo, torturando e queimando os “heréticos”?
        A intuição moral que Deus implantou em nossas consciências não pode justificar a insaciável crueldade de uma divindade que sujeita os pecadores ao tormento eterno. A justiça divina nunca poderia requerer para  pecadores finitos a infinita penalidade da eterna dor, porque o tormento infindável não serve a qualquer propósito reformatório, precisamente porque não tem fim.
        Ademais, o tormento eterno, consciente, é contrário à visão bíblica de justiça porque tal punição criaria uma séria desproporção entre os pecados cometidos num tempo e o tormento conscientemente experimentado por toda a eternidade. Eu não minimizo a gravidade do pecado como rebelião contra Deus, nosso Criador, mas questiono se o “tormento eterno consciente” é compatível com a revelação bíblica da divina justiça”.9
        Por fim, qualquer doutrina de um inferno deve passar pelo teste moral da consciência humana, e a doutrina do tormento infindável não pode ser aprovada em tal teste. O aniquilamentismo, por seu turno, pode passar no teste porque reconhece que a punição final de Deus dos ímpios não é vingativa, a requerer tormento infindável, mas racional, resultando em sua permanente destruição.

As Implicações Cosmológicas do Tormento Eterno

        Uma quarta e última razão para crer no aniquilamento dos perdidos é o fato de que o tormento eterno pressupõe um eterno dualismo cósmico. O céu e o inferno, a felicidade e a dor, o bem e o mal continuariam a existir para sempre, lado a lado. É impossível reconciliar essa perspectiva com a visão profética do novo mundo no qual não mais haverá “lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas” (Apo. 21:4). Como a dor e as lágrimas poderiam ser esquecidas se a agonia e a angústia dos perdidos estivessem ao alcance da vista, como na parábola do rico e Lázaro (Luc. 16:19-31)?
        A presença de incontáveis milhões para sempre sofrendo tormento escruciante, ainda que bem distantes da morada dos salvos, poderia apenas servir para destruir a paz e felicidade do novo mundo. A nova criação se demonstraria falha desde o dia um, já que os pecadores permaneceriam uma eterna realidade do universo de Deus. Jamais seria “tudo em todos” (1 Cor. 15:28).
        O propósito do plano de salvação é, por fim, erradicar a presença de pecado e pecadores deste mundo. Apenas se os pecadores, Satanás e os anjos maus por fim forem consumidos no lago de fogo e experimentarem a extinção da segunda morte é que verdadeiramente podemos dizer que a missão redentora de Cristo foi uma vitória inigualável. O tormento infindável lançaria uma sombra permanente de trevas sobre a nova criação.
        Em suma, nossa era carece desesperadamente de aprender o temor de Deus, e é esta uma razão para  pregar sobre o juízo e a punição finais.  Precisamos advertir que os rejeitadores dos princípios de vida de Cristo e a provisão da salvação por fim experimentarão um temível juízo e “sofrerão penalidade de eterna destruição” (2 Tess. 1:9). Devemos proclamar ousadamente as grandes alternativas do evangelho entre a vida eterna e a destruição permanente. A recuperação do ponto de vista do juízo final pode liberar a língua dos pregadores porque poderão pregar essa doutrina vital que a humanidade desesperadamente carece de ouvir, sem temor de retratar a Deus como um monstro.

Referências

 1.  Para uma apresentação concisa mas convincente do ponto de vista metafórico do inferno, ver William V. Crockett, “The Methaphorical View”, em Four Views of Hell, ed. William Crockett (Grand Rapids, 1994, págs. 43-81.
 2.  Billy Graham, “There is a Real Hell”, Decision (julho-agosto de 1984), pg 2. Noutra parte Graham indaga: “Poderia dar-se o caso de que o fogo sobre que Jesus falou é uma eterna procura por Deus que nunca é satisfeita? Isso, verdadeiramente seria o inferno. Estar distanciado de Deus para sempre, separação de Sua Presença (em The Challenge: Sermons from Madison Square Garden [Garden City, Nova York, 1969], p. 75).
 3.  William V. Crockett (nota 2), p. 61.
 4.  Essa crença foi primeiro sugerida por Orígenes no terceiro século e obteve firme apoio em tempos modernos, especialmente através dos escritos de homens tais como Friedrich. . . . Os argumentos apresentados por esses e outros autores em apoio ao universalismo são tão teológicos quanto filosóficos.
 5.  Basil F. C. Atkinson, Life and Immortality. An Examination of the Nature and Meaning of Life and Death as They Are Revealed in the Scriptures (Taunton, Inglaterra, s. d.), pp. 85-86.
 6.  John Stott e David L. Edwards, Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue (Londres, 1988), p. 316.
 7.  M. McNamara, The New Testament and the Palestinian Targum to the Pentateuch (Nova York, 1958), p. 123.
 8.  Ibid.
 9.  John Stott (nota 7), pp. 318-319.
 

VI - O MUNDO VINDOURO: ETÉREO OU REAL?

        Já planejou tirar umas férias num ilha exótica e desconhecida?  Se já, as chances são de que tentou descobrir o máximo possível a respeito do clima, acomodações, alimentação, o povo e as características singulares do lugar. Reunir informações sobre sonhadas férias numa “ ilha paradisíaca” eleva a expectativa da viagem.
Os cristãos deviam ser igualmente ansiosos por aprender tanto quanto possível a respeito do novo mundo que os aguarda ao final de sua peregrinação terrena. Uma visão mais clara do mundo por vir pode nutrir a esperança e fortalecer a fé daqueles chamados a viver em meio às incertezas e sofrimentos da vida presente.
Historicamente, a maioria dos cristãos têm imaginado o mundo por vir como um lugar que é belo, porém etéreo, um lugar onde as sólidas alegrias desta vida presente devem ser trocadas por uma existência espiritual de contínua adoração e contemplação. Tal visão do mundo por vir é refletido nas linhas de hinos populares, tais como um que diz: “Em mansões de glória e infindável deleite, eu para sempre Te adorarei no céu tão brilhante”.
        O pensamento de passar a eternidade num centro espiritual em algum lugar do espaço, trajando vestes brancas, tocando harpas, cantando, meditando e contemplando era atraente para os cristãos medievais que anteviam o Paraíso como um tipo de retiro monástico. Tal visão do Paraíso, contudo, dificilmente apelaria a cristãos do século XXI aos quais encantam os sons e vistas da grande metrópole.
        Isso talvez explique por que a maior parte dos cristãos hoje não parece estar tão ansiosamente aguardando a vinda do Senhor para estabelecer Seu reino eterno. Não se sentem tão seguros se desejam viver como monges por toda a eternidade na beatitude de um Paraíso etéreo por demais casto, por demais desinfetado e tão irreal.
A visão etérea do Paraíso inspira-se mais na filosofia do dualismo grego do que no realismo holístico bíblico. Para os gregos, o corpo físico e os componentes materiais deste mundo eram maus e, conseqüentemente, não eram dignos de sobrevivência. O seu objetivo era buscar um reino espiritual onde suas almas liberadas da prisão corporal e de um mundo material desfrutariam bênçãos eternas.

        Realismo Bíblico. A Bíblia rejeita a visão etérea do mundo por vir porque afirma o caráter bom da criação física de Deus. “Era bom”, é a proclamação divina que ecoa de cada estágio da Criação da vida humana e sub-humana (Gên 1:10, 18, 21, 25, 31). O propósito da redenção não é a libertação das almas espirituais da escravidão de um corpo físico, e do mundo material, mas a restauração de toda a criação humana e sub-humana a sua perfeição original. Os “novos céus e nova terra” (Is 65:17; Apoc. 21:1) não são um mundo remoto e inconseqüente em algum recanto do espaço, mas tratam-se dos atuais céu e terra renovados a sua perfeição original.

Como Serão  as Pessoas no Mundo Por Vir?

        Antes de examinar mais detidamente os lampejos bíblicos sobre a vida no mundo vindouro, vejamos como serão as pessoas no novo mundo. Irão os santos ressurretos/trasladados receber um corpo físico igual ao atual ou um corpo espiritual radicalmente diferente do que temos presentemente? Somos afortunados em ter a discussão de Paulo desta questão que havia sido suscitada pelos coríntios. “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm? Insensatos! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de trigo, ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve dar, e a cada uma das sementes o seu corpo apropriado” (1 Cor 15:35-38).
        O que Paulo está dizendo aqui é que tal como Deus concede um corpo a cada espécie de semente semeada, assim Ele dará um corpo a cada pessoa que é sepultada. O fato de que os corpos dos falecidos serem enterrados como sementes no solo pode ter sugerido a Paulo a analogia da semente. Paulo desenvolve a analogia da semente dando-nos a mais clara descrição que encontramos na Bíblia da continuidade/descontinuidade entre o corpo atual e o futuro. “Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Cor. 15:42-44).
        Neste texto Paulo expõe a diferença entre nosso corpo presente e o corpo futuro na ressurreição por meio de quatro contrastes. Esses contrastes são igualmente aplicáveis aos corpos dos santos vivos que serão transformados quando do retorno de Cristo sem ver a morte. Primeiro, nossos corpos presentes são perecíveis  (phthora)-sujeitos à doença e à morte-mas nossos corpos ressurretos serão imperecíveis  (aphtharsia)-não mais sujeitos à doença e à morte. Em segundo lugar, nossos corpos presentes experimentam a desonra de serem baixados à sepultura, mas nossos corpos ressurretos experimentarão a glória  de uma transformação interior e exterior.
        Em terceiro lugar, nossos corpos atuais são fracos, pois facilmente nos cansamos e esgotamos, mas nossos corpos ressurretos serão cheios de poder, com inesgotável energia para cumprir todos os nossos alvos. Em quarto lugar, nossos corpos presentes são físicos (soma pneumatikon). Este último contraste tem levado muitos a crer que nossos corpos na ressurreição/trasladação serão “espirituais” no sentido de que consistem de uma substância não-física e não-material, seja o que isso signifique.

        Um Corpo Ressurreto “Espiritual”.  Cria Paulo e acaso ensina a Bíblia que quando da ressurreição/trasladação os crentes receberão corpos não-materiais e não-físicos, totalmente destituídos de substância física? Este é o entendimento de muitos cristãos hoje. Definem “corpo espiritual-soma pneumatikon, com o sentido de um corpo não-físico adequado ao novo “ambiente celestial”.1
        Esta crença popular repousa sobre o pressuposto de que Deus condenará esta terra à eterna desolação e criará, no lugar, um novo mundo “celestial” adequado à habitação de santos espirituais. Esse pressuposto suscita sérias questões a respeito da sabedoria de Deus em primeiro criar este planeta para suster a vida humana e sub-humana, apenas para descobrir depois não ser o lugar ideal para a habitação eterna dos remidos. Para remediar o problema, Deus então seria obrigado a criar um “planeta celestial” não-material e a equipar os santos ressurretos com “corpos espirituais” adaptados a tal ambiente celestial.
        Esse raciocínio é ridículo, para dizer o mínimo, para quem crê na onisciência e imutabilidade de Deus.         Alterar modelos e estruturas é normal para os seres humanos finitos que aprendem com os erros, mas seria anormal e incoerente para um Deus infinito que conhece o fim desde o princípio. Se Deus descobriu que a matéria se havia tornado intrinsecamente má ao ponto de dever ser banida, então, em certo sentido, o diabo e os filósofos gregos se confirmaram certos. Mas a matéria não é má porque é parte da boa criação de Deus. A Bíblia afirma que este mundo material era “muito bom” (Gên 1:31) por ocasião da criação, e não há razão para crer que se tornará “muito má” quando da restauração final.
        A prova mais decisiva da bondade da presente criação é o ensino da ressurreição do corpo,--um ensino que era absurdo e ofensivo aos pensadores gregos que criam que o corpo físico bem como o mundo material eram maus, e assim deviam ser descartados na morte. Para eles, somente as almas desincorporadas sobrevivem à morte do corpo.
        Aparentemente, alguns cristãos coríntios estavam influenciados por esse ponto de vista dualístico grego da natureza e destino humanos. Isto é indicado pela indagação de Paulo: “Se é corrente pregar-se que Cristo resssucitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vás que não há ressurreição de mortos?” (1 Cor. 15:12). Paulo refuta esse erro afirmando a ressurreição do corpo. Esse ensino propicia a prova mais convincente da continuidade entre a vida presente e a vida por vir.

        Conduzido pelo Espírito.  Alguns desafiam a noção de continuição porque Paulo contrasta o corpo atual “físico-psychikos” com o futuro corpo “espiritual-pneumatikon” da ressurreição/transladação. Para eles esse contraste indica que o corpo ressurreto não mais será físico, consistindo de “carne e sangue”. Esta interpretação ignora que para Paulo “espiritual” não significa “não-físico”. Isto é evidenciado pelo emprego que faz das mesmos duas palavras (físico-psychikos/espiritual-pneumatikos) na mesma epístola com referência à vida presente. “O homem natural (físico-psychikos) não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque eleas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual [pneumatikos] julga todas as cousas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Cor. 2:14-15).
        É óbvio que o homem espiritual neste texto não é um ser não-físico. Antes, é alguém guiado pelo Espírito Santo, em contraste com alguém que é guiado por impulsos naturais. Semelhantemente, o corpo da ressurreição é chamado em 1 Coríntios 15:44 “espiritual” porque não é governado por impulsos carnais, mas pelo Espírito Santo. Este não é um dualismo antropológico entre uma natureza “física-psychê” e uma “espiritual-pneuma”, mas uma distinção moral entre uma vida guiada pelo Espírito Santo e uma controlada por desejos pecaminosos.
        Esta percepção nos ajuda também a entender a declaração paulina poucos versos depois: “A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Cor . 15:50). É óbvio que ele aqui não está falando que o corpo da ressurreição será não-físico, porque, escrevendo aos romanos ele declara: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós” (Rom. 8:9).
        Pela frase “não está na carne” Paulo logicamente não quis referir-se aos cristãos que haviam descartado seus corpos físicos. Antes, ele quis dizer que já na vida presente foram guiados por valores espirituais, antes que por mundanos (Rom 8:4-8). Se Paulo pudesse falar dos cristãos como não estando na carne já na vida presente, sua referência à ausência de “carne e sangue” no Reino de Deus simplesmente significa a ausência de inclinações naturais, carnais e pecaminosas da vida atual porque os remidos serão plenamente conduzidos pelo Espírito.

        O Sentido da Ressurreição. O que, então, significa “a ressurreição do corpo”? Os autores bíblicos sabiam tão bem quanto nós que não poderia possivelmente significar a reabilitação de nossos corpos físicos presentes. Primeiramente, porque muitos corpos são doentes ou deformados, e, em segundo lugar, porque na morte eles se decompõem e retornam ao pó (Sal. 104:29; cf. Ecl. 3:20; Gên. 3:19).
        Na visão holística bíblica da natureza humana, o termo “corpo” é simplesmente um sinônimo de “pessoa”. Por exemplo, quando Paulo apela: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rom. 12:1), ele claramente está pensando na pessoa como um todo. Em vista deste fato, crer na ressureição/trasladação do corpo significa crer que o homem integral, o ser humano que “eu” sou será restaurado à vida novamente. Significa que não serei alguém diferente de quem eu sou agora. Serei exclusivamente eu próprio. Em suma, significa que Deus compromete-Se a preservar minha individualidade, personalidade e caráter.
        Central à promessa bíblica de ressurreição do corpo acha-se o compromisso de Deus em restaurar a vida dos mesmos indivíduos que existiram previamente sobre a terra. Deus não vai ressuscitar um grupo indefinido de pessoa semelhantes, e sim, exatamente, os mesmos indivíduos que viveram sobre esta terra. A Bíblia nos assegura a preservação de nossa identidade através da sugestiva imagem dos “livros” onde nossos “nomes”, pensamentos, atitudes e ações estão registrados (Fil. 4:3; Apo. 3:5; 13:8; 17:8; 20:12). Um nome nas Escrituras representa caráter ou personalidade, como se pode ver pelos variados nomes usados para retratar o caráter de Deus. Tal fato sugere que Deus preserva um quadro preciso do caráter de cada um dos que viveram sobre este planeta. O registro de cada vida é abrangente, porque Jesus disse:”Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia de juízo; porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado” (Mat. 12:36-37).
        Cada crente desenvolve seu caráter singular como resultado das tentações, lutas, derrotas, desapontamentos, vitórias e crescimento na graça que experimenta. Isto significa que a possibilidade de “reprodução múltipla” de pessoas por ocasião da ressurreição, todos parecendo, agindo e pensando igual, é inconcebível. Destarte, como não há duas pessoas com o mesmo desenho molecular de DNA, não há dois caracteres cristãos idênticos. Cada um de nós tem um caráter ou personalidade singular que Deus preserva e reunirá ao corpo ressurreto.
        Numa sociedade onde pessoas são tidas por parafusos numa máquina, números num computador, transmite segurança saber que Deus coloca um sentido transcendente sobre nossa identidade pessoal. Ele escreveu o nome de cada crente “escritos no livro da vida . . . desde a fundação do mundo” (Apo. 13:8). À vista de Deus, o que conta finalmente não é nossa filiação religiosa, nossa linhagem familiar, nossa herança racial, mas os valores, atitudes e decisões que caracterizam nossa personalidade.

        Algumas Implicações Práticas. As implicações práticas da crença na ressurreição/trasladação da pessoa inteira não são difíceis de ver. Crer na ressurreição/trasladação do corpo significa crer que seremos capazes de reconhecer nossos entes queridos. Reconheceremos nossos queridos, não necessariamente porque parecerão exatamente da mesma maneira de como os vimos pela última vez, mas porque sua individualidade e personalidade serão providencialmente preservadas e ressuscitadas com um corpo novinho em folha concedido por Deus. Quando encontramos colegas dos tempos de escola primária ou média após 20 ou 30 anos, como mais freqüência temos dificuldade em reconhecê-los por sua aparência exterior. Mas tão logo começam a falar, percebemos quem são porque as singularidades da personalidade realmente não se alteraram. São ainda a Maria ou o João, ou o Beto que conhecemos muitos anos antes.
        O mesmo princípio se aplica ao reconhecimento de nossos queridos ressurretos. Nós os reconheceremos, não porque parecerão tão jovens ou tão velhos em comparação de quando os vimos por último, mas por causa de sua individualidade e personalidade singulares, preservados providencialmente e ressuscitados com um novo corpo por Deus. O fato de que Deus restaurará a cada um de nós nossa personalidade e caráter distintos ensina-nos que nossa personalidade futura é formada agora. Como aptamente declarado por Ellen G. White, “os caracteres formados nesta vida determinarão o destino futuro”.2 Esta importante verdade insta-nos a cultivar todas as faculdades que Deus nos concedeu a fim de desenvolver caracteres que estão aptos a servir a Deus, não só neste mundo, mas também no mundo futuro.
        Sumariando, então, as pessoas no mundo vindouro terão corpos físicos como os atuais, mas sem as desvantagens do pecado, doença e morte. O propósito do Plano de Redenção não é remover defeitos da criação material original de Deus recriando a criação humana e sub-humana de uma substância diferente e não-física, mas restaurar a criação integral a sua perfeição original. O que foi “muito bom” na Criação se comprovará “muito bom” na restauração final.

        A Parábola do Rico e Lázaro. O termo hades também ocorre na parábola do homem rico e Lázaro, mas com sentido diferente. Conquanto nas 10 referências à palavra hades examinadas [N.T.: não cobertas nesta condensação] o sentido seja a sepultura ou ao reino dos mortos, na parábola do rico e Lázaro denota o lugar de punição dos não-regenerados (Lucas 16:23). A razão desse uso excepcional será explicado brevemente. Como é óbvio, os dualistas fazem grande uso desta parábola como suporte para a noção de existência consciente de almas desincorporadas durante o estado intermediário (Lucas 16:19-31). Devido à importância atribuída a esta parábola, precisamos examiná-la atentamente.
        Em primeiro lugar, consideremos os principais aspectos da história. Lázaro e o homem rico igualmente morrem. A situação deles na vida agora se reverte após a morte. Pois quando Lázaro morreu,  foi “levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lucas 16:22), enquanto o homem rico foi levado para o hades onde passou a ser torturado por terríveis chamas (Lucas 16:23). Conquanto um grande abismo os separasse, o homem rico podia contemplar a Lázaro no seio de Abraão. Assim, ele pleiteou com Abraão para enviar Lázaro em duas missões: a primeira, “Pai Abraão . . . manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua” (Lucas 16:24) e, a segunda, advertir os membros de sua família a que se arrependessem para que não experimentassem a mesma punição. Abraão negou ambos os pedidos por duas razões. A primeira, porque havia um grande abismo que tornava impossível que Lázaro superasse para ajudá-lo (Luc. 16:26); a segunda, porque se os membros de sua família “não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir” (Luc. 16:31).
        Antes de analisarmos a parábola, precisamos nos lembrar que contrariamente à uma alegoria como O Peregrino, onde cada detalhe conta, os detalhes de uma parábola não têm necessariamente algum significado em si mesmos, exceto como “pontos de apoio” para o relato. A parábola tem o propósito de ensinar uma verdade fundamental, e os detalhes não têm um significado literal, a menos que o contexto indique doutra forma. A partir deste princípio outro se desenvolve, ou seja, somente o ensino fundamental de uma parábola, confirmado pelo teor geral das Escrituras, pode ser legitimamente usado para definir doutrina.
        Infelizmente, esses dois princípios fundamentais são ignorados por aqueles que desejam empregar os detalhes de uma parábola para apoiar seus pontos de vista. Por exemplo, Robert Peterson extrai uma lição de cada um dos principais personagens da parábola. “Primeiro, a exemplo de Lázaro, aqueles a quem Deus auxilia serão levados à presença de Deus após sua morte. . . . Em segundo lugar, à semelhança do homem rico, os impenitentes experimentarão julgamento irreversível. Os ímpios também sobrevivem à morte, somente para suportarem ‘tormento’ e ‘agonia’. . . . Em terceiro lugar, mediante as Escrituras, Deus Se revela e à Sua vontade de modo que ninguém que a negligencie possa legitimamente protestar seu destino subseqüente”.
40    A tentativa de Peterson de extrair três lições da parábola ignora o fato de que a sua principal lição é dada na linha conclusiva: “ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Luc. 16:31). Esta é a principal lição da parábola, ou seja, nada ou ninguém pode superar o poder convincente da revelação que Deus nos concedeu em Sua Palavra. Interpretar Lázaro e o homem rico como representantes do que ocorrerá aos salvos e perdidos imediatamente após a morte significa querer sugar da parábola lições estranhas ao sua intenção original.

        Os Problemas de Uma Interpretação Literal. Os que interpretam a parábola como uma representação literal do estado dos salvos e perdidos após a morte defrontam problemas insuperáveis. Se a narrativa e uma descrição real do estado intermediário, então deve ser verdadeiro em fato e coerente em detalhe. Contudo, se a parábola for figurada, então somente a lição moral a ser transmitida deve nos preocupar. Uma interpretação literal da narrativa se despedaça sob o peso de seus próprios absurdos e contradições, como se torna evidente sob exame detido.
        Os que se batem pelo literalismo supõem que o homem rico e Lázaro eram espíritos desincorporados, destituídos de corpos. Contudo, o homem rico é descrito como tendo “olhos”que vêem, uma “língua” que fala, bem como pode obter alívio do “dedo” molhado de Lázaro-tudo isso sendo partes reais de um corpo. Eles são retratados como existindo fisicamente, a despeito do fato de que o corpo do homem rico foi devidamente sepultado na sepultura. Foi o seu corpo levado ao hades juntamente com sua alma por engano?
Um abismo separa Lázaro no céu (o seio de Abraão) do homem rico no hades. O abismo é por demais amplo para qualquer um atravessar, contudo, estreito o suficiente para permitir que conversem. Tomado literalmente, isso significa que o céu e o inferno estão dentro de distância geográfica que permitam falar e ver um ao outro de modo que os santos e os pecadores eternamente podem ver e comunciar-se uns com os outros. Ponderemos por um momento o caso de pais no céu vendo seus filhos agonizando no hades por toda a eternidade. Tal visão não destruiria o próprio gozo e paz do céu? É impensável que os salvos verão e conversarão com seus queridos não-salvos por toda a eternidade através de um abismo divisório.

        Conflito Com Verdades Bíblicas. Uma interpretação literal da parábola contradiz algumas verdades bíblicas fundamentais. Se a narrativa for literal, então Lázaro recebeu sua recompensa e o homem rico sua punição, imediatamente após a morte e antes do dia do juízo. Mas a Bíblia claramente ensina que as recompensas e punições, bem como a separação entre os salvos e os perdidos, terão lugar no dia da vinda de Cristo: “Quando vier o Filho do homem; na Sua majestade e todos os anjos com Ee, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas” (Mat. 25:31, 32). “E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras” (Apo. 22:12). Paulo esperava receber “a coroa da justiça” no dia do aparecimento de Cristo (2 Tim. 4:8).
        Uma interpretação literal da parábola também contradiz o testemunho uniforme tanto do Velho quanto do Novo Testamento de que os mortos, tanto os juntos quanto os injustos, jazem silentes e inconscientes na morte até o dia da ressurreição (Ecl. 9:5,6; Jó 14:12-15, 20, 21; Sal. 6:5; 115:17). Uma interpretação literal também contradiz o uso coerente do termo hades no Novo Testamento para denotar a sepultura ou o reino dos mortos, não um lugar de punição [N.T.: Ver os textos discutidos em parágrafos anteriores do livro original: Mat. 11:23; Atos 2:27, cf. 2:31; 1 Cor. 15:55; Apo. 1:18; 6:8; 20:13, 14. Sumariando sua discussão destes textos, diz o autor: “Esta breve análise do emprego de hades no Novo Testamento claramente mostra que seu sentido e utilização é coerente com o do termo sheol no Velho Testamento (ver, por exemplo, Amós 9:2,3; Jó 11:7-9). Ambos os termos denotam a sepultura ou o reino dos mortos, não o lugar de punição dos perdidos”].

        Conceitos Judaicos da Época. Afortunadamente para nossa investigação, temos os escritos judaicos que iluminam a parábola do homem rico e Lázaro. Especialmente revelador é o “Discurso aos Gregos Concernente ao Hades”, escrito por Josefo, o famoso historiador judeu que viveu durante os tempos do Novo Testamento (morreu ao redor de 100 AD). O seu discurso faz paralelo bem próximo com a narrativa do homem rico e Lázaro. Nele Josefo explica que “hades é uma região subterrânea onde a luz deste mundo não brilha. . . . Essa região é destinada a ser um lugar de custódia para as almas, em que anjos são designados como guardiães a elas, os quais lhes atribuem punições temporárias, agradáveis ao comportamento e maneiras de cada um”.41
Josefo assinala, contudo, que o hades é dividido em duas regiões. Uma é a “região da luz” onde as almas dos justos mortos são levadas por anjos ao “lugar a que chamamos O Seio de Abraão”.42 A segunda região está em “trevas perpétuas”, e as almas dos ímpios são arrastadas por força “por anjos designados para a tarefa de puni-las”.43  Esses anjos arrastam os ímpios “às vizinhanças do próprio inferno”, de modo a que possam ver e sentir o calor das chamas.44  Não são, porém, lançadas no inferno até após o juízo final. “Um abismo profundo e amplo está estabelecido entre ambos; de tal modo que um homem justo que tenha compaixão delas, não pode ser admitido, nem pode alguém que é injusto, se tivesse ousadia suficiente para o tentar, atravessá-lo”.45
        As impressionantes semelhanças entre a descrição de Josefo do hades e a parábola do homem rico e Lázaro são evidentes por si mesmas. Em ambos os relatos temos duas regiões que separam os justos dos perdidos, o seio de Abraão como habitação dos justos, um grande abismo que não pode ser atravessado, e os habitantes de uma região que podem ver os da outra região.
        A descrição do hades por Josefo não é única. Descrições semelhantes podem ser encontradas em outras peças de literatura judaica.46 O que isso significa é que Jesus valeu-se de um entendimento popular da condição dos mortos no hades, não para endossar tais pontos de vista, mas para extrair a lição da importância de atentar nesta vida presente aos ensinos de Moisés e dos profetas porque isto determina bênção ou maldição no mundo por vir.
        No próprio contexto desse relato Jesus apresenta uma parábola também surpreendente em seus detalhes: a do mordomo infiel (Luc. 16:1-12). Em parte alguma a Bíblia aprova práticas de administração desonesta, mas a lição da parábola é “das riquezas de origem iníqua fazei amigos;  para que quando estas vos faltarem esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos”. (Luc. 16:9), não para ensinar a desonestidade nos negócios.
John Cooper reconhece que a parábola do homem rico e Lázaro “não nos diz necessariamente que Jesus ou Lucas criam a respeito da vida do além, nem propicia uma base firme para uma doutrina do estado intermediário. Pois é possível que Jesus simplesmente emprega imagens populares a fim de ressaltar seu ponto ético. Ele pode não estar endossando tais imagens, e não ter crido nelas porque sabia serem falsas”.47  Cooper finalmente indaga: “O que esta passagem nos diz a respeito do estado intermediário?” E responde clara e honestamente: “A resposta pode ser, ‘Nada’”.48

        Jesus e o Ladrão na Cruz. A breve conversação entre Jesus e o ladrão penitente sobre a cruz próximo a Ele (Luc. 23:42, 43) é empregada pelos dualistas como um ponto principal de prova para a existência consciente dos mortos fiéis no paraíso antes da ressurreição. Assim, é importante examinar detidamente as palavras proferidas por Jesus ao ladrão penitente.
        Diferentemente do outro criminoso e da multidão, o ladrão penitente cria que Jesus era o Messias. Ele disse: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu reino” (Lucas 23:42). Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). Um problema maior na interpretação desse texto é a localização da vírgula, que na maioria das traduções é colocada antes de “hoje”. Assim, a maioria dos leitores e comentaristas presumem que Jesus disse: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Tal leitura é interpretada como significando que “naquele mesmo dia”50 o ladrão iria para o paraíso com Cristo.
        O texto grego original, contudo, não tem pontuação e, traduzido literalmente, assim reza: “Verdadeiramente a ti digo hoje comigo estarás no paraíso”. O advérbio “hoje-semeron” situa-se entre o verbo “digo-lego” e “estarás-ese”. Isso significa que gramaticalmente o advérbio “hoje” pode aplicar-se a qualquer dos dois verbos.
        Se ele qualificar o primeiro verbo, então Jesus diz: “Verdadeiramente te tigo hoje, estarás comigo no paraíso”.
        Os tradutores têm colocado a vírgula antes do advérbio “hoje”, não por razões gramaticais, mas por causa de sua convicção teológica de que os mortos recebem sua recompensa na morte. Seria preferível que estes se limitassem a traduzir o texto e deixassem a tarefa de interpretação para o leitor.
        A questão que aqui estamos defrontando é: Jesus quis dizer, “digo que, hoje, estarás comigo no paraíso”, ou “hoje estarás comigo no paraíso?” Os que mantêm que Jesus quis expressar-se da última forma apelam ao fato de que o advérbio “hoje” não ocorre noutra parte como a frase freqüentemente usada, “verdadeiramente, eu te digo”. Esta é uma observação válida, mas a razão para esta ligação excepcional do advérbio “hoje” à frase “verdadeiramente, te digo” poderia muito bem ser o contexto imediato. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando estabelecesse o Seu reino messiânico. Mas Jesus respondeu lembrando ao penitente ladrão imediatamente, “hoje”, e por reassegurar-lhe que ele com Ele estaria no paraíso. Esta interpretação é apoiada por três principais considerações: (1) o sentido neotestamentário de paraíso; (2) o tempo em que os salvos entrarão na recompensa do paraíso, e (3) o tempo em que o próprio Jesus retornaria ao Paraíso.

        O Que É o Paraíso? A palavra “paraíso-paradeisos” ocorre somente três vezes no Novo Testamento--duas vezes além desse emprego em Lucas 23:43. Em 2 Coríntios 12:2-4 e Apoc. 22:2 que sugerem que o paraíso é a eterna habitação dos remidos no Éden restaurado.
        Portanto, quando Jesus assegurou ao ladrão penitente de um lugar com Ele no “paraíso” estava-se referindo às “muitas moradas” na “casa” Seu Pai e ao tempo em que Ele for “preparar lugar” para receber os Seus  para consigo estar para sempre (João 14:1-3). Durante o Seu ministério Jesus sempre ensinou que os remidos entrariam no Reino de Seu Pai por ocasião de Sua vinda: “Então dirá o Rei aos que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mat. 25:34; 16:27). Paulo ensinou a mesma verdade em 1 Tess 4:17: “seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor”. É nessa ocasião, seguindo-se à ressurreição dos justos, que o ladrão estará com Jesus no Paraíso.

Adendo:

        “Uma  análise cuidadosa da cena do Calvário revela que o ladrão não morreu naquele mesmo dia, pois S. João 19:31-33 nos diz: ‘Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas’. Por que “quebrar as pernas” dos justiçados? Porque o crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi caso excepcional e sabemos que não morreu dos ferimentos ou da hemorragia, mas de quebrantamento do coração. Morreu de dor  moral por suportar os pecados do mundo. Mas os outros, não, e as crônicas descrevem o condenado esvaindo-se lentamente durante dias. Diz, por exemplo, o comentário de J. B. Howell:
        ‘“O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos geralmente três dias, e às vezes, sete’ [Comentário a S. Mateus, pág. 500]. . . .  Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem. . . Se era necessário quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais do que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de Jesus?”-Arnaldo B. Christianini, Subtilezas do Erro, pág  222.
        Obs.: Lembremo-nos de que três dias depois de ressurreto Jesus disse à Madalena: “Não me detenhas porque ainda NÃO SUBI para o Meu Pai” (João 20:17).

Referências

  1.  Murray Harris, Raised Immortal. Resurrection and Immortality in the New Testament (Londres, 1986), p. 121.
  2.  Ellen White, Child Guidance [Orientação da criança] (Nashville, 1954), p. 229.
40. Robert A. Morey, Deatn and the Afterlife (Mineápolis, 1984), p. 67.
41. Josephus, Discourse to the Greeks Concerning Hades, in Josephus Complete Works, trad. William Whiston (Grand Rapids, 1974), p. 637.
42. Ibid.
43. Ibid.
44. Ibid.
45. Ibid.
46. Para uma breve pesquisa da literatura intertestamentária judaica sobre a condição dos mortos no hades, ver Karel Hanhart, in “The Intermediate State in the New Testament”, [Dissertação doutoral Universidade de Amsterdã, 196 6], p. 35).
47. John W. Cooper, Body, Soul, and Life Everlasting: Biblical Antrhopology and the Monism-Dualism Debate (Grand Rapids, 1989), p. 61.
48. Ibid.
50.   Norval Geldenhuys, Commentary on the Gospel of Luke (Grand Rapids, 1983), p. 611.
 
 

        *Sobre o autor: O Dr. Samuele Bacchiocchi, atualmente jubilado, foi por muitos anos professor de Teologia e História Eclesiástica para a Universidade Andrews, de Berrien Springs, Mich., EUA. Ele foi o primeiro não-católico a seguir um programa de estudos doutorais na Pontifícia Universidade Gregoriana, ligada ao Vaticano. Seu trabalho de pesquisa que lhe rendeu inclusive uma medalha de honra ao mérito, atribuída a ele pelo Papa Paulo VI, foi publicada pela imprensa da universidade com o “Imprimatur” da Igreja Católica. Tem por título “Do Sábado Para o Domingo” e mais tarde foi publicada em forma de livro. Em tal obra o autor apresenta dados e fatos importantes, muitos até inéditos, sobre os fatores vários que interagiram nos primeiros séculos da história da igreja cristã para levar a comunidade de seguidores de Cristo a mudarem a observância do sábado para o domingo sem contarem para isso com a autoridade de um “assim diz o Senhor”.
         Os interessados em obter dito livro, na sua tradução para o português, podem comunicar-se pelo e-mail azenilto@yahoo.br.com para maiores informações.

         Esta série de artigos constitui a condensação do livro Imortalidade ou Ressurreição?, do mesmo autor, cuja tradução para o português estará brevemente disponível. Para informações a respeito indicamos o mesmo e-mail acima referido.
 

Adendo

Alguns pensamentos adicionais de minha parte acrescentados ao livro traduzido ao português (certos pontos relevantes não abordados pelo Dr. Bacchiocchi):

* A expressão "hoje estarás comigo no Paraíso" (Lucas 23:43) provaria a imortalidade da alma? Vejam um pormenor interessante no comentário abaixo:

 Diz Arnaldo B. Christianini em Subtilezas do Erro: “Uma  análise cuidadosa da cena do Calvário revela que o ladrão não morreu naquele mesmo dia, pois S. João 19:31-33 nos diz: ‘Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas’.
           “Por que ‘quebrar as pernas’ dos justiçados? Porque o crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi caso excepcional e sabemos que não morreu dos ferimentos ou da hemorragia, mas de quebrantamento do coração. Morreu de dor  moral por suportar os pecados do mundo. Mas os outros, não, e as crônicas descrevem o condenado esvaindo-se lentamente durante dias. Diz, por exemplo, o comentário de J. B. Howell: ‘O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos geralmente três dias, e às vezes, sete’ [Comentário a S. Mateus, pág. 500]. . . .
           “Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem. . . Se era necessário quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais do que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de Jesus?”-Subtilezas do Erro, pág  222
           Obs.: Lembremo-nos também de que três dias depois de ressurreto Jesus disse à Madalena: “Não me detenhas porque ainda NÃO SUBI para o Meu Pai” (João 20:17). [Destaques acrescentados].
 

* O lançamento de Satanás e todos os ímpios no "lago de fogo" ocorre sobre a superfície da terra. Para onde vão depois?

        N.T.: A exemplo das imagens da parábola do homem rico e Lázaro (Lucas 16:19-31), que impõem dificuldades insuperáveis aos que alegam tratar-se o relato de uma história genuína, com suas almas com dedos e línguas que se molhariam, olhos que vêem, além de santos na glória em perpétua contemplação da sorte angustiosa dos perdidos, os textos de Apocalipse 14:10 e 11 apresentam uma situação igualmente difícil de entender num sentido literal: Iriam esses condenados sob tormentos assim permanecer "pelos séculos dos séculos" "diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro"? Será que estes últimos não encontram nada mais elevado para fazer no céu, em vez de ficarem a assistir "de camarote", por tempo infinito, o espetáculo repugnante desses infelizes sob as agruras do fogo e enxofre?
        Mais adiante, no capítulo 20 do mesmo Apocalipse, pode-se ler a descrição do desesperado esforço final dos inimigos do povo de Deus, sob o comando de Satanás, para dominá-los e destruí-los nos seguintes termos: "Marcharam então pela superfície da terra e sitiaram o acampamento dos santos e a cidade querida; desceu, porém, fogo do céu e os consumiu. O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago do fogo e enxofre, onde também se encontram não só a besta como o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite pelos séculos dos séculos. . . . Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago do fogo. Esta é a segunda morte, o lago do fogo. E se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago do fogo" (Apo. 20:9, 14 e 15).
        Na própria seqüência destes últimos versos temos o capítulo seguinte, o 21, que assim se inicia: "Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe". Com isso podem-se perceber três fatos relevantes: a) esse ajuntamento dos perdidos sob o comando de Satanás ocorre sobre a superfície da terra aonde desceu a "cidade santa", descida esta descrita em maiores detalhes em Apoc. 21:2-8; b) o destino final deles é no "lago do fogo", comparado a uma "segunda morte" (vs. 20:14 e 21:8), que também recebe a besta, o falso profeta, os covardes, incrédulos, abomináveis, etc., mas o cenário muda de imediato para o de um "novo céu e uma nova terra"; c) não existe qualquer informação de que tal lago do fogo se transfira para outra parte do universo. Para onde foi com sua lotação de malfeitores agoniados? A resposta se acha em Malaquias 4:1: "Pois eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem pervesidade, serão como o restolho; o dia que vem os abrasará diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo". Isso ocorre no "lago do fogo", sobre esta terra, antes de passar pela transformação miraculosa que a tornará uma "nova terra", o Paraíso prometido ao longo das Escrituras aos fiéis "que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus" (Apoc. 14:12).

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