Textos Bíblicos Mal Compreendidos Sobre o Tema da Alimentação

Prof. Azenilto G. Brito



      Cristo declarou em Marcos 7:18-20: “Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E assim considerou ele puros todos os alimentos. E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídi    os, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura: Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem”.
       Que questões estão aqui envolvidas? O Novo Testamento deixa bem claro: “Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”. I Cor. 6:19, 20. E também: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”; “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. 1 Cor. 10:31.


Nenhuma Nova Lei

       As Escrituras são coerentes. Elas não iriam ensinar-nos a cuidar bem com o que comemos e bebemos num lugar para noutro ensinar que não importa o que comemos ou bebemos. O problema com o texto de Marcos 7 é que muitos não percebem a natureza do debate que Cristo está levando a cabo. O mesmo ocorre com a atitude de Cristo quanto à lei divina e, particularmente, o sábado, tão mal compreendida por certos intérpretes bíblicos.
       Quanto à lei, em todo o seu Sermão da Montanha (Mateus caps. 5 a 7) jamais se percebe Jesus falando sobre alguma nova lei que veio implantar para substituir a antiga lei divina. De modo algum, tanto que afirma no início que não veio aboli-la, e sim cumpri-la, incentivando os discípulos a uma obediência a essa lei de modo a “exceder em muito a [justiça] dos escribas e fariseus” (Mat. 5:20). Na seqüência, a ênfase de Cristo é exaltar os princípios mais profundos e espirituais da lei, perdidos de vista pela liderança religiosa judaica (“ouvistes o que foi dito aos antigos . . . Eu, porém, vos digo. . .”). Ele não faz tais comentários no sentido de substituição de lei nenhuma, mas de interpretação do correto sentido e valor da lei divina que permanece como norma de vida, firmada que é no duplo princípio de “amor a Deus sobre todas as coisas” e “amor ao próximo como a si mesmo” (ver Mateus 19:17-19 e 22:36-40, cf. Levítico 19:18 e Deuteronômio 6:5). Afinal, já o patriarca Jó, no seu antiquíssimo livro (muitos entendem ter sido o primeiro livro da Bíblia escrito), declara: “Fiz concerto com os meus olhos para não olhar com lascívia para uma donzela” (Jó 31:1, NIV). Portanto, olhar para uma mulher com intenções impuras não é um princípio que passou a valer a partir das palavras de Cristo, bem como odiar um semelhante sempre foi errado.
       Sobre o sábado, quanta interpretação equivocada não ocorre quanto ao significado dos debates de Cristo por curar nesse dia. Em lugar de insinuar menosprezo pelo mandamento ou intenção de indicar sua abolição, Cristo Se defende das acusações que lhe lançam por curar no sábado esclarecendo que fazia o que era “lícito” (Mat. 12:12), o que significa “em harmonia com a lei”. Se Ele é o “Senhor do sábado” (Mat. 12:8) que foi “feito por causa do homem” (Mar. 2:27) e ao qual observava regularmente (Luc. 4:16) como iria passar a combater uma instituição por Ele mesmo estabelecida como Criador (Heb. 1:2)? Na verdade, o sentido de Seus debates não era SE deviam observar o sábado, QUANDO deviam o observar o sábado, mas COMO observar o sábado. Ele buscava restaurar o mandamento a sua correta aplicação, livrando-o dos acréscimos aplicados ao mandamento pelas tradições dos fariseus.

Cristo Debate Pureza Moral Sobre Pureza Cerimonial

       Então, encontramos a Cristo uma vez mais empenhado em debater questões legais com líderes religiosos dos judeus e novamente há muita incompreensão do verdadeiro sentido desses debates. Os fariseus mantinham leis bastante estritas concernentes à pureza ritual. Eles criam que tocar num gentio (não-judeu) no mercado seria contaminante. Todos os utensílios de cozinha, como potes e panelas, copos e pratos, deviam ser lavados completamente no caso de algum gentio tê-los tocado, desta forma os contaminando (ver Mar. 7:1-5).
       O objeto das discussões em Marcos 7 não eram as leis higiênicas dadas a Israel (Levítico 11) por um Deus amoroso que visava a proteger a saúde de Seus filhos, mas as tradições, os acréscimos ilegítimos a essa lei criados pelos fariseus, ou seja, as “tradições dos anciãos” (Marcos 7:5). Estes criam que comer com mãos sem lavar acarretaria contaminação procedente dos gentios. O ponto em discussão não era o que comer, mas como comer. Não se tratava do repúdio das leis de saúde concedidas pelo próprio Senhor, mas uma rejeição das idéias sobre contaminação cerimonial por contatos com gentios.
       Nesse contexto é que “o que de fora entra no homem não o pode contaminar” no sentido espiritual. O que poderia proceder da mente de um homem é que seria realmente contaminante, quando isso representasse os piores pecados que Cristo enumera nos vs. 21 e 22. Nenhum alimento é cerimonialmente impuro pois o alimento em si não traz consigo pecado algum.
       O motivo porque Deus criou muitas regras quanto a “impureza cerimonial” (como no caso das mulheres menstruadas—Lev. 15:25) era para impressionar no povo a malignidade do pecado. Daí, os “contaminados” sob tantas dessas regras iriam buscar a “purificação” através de abluções, ofertas trazidas ao Templo, cumprimento de prazos, etc.
       Cristo de modo algum está liberando todo tipo de comida para Seus discípulos, pois se o fizesse, teria que ser considerado “mínimo no reino dos céus”, a levar-se em conta Suas próprias palavras em Mateus 5:19. Nesse caso estaria ENSINANDO a violação das leis de restições alimentares. E os que ensinam que tais leis cessaram com a morte de Cristo na cruz não sabem justificar como as estaria abolindo ANTES do tempo em que tais leis supostamente seriam abolidas.

Pedro e Paulo Não Contrariaram a Lei Divina

       Que Cristo não aboliu tais leis, ou ensinou isso, percebe-se no episódio da visão do lençol em Atos 10, onde Pedro demonstra que não aprendeu tal lição com Cristo pois recusava-se a matar e comer os quadrúpedes, répteis e aves imundas que lhe surgiram na visão. Mais tarde ele entendeu que aquilo se referia aos gentios, aos quais os judeus consideravam “imundos”, como já discutimos acima (ver Atos 10:28, 34, 35).
       Os escritos de Paulo são outra fonte de incompreensão de muitos intérpretes da Bíblia. Isso pode ser perigoso à luz do que Pedro declarou em 2 Pedro 3:15-17. Quando ele trata da questão de certos alimentos a serem ou não consumidos, novamente se revela a incompreensão do que está dizendo, pois pessoas lêem os seus escritos com pressupostos que não correspondem à realidade histórica, cultural e contextual das questões por ele levantadas.
       Em 1 Coríntios 8:1 o Apóstolo, por exemplo, trata dos alimentos sacrificados a ídolos, o que é realçado no vs. 4. Em 1 Coríntios 10:25 ele chega a recomendar que se coma “tudo que se vende no mercado”, mas o problema deve ser identificado. Porções das carnes que eram sacrificadas em cultos de ídolos pagãos em Corinto eram vendidas nos mercados locais. Isso levou alguns judeus muito estritos a adotarem um regime vegetariano (Romanos 14:2-4). A questão aqui é saber se seria moralmente errado comer carne oferecida a ídolos. A resposta de Paulo é que os ídolos nada são (1 Cor. 8:4) mas que não se deve causar escândalo para um irmão que tivesse escrúpulos mais sensíveis quanto ao tema. Em respeito a esses seria melhor não empregar tal alimento (1 Cor. 8:11-13).
       Na referência a 1 Timóteo 4:3 (os que “proíbem casamento, exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos com ações de graça”) Paulo se refere a certos sectários de seu tempo (a expressão “últimos dias” tem o sentido de “tempo desde a presença do Messias”). Tratam-se de sectários de tendências ascéticas, como certos grupos gnósticos. Os heréticos colossenses, sobre os quais infelizmente não há muita informação, demonstravam tais tendências, cheios de regras “não toques, não manuseis” (ver Colossenses 2: 8, 16, 21).
       O próprio fato de ressaltar que tais alimentos deviam ser “recebidos com ações de graça” indica que Paulo trata daquilo que mereceu aprovação divina, não dos alimentos proibidos por Deus que, logicamente, não se enquadrariam nesse qualificativo. E se Deus os “criou para serem aceitos com ações de graça”, por que sua utilização só se prenderia ao tempo do Novo Testamento? O Apóstolo está se expressando contra o fanatismo dos que declaram que todo prazer físico é mau. Isso, em parte, deriva da noção dualística originária da filosofia grega, que atribuía ao corpo a maldade, enquanto a “alma” seria o elemento puro a ser refinado.
       A admoestação paulina à comunidade de crentes em Cristo é de que “o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” e que “apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (1 Tess. 5:23; Rom. 12:1). O apóstolo João faz uma saudação a um nobre amigo cristão ressaltando os seus “votos por tua prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma” (3 João 2).
       Destarte, uma vez mais o tema em discussão não eram os alimentos proibidos pela legislação levítica. Cristo não veio para purificar porcos, ratos e urubus para que sirvam de alimento para Seus filhos. Ademais, essas leis higiênicas não tinham caráter prefigurativo, em nada apontavam à cruz e ao sacrifício expiatório de Cristo. Não tinham por que, pois, serem abolidas.

Proibição do Começo ao Fim da História Humana

       Quando Noé entrou na arca recebeu instrução de levar sete pares de animais limpos e só dois dos animais imundos (ver Gênesis 7: 2 e 3), pois após o dilúvio não haveria de imediato plantações e esses animais certamente seriam a fonte de alimento dos sobreviventes do dilúvio. Isso é significativo, pois mostra que a distinção entre animais limpos e imundos antecede a legislação sinaítica e, portanto, não é coisa só para os judeus. Noé sacrificou apenas animais limpos (Gên. 8:20).
       Em Gên. 9:3 e 4 há realmente uma permissão para que Noé se alimente de “tudo o que se move, e vive”, com exclusão do sangue. Na verdade, porém, além da exceção do sangue, a lei mais tarde estipulava que não se podia utilizar carcaças de animais mortos por outras feras (Êxo. 22: 31; Lev. 17:15). Daí a permissão referir-se a “tudo o que se move, e vive”. Alguns pensam que com isso estão autorizados os demais animais, como porco, rato, cobras e lagartos. Contudo, sendo que ficou pouco antes bem claro que havia separação e definição de animais limpos e imundos, por coerência essa recomendação dizia respeito aos animais limpos somente. Moisés não julgou necessário detalhar o que antes já havia indicado.
       Em Êxodo 15:26 lemos a promessa divina ao povo de Israel, de que se obedecessem plenamente os mandamentos que Deus lhes estabeleceu “nenhuma enfermidade virá sobre ti, das que enviei sobre os egípcios; pois eu sou o Senhor que te sara”.
Pelo fim de seu livro profético, Isaías descreve os que se rebelaram contra Deus e são consumidores de carne de porco, além de adorarem imagens (65:2-5). Ele repete o repúdio divino por tais alimentos, onde Deus compara carne de porco com rato, em 66:17. Deve-se notar que ambos os capítulos 65 e 66 de Isaías são “escatológicos”. No contexto imediato de tais passagens, que falam do repúdio a tais alimentos por Deus e o castigo que aguarda os seus consumidores, há a promessa de “Novos Céus e uma Nova Terra” (ver Isa. 65:17ss e 66:22, 23), o que indica que tais dizeres têm aplicação até o fim dos tempos.
 


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